Falsa a Materialização de Chico Xavier: Uberaba, Redux
 

Após a divulgação em Ceticismo Aberto das reproduções de “O Cruzeiro” lidando com as “materializações de Uberaba” e material relacionado em Obras Psicografadas, inúmeros defensores da autenticidade de tais materializações manifestaram contrariedade. Poucos, contudo, apresentaram contra-argumentos e informações que de fato configurassem mesmo um início de refutação às considerações que levam à conclusão de fraude.

Entre estes, “William X” publicou no blog “Crítica Espiritualista” em 1 de abril de 2010 o texto “Crítica: “Materializações de Uberaba” X “O Cruzeiro””[1]. Infelizmente, no momento em que esta tréplica é publicada, o blog em questão não está mais acessível abertamente. Ainda assim, e ressaltando como foi uma das poucas réplicas, o material agora indisponível será o núcleo para a continuidade de uma discussão sobre o tema, centrada na análise da evidência disponível. O texto é de autoria de Kentaro Mori, editor do Ceticismo Aberto.

 http://www.ceticismoaberto.com/ceticismo/3518/ceticismoaberto-hoje-no-programa-do-j


A credibilidade de “O Cruzeiro”


Logo de início, “William X” questiona a credibilidade da publicação. E com certa razão. Que “O Cruzeiro” chegou a promover e vender embustes, é ponto pacífico: mesmo em CeticismoAberto aborda-se, por exemplo, o caso do suposto disco voador que teria sobrevoado a Barra da Tijuca em 1952, fraude notória elaborada pelos funcionários Ed Keffel e João Martins, explorada com estardalhaço pela publicação. É apenas uma das histórias questionáveis do “Cruzeiro”.

Ceticismo redobrado com relação à apuração jornalística desta fonte é bem apropriado, por tanto. O que o ceticismo significa, no entanto, é que a evidência deve ser considerada com cautela em busca de elementos objetivos e corroboração independente. De forma alguma implica seja em seu descarte de antemão, e muito menos que fontes tão ou mais tendenciosas no caso, como a obra do apologista espírita Jorge Rizzini sejam consideradas como fontes automaticamente válidas.

 

Ceticismo é necessário na análise de todas as fontes, todos os envolvidos no caso possuíam seus próprios interesses. É na consideração e confronto de todas as diferentes versões que conclusões que permitam uma interpretação da evidência objetiva poderão ser extraídas.

Quando uma fonte fornece uma declaração que pareça ser contrária a seus próprios interesses, por exemplo, esta pode ser considerada com mais atenção. Como veremos, isto é relevante de pronto.
 

A evidência objetiva


No caso, são as fotografias publicadas. Defensores do caso sugerem que as fotos podem ter sido retocadas, mas não apresentam qualquer evidência a respeito. Em verdade, evitam mesmo afirmar inequivocamente que qualquer uma das fotos foi adulterada. Contentam-se com vagas suspeitas.
 

Vale notar que nem todas as fotografias foram tomadas por repórteres do Cruzeiro. Mais contrária à realidade dos fenômenos é a questão de por que, se os fenômenos foram autênticos, os defensores do caso não apresentaram suas próprias fotografias, tomadas nessas sessões ou mesmo em outras, que demonstrassem feitos extraordinários como o espírito materializado atravessando grilhões sólidos de metal.

 


De fato, aparentemente os mesmos defensores do caso afirmaram entusiasticamente que as fotografias publicadas pelo “Cruzeiro” demonstravam este feito insólito – o que é em verdade demonstração clara de sua credulidade e lapsos ao analisar a evidência, abordada adiante.


Toda a evidência objetiva que restou no caso consiste, como repetimos, nas fotografias publicadas e conhecidas. É sim possível que tenham sido retocadas ou adulteradas e que os apologistas das materializações não o tenham comprovado. É, contudo, pouco provável.
 

Ressaltamos mais uma vez que os apologistas possuíam todo o interesse em demonstrar uma suposta adulteração das fotografias pelo Cruzeiro e devem ter investido todos os esforços neste sentido. Mesmo na indisponibilidade dos negativos para análise, adulterações mais grosseiras poderiam ter sido descobertas. Mesmo porque, ao mesmo tempo, apologistas do caso também se animaram a implicar como sua análise das fotografias era tão ou mesmo mais válida que a análise conduzida pelo especialista a serviço do Cruzeiro. Clamam inclusive que sua análise “com melhor aparelhagem” refutaria a do Cruzeiro.


Que tenham se resumido a divulgar simples suspeitas sobre a integridade das imagens é um indicador que de que não encontraram evidência de adulteração, e sugere desta forma que as imagens não devem ter sido adulteradas.

Repetimos também, ainda outra vez, que toda esta questão seria de menor relevância caso os apologistas tivessem produzido evidência objetiva que ilustrasse a extraordinariedade das materializações. Não o fizeram. A evidência objetiva disponível ao invés denuncia a fraude, por ser em todo aspecto ordinária e plenamente compatível com os métodos de fraude pelos quais a médium Otília Diogo foi exposta.


A evidência subjetiva e testemunhal

Defensores das materializações de Uberaba estendem-se longamente nos relatos e nas muitas versões e contestações mútuas das diferentes partes envolvidas. Embora isto seja relevante, sugerimos aqui que são de muito pouca relevância, justamente porque, como atentamos no início, todas as partes envolvidas possuíam seus próprios interesses. Não havia nenhuma parte desinteressada, e todo o episódio foi apenas um simulacro de teste controlado.


Ainda que declarassem o contrário, ainda que buscassem demonstrar o contrário, mesmo uma simples lembrança do histórico da investigação espiritualista, da metapsíquica à pesquisa parapsicológica moderna demonstra há mais de um século como testemunhos podem ser pouco confiáveis, e como mesmo pesquisadores experientes podem ser enganados em seus mais elaborados controles. Pode-se mesmo indicar que quanto mais elaborados, quanto mais dependentes de inúmeros elementos, mais propensos à fraude são os controles. O cético James Randi e seu Project Alpha são um caso ilustrativo aos interessados.


Os elaborados controles descritos em detalhe e com destaque pelos apologistas são assim de pouco valor metodológico e não serão abordados em qualquer profundidade aqui. Afirmar que seria “impossível” a fraude é em verdade apenas expor certa ingenuidade. A fraude é quase sempre possível, e a pesquisa parapsicológica moderna investe enorme esforço para projetar experimentos que sejam menos propensos à enganação ou ao engano – e ainda assim, mesmo experimentos metodologicamente sofisticados como os Ganzfeld são temas polêmicos.


Comparados a eles, os “controles” usados nas sessões de materialização de Uberaba são risíveis, típicos e em nada diferentes das primeiras experiências espiritualistas Vitorianas em fins do século 19. Experiências, é relevante atentar, vulneráveis a todo tipo de fraude. Considerá-los invulneráveis é manifestar mero pensamento positivo por parte dos que defendam a autenticidade dos fenômenos.


Consideração mais atenta a tais controles sim seria interessante se o restante da evidência indicasse que eles teriam obtido sucesso em evitar fraude. Ocorre justamente o contrário.


O Contrário
 

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“O DR. ELIAS BOAINAIM, ladeado pelo Dr. Oswaldo de Castro, mostra perante às câmaras de televisão a foto, que aparece ao lado, da materialização da Irmã Josefa atravessando a jaula”.


É parte da apresentação televisiva em 29 de novembro de 1963 da equipe de médicos que teria investigado e asseverado a autenticidade dos eventos. Boianaim era cardiologista do Instituto de Cardiologia, já Castro era cirurgião do Hospital das Clínicas, ambos de São Paulo. Títulos respeitáveis. Não significam, contudo, que fossem invulneráveis ao engano. E mesmo ao engano elementar.
 

A foto apresentada por Boianaim e Castro é claramente esta, contando com Waldo Vieira e Chico Xavier:

 

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Seria mesmo evidência do espírito materializado atravessando as barras? O blog “Crítica Espiritualista” defendeu que sim, argumentando que a posição das barras faria com que pelo menos uma delas atravessasse a cabeça de uma pessoa de carne e osso. Infelizmente, o blog foi restrito, aparentemente pelo próprio autor, e a ilustração que divulgava para comprová-lo não está mais disponível.


Apresentamos aqui no entanto uma ilustração simples e elementar indicando como em verdade não há nenhuma evidência de que a foto exibe algo além de uma pessoa coberta de panos, com parte da viseira (a), os dois braços (b e c) e um pedaço de pano (d) do lado de fora das grades[2].
 

 

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Note-se que o crânio de Diogo em nenhum momento é “trespassado” por qualquer dos grilhões. A suposta médium simplesmente posicionou a cabeça no vão entre dois grilhões verticais, jogando o capuz que a recobre sobre uma das barras horizontais.


Os braços estão simplesmente, e igualmente atravessando os vãos. E um simples pedaço de pano também foi jogado por sobre grilhões horizontais. Essa é a extraordinária “evidência” de que o “espírito” estaria atravessando as grades, de acordo com a equipe de médicos, de acordo com William X em sua “Crítica Espiritualista”.


Como ressaltamos, esta nem é uma análise aprofundada. É, ou deveria ser, óbvio. É opinião deste autor que modelagem tridimensional da cena poderia ilustrar adicionalmente como não há em nenhum momento algo extraordinário aqui e como Otília Diogo permaneceu atrás das grades, mas esta é desnecessária. Nem mesmo a precária ilustração acima deveria ser necessária.

 

 O impressionante é que a reportagem do Cruzeiro de 8 de fevereiro de 1964 já expunha toda esta obviedade logo de início! Ainda assim, apologistas do caso, 46 anos depois, insistem no erro e inventam posições absurdas para as barras supostamente atravessarem o corpo de um espírito materializado.

 

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Note-se como as imagens do Cruzeiro tornam ainda mais claro o pedaço de véu jogado sobre as barras horizontais (d), bem como a disposição das barras. O Cruzeiro ainda aponta vincos nos véus, que embora pouco claros, podem sim ser vistos, indicando como o véu havia sido dobrado.


A evidência objetiva denuncia claramente o embuste desde a denúncia do Cruzeiro de 1964[3]. Se a publicação em si possuía credibilidade questionável, a evidência objetiva, as fotografias, como vimos, são mais confiáveis. Ainda mais, o especialista Carlos Eboli que conduziu a análise exposta realizou um trabalho simples e claro por si mesmo.


É apenas uma mulher coberta de panos. Que os técnicos apresentados pelos apologistas do caso para refutar a análise de Éboli tenham ignorado estas obviedades, e toda a questão dos “laudos” conflitantes, será abordada em mais detalhe em uma outra oportunidade.


Dessemelhanças óbvias?


Além de alegar que as fotos evidenciariam o espírito atravessando a jaula, o que como vimos, é exatamente o oposto do que demonstram, alega-se que:


“A perícia de São Paulo identificou óbvias dessemelhanças entre a face de Otília Diogo e Irmã Josefa (espírito) confrontadas com Alberto Veloso (espírito). Houve identificação de algumas pequenas diferenças entre a médium e a freira irmã Josefa”.


Muito bem. Quais seriam estas dessemelhanças óbvias? William X resume-se a afirmar que “os rostos são diferentes (infelizmente a imagem não possui qualidade das originais)”.


As dessemelhanças não são nada óbvias. Pelo contrário. Há semelhanças óbvias:

 

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Otília Diogo possuía sobrancelhas demarcadas e um nariz proeminente, que podem ser vistos claramente no espírito masculino. Também se destaca o volume acima da cabeça, explicado facilmente pela cabeleira de Diogo. Todos estes elementos, repetimos, já eram ressaltados na análise de Carlos Eboli em 1964.


A única dessemelhança óbvia parece ocorrer na parte inferior do rosto, mas esta teria explicação simples: Otília Diogo usava falsa barba para “materializar” o espírito masculino.


Haveria outras dessemelhanças óbvias? Se havia, como ocorreu com a sugestão de que as fotos teriam sido adulteradas, os apologistas do caso simplesmente não parecem interessados em apontá-las. Ou talvez não sejam capazes, porque as fotos não foram adulteradas, e porque os espíritos eram ambos a própria médium.


Semelhança morfológica

 


Curiosamente, mesmo apologistas do caso notam como “a semelhança morfológica entre Otília Diogo e irmã Josefa, até certo ponto, é notória”.


Esta é, evidentemente, uma declaração muito comedida para uma semelhança escandalosa. Quão conveniente não é que o suposto espírito fosse idêntico ao rosto da médium que dizia materializá-lo?
 

 

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Acima, Otília Diogo, e a suposta materialização como a irmã Josefa.

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Novamente Diogo em comparação com a suposta imagem da irmã Josefa em vida.


Quão conveniente também não é que o espírito masculino materializado por Diogo possuísse não apenas face similar a ela (com exceção da barba postiça), como também um porte físico idêntico à médium… e ao espírito feminino.
 

 

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“Saliência feminina”


“Crítica Espiritualista” busca questionar os volumes que podem ser vistos na suposta materialização masculina, atribuídos por Eboli aos seios de Diogo – e visíveis, também obviamente, na suposta materialização feminina.


De fato, apenas uma fotografia com dobras dos véus que indicassem possíveis volumes na altura do tórax poderia talvez ser explicada como mera casualidade. Roupas podem dobrar-se de forma peculiar.
 


Quando porém quase todas as fotografias do espírito masculino mostram as mesmas dobras indicando o volume de mamas, e de forma idêntica ao espírito feminino, a incerteza deve ser proporcionalmente menor.


Já na comparação acima entre o porte físico dos espíritos feminino e masculino se pode perceber o volume dos seios em ambos “espíritos”. A comparação também indica pregas nos ombros e mangas dos véus usados por eles.
 

 

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Todos estes comentários podem ser encontrados já na análise de Eboli em 1964[4], com fotografias de referência.


Conclusão




Como mesmo apologistas admitem, Otília Diogo fraudou materializações, utilizando véus, barbas postiças e outros adereços, idênticos aos que se evidenciam desde as materializações testemunhadas por Chico Xavier e Waldo Vieira, tema da celeuma inicial. Há de se notar que o próprio Xavier, que endossou enfaticamente a autenticidade das supostas materializações que teria testemunhado, teceu comentários lamentando, e reconhecendo, que Diogo recorreu à fraude.


O detalhe, lembram os defensores das “materializações de Uberaba”, é que este reconhecimento pacífico da fraude só se refere às materializações de Diogo a partir de 1965. Convenientemente e quase imediatamente posteriores ao envolvimento de Xavier e Vieira.


Vimos aqui entretanto que a única evidência objetiva das sessões de Uberaba demonstra claramente sinais de fraude, e fraude precária, evidente, óbvia. Argumentamos como a evidência subjetiva e testemunhal não é de grande valia, e notamos como a equipe que deveria assegurar e “testar” os fenômenos foi crédula a ponto de apresentar fotografias nada extraordinárias como evidência de um espírito atravessando grilhões de uma jaula.


Indicamos como mesmo hoje, 46 anos depois, apologistas do caso continuam demonstrando tal credulidade ao enxergar nas imagens feitos sobrenaturais, quando elas evidenciam o contrário. Simplesmente uma mulher coberta de véus, passando-se por um espírito feminino e outro masculino que eram em todos os aspectos idênticos a ela mesma. Salvo pelos véus, vincados por dobras, e por adereços como barbas postiças. Que foram encontrados na maleta da suposta médium anos depois. Que confessou promover sessões fraudulentas.


Recentemente, mesmo Waldo Vieira, das figuras consideradas enfaticamente por Jorge Rizzini como autenticando os fenômenos e acima de qualquer dúvida, admitiu que desde o início considerava Otília Diogo uma figura duvidosa. Vieira defende que Diogo possuiria alguma mediunidade autêntica, mas reconhece e dá boa margem ao entendimento de que as materializações de Uberaba testemunhadas por ele e Xavier sim foram fraudadas.


Apologistas passaram então a questionar o testemunho de Vieira, algo que enfatizamos,contraria os muitos comentários Rizzini, que os mesmos apologistas continuam tomando como referência. Pelo visto, apenas quando lhes é conveniente.


Nesta questão, este autor foi questionado por que aceitaria o testemunho de Vieira, da mesma forma, apenas quando lhe seria conveniente. Espero que esteja clara aqui a diferença: o testemunho de Vieira admitindo a natureza dúbia dos fenômenos de Diogo é apenas um elemento secundário e adicional, parte da evidência testemunhal.


Ele é considerado aqui como passível de aceitação e consideração séria não apenas porque apenas complementa a evidência objetiva, como porque, como notamos inicialmente, contraria o próprio interesse aparente de Vieira. É curioso notar que apologistas passem mesmo a questionar a sanidade ou a boa fé de Vieira.


Já sua declaração de que Diogo possuiria mediunidade autêntica, é algo que não possui qualquer evidência corroboradora independente. Por sua vez, a questão da mediunidade de Chico Xavier seria outra questão quase completamente diferente, tema para outro espaço e discussão.


Deve estar claro que a única figura que se pode afirmar ter agido de má fé em todos estes eventos é Otília Diogo. A própria confessou seu embuste, exposto claramente. Todos os outros envolvidos podem ter sido enganados, em um ou outro momento.


Todo e qualquer um pode se enganar; pode ser enganado. É natural de todo ser humano. Devotos de Chico Xavier parecem não admitir a possibilidade de que o mesmo fosse humano, e no processo, elaboram justificativas elaboradas para acreditar no inacreditável, em uma demonstração clara de dissonância cognitiva.


Há 46 anos já era evidente, como deve ser hoje: era falsa a materialização de Uberaba.


[1] http://criticaespiritualista.blogspot.com/2010/04/critica-materializacoes-de-uberaba-x-o_01.html
[2] Note-se que uma das linhas horizontais na ilustração é pontilhada. Ela aparentaria ser uma barra horizontal da jaula, e de fato é, mas é uma barra horizontal da jaula ao fundo. Outras imagens da jaula demonstram que havia apenas três barras horizontais. Isso facilita e torna ainda mais fácil compreender a disposição do corpo da suposta médium.
[3] http://obraspsicografadas.haaan.com/2010/resgate-histrico-revista-o-cruzeiro-de-08021964/
[4] http://obraspsicografadas.haaan.com/2010/resgate-histrico-revista-o-cruzeiro-de-08021964/

 

 
 

Publicado: http://www.arcanjomiguel.net  Extraído:[ Fonte ]