livro -  Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas

São Miguel Arcanjo - Defendei-nos no Combate !

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Os anjos e os demônios não são um fruto da fantasia do homem, nem mera expressão de suas esperanças e temores. Eles existem, são seres reais, dotados de uma natureza puramente espiritual, muito mais perfeita do que a nossa, de uma inteligência agudíssima e uma vontade possante
Eles intervêm continuamente em nossa vida; os santos anjos, por meio das boas inspirações que nos sugerem; os demônios, pelas tentações a que nos submetem.
Quais são os poderes reais dos anjos e dos demônios? Como devemos nos portar diante da ação
angélica e como reagir em face da atividade diabólica?

Mais especificamente, como resistir às tentações do demônio, à sua ação extraodinária, às infestações e à possessão?

O que pensar da feitiçaria, dos sabás e das missas negras? Existem ainda hoje bruxos e feiticeiras? O espiritismo e a macumba têm alguma influência diabólica? Existe alguma relação entre Rock ’n’ Roll e satanismo?

Para responder a estas perguntas, os autores de Anjos e demônios — A luta contra o poder das trevas consultaram um sem-número de obras especializadas, recolhendo o ensinamento de uma centena de teólogos, moralistas e canonistas católicos; percorreram ainda as páginas de numerosos jornais e revistas, tanto nacionais como estrangeiros. Eles apresentam aqui, numa linguagem acessível, o resultado de sua pesquisa, colocando nas mãos do leitor não-especializado um trabalho denso de conteúdo bíblico e teológico e ao mesmo tempo de leitura amena e atraente.

 

 
Gustavo Antônio Solímeo - Luiz Sérgio Solímeo

Editora - Artpress

 

                                           

“Sede sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda como um leão que ruge, buscando a quem devorar. Resistí-lhe fortes na fé”. 
 (Primeira Epístola de São Pedro 5, 8)
 
Índice
INTRODUÇÃO
Os anjos, os demônios e o homem.
 
I. OS PRÍNCIPES DOS EXÉRCITOS DO SENHOR 
Capítulo 
O admirável mundo angélico 
Capítulo 2
A natureza angélica 
Capítulo 3
Ministérios dos anjos 
Capítulo 4
Os Anjos da Guarda 
Capítulo 5
Os Três Gloriosos Arcanjos 
Capítulo 6
Devoção aos Santos Anjos 
 
II - SATANÁS E OS ANJOS REBELDES 
Capítulo 1
O problema do mal 
Capítulo 2
A queda dos anjos maus 
Capítulo 3
Psicologia do demônio 
Capítulo 4
O poder dos demônios 
 
III - AÇÃO ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO 85
Capítulo 1
A tentação 
Capítulo 2
A infestação 
Capítulo 3
A possessão 
Capítulo 4
Possessão diabólica: o diagnóstico 

IV. A LUTA CONTRA O PODER DAS TREVAS
Capítulo 1
Remédios gerais, preventivos e liberativos
Capítulo 2
Exorcismo: aspectos históricos
Capítulo 3
Exorcismo: o que é ?
Capítulo 4
Exorcismo: legislação
Capítulo 5
‘Somos todos exorcistas”

V. SATANISMO MAGIA — FEITIÇARIA
Capítulo 1
Da superstição à adoração ao demônio
Capítulo 2
Magia negra ou feitiçaria: aspectos históricos
Capítulo 3
Magia — Espiritismo — Macumba
Capítulo 4
Sabás e Missas negras
Capítulo 5
O Satanismo moderno
Capítulo 6
O Rock Satânico
 
VI. CASOS DE INFESTAÇÃO E POSSESSÃO —CENAS DE EXORCISI CULTO IDOLÁTRICO AO DEMÔNIO Capítulo 1
A moça infestada e o menino possesso
Capítulo 2
Madalena: da frustração ao pacto com o demônio
Capítulo 3
Anneliese: possessão oblativa
Capítulo 4
O Diabo no Convento
Capítulo 5
Sacrifícios humanos em honra do demônio
CONCLUSÃO
A Rainha dos Anjos, terror dos demônios

INTRODUÇÃO


OS ANJOS,OS DEMÔNIOS E O HOMEM
“(Jacó) teve um sonho: Uma escada 
se erguia da terra e chegava 
até o céu, e anjos de Deus subiam e 
desciam por ela".   
(Gen 28, 12)

CONSIDERANDO ÀS VEZES a beleza de um panorama marítimo, a elegância das ondas que vêm suavemente espraiar-se na areia límpida em um turbilhão de espuma; gaivotas e outros pássaros marinhos que planam docemente, sem esforço aparente, ao sabor das brisas; o brilho da luminosidade que reverbera nas águas e parece confundir-se com elas na linha do horizonte; diante de tudo isso sentimos a tranqüila majestade de Deus, sua imensa sabedoria, amor infinito por nós homens, dando-nos, sem nenhum mérito nosso, tais maravilhas.
Mas, se para além dos sentidos naturais, considerássemos o mesmo panorama também com os olhos da Fé, perceberíamos que a maravilha é ainda maior, e a sabedoria e a bondade divinas ainda mais perfeitas; sua solicitude em relação a nós, homens, ainda mais excelente e carinhosa.
É que, ao lado de toda aquela perfeição material, guardando-a e dirigindo-a, saberíamos que estão criaturas espirituais, incomparavelmente mais perfeitas do que nós e que têm como uma de suas missões ajudar-nos a melhor conhecer e amar o Criador, aconselhar-nos em nossas dúvidas, proteger-nos em todos os perigos, socorrer-nos em todas as dificuldades: os anjos.
Os Santos Anjos
Coroando a criação, acima dos seres inanimados, do mundo vegetal e animal, do homem que é o Rei dessa obra, Deus colocou os espíritos angélicos, dotados de inteligência (incomparavelmente mais perfeita que a nossa), porém não sujeitos às limitações do corpo, como nós.
Explica São Tomás que Deus criou todas as coisas para tornarem manifesta a sua bondade e, de algum modo, participarem dessa bondade. Ora essa participação e manifestação não seriam perfeitíssimas senão no caso em que houvesse, além das criaturas, meramente materiais, outras compostas de matéria e espírito (os homens) e, por fim, outras puramente espirituais, que pudessem as similar de modo mais pleno as perfeições divinas.
A verdade maravilhosa da existência dos anjos - seres intermediários entre Deus e os homens — é ilustrada poéticamente na Escrituras pelo sonho de Jacó, Patriarca do Povo eleito: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu e anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gen 28, 12).
Do ápice da escala da criação, os puros espíritos descem até a criaturas inferiores, governando o mundo material, amparando protegendo o homem; e sobem até Deus para oferecer-Lhe a glória da criação, bem como a oração e as boas obras dos justos.
Essa realidade angélica foi pressentida pelos povos antigos, em meio às brumas do paganismo e das superstições, sob a forma de gênios benfazejos das fontes, dos bosques, dos mares, os quais garantiriam a harmonia do Universo, e eram propícios aos homens.
Mas foi a revelação divina que apresentou aos homens a verdadeira figura dos espíritos angélicos, desembaraçada de toda
forma de superstição. As Sagradas Escrituras e a Tradição forneceram os elementos fundamentais, que os grandes teólogos
Doutores da Igreja — em especial São Tomás de Aquino — sistematizaram, dando-nos uma doutrina sólida e coerente sobre o mundo angélico.
É essa doutrina que procuramos sintetizar no presente trabalho, seguindo o Doutor Angélico bem como autores mais recentes que trataram do tema.
Estamos certos de que o conhecimento desta doutrina será proveitoso para todos os fiéis. Conhecendo melhor os anjos, teremos mais intimidade com eles e seremos assim levados a recorrer mais amiúde à sua proteção e ao seu amparo, nesta nossa jornada terrestre rumo ao Paraíso. Sobretudo na luta tremenda que devemos travar contra o Adversário, o Caluniador, que anda ao redor de nós, no um leão feroz, querendo nos devorar (1 Ped 5, 8-9): Satanás!
Satanás e os anjos rebeldes
Da maravilhosa realidade dos santos anjos, descemos assim para tenebrosa realidade dos espíritos infernais, os demônios.
Mais ainda do que em relação aos anjos, os povos pagãos da Antiguidade (como também os primitivos de hoje) tiveram a percepção dos demônios. A tal ponto, que mentalidades racionalistas do século passado e deste quiseram ver na concepção bíblica de anjos e demônios uma mera influência babilônica e grega. Essa apreciação é completamente falsa pois a concepção bíblica e cristã sobre os anjos está inteiramente imune dos absurdos supersticiosos dos pagãos.
Em relação aos demônios, os povos antigos (babilônios, caldeus ou gregos) manifestaram uma grande confusão, por não terem conseguido resolver o problema da origem do mal. Em suas concepções, o bem e o mal se mesclam e se confundem de tal maneira que tanto os deuses como os gênios perversos mostram-se ambíguos, representando e praticando, uns e outros, tanto o bem como o mal.
Entre os gregos, o vocábulo daimon designava os deuses e outros seres com forças divinas, sobretudo os maléficos, dos quais os homens deveriam guardar-se por meio da magia, da feitiçaria e do esconjuro.
A concepção revelada pela Sagrada Escritura e pela Tradição é bem outra: os demônios não são divindades, mas simples criaturas, dotadas de uma perfeição natural muitíssimo acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de Deus, seu criador, acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de Deus, seu criador.
Se eles são perversos, não é por terem uma natureza essencialmente má, e sim por prevaricação; feitos bons por Deus, os anjos maus ou demônios se revoltaram e não quiseram submeter-se Criador, servi-Lo e adorá-Lo como sua condição de criatura o exigia.
Uma vez revoltados, os anjos rebeldes fixaram-se no mal, e passaram a tentar o homem, procurando arrastá-lo à perdição eterna. Essa atividade demoníaca — a tentação — os teólogos qualificam de ordinária, por ser a mais freqüente e também a menos espetacular de suas atuações sobre o homem. Além dessa atividade, ele pode — com a permissão de Deus — perturbar o homem de um modo mais intenso mais sensível, provocando-lhe visões, fazendo-o ouvir ruídos e sentir dores; ou, então, atuando sobre as criaturas inferiores — as planta animais, os elementos atmosféricos — para desse modo atingir o homem. É a infestação pessoal ou local, atividade menos freqüente mais visível, chamada por isso extraordinária. Em certos casos extremos, podem os demônios chegar a possuir o corpo do homem para atormentá-lo. Temos aqui a possessão, a mais rara manifestação extraordinária do Maligno.
Deus não nos deixou à mercê dos espíritos depravados. Além da proteção especial de nosso Anjo da Guarda e demais espíritos celestes, entregou à Igreja os meios preventivos e liberativos para enfrentar a ação do demônio: orações, sacramentos, sacramentais (bênçãos, medalhas, escapulários). O mais efetivo desses meios sobrenaturais, para os casos de infestação e possessão são os exorcismos, pelos quais se dão ordens ao demônio, em virtude do nome Jesus, para abandonar o corpo da pessoa ou o lugar que ele infesta ou possui.
Devido à sua importância, nos deteremos um pouco mais no estudo dos exorcismos, considerando os seus fundamentos teológicos, o modo de praticá-los, bem como a legislação da Igreja a respeito.
Da atuação espontânea do demônio, passamos àquela que ele desenvolve a convite do homem, seja pela invocação direta e explicita, seja pela indireta e implícita. Com relação à magia, à feitiçaria e outras formas de superstição, deixamos de lado os aspectos históricos polêmicos (que alongariam por demais o presente estudo e fugiriam ao objetivo dele), limitando-nos a considerar sua possibilidade teológica, afirmada, aliás pelo Magistério da Igreja e pela unanimidade dos teólogos e moralistas.
Dedicamos algumas páginas à revivescência do satanismo nos dias de hoje, salientando o papel do Rock’ n’Roll, sobretudo do Heavy Metal (Rock Pesado) na sua difusão. A título de ilustração da doutrina aqui desenvolvida, apresentamos alguns casos de infestação possessão diabólica, uns decorrentes de intervenção espontânea do espírito das trevas, outros conseqüência de malefícios ou no de pacto explícito com o demônio; acrescentamos por fim o relato de uma série de sacrifícios humanos aqui no Brasil em honra de entidades de macumba e candomblé (as quais entidades não são coisa senão demônios), que revelam, de modo alarmante, o quanto nosso país está envolvido por essa onda de satanismo moderno, conseqüência de sua apostasia da Fé católica.
Esperamos que este estudo contribua para reavivar a devoção santos anjos, nossos fiéis amigos, conselheiros e protetores; e ao mesmo tempo, sirva de alerta aos católicos para o perigo das das espíritas ou de macumba, e outras formas de superstição( como o uso de amuletos, adivinhações, etc.), as quais podem conduzir, muitas vezes sem que se queira, à comunicação pelo menos implícita com os espíritos infernais.
***
Digne-se a Virgem Santíssima — que esmaga para sempre a cabeça da serpente infernal (cf. Gen 3, 15) — proteger e abençoar este modesto esforço. Invocamos também o patrocínio do glorioso Patriarca São José e a proteção do invencível Arcanjo São Miguel — que derrotou Satã no “praelium magnum in caelo”  (Apoc 12, 7-l0) — e dos santos anjos que atenderam ao seu brado de guerra: “Quis ut Deus?” — “Quem é como Deus?”
 
 I - OS PRÍNCIPES DOS EXÉRCITOS DO SENHOR

AS NOÇÕES que correm entre os fiéis, mesmo dentre os mais fervorosos, a respeito dos santos anjos são muito vagas e superficiais. Meras reminiscências e imagens da infância, na maioria dos casos, não muito diferentes de entidades fictícias e de algum modo mitológicas, como as fadas e os duendes.
A iconografia corrente, infelizmente, não ajuda a dar a conhecer a verdadeira fisionomia dos anjos, apresentando-nos seres alados, com vestes e aspecto feminimo; ou, então, anjinhos bochechudos, com cara infantil e tola, brincando despreocupadamente sobre nuvens que mais parecem flocos de algodão doce...
Esses anjos não existem, nem é deles que tratamos aqui.
A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, dos escritos dos Santos Padres, do ensinamento do Magistério eclesiástico, da lição dos Doutores e teólogos, queremos apresentar a verdadeira natureza dos santos anjos: seres puramente espirituais, dotados de uma inteligência agudíssima e de uma possante vontade livre dominando abaixo de Deus sobre todas as demais criaturas, racionais e irracionais, bem como as forças da natureza, os elementos da atmosfera e subjugando para sempre os espíritos infernais.
Eis os santos anjos, príncipes dos exércitos do Senhor, mas também nossos amigos e protetores.
 
O admirável mundo angélico

"E ouvi a voz de muitos anjos 
em volta do trono... 
e era o número deles 
milhares de milhares".  
( Ap 5,11)

ALÉM DO MUNDO VISÍVEL e material, criou Deus também o mundo invisível e espiritual, o admirável mundo angélico.

A existência dos anjos foi negada na Antiguidade, entre judeus, pela seita dos saduceus (cf. At 23, 8). Mais tarde, por certas seitas protestantes, como os anabatistas. Em nossos dias ela tem por adversários os ateus, materialistas e positivistas, que não crêem senão naquilo que seus olhos vêem e seus sentidos apalpam. Os racionalistas, para encontrar uma excusa aparentemente racional à sua incredulidade, alegam que os anjos foram inventados pelos judeus no tempo do cativeiro da Babilônia, por imitação das entidades ali cultuadas; ou, então, consideram os anjos como simples modo poético e simbólico de referir-se às virtudes divinas e aos vícios humanos...

Contra todos esses, falam os dados da razão, a crença comum dos povos e a revelação divina.

Os anjos existem

Pela simples razão, independentemente da revelação, o homem pode chegar de algum modo ao conhecimento da existência dos anjos. Com efeito, a existência de seres puramente espirituais não repugna à razão. E um exame da criação, à mera luz do intelécto pode levar-nos à conclusão de que a existência de criaturas puramente espirituais convém à harmonia do Universo, pois assim estariam representados os três gêneros possíveis de seres: os puramente espirituais, acima do homem; outros, puramente materiais, abaixo do homem; por fim, seres compostos, dotados de matéria e espírito — os homens.

E a crença comum dos povos, constante em todos os lugares e em todas as épocas, sempre afirmou a existência desses seres de natureza superior aos homens e inferior à divindade.

Uma coisa, porém, é a mera possibilidade da existência de seres puramente espirituais, e outra é a sua realidade objetiva. A existência dos anjos (e dos demônios, anjos decaídos) seria para nós um problema insolúvel, não houvesse a tal respeito especial revelação divina por meio da Escritura e da Tradição,* que nos garantem a certeza da existência dos anjos.
* Tradiçâo, em sentido amplo, é o conjunto de idéias, sentimentos e costumes, como também de fatos que, numa sociedade, se transmitem de maneira viva de geração geração.
 Em sentido estrito teológico, chama-se Tradição o conjunto de verdades reveladas que os ástolos receberam de Cristo ou do Espírito santo, e transmitiram, independentemente Sagradas Escrituras, à Igreja, que as conserva e transmite sem alteração.

Essa revelação foi feita a nossos primeiros pais, e se conservou na Humanidade, por via de transmissão oral pelos Patriarcas. Com o tempo (e também por obra do demônio, sem dúvida), essa revelação primitiva foi-se corrompendo, restando dela meros vestígios no paganismo antigo e no atual. Nas brumas desse paganismo encontramos seres incorpóreos, ora malfazejos ora benignos, quase sempre cultuados como divindades ou quase-divindades.

Para preservar o povo judeu da contaminação por essa deformação politeísta pagã, os Autores sagrados, durante largo período, evitaram mencionar nominalmente o espírito das trevas. E, pela mesma razão, não se encontram muitos pormenores no Antigo Testamento sobre a natureza dos anjos e dos demônios, embora sejam mencionados a cada passo. A revelação definitiva só se verifica Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, a Bíblia não traz toda a revelação sobre o mundo angélico, sendo necessário recorrer à Tradição, Esta, como se sabe, encontra-se recolhida nos documentos dos Santos Padres* e escritores eclesiásticos dos primeiros tempos, assim como nos documentos do Magistério - Papas e Concílio - na Liturgia e nos monumentos da Antiguidade cristã (catacumbas cemitérios, etc.).
*Chamam-se Santos Padres ou Padres da Igreja certos escritores eclesiásticos antigos, que se distinguiram pela doutrina ortodoxa e santidade de vida e são reconhecido Igreja como testemunhas da tradição divina.

A existência dos anjos é uma verdade de fé,* provada pela Escritura e pela Tradição. A Sagrada Escritura refere-se inúmeras vezes a seres racionais, inferiores a Deus e superiores aos homens; logo, segundo ela, esses seres, que nós denominamos anjos, existem.

* Verdade de fé é aquela que se encontra na Revelação e é proposta pela Igreja aos fiéis como verdade que se deve crer. A negação pertinaz de uma verdade de fé constitui a heresia.

Essa verdade foi definida solenemente como dogma pelo concílio IV de Latrão (1215): “Deus.., desde o princípio do tempo criou do nada duas espécies de seres — os espirituais e os corporais, isto é, os anjos e o mundo”. De forma igual se expressa o I Concílio do Vaticano (1870).

Os nove coros angélicos

Existem diferenças entre os anjos, mas não consta na Revelação qual sua origem nem seu modo preciso. É questão de livre discussão se os anjos são todos da mesma espécie, ou se existem tantas espécies quantos são os coros, ou se cada indivíduo constitui uma espécie por si (opinião de São Tomás).

De acordo com uma tradição que remonta ao Pseudo-Dionísio Areopagita,* os teólogos costumam agrupá-los em nove ordens ou coros angèlicos, distribuídos em três hierarquias ( os nomes são tomados da Sagrada Escritura):*

*Renomado escritor eclesiástico dos primeiros séculos, cuja identidade não se estabeleceu ainda ao certo, durante muito tempo confundido com o sábio convertido por São Paulo no Areópago de Atenas (cf. At 17, 34). Uma de suas obras mais célebres é De coelesti hierarquia — Sobre a hierarquia celeste, na qual estabelece a ordem dos Anjos, deteminada pelo seu grau de assimilação a Deus, de união com Deus, do dom de luz divina que recebem e transmitem aos Anjos inferiores.
* Por exemplo: Serafins ( Is 6,2); Querubins ( Gen 3,24; Ex 25, 18; 3 Reis 6,23; Sl 17, 11; Ez 10,3; Dan 3,55); Arcanjos ( 1 Tes 4,15; Jud 9); Anjos, Potestades, Virtudes ( 1 Ped 3,22); Principados, Dominações ( Ef 1,20-21); Tronos (Col 1,16).
Primeira hierarquia - Serafins, Querubins, Tronos;
Segunda hierarquia - Dominações, Potestades, Virtudes;
Terceira hierarquia - Principados, Arcanjos e Anjos.
Os anjos dos três primeiros coros ou primeira hierarquia - Serafins, Querubins e Tronos contemplam e glorificam continuamente a Deus: " Vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono... Os Serafins estavam por cima do trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos" (Is 6, 1-3 ). " O Senhor reina ... está sentado sobre querubins" (Sl 98,1); os três coros seguintes - Dominações, Virtudes e Potestades - ocupam-se do governo do mundo; finalmente, os três últimos - Principados, Arcanjos e Anjos - executam as órdens de Deus: "Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras" (Sl 102, 20).
Todos eles podem entretanto ser chamados genericamente anjos, estando à disposição de Deus para executar suas vontades. Embora o Evangelho, na Anunciação a Maria, se refira ao anjo Gabriel ( Lc 1,26), isto não quer dizer que ele pertença à última das hierarquias angélicas, pois a sublimidade dessa embaixada leva a supor que se trate de um dos primeiros espíritos que assistem diante de Deus.
Os três arcanjos - como são conhecidos comumente São Miguel, São Gabriel e São Rafael - pertencem, provavelmente, à mais alta hierarquia angélica. Falaremos deles mais adiante.
Embora não conheçamos, o número exato dos anjos, sabemos, pelas Escrituras e pela Tradição, que são muitíssimos,. É o que lemos no livro do Apocalipse: "E ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono ... e era o número deles milhares e milhares"
(Apoc 5, 11). E no livro de Daniel: “Eram milhares de milhares de milhares (os anjos) que o serviam, e mil milhões os que assistiam diante dele” (Dan 7, 10).

Muitos teólogos deduzem que o número dos anjos é superior ao dos homens que existiram desde o princípio do mundo e existirão até o fim dos tempos. A razão disso é dada por São Tomás ao dizer que, tendo Deus procurado principalmente a perfeição do universo ao criar os seres, quanto mais estes forem perfeitos, Deus os terá criado com maior prodigalidade. Ora, os anjos são mais perfeitos que os homens, logo foram criados em maior número.
A natureza angélica

“Então o anjo do Senhor tornou-o pelo 
alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, 
levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, 
sobre a cova" 
(Dan 14, 32-35)

É TAL O ESPLENDOR de um anjo, que as pessoas às quais eles aparecem muitas vezes se prostram por terra por temor e reverência para adorá-los, pensando que se trata do próprio Deus — conforme relato das Escrituras e da vida dos santos. E assim que São João conta no Apocalipse: “Prostrei-me aos pés do anjo para o adorar; porém ele disse-me: Vê, não faças tal; porque eu sou servo de Deus como tu .... Adora a Deus” (Apoc 22,9).
É essa natureza maravilhosa que vamos estudar agora.
Seres racionais e livres

Os anjos são seres intelectuais ou racionais, inferiores a Deus e mais perfeitos que os homens. Eles são puros espíritos, não estando ligados a um corpo como nós; são dotados de uma inteligência luminosa e de vontade livre e possante.

Tendo sido criados por Deus do nada, como tudo o mais, os pelo próprio fato de serem puramente espirituais, são imortais, pois não têm nenhuma ligação com a matéria corruptível, como os homens.

Ao contrário da natureza do homem, que é composta (isto é, formada de dois elementos distintos, o corpo e a alma) os anjos têm natureza simples, puramente espiritual. Embora a alma humana seja igualmente espiritual, ela foi criada por Deus para viver em união substancial com o corpo; quando se dá a morte e a alma se separa do corpo, ela permanece em um estado de violência, enquanto não se dá a ressurreição dos corpos.

Já os anjos não têm necessidade de um corpo como o homem. Desse modo, é um ser muito mais perfeito, sendo inferior, quanto à natureza, apenas ao próprio Deus. Não se pode pois, ao pensar nos anjos, concebê-los à maneira de uma alma humana separada de seu corpo. Esta última não é capaz daquilo que o anjo pode fazer sua simples natureza.

Tal como o homem, os anjos existem realmente enquanto pessoas; ou seja, eles são substâncias individuais, dotadas de inteligência e livre arbítrio*. Em outros termos, eles têm uma existência real, distinta da de outros seres, sendo capazes de conhecer, de amar, de servir, de escolher entre uma coisa e outra. Eles não são portanto, seres imaginários, fictícios, concebidos pelo homem como mero modo poético de exprimir-se, ou como personificações das virtudes e dos vícios humanos ou das forças da natureza,nem tampouco emanações do poder de Deus.
* É clássica a definição de pessoa dada por Boécio: “Rationalis naturae individua substantia “— " Substância individual de natureza racional”.

Os anjos foram elevados à ordem sobrenatural, isto é chamados a participar da vida da graça, cujo fim é a visão beatífica de Deus. Esta elevação é gratuita, mas discute-se em que momento se deu (para São Tomás, foi no momento mesmo de sua criação); é de fé que os anjos deveram sofrer uma prova, porém não se sabe qual teria sido. Depois da prova cessou para eles o tempo de merecer; é também de fé que os anjos bons gozaram e gozam para sempre visão beatífica e que os maus foram condenados a uma pena eterna.

Conhecimento e comunicação angélica

É questão de livre discussão tudo quanto se refere ao conhecimento angélico, à comunicação de uns com os outros, bem como o que se refere ao seu ato de vontade; é certo que sua capacidade de conhecer — embora incomparavelmente superior à do homem — é limitada: eles não conhecem naturalmente os mistérios divinos, nem o futuro livre ou contingente;* também é certo que têm pleno livre arbítrio.
*Os anjos (e também os dem6nios, que são anjos pervertidos), pela sua própria natureza, não têm capacidade de conhecer o futuro que depende de um ato livre de Deus ou do homem; porém, dada sua inteligência agudíssíma e seu conhecimento da natureza e de suas leis, eles podem prever qual o desenrolar dos acontecimentos, postas cenas causas. Também podem, em razão de sua profunda penetração psicológica e do conhecimento da alma humana, fazer conjeturas mais ou menos prováveis de como os homens reagirão diante de determinada circunstância, e assim prever o que decorrerá daí.

Para dar uma idéia da perfeição do conhecimento angélico, parece oportuno transcrever a explicação do Cardeal Lepicier, grande especialista na matéria.

Comparando o modo de conhecimento humano com o angélico, ressalta o Cardeal que Deus infundiu no intelecto dos anjos, logo que os criou, representações de todas as coisas naturais. Estas imagens “são não somente representativas de princípios gerais que regulam cada ciência particular, mas encerram também, distintamente, todos os pormenores virtualmente contidos nesses princípios, de maneira que uma e a mesma imagem informa a mente angélica das particularidades de cada ciência. Não poderá pois haver confusão na mente angélica, quando ela passa da observação de um para a observação de outro...

"Um anjo, com um simples olhar à imagem que representa — digamos — o reino animal, conhece não só as várias espécies de animais existentes, mas também cada indivíduo que exista ou tenha existido dentro de cada espécie, assim como as suas propriedades particulares e os seus meios de ação. E o mesmo sucede com o conhecimento de qualquer objeto, seja ele qual for, que se encontre no reino da natureza, seja orgânico ou inorgânico, material ou espiritual visível ou invisível.

Chama-se futuro livre ou contingente aquele que depende, seja da vontade divina, seja da humana. Distingue-se do futuro necessário, o qual não depende do livre arbítrio, mas decorre de causas que, uma vez postas, levam necessariamente a um determinado efeito. Assim, à noite sucede o dia; a semente, lançada à terra, germinará dentro de determinado tempo, se se verificarem todas as condições necessárias a isso, independentemente da vontade divina (que já está manifestada no ato da criação da espécie) ou da natureza humana.
“Por aqui se pode ver que a ciência humana é muito excedida pela ciência da mente angélica, tanto em extensão com precisão”.*
* Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível pp. 42-43.

São Tomás explica do seguinte modo a comunicação dos anjos entre si: como nós homens, os anjos têm o verbo interior ou verbo mental, com o qual falamos a nós mesmos ou formulamos os conceitos interiormente. Mas, enquanto nós só podemos comunicar esse pensamento a outros por meio da palavra oral, ou de outro meio externo, pois entre nós e os demais existe a barreira do nosso corpo, que vela o pensamento, os anjos não têm essa barreira corpórea; assim, basta a eles, por um ato de vontade, se dirigirem a outros anjos, para que seu pensamento — ou seja, esse verbo interior ou verbo mental — se manifeste a eles.

Como os anjos são diferentes entre si, e uns são mais perfeitos que outros, os mais perfeitos iluminam os menos perfeitos cor comunicando-lhes aquilo que eles vêem mais em Deus.

Do mesmo modo, eles podem iluminar os homens, comunicando-lhes bons pensamentos, embora de forma diferente daquela pela qual um anjo se comunica com outro. Como a mente humana necessita do concurso da fantasia para entender as coisas, os anjos comunicam as verdades ao homem por meio de imagens sensíveis
Quanto à vontade humana, só Deus ou o próprio homem são capazes de movê-la eficazmente; o anjo, ou outro homem. só podem movê-la por meio da persuasão.

Poder dos anjos sobre a matéria

É um tanto misterioso a nós o modo como os anjos, seres espirituais, possam mover a matéria.

No entanto tal poder está formalmente revelado, como se pode ver, por exemplo, no livro de Daniel. O profeta fora jogado na cova dos leões para que perecesse; por ação divina, os animais não fizeram mal: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21). No entanto, para alimentá-lo, Deus quis servir-se do profeta Habacuc, conduzido até a cova por um anjo.

Narra a Escritura: “Estava então o Profeta Habacuc na Judéia, e tinha cozido um caldo, e esfarelado uns pães dentro duma vasilha, e ia levá-los ao campo aos ceifeiros que lá estavam. E o anjo do Senhor disse a Habacuc: Leva a Babilônia essa refeição que tens, para a dares a Daniel que está na cova dos leões. E Habacuc respondeu: Senhor eu nunca vi a Babilônia e não sei onde é a cova. Então o anjo do Senhor tomou-o pelo alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova” (Dan 14, 32-35).

O próprio Salvador deixou-se carregar pelo demônio até o alto monte para ser tentado (cf. Mt 4, 5-8).

Em São Mateus, sobre a Ressurreição de Nosso Senhor, está escrito: “Um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela” (Mt 28, 2).*
*Cf. Suma Teológica, 1,qq. 52, 107,110-112.

Embora a questão, como dissemos, seja algo misteriosa, procuraremos sintetizar aqui a doutrina de São Tomás de Aquino a respeito.

Antes de tudo, convém lembrar o que ensina o santo Doutor a respeito do modo como os anjos encontram-se em um lugar: enquanto os seres corpóreos manifestam sua presença num lugar circunscrevendo-o pelo contato físico de seu corpo com o lugar ocupado, as criaturas incorpóreas delimitam o lugar por meio de um contato operativo. Quer dizer: elas estão no lugar onde agem.

Quanto ao modo como os anjos movem a matéria, é a seguinte explicação tomista:

O ser superior pode mover os inferiores porque tem em si, de um modo mais eminente, as virtualidades desses seres inferiores. Assim, o corpo humano é movido por algo superior a ele, a alma, que é espiritual, a qual, através da vontade, que também é imaterial, move os membros corpóreos a seu bel-prazer; logo, não repugna à razão que uma substância espiritual possa mover a matéria.

Entretanto, no caso da alma humana, ela só pode mover diretamente aquele corpo com o qual está substancialmente unida; as demais coisas, ela só pode mover por meio desse corpo;* ora, como os anjos são seres espirituais, não estando substancialmente unidos a nenhum corpo material, sua força de ação sobre a matéria não está delimitada por nenhum corpo determinado; dai se segue que eles podem mover livremente qualquer matéria.

* Por exemplo, para mover uma caneta sobre o papel no escrever, nós precisamos segurá-la com a mão e através desta imprimir o impulso que fará a caneta deslizar no papel e traçar as letras que desejamos; eu não posso mover diretamente a caneta, por um simples ato de vontade: pelo ato de vontade eu agarro a caneta e movo minha mão segundo meus intentos.

Esse movimento se produz pelo contato operativo do anjo a matéria, impulsionando um primeiro movimento local; por meio desse primeiro movimento local o anjo pode produzir outros movimentos na matéria utilizando-se dos próprios recursos dela, com o ferreiro se utiliza do fogo para dobrar o ferro.

O Cardeal Lepicier observa que, como os anjos possuem conhecimento das leis físicas e químicas que ultrapassa tudo quanto a Ciência possa ter descoberto ou venha a descobrir, e, além do mais, têm um poder imenso sobre a matéria, podemos dizer que dificilmente se encontrarão no Universo fenômenos que os anjos não possam produzir, de um modo ou de outro. Esses fenômenos são por vezes tão surpreendentes, que chegam a parecer verdadeiros milagres. Porém, não são milagres, pois embora ultrapassem de longe a capacidade dos homens, não estão acima do poder angélico. Ele exemplifica:

“Um rápido exame dos fenômenos que ocorrem no mundo físico bastará para nos dar uma idéia dos maravilhosos efeitos a que os seres angélicos podem dar causa. Em primeiro lugar, assim como, devido às forças da natureza, massas enormes se podem deslocar, ou, sob a ação de agentes físicos, os elementos da matérias dissolvem ou trabalham em conjunto, como quando provocam as tempestades, furacões e procelas — assim também um anjo, sem a cooperação de quaisquer agentes intermediários, transfere de um lugar para outro os corpos mais pesados, levanta-os e conserva-os suspensos durante determinado tempo, agita as mais pesadas substâncias e provoca colisões entre elas. Pode o mesmo anjo revolver cidades e vilas, provocar terremotos e encapelar as ondas do mar, originrar tempestades e furacões, parar a corrente dos rios e, se assim o entender, dividir as águas do mar.

"Além de tudo isso, pode também um anjo, usando das próprias forças, produzir os mais surpreendentes efeitos óticos, não só obrigando substâncias desconhecidas para nós espargir jorros de luz, mas também projetanto sombras que se assemelham a representações fantasmagóricas. Pode ainda, sem a ajuda de qualquer instrumento, pôr em movimento os elementos da matéria, fazer ouvir a música mais harmoniosa ou produzir os mais estranhos ruídos, tais como pancadas repetidas ou explosões súbitas. São ainda os anjos capazes de aglomerar nuvens, provocar relâmpagos e trovões, arrancar árvores gigantescas, arrasar edifícios, rasgar tecidos e quebrar as rochas mais duras. É-lhes também possível fazer com que um lápis escreva, por assim dizer automáticamente, certas frases com um sentido inteligível, assim como dar aos objetos formas diferentes das que são peculiares à sua natureza. Podem, até certo ponto, suspender as funções da vida, parar a respiração dum corpo, acelerar a circulação do sangue e fazer com sementes lançadas à terra cresçam dentro de pouco tempo, até atingirem a altura duma árvore, com folhas, botões e até com frutos.

"A um anjo é possível fazer todas estas coisas no mais breve espaço de tempo por causa do seu poder sobre os elementos da matéria, e sem a menor dificuldade, imitando perfeitamente as obras da natureza e dando em tudo a impressão de que se trata de efeitos s a causas naturais” .*
*Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível. pp. 74-75.

Poder dos anjos sobre o homem

O anjo pode produzir efeitos corpóreos maravilhosos. Ele pode, através do movimento que imprime à matéria, produzir mudanças nos corpos, mas de tal forma que apenas se sirva da natrureza, desdobrando as potencialidades dela.

Assim ele pode, nos homens, favorecer ou impedir a nutrição ou provocar doenças. Mas ele não pode fazer qualquer coisa que esteja completamente acima da natureza, como por exemplo ressuscitar pessoas mortas.
O anjo tem ainda o poder de favorecer ou impedir os movimentos da sensualidade, a delectação, a dor, a ira, a memória e afetar de vários modos os sentidos externos e internos, isto é, os cinco sentidos, a memória e a imaginação.

Do mesmo, modo o anjo pode aguçar a força da inteligência e, de um modo indireto, mover quer o intelecto — excitando imagens na fantasia ou propondo questões — quer a vontade, solicitando-a para que escolha algo.
O anjo pode formar para si um corpo com o qual aparece aos homens como, por exemplo, o arcanjo São Rafael fez com Tobias. Santo Agostinho diz que os anjos aparecem aos homens com um corpo que eles não somente podem ver, mas também tocar, como é provado pela Escritura (Gen 18, 2ss; Lc 1, 26ss; At 12, 7ss; o livro de Tobias).

O anjo move o corpo que assume, como nós poderíamos mover um boneco, dando a impressão de que ele está vivo, fazendo-os imitar os movimentos do homem. Quando São Rafael parecia comer na companhia de Tobias, ele apenas fazia o corpo do qual estava se servindo mover-se como faz um homem nessa circunstância, mas sem consumir o alimento.

Os espíritos angélicos não podem fazer milagres propriamente ditos, mas sim coisas maravilhosas, que ultrapassam o póder humano, não porém o angélico. Por exemplo, graças ao seu poder e conhecimento extraordinário, podem curar doenças, restituir a vista a cegos (Tob 11, 15); fazer prodígios como elevar uma pessoa e carregá-la pelos ares (Dan 14, 15), fazer falar serpente (Gen. 3, Iss), etc.
 
Ministérios dos anjos

"Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor...
Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor".
(Dan 3, 58-61)

OS MINISTÉRIOS dos anjos são: em relação a Deus, adorá-lo, louvá-Lo, servi-Lo, executando todos os Seus decretos em relação aos demais anjos, quer aos homens, como também a toda a natureza material, animada e inanimada; em relação aos demais anjos, os de natureza superior iluminam os inferiores. dando-lhes a conhecer aquilo que vêm em Deus; em relação aos homens, eles são ministros de Deus para encaminhá-los à pátria celeste, protegendo-os, corrigindo-os, instruindo-os, animando-os; em relação ao mundo material, eles são agentes de Deus para o governo do Universo.

Ministros da liturgia celeste

O principal ministério dos anjos consiste em adorar, louvar e servir a Deus: “Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor ... Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor; louvai-O e exaltai-O por todos os séculos” (Dan 3, 58-61). “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras” (Si 102, 20). “Os Serafins estavam por cima do trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6,2-3).

Os santos anjos desempenham assim a liturgia celeste:

"E vi os sete anjos que estavam de pé diante de Deus ... E veio outro anjo, e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro; e foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus. E o aroma dos perfumes das orações dos santos subiu da mão do anjo até à presença de Deus” (Apoc 8,2-4).

Esses puros espíritos são, pois, ministros do altar e ministros do trono de Deus: eles cantam os louvores de Deus na presença do Altíssimo, e apresentam-Lhe as nossas preces e as nossas boas obras; ao mesmo tempo, descem até nós e nos trazem as graças e bênçãos divinas, verdade belamente expressa na visão da escada de Jacó: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu, e anjos de Deus subiam desciam por ela” (Gen 28, 12).

Essa verdade, em termos práticos, significa que eles são intercessores poderosíssimos diante de Deus. A eficácia da intercessão angélica é testemunhada, entre muitas outras passagens da Escritura, por esta do livro do Profeta Zacarias: “E o anjo do senhor replicou e disse: Senhor dos exércitos, até quando diferirás tu o compadecer-te de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais te iraste? Este é já o ano septuagésimo. ... Isto diz o Senhor dos exércitos: Eu sinto um grande zelo por Jerusalém e por Sião... Portanto isto diz o Senhor: Voltarei para Jerusalém com entranhas de misericórdia” (Zac 1,12-16).

Isto nos deve mover a recorrer sempre com fervor e cada mais a eles.

Guerreiros dos exércitos do Senhor

As Sagradas Escrituras nos apresentam os anjos numa guerreira, como a milícia dos exércitos do Senhor.

Assim, o profeta Miquéias exclama: “Eu vi o Senhor sentado sobre seu trono, e todo o exército do céu ao redor dele, à direita e à esquerda” (3 Reis 22, 19). E o livro de Josué, ao narrar a luta dos judeus para conquistar a Palestina, após saírem do Egito, diz: "Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos e viu diante de si um homem em pé, que tinha uma espada desembainhada. Foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos, ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou o príncipe do to do Senhor” (Jos 5, 13-14).*


* No Antigo Testamento os anjos são designados das mais diversas formas: "príncipes"; "filhos de Deus"; "santos"; "anjos santos"; "sentidos vigilantes"; "espíritos"; "homem".

O próprio Deus, a quem servem esses anjos guerreiros, é apresentado como o Deus dos exércitos. O profeta Oséias, descrevendo a fidelidade de Jacó, registra: “E o Senhor Deus dos exércitos, este Senhor ficou sempre na sua memória” (Os 12, 4-5). Amós profetiza a prevaricação de Israel em nome do Senhor Deus dos exércitos: "Ouvi isto, e declarai-o à casa de Jacó, diz o Senhor dos exércitos”. E adiante: “Pois sabe, casa de Israel, diz o Senhor Deus dos exércitos, que eu vou suscitar contra vós uma nação vos oprimirá” (Am 3, 13; 6, 15). Na visão do profeta Isaías: "Os serafins .. clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6, 2-3). A mesma expressão é utilizada nos Salmos de Davi: “Quem é esse Rei da Glória ? O Senhor dos exércitos; esse é o Rei da glória “. “O Senhor dos exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa cidadela" ( Sl 23,10; 45, 8).

O Senhor Deus dos exércitos, após a desobediência de nossos primeiros pais, “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gen 3,24).

As hostes celestes combateram no Céu uma “grande batalha"  (Apoc 12, 7), derrotando e expulsando Satanás e os anjos rebeldes.
E na noite sublime do Natal, esses guerreiros celestes apareceram aos pastores: “E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 8-14).

Deus confia à milícia celeste a defesa daqueles que O amam. Segundo os intérpretes, um anjo exterminador matou em meio à noite todos os primogênitos do Egito (Ex 12, 29); e ao serem os judeus perseguidos pelo exército do Faraó, o anjo do Senhor, que ia diante deles, se interpôs entre os egípcios e o povo escolhido (Ex 14, 19). Quando Senaquerib ameaçava o povo eleito, Deus enviou um de seus terríveis guerreiros angélicos: "Naquela mesma noite saiu o anjo de Iavé e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta e cinco mil homens” (4 Reis 19, 35).

Às vezes os combatentes celestes se juntam aos combatentes terrestres para dar-lhes a vitória, como se deu numa batalha decisiva de Judas Macabeu:

“Mas, no mais forte do combate, apareceram do céu aos inimigos cinco homens em cavalos adornados de freios de ouro, que serviam de guia aos judeus. Dois deles, tendo no meio de si Macabeu, cobrindo-o com suas armas, guardavam-no para que andasse sem risco da sua pessoa; e lançavam dardos e raios contra os inimigos, que iam caindo feridos de cegueira, e cheios de turbação. Foram pois mortos vinte mil e quinhentos homens, e seiscentos cavalos” (2 Mac 10, 28-32).

O Senhor Deus dos exércitos envia igualmente seus guerreiros para livrar seus amigos das mãos dos ímpios:

“Deitaram (os judeus) as mãos sobre os Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas um anjo do Senhor, abrindo de noite as portas do cárcere, e, tirando-os para fora, disse: Ide, e , apresentando-vos no templo, pregai ao povo toda as palavras desta vida” (At 5, 18-20).

“Herodes ... mandou também prender Pedro ... E eis que sobreveio um anjo do Senhor, e resplandeceu de luz no aposento; e, tocando no lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E caíram as cadeias das suas mãos. E o anjo disse-lhe: Toma a tua cinta, e calça as tuas sandálias. E ele fez assim. E o anjo disse-lhe: Põe sobre ti a tua capa e segue-me. E ele, saindo, seguia-o, e não sabia que era realidade o que por intervenção do anjo, mas julgava ter uma visão. E, depois de passarem a primeira e a segunda guarda, chegaram à porta de ferro que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma. E saindo, passaram uma rua e, imediatamente, o anjo afastou-se dele: Então Pedro, voltando a si, disse: Agora sei verdadeiramente que o Senhor mandou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus” (At 12, 1-11).
O próprio Salvador, para deixar claro aos Apóstolos que Ele sofria a Paixão por espontânea vontade, disse a São Pedro, que O queria defender por meio da espada: “Julgaste por ventura que eu não posso rogar a meu Pai, e que ele não me porá imediatamente aqui de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53).

Executores das vinganças de Deus

Esses guerreiros executam igualmente as vinganças de Deus:

Diante dos pecados dos sodomitas, Deus enviou seus anjos:
"Quanto aos homens que estavam à porta (da casa de Lot e queriam abusar dos jovens que lá estavam), eles (os anjos) os feriram com cegueira, do menor ao maior, de modo que não conseguiram achar a entrada “. “Os anjos disseram a Lot ... nós vamos destruir este lugar pois é grande o clamor que se ergueu contra eles diante do Senhor. E o Senhor nos enviou para exterminá-los (Gen 19, 10-13).

"Quando os mensageiros do rei Senaquerib blasfemaram contra ti, teu anjo interveio e feriu cento e oitenta e cinco mil dos seus homens". (1 Mac 7,41).
Herodes Agripa, que perseguira São Pedro e matara São Tiago, foi "ferido pelo anjo do Senhor e comido de vermes” (At 12, 23).

No fim do mundo:
"O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” ( Mt13, 41-42).

"Quando aparecer o Senhor Jesus (descendo) do céu com os anjos do seu poder, em uma chama de fogo, para tomar vingança daqueles que não conheceram a Deus e que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; os quais serão punidos com a perdição eterna longe da face do Senhor e da glória do seu poder" (2 Tess 1, 7-9).
 
Mensageiros celestes

O próprio nome de anjos indica já sua função: enviados ou mensageiros de Deus. Com efeito, o original hebraico do Antigo Testamento se refere a esses puros espíritos como mal´âk yahweh, isto é, emissários de Deus. A versão grega utilizou a expressão angelos, a qual foi por sua vez traduzida em latim por angelus, palavra que serviu de base para as línguas ocidentais.

O Novo Testamento nos mostra a ação desses emissários de Deus, comunicando aos homens as mais importantes mensagens divinas.

Assim, o arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias o nascimento do Precursor, São João Batista: “Eu sou Gabriel, que assisto diante do trono de Deus e fui enviado para falar-te e comunicar-te esta boa nova” (Lc 1,19).

O mesmo anjo anuncia à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação: “Foi enviado o anjo Gabriel da parte de Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposaca com um varão de nome José, da casa de David; e o nome da Virgem era Maria” (Lc 1,26-27).

Um anjo aparece a São José em sonhos dando-lhe a conhecer também esse mistério: “Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos dizendo: José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) Espírito Santo” (Mt 1,20).

A alegria do nascimento do Salvador foi anunciada pela aos pastores: “Ora naquela mesma região havia uns pastores que velavam e faziam de noite a guarda ao seu rebanho. E eis que apareceu junto deles um anjo do Senhor, e a claridade de Deus os cercou,, e tiveram grande temor. Porém o anjo disse-lhes: Não temais; porque eis que vos anuncio uma grande alegria, que terá todo o povo. Nasceu-vos na cidade de David o Salvador, que é Cristo Senhor. E eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos deitado numa manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,8-14).
Um anjo aconselha à Sagrada Família fugir para o Egito por causa da perseguição de Herodes: “Eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, torna o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque Herodes vai procurara menino para o matar” (Mt 2, 13).

Depois da morte de Herodes, o anjo torna a aparecer a São José: "Morto Herodes, eis que o anjo do Senhor apareceu em sonho a José no Egito, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque morreram os que procuravam tirar a vida ao menino” (Mt 2, 19-20).

Consoladores e confortadores

Em diversos episódios, a Sagrada Escritura nos mostra os anjos no seu ministério de consoladores e confortadores dos homens em dificuldades.

O profeta Elias, sendo perseguido pela ímpia rainha Jezabel (a qual introduzido em Israel o culto idolátrico de Baal), fugiu para o deserto; ali, prostrado de desânimo e fadiga, adormeceu. “E um anjo do Senhor o tocou, e lhe disse: Levanta-te e come". Elias abriu os olhos e viu junto de sua cabeça um pão e um vaso de água; comeu e bebeu e tornou a adormecer. “E voltou segunda vez o anjo do Senhor, e o tocou e lhe disse: Levanta-te e come, porque te resta um longo caminho “. O Profeta levantou-se, e bebeu e, revigorado, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até o Monte Horeb, onde Deus iria manifestar-se a ele(3 Reis 19, 1-8).

Em sua vida terrena o próprio Salvador foi servido e confortado anjos.

Assim se deu após o prolongado jejum no deserto e a tentação do demônio: “Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximam e o serviam” (Mt 4, 11).

Na terrível agonia do Horto das Oliveiras, depois de Jesus exclamar: “Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice “, o Padre enviou um anjo para confortá-Lo: “Então apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava” (Lc 22, 42-43).

Na Ressurreição “um anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela; e o seu aspecto era como um relâmpago e as suas vestes brancas como a neve”. E o mesmo anjo consolou as Santas Mulheres que haviam ido ao Sepulcro: “Não temais, porque sei que procurais a Jesus que foi crucificado; ele já não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito” (Mt 28, 2-8).

Agentes de Deus para o governo do Universo

É por meio dos santos anjos que Deus exerce o governo do Universo.

Os Padres e Doutores da Igreja reconhecem nos anjos um grande poder, não só sobre as plantas e animais, mas até sobre o próprio homem. A Sagrada Escritura fala-nos também do anjo que tem poder sobre o fogo (Apoc 14, 18), e daquele que manda nas águas (Apoc 16, 5).

Santo Agostinho diz que cada espécie distinta, nos diferentes reinos da natureza, é governada pelo poder angélico.

Segundo São Tomás, Deus mesmo estabeleceu, até os mínimos detalhes, seu plano de governo do mundo. Mas ele confia a execução desse plano, em graus variados, primeiro aos anjos, depois aos homens, segundo suas funções diversas, e por fim às outras criaturas.

Os anjos são os agentes da execução de Deus em todos domínios. Como Deus governa tudo, os anjos O ajudam e obedecem em tudo. Ele exerce seus desígnios no Cosmos pelo ministério dos anjos. “E claro que as galáxias do céu, assim como as feras das florestas e os pássaros que cantam para nós, e o trigo de nossos campos, os minerais e os gases, os prótons e os nêutrons sofrem a ação dos anjos” comenta Mons. Cristiani. (Mgr L. CRISTIANI, Les Anges, ces inconus, p. 651.)

São Tomás é categórico a esse respeito: “Todas as corporais são governadas pelos anjos. E este é não somente o ensinamento dos Doutores da Igreja, mas também de todos os filósofos" ( Suma contra Gentiles, lib. III, c. 1. )
E o Cardeal Daniélou explica: “Trata-se pois de uma doutrina estabelecida pela tradição e pela razão. E nós, de nossa parte, pensamos que o governo inteligente e forte do qual dá testemunho a ordem do cosmos pode bem ter por ministros os espíritos celestes, em que pese o racionalismo de alguns de nossos contemporâneos”. ( Apud Mgr L. CRISTIANI, art. cit., p.651.)

Guias e protetores dos homens

Os anjos, apesar de sua excelsitude, por desígnio de Deus, são nossos amigos e companheiros. Eles nos protegem nas necessidades, nos guiam nos perigos, nos sugerem continuamente bons propósitos, atos de amor e submissão a Deus.

Pela sua importância, a doutrina sobre os Anjos da Guarda merece maior desenvolvimento. É o que faremos em capítulo à parte.

Se o próprio Deus se serve continuamente dos anjos, não devemos nós também recorrer sempre aos príncipes dos exércitos do Senhor, aos mensageiros de Deus, invocando-os em todas as nossas necessidades?
 
Os Anjos da Guarda

“Eis que eu enviarei o meu anjo, 
que vá adiante de ti, e te guarde
pelo caminho, e te introduza 
no lugar que preparei". 
(Ex 23, 20-23)
 

DEUS, no seu amor infinito pelos homens, entregou cada um de nós à guarda e cuidado especial de um anjo, que nos acompanha desde o nascimento até a morte: o Anjo da Guarda.

Essa doutrina foi sempre ensinada pela Igreja ( Cf. Catecismo Romano, Parte IV, cap. IX, n. 4. ) e se baseia em testemunhos da Sagrada Escritura e da Tradição — Santos Padres, Magistério Eclesiástico, Liturgia.

As Escrituras e os Santos Padres

O Antigo Testamento faz contínuas referências a esses anjos que nos servem de protetores. Mais do que nos ensinar explicitamente tal verdade, parece dá-la por suposta em suas narrações.

Jacó ao abençoar seus netos, filhos de José, diz: “Que o anjo que me livrou de todo o mal, abençõe estes meninos” (Gen 48, 16)

Nas palavras seguintes de Deus a Moisés encontramos os múltiplos ofícios que incumbem ao Anjo da Guarda, de proteção e de conselho: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei. Respeita-o, e ouve a sua voz, e vê que não o desprezes; porque ele não te perdoará se pecares, e o meu nome está nele. Se ouvirdes a sua voz, e fizerdes tudo o que te digo, eu serei inimigo dos teus inimigos, e afligirei os que te afligem. E o meu anjo caminhará adiante de ti" (Ex 23,20-23).

Por meio do profeta Baruc, Deus comunica a Israel: “Porque o meu anjo está convosco, e eu mesmo terei cuidado das vossas almas" (Bar 6,6)

O Salmo 90 exprime, com muita poesia, a solicitude de Deus para conosco, por meio do Anjo da Guarda: “O mal não virá sobre ti, e o flagelo não se aproximará da tua tenda. Porque mandou (Deus) os seus anjos em teu favor, que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra” (SI 90, 10-12).

E outro Salmo proclama: “O anjo do Senhor assenta os seus acampamentos em volta dos que o temem, e os liberta” (SI 33, 8).

Lançado na cova dos leões, por intriga de invejosos, Daniel foi socorrido por um anjo: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou as bocas dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21).

Fala-se, no Livro dos Reis, de um exército de carros que cercavam o profeta Eliseu (4 Reis 6, 14-17). São Tomás vê aí uma imagem do poder dos Anjos Custódios e a preponderância dos anjos bons sobre os maus.

São inúmeras as passagens do Antigo Testamento que fazem referência à doutrina sobre os Anjos da Guarda. Em nenhuma porém, a solicitude dos anjos para com os homens fica tão patente como no livro de Tobias.* E por isso que ele é muito citado sempre que se trata da matéria.
 
*Este livro da Sagrada Escritura é todo ele rico de ensinamentos sobre esta doutrina, de maneira que não basta transcrever aqui uma ou outra passagem dele; assim, convida-mos o leitor a lê-lo diretamente na Bíblia.

Esse ensinamento se torna mais preciso no Novo Testamento, onde a existência do Anjo da Guarda é confirmada pelo próprio Salvador. Aos seus discípulos, advertindo-os contra os escândalos em relação às crianças, diz: “Vêdes que não desprezeis a um só destes pequeninos, pois eu vos declaro que os seus anjos vêem continuamente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10). Essas palavras deixam claro que mesmo as crianças pequenas têm seus Anjos Custódios, como também que estes anjos mantém a visão beatífica de Deus ao descer à terra para atender e proteger a seus custodiados.

Também São Paulo se refere ao papel protetor dos anjos em relação aos homens: “Não são eles todos espíritos a serviço de Deus mandados para exercer o ministério a favor dos que devem obter a salvação?” (Heb 1, 14).

Os Santos Padres ensinam desde cedo essa doutrina.

São Basílio (329-379), entre os gregos, afirma: “Que cada qual tenha um anjo para o dirigir, como pedagogo e pastor, é o ensinamento de Moisés” ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur mission, p. 93. )

E, entre os latinos, São Jerônimo (342-420) assim comenta passagem de São Mateus (18, 10), acima citada, sobre os anjos das crianças: “Isto mostra a grande dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo encarregado de sua guarda" (Comm. in Evang. 5. Matth., lib. III, ad cap. XVIII, 10 Apud Card. P. GA5PARRI Catechisme Catholique pour Adultes, p. 346. )

A crença na existência e atuação dos Anjos da Guarda está tão firmemente estabelecida na tradição da Igreja, que desde tempos imemoriais foi instituída uma festa especial em louvor deles (2 de outubro).

O ensinamento dos teólogos

A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, teólogos foram explicitando ao longo dos séculos uma doutrina sólida e coerente sobre os Anjos da Guarda.

O príncipe dos teólogos, São Tomás de Aquino, na sua célebre Suma Teológica, (Suma Teológico, 1,q. 113.) expõe largamente essa doutrina.

O santo Doutor justifica a existência dos Anjos da Guarda pelo princípio de que Deus governa as coisas inferiores e variáveis por meio das superiores e invariáveis. O homem não só é inferior ao anjo, mais ainda está sujeito a instabilidades e variações por causa fraquesa de seu conhecimento, das paixões, etc. Assim, ele é governado e amparado pelos anjos, que servem como instrumentos da providência especial de Deus para com os homens.

A função principal do Anjo da Guarda é iluminar-nos em relação a verdade, à boa doutrina; mas sua custódia tem também muitos efeitos, tais como reprimir os demônios e impedir que nos sejam causados outros danos espirituais ou corporais.

Cada homem tem um anjo especialmente encarregado de guardá-lo, distinto do das coletividades humanas de que façam parte. Estas têm anjos especiais para custodiá-las; enquanto os anjos dos indivíduos pertencem ao último coro angélico, o das coletividades ou instituições podem fazer parte dos coros e hierarquias superiores.
 
Como há vários títulos pelos quais um homem necessita ser especialmente protegido (ou seja, considerado enquanto particular ou como ocupando um cargo ou função na Igreja a ou na sociedade), um mesmo homem pode ter vários anjos para custodiá-lo.

A Virgem Santíssima, Rainha dos Anjos, teve também não um, mas os Anjos da Guarda. Enquanto homem, Jesus teve Anjos da Guarda; não evidentemente para protegê-Lo, pois o inferior não guarda o superior, mas para servi-Lo.

Mesmo os infiéis têm Anjos da Guarda e até o Anti-Cristo o terá. 
 
O Anjo da Guarda nunca abandonará o homem, mesmo após a morte, se ele for para o Paraíso, pois a custódia angélica é parte da providência especial de Deus para com o homem, o qual jamais estará totalmente privado da providência divina.

Embora estejam normalmente no Céu, contemplando a Deus, os Anjos da Guarda conhecem tudo o que se passa na terra com seus protegidos; podem, então, quase imediatamente, passar de um lugar ao outro para protegê-los ou influenciá-los beneficamente.

Santo Agostinho pergunta: “Como podem os anjos estar longe, quando nos foram dados por Deus para ajudar-nos?” E responde:
 
“Eles não se apartam de nós, embora aquele que é assaltado pelas tentações pense que estão longe”. (Apud A. J. MacINTYRE, Os anjos, urna realidade admirável p. 321. )

Os Anjos Custódios nunca estão em oposição ou divergência real entre si. O relato bíblico da luta entre o anjo da Pérsia e o anjo Protetor dos Judeus (cf. Dan 10, 13-21) em que o primeiro queria reter os hebreus na Babilônia e o segundo desejava conduzi-los de volta à sua pátria encontra a seguinte explicação: às vezes Deus não revela aos anjos os méritos ou os deméritos das diversas nações ou indivíduos que eles custodiam. Enquanto não conhecem com certeza a vontade divina, os Anjos da Guarda procuram, santamente, proteger de todas as formas os que estão sob a sua proteção, mesmo contrariando os desejos de outros Anjos Custódios. Mas logo que a vontade de Deus fica clara para eles, todos se submetem pressurosos, pois o que desejam sempre é fazer a vontade divina.

Do mesmo modo que os homens, também as instituições, os povos e os países contam com um anjo especialmente encarregado de velar por eles.

Essa doutrina tem base nas palavras da Sagrada Escritura, onde é dito que um anjo conduzia o povo judeu pelo deserto (Ex 23,20), e também na passagem já referida sobre a luta entre o anjo dos Judeus e o anjo dos Persas (Dan 10, 13-21).

É também o que ensina São Basílio: “Entre os anjos, uns são prepostos às nações; os outros são companheiros dos fiéis”. ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur Mission, p. 93. )

São Miguel Arcanjo era o protetor de Israel enquanto povo eleito (Dan 10, 13-21); atualmente ele é o protetor do novo povo de eleição, a Igreja. As aparições de Nossa Senhora em Fátima. foram precedidas pela do Anjo de Portugal.

Efeitos da custódia dos anjos

Os efeitos da custódia dos anjos são, uns corporais, outros espirituais, ordenados, uns e outros, à salvação eterna do homem.
 
Os efeitos são corporais, na medida em que impedem ou livram dos perigos ou males do corpo, ou auxiliam os homens nas questões materiais, conforme consta no livro de Tobias (cap. 5 e seguintes).
 
E são espirituais, sempre que os anjos nos defendem contra os demônios (Tob 8, 3); rezam por nós e oferecem nossas preces a Deus, tornando-as mais eficazes pelas sua intercessão (Apoc 8, 3; 12); nos sugerem bons pensamentos, incitando-nos assim a fazer o bem (At 8, 26; 10, 3ss),* por meio de estímulos da imaginação ou do apetite sensitivo; do mesmo modo, quando nos infligem penas medicinais para nos corrigir (2 Reis 24, 16); ou ainda, na hora da morte, fortalecem-nos contra o demônio; os anjos conduzem diretamente para o Céu as almas daqueles que morrem sem precisar passar pelo Purgatório, e levam para o Paraíso as almas que já passaram pela purgação necessária; eles também visitam as almas do Purgatório para as consolar e fortalecer, esclarecendo-as glória do céu, etc.
 
*Há vários exemplos disso na Sagrada Escritura:
Os Atos dos Apóstolos relatam a aparição de um anjo ao Centurião Cornélio, homem religi oso e temente a Deus, para instruí-lo sobre como proceder para conhecer a verdadeira religião: "Este (Cornélio) viu claramente numa visão. quase à noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele, e lhe dizia: Cornélio ... as tuas ora ções e as tuas esmolas subiram como memorial à presença de Deus. E agora envia homens a Jope a cham ar um certo Simão que tem por sobrenome Pedro ... ele te dirá o que deves fazer" (At 10, 1-6). E nos mesmos Atos se lê como um anjo inspira São Filipe Diácono a desviar-se de seu caminho, para fazê-lo encontrar-se com o ministro da Rainha Candace, da Et iópia, e batizá-lo, depois de instruí-lo na doutrina cristã (At 8, 26)

A custódia dos anjos nos livra de inúmeros perigos tanto para a alma como para o corpo. Entretanto, ela não nos livra de todas as cruzes e sofrimentos desta vida, que Deus nos manda para nossa provação e purificação; nem daquelas tentações que Deus permite para que mostremos nossa fidelidade. Porém eles sempre nos ajudam a tudo suportar com paciência e vencer com perseverança.

Às vezes parece que os anjos não nos estão atendendo; é preciso então rezar com mais insistência até que esse socorro se perceba. Mas pode ocorrer de não sermos ouvidos, não porque faltem aos anjos poder ou desejo de nos ajudar, mas é que aquilo que estamos pedindo não é o melhor para a nossa eterna salvação, que é o que antes de tudo eles procuram.

Nossos deveres em relação aos Santos Anjos Custódio

São Bernardo resume assim nossos deveres em relação aos nossos Anjos da Guarda:

a. Respeito pela sua presença. Devemos evitar tudo o que pode contristar um espírito assim puro e santo. Sobretudo, evitar o pecado.

“Como te atreverias — interpela o santo Doutor — a fazer na presença dos anjos aquilo que não farias estando eu diante de ti?"

b. Confiança na sua proteção. Sendo tão poderoso e estando continuamente diante de Deus, e ao mesmo tempo conhecendo as nossas necessidades, como não confiar na sua proteção? A melhor maneira de provar essa confiança é recorrer a ele pela oração nos momentos difíceis, especialmente nas tentações.

c. Amor e reconhecimento por sua proteção. Devemos amá-lo como a um benfeitor, um amigo e um irmão, e ser agradecidos pela sua proteção diligentíssima.

“Sejamos, pois, devotos” — escreve o mesmo São Bernardo. “Sejamos agradecidos a guardiões tão dignos de apreço, correspondamos a seu amor, honremos-lhe quanto possamos e quanto devemos!” ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo — Introducciones, p. 930. )

A oração por excelência para invocar e honrar o Anjo da Guarda da é o Santo anjo do Senhor:

“Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina".
 
 
Os Três Gloriosos Arcanjos

"Eis que veio em meu socorro Miguel,
um dos primeiros príncipes".
(Dan 10, 13)
“Eu sou Gabriel, que assisto
diante (do trono) de Deus".
(Lc 1, 19,)
“Eu sou o anjo Rafael, um dos sete
que assistimos diante do Senhor”.
(Tob 12, 15)
 

A Igreja e o povo fiel veneram de modo especial os três gloriosos Arcanjos — São Miguel, São Gabriel e São RafaeL

Embora eles sejam comumente chamados de Arcanjos, segundo teólogos e comentaristas das Escrituras, eles certamente pertencem ao primeiro dos coros angélicos, o dos Serafins.
 

São Miguel: “Quem é como Deus?”

Em hebraico: mîkâ’êl, que significa: “Quem (é) como Deus?” As Escrituras se referem nominalmente ao Arcanjo São Miguel em quatro passagens: duas delas na profecia de Daniel (cap. 10, 13 e 21; e ap. 12, 1); uma na Epístola de São Judas Tadeu (cap. único, vers. 9 ) e finalmente no Apocalipse (cap. 12, 7-12).

No livro de Daniel o Santo Arcanjo aparece como “príncipe e protetor de Israel”, que se opõe ao “príncipe” ou celestial protetor dos persas.* Segundo São Jerônimo e outros comentadores, o anjo protetor da Pérsia teria desejado que ficassem ali alguns judeus para mais dilatarem o conhecimento de Deus; porém São Miguel teria desejado e pedido a Deus que todos os judeus voltassem logo para a Palestina, a fim de que o templo do Senhor fosse reconstruído mais depressa. Essa luta espiritual entre os dois anjos teria durado vinte e um dias.

* Nas escrituras os anjos são chamados com freqüência príncipes.

São Judas, na sua Epístola, alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava tomá-lo conhecido, com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por influência dos povos pagãos circunvizinhos.

No Apocalipse, São João apresenta São Miguel capitaneando os anjos bons em uma grande batalha no céu contra os anjo rebeldes chefiados por Satanás, ali chamado dragão:

“E houve no céu unia grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão e seus anjos pelejavam contra ele; porém, estes não prevaleceram, e o seu lugar não se achou mais no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra, e foram precipitados com seus anjos” (Apoc 12, 7-12).

A Igreja não definiu nada de particular sobre São Miguel, mas tem permitido que as crenças nascidas da tradição cristã a respeito do glorioso Arcanjo tenham livre curso na piedade dos fiéis e na elaboração dos teólogos.

A primeira crença é a de que São Miguel era, no Antigo Testamento, o defensor do povo escolhido — Israel; e hoje o é do novo povo escolhido — a Igreja. Tal piedosa crença está em consonância com o que é dito no livro de Daniel: “Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes. ... Miguel. que é o vosso príncipe” — isto é, dos judeus (10, 13 e 21). “Se levantará o grande príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo” — de Israel (12, 1). Essa crença é muito antiga, sendo já confirmada pelo Pastor de Hermas, célebre livro cristão do século II, no qual se lê: “O grande e digno Miguel é aquele que tem poder sobre este povo” (os cristãos). Ademais, tal crença é partilhada pelos teólogos e pela própria Igreja, que a manifesta de muitas maneiras.
 
A segunda crença geral é a de que São Miguel tem o poder de admitir ou não as almas no Paraíso. No Oficio Romano deste Santo no antigo Breviário, São Miguel era chamado de “Praepositus paradisi” — “Guarda do paraíso”, ao qual o próprio Deus se dirige nos seguintes termos: “Constitui te Principem super omnes animais suscipiendas” — “Eu te constituí chefe sobre todas as almas a serem admitidas”. E na Missa pelos defuntos rezava-se: " Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam” — "O ' Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa”.

A terceira crença, ou melhor, opinião, é a de que São Miguel ocupa o primeiro lugar na hierarquia angélica. Sobre este ponto há divergência entre os teólogos, mas tal opinião tem a seu favor vários Padres da Igreja gregos e parece ser corroborada pela liturgia latina, que se referia ao glorioso Arcanjo como "Princeps militiae coelestis quem honorificant coelorum cives” — "Príncipe da milicia celeste, a quem honram os habitantes do Céu"; e pela liturgia grega que o chama “Archistrátegos “, isto é, "Generalíssimo."

O grande comentador das Sagradas Escrituras, Pe. Cornélio a Lapide, jesuíta do século XVI, escreve:

"Muitos julgam que Miguel, tanto pela dignidade de natureza, como de graça e de glória é absolutamente o primeiro e o Príncipe de todos os anjos. E isso se prova, primeiro, pelo Apocalipse (12, 7), onde se diz que Miguel lutou contra Lúcifer e seus anjos, resistindo à sua soberba com o brado cheio de humildade: 'Quem (é) como Deus?’ Portanto, assim como Lúcifer é o chefe dos demônios, Miguel o é dos anjos, sendo o primeiro entre os serafins. Segundo, porque a Igreja o chama de Príncipe da Milícia Celeste, que está posto à entrada do Paraíso. E é em seu nome que se celebra a festa de todos os anjos. Terceiro, porque Miguel é hoje ao cultuado como o protetor da Igreja como outrora o foi da Sinagoga. Finalmente, em quarto lugar, prova-se que São Miguel é o Príncipe de todos os anjos, e por isso o primeiro entre os Serafins, porque diz São Basílio na Homilia De Angelis: ‘A ti, ó Miguel, general dos espíritos celestes, que por honra e dignidade estais posto à frente de todos os outros espíritos celestiais, a ti suplico...' ". ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 112-114 )

O mesmo dizem inúmeros outros autores, entre os quais São Roberto Bellarmino.

Na Idade Média, São Miguel era padroeiro especial das Ordens de Cavalaria, que defendiam a Cristandade contra o perigo metano.

São Gabriel: “Força de Deus”

Em hebraico: gabrî’êl, que quer dizer: “Homem de Deus" ou “Deus se mostrou forte” ou, ainda, “Força de Deus".

O próprio Arcanjo disse a Zacarias: “Eu sou Gabriel que assisto diante (do trono) de Deus” (Lc 1, 29). Isto leva a crer que se trata de um dos primeiros espíritos angélicos. O já citado Cornélio a Lápide argumenta do seguinte modo, para comprovar esta opinião:

1. Se os Serafins alguma vez são enviados por Deus em missão junto aos homens, um deles devia ser enviado à Mãe do Redentor para anunciar o insigne mistério da Encarnação do Verbo. Não somente pela excelsitude de tal mistério, mas porque a Santíssima Virgem supera a todos os coros de anjos em dignidade e graça.

2. Ora, São Paulo, na Epístola aos Hebreus (1, 14), afirma que Deus pode enviar como mensageiro um anjo de qualquer hierarquia: “Porventura não são todos esses espíritos uns ministros ( de Deus) enviados para exercer o seu ministério a favor daqueles que hão de receber a herança da salvação?”

3. Logo, deve-se crer que São Gabriel pertence à mais alta categoria angélica, isto é, ao coro dos Serafins. ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 142-143 )

São Gabriel, o Anjo da Encarnação, é considerado igualmente como o Anjo da Consolação e da Misericórdia; mas, de com o significado de seu próprio nome, representa o poder de Deus. É por isso que as Escrituras, ao referir-se a ele, utilizam expressões como poder, força, grande, poderoso (cf. Dan 8-10). A tradição judáica atribuía a esse glorioso Arcanjo a destruição de Sodoma ( cf. Gen 19, 1-29), bem como o ter marcado com um Tau a fronte dos eleitos (Ez 9, 4); e apresentava-o como o Anjo do Julgamento Final.
A tradição cristã vê nele o anjo que apareceu aos pastores para anunciar o nascimento do Salvador (Lc 2, 8-14), e a São José, em sonhos, para explicar a concepção virginal de Maria Santíssima (Mt 1,20). Teria sido ele também quem confortara Jesus em sua agonia no Horto (cf. Hino de Laudes do dia 24 de março).

São Rafael: “Medicina de Deus”

Em hebráico: refâ’êl, cujo sentido — é igual a: “Deus curou” ou "Medicina de Deus”.

Ele próprio revelou sua elevada hierarquia, depois de ajudar o jovem Tobias, que cria estar em presença de um simples homem: "Eu sou o anjo Rafael, um dos sete (espíritos principais) que assistimos diante do Senhor” (Tob 12, 15).

Cornélio a Lapide também considera o Arcanjo São Rafael Serafim. ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in, Scripturam Sacram, t. 4, p. 282.) Este insigne Arcanjo é protetor especial contra o demônio, padroeiro e guia dos viajantes, sanador dos enfermos.

Todos esses ofícios estão amplamente ilustrados no livro de Tobias: ele protege na viagem o jovem Tobias (caps. 5 a 10); restitui a vista ao velho Tobias, mediante a aplicação do fel de um peixe (cap. 11, 13-15); livra o jovem Tobias e Sara das insídias do demônio, mediante a fumaça das vísceras do mesmo peixe, e encadeia o demônio no deserto do Egito (cap. 8, 2-3); apresenta as boas obras e as orações do velho Tobias a Deus (cap. 12, 12).
 
 
Devoção aos Santos Anjos

"Formamos com os anjos
uma única cidade de Deus...”.
(Santo Agostinho)
 

A DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS é uma dessas devoções quase espontâneas do povo cristão.
A legitimidade do culto aos anjos constitui uma verdade de fè, afirmada pelo Magistério ordinário da Igreja, interpretante da Tradição: condenação dos iconoclastas no século V pelo 2° Concílio de Nicéia, e dos protestantes no século XVI pelo Concílio de Trento.

Origem e desenvolvimento da devoção aos anjos 
 
 
Entre os judeus e na Antiguidade cristã

Com exceção dos saduceus, que não criam neles, ( “Os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjos, nem espírito" ( At 23,8) ) essa devoção já existia entre os judeus, que veneravam particularmente o “grande príncipe Miguel”, protetor dos filhos do povo de Israel (Dan 12, 1).

Nos primeiros tempos do Cristianismo essa devoção não era muito acentuada em razão do paganismo ainda dominante na sociedade, que podia levar os gentios neo-convertidos a confundirem os espíritos celestes com os gênios — espécies de divindades menores falsamente cultuadas por certas religiões —, o que equivaleria a 
cair no politeísmo pagão.

Porém, já no século II, São Justino e Atenágoras dão testemunho sobre o culto cristão aos santos anjos. Dídimo Alexandrino (+ 395) atesta que desde os primórdios do Cristianismo surgiram igrejas e oratórios consagrados a Deus sob a invocação dos arcanjos.

Santo Ambrósio (séc. IV) já exortava os fiéis: “Os anjos devem ser invocados por nós, pois para nossa proteção nos foram dados". (De Viduis, cap. IV, 55; PL 16, 264c Apud Mons. F. TINELLO, La devozione agli angeli, col. 1252.) 

E Santo Agostinho ensinava: “Formamos com os anjos uma única cidade de Deus ... da qual uma parte somos nós, peregrinos por este mundo, e a outra, que são os anjos, está sempre pronta a socorrer-nos.

"Se aquele, junto de quem devemos exercer obras de misericórdia do qual as recebemos, com razão se chama nosso próximo que no preceito a nós imposto de amar o próximo estão incluídos os anjos, dos quais todos os dias recebemos tantos e tão insignes atos de misericórdia.

"Os anjos nos amam ... por nossa causa, porque lhes somos semelhantes na natureza racional; por causa deles próprios, porque nos querem sentados naqueles tronos de glória que eram dos anjos que prevaricaram” . ( Apud Archibald J. MacINTYRE, Os anjos, uma realidade admirável, pp. 320- 321.)
 
Na Idade Média

A "doce primavera da fé” (para empregar a bela expressão com que Montalembert se refere à Idade Média) foi uma época angélica, não só pela pureza dos costumes e das doutrinas, e pelo fervor seráfico do povo fiel, mas também pela familiaridade com os santos anjos. Foi nessa época que surgiu a prece ao mesmo tempo tão singela, tão doce e tão confiante: “Santo anjo do Senhor...”

Foi igualmente nessa época que surgiram os grandes tratados sobre os anjos, dos quais o mais admirável é aquele, precisamente, de autoria do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino.

São Bernardo de Claraval, cantor da Rainha dos Anjos, deu um particular impulso a essa devoção; a Igreja fez suas as palavras do insigne Doutor, para louvar os espíritos celestiais no Breviáirio ( festa dos Anjos Custódios, 2 de outubro). Sua fórmula reflete e sintetiza a tradição ininterrupta da Igreja: aos anjos devemos “reverência por sua presença, devoção por sua benevolência, confiança por sua custódia”. ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo — Indroducciones, p.931.)
 
Na Contra-Reforma

Os ímpios Lutero e Calvino, depois do culto dos santos, rejeitaram também o dos anjos. Mas a devoção aos espíritos angélicos recebeu novo alento com os paladinos da Contra-Reforma.

Santo Inácio recomenda aos seus religiosos imitarem a pureza dos anjos. Por obra dos jesuítas multiplicam-se os tratados manuais de piedade sobre os anjos. Entre eles, o Tratado e pratica da devoção aos anjos, de São Francisco de Borja, e o Tratado dos anjos custódios, do Pe. Francisco Albertini. Também contribuíram muito para a difusão dessa devoção o Cardeal de Bérulle e o Venerável Olier.

O Concilio de Trento, condenando a ímpia doutrina dos pretensos reformadores, definiu a legitimidade dessa devoção, que adquiria assim maiores títulos para ser divulgada.

Igrejas e santuários — Ladainhas e orações

Já no século IV encontram-se testemunhos sobre a ereção de igrejas e oratórios em honra dos arcanjos. No tempo de São Gregório Magno (+604) o culto a São Miguel já tinha um centro no Monte Gargano (na Apúlia, região da Itália junto ao Adriático), onde o Arcanjo havia aparecido no tempo do Papa São Gelásio I (+496), pedindo que lhe erguessem ali um santuário.

No século VII o Príncipe da Milícia celeste apareceu sobre um rochedo da Normandia (França), o Monte Tombes, onde se praticavam cultos pagãos, e ali se ergueu uma abadia que se tornou um dos mais célebres santuários em louvor do santo Arcanjo. E o monte passou a chamar-se Mont Saint-Michel.

Em Roma, no século IX, sete oratórios eram já dedicados ao santo Arcanjo.

Surgiram várias festas litúrgicas em honra dos santos anjos: São Gabriel (24 de março); Aparição de São Miguel no Monte Gargano (8 de maio); Dedicação de São Miguel Arcanjo (29 de setembro); Santos Anjos Custódios (2 de outubro); São Rafael Arcanjo ( 24 de outubro ).

Existem orações e ladainhas em louvor de cada um dos três dos Arcanjos, dos Santos Anjos, do Anjo da Guarda. Talvez a oração mais divulgada seja o “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador..."
— bela expressão da piedade medieval para com nosso angélico guardião. Outra bela oração (que teria sido inspirada pela própria Rainha dos Anjos) é aquela que começa pelas palavras "Augusta Rainha dos Céus e soberana Senhora dos Anjos “, de caráter exorcístico deprecativo muito eficaz.*
 
*Essa bela oração foi composta em 1863 pelo Venerável Padre Louis de Cestac (1801- 1868 ) por inspiração de Nossa Senhora. Na antiga disciplina tinha 500 dias de indulgência decreto da sagrada Congregação das Indulgências, de 8 de julho de 1908 e da Sagrada Penitenciaria, de 28 de março de 1935. Seu texto completo é o seguinte:
Augusta Rainha dos Céus e soberana Senhora dos Anjos, Vós que, desde o primeiro instante de vossa existência, recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, humildemente vô-lo pedimos, enviai as legiões celestes dos santos anjos perse guirem, por vosso poder e sob vossas ordens, os demônios, combatendo-os por toda a parte , reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os nas profundezas do abismo.
Quem é como Deus?
Ó boa e terna Mãe, sêde sempre o nosso amor e a nossa esperança.
Ó Mãe divina, mandai-nos os vossos santos anjos que nos defendam, e repilam para bem longe de nós o maldito demônio, nosso cruel inimigo.
Santos anjos e arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Amén.

A devoção aos santos anjos é, pois, não só lícita, mas extremamente louvável e recomendável. Como em toda devoção, cumpre entretanto observar sempre fielmente as prescrições da Santa Igreja, afim de evitar que desvios doutrinários ou práticas mal sonantes se introduzam nela. Desde os primeiros séculos, para evitar superstições, a Igreja permitiu o culto nominal apenas aos três anjos cujo nome consta na Sagrada Escritura - São Miguel, São Gabriel e São Rafael - proibindo a invocação de anjos pelos nomes mencionados em escritos apócrifos ou conhecidos apenas mediante revelação particular.
 
II - SATANÁS E OS ANJOS REBELDES

DUAS POSIÇÕES EXTREMADAS devem ser evitadas no que diz respeito ao demônio. A primeira consiste em negar sua existência ou, senão, qualquer influência na História e na vida dos homens ( o que, em termos práticos, equivale a negar que exista). Esta é a oposição de agnósticos, racionalistas e materialistas. Dentre estes alguns procuram colorir sua descrença com tintas de ciência: o demônio seria simplesmente a personificação de nossos próprios defeitos...
 
A segunda posição errada está em atribuir-lhe um papel exagerado nos acontecimentos, conferindo-lhe poderes excessivos, quase como se fosse um deus com sinal negativo. E a posição de satanistas e ocultistas, bem como daqueles que, sem chegar a esse extremo, se entregam entretanto a práticas mágicas e supersticiosas, como ocorre em muitas das religiões de povos primitivos, hoje tão em voga mesmo em círculos cultos...

O demônio não é nem uma coisa nem outra: nem uma simples personificação do mal, nem uma espécie de divindade maligna. Ele é simplesmente um anjo decaído, que conserva os poderes (e as limitações) da natureza angélica, porém só pode fazer uso deles na medida que Deus o permita. E Deus só permite sua atuação quando ela redunde na glória divina, ou contribua para a salvação dos homens ou, ainda, sirva para o castigo destes, quando merecedores
 
A posição equilibrada é aquela ensinada pela doutrina católica, que vê o demônio como ele é, de acordo com os dados da Revelação, o ensinamento dos Papas e dos Concílios e a doutrina elaborada pelos Doutores. Essa é a doutrina que passamos a expor.
 
O problema do mal

“E Deus viu todas as coisas que 
tinha feito, e eram muito boas".
(Gen 1,31)
 

ANTES DE ESTUDARMOS a queda de uma parte dos anjos, assim como a figura e a ação do demônio, parece conveniente deter-nos, ainda que rapidamente, no exame do problema do mal. Pois evidente que, se o mal não existisse, não haveria possibilidade de existirem seres malignos, que não visam senão o mal: os demônios.
 
Natureza e origem do mal

De onde procede o mal? Como se podem conciliar a bondade a onipotência de Deus com a existência do mal? Se Deus podia impedir o mal, e não o quis impedir, onde está a sua bondade? E se Deus queria impedir o mal e não o pôde, onde está a sua onipotência? Em ambos os casos, onde está a sua Providência?

Esse foi um dos problemas que mais angustiaram a Humanidade em todos os tempos, e que só encontra uma solução satisfatória com o Cristianismo.

Os povos pagãos antigos, premidos por duas realidades aparentemente inconciliáveis — de um lado, a bondade e a onipotência de Deus; do outro, a existência do mal —, procurando evitar o absurdo de atribuir ao ser bom por excelência (Deus) a origem do mal, caíram em outro absurdo, que é o de supor a existência de dois um deuses:um deus bom, criador do bem, ao lado do um deus mau, que seria o criador do mal.

Essa concepção — conhecida em filosofia como dualismo - é tão absurda como se, para explicar a noite e o frio se admitisse a existência de um sol negro e gélido, distinto do sol radioso e quente, fonte do dia e do calor. Como é evidente, é o mesmo e único sol que dá origem ao dia quando nasce e provoca a noite quando se esconde; que aquece quando está próximo da terra e faz com que surja o frio quando dela se afasta.

Assim também, não é necessário imaginar dois princípios antagônicos — ou seja, dois deuses — para explicar a origem do mal. O que é preciso, antes de tudo, é determinar a natureza do mal, para depois indagar qual a sua origem.

O dualismo erra não somente ao conceber duas causas primeiras, contraditórias entre si, para o Universo - uma originando o bem e outra o mal — mas também ao tomar o mal como se fosse um ser, uma coisa que existe por si mesma.

Ora, como ensinou Santo Agostinho: “O mal não tem uma natureza: aquilo que é chamado mal é mera falta de bem. “(De Civ. Dei 11,9.) Ou, no dizer de São Tomás de Aquino: "Nisto consiste a essência do mal: a privação do bem".(Suma Teológica, 1, q. 14, a. 10.)

O mal não é, portanto, uma coisa, e sim a falta de alguma coisa. Por isso, o mal não existe por si mesmo, mas apenas como deficiência, como privação de algo. Logo, não foi criado por ninguém.

Não é, porém, qualquer privação que dá origem ao mal, mas somente privação de algo que é próprio, necessário por natureza à integridade de um determinado ser. Por exemplo, a privação da capacidade de voar não constitui um mal para o homem, uma vez que não é próprio á sua natureza; já a privação da vista é um mal para ele pois enxergar é próprio à natureza humana.

De onde procede essa possibilidade de a criatura sofrer a privação do bem que é próprio à sua natureza? Em outros termos, qual é a raiz primeira, a origem, aquilo que toma possível o mal?

Deus fez boas todas as criaturas, porém não as poderia ter dotado de uma perfeição infinita, absoluta, pois a perfeição absoluta só é possível no ser infinito, ou seja, no próprio Deus. Para fazer criaturas dotadas de uma perfeição absoluta, Deus teria que criar outros deuses, o que é absurdo; logo, só podia criar seres finitos, limitados; portanto, imperfeitos, sujeitos a privações.

É nessa limitação inerente â condição de criatura que os filósofos, seguindo Santo Agostinho, vêem a raiz primeira do mal.

Daí decorre que a única maneira de evitar o mal seria Deus não ter feito a criação, pois toda criatura é necessariamente limitada.

O mal pode ser considerado sob diversos aspectos, de acordo com a privação a que se refere.

Se ocorre privação de um bem físico ou da natureza inanimada, temos o mal físico ou natural; se a privação se refere a um bem moral ou uma perfeição espiritual, estamos diante do mal moral.

O mal físico compreende todas as desordens da natureza inanimada: terremotos, inundações, incêndios; e em particular as desordens das criaturas sensíveis: o sofrimento, as doenças e a morte. O mal moral compreende as desordens da vida moral: o pecado, o vício, a injustiça, a violação das leis estabelecidas por Deus.

Por que Deus permite o mal?

Por que Deus permite as catástrofes mais ou menos freqüêntes, as doenças, a morte, enfim? Como pode um pai deixar sofrer assim os seus filhos? Não tem Ele poder para impedir o mal? E se não Lhe falta poder, onde está a sua bondade, se não o impede?

Ensina São Tomás que Deus não permite o mal físico senão de um modo inteiramente acidental, como ocasião para os justos exercerem a virtude da constância, praticarem a caridade para com os menos favorecidos ou doentes, etc. Por outro lado, ele deseja alguns males físicos como pena devida ao pecado, como forma de restabelecer a justiça ultrajada pelas faltas voluntárias.

Com relação à morte, longe de ser o termo da vida, ela é a passagem para uma nova vida, onde a felicidade é completa, sem mesclar de sofrimento e onde se atinge o Sumo Bem, que é o próprio Deus.

Quanto ao mal moral ou pecado, Deus não pode querê-lo nem mesmo indiretamente; mas ele pode tirar, corno do mal físico, algum bem, como por exemplo, do pecado do perseguidor a manifestação d constância dos mártires.

A possibilidade do mal moral — ensinam os filósofos — é ao mesmo tempo a conseqüência de um grande bem, a liberdade; e a condição de um bem ainda maior, o mérito.
 
As criaturas racionais (os anjos e os homens), por serem dotados de inteligência, possuem o livre arbítrio, a liberdade de escolher entre bens possíveis. A capacidade de livre escolha decorre da natureza inteligente desses seres, do conhecimento que eles têm de várias ações, de seus fins últimos e dos meios para chegar a eles. A liberdade mesmo imperfeita, é a mais bela prerrogativa do ser racional; é pois digno da bondade divina tê-la concedido.

Deus não podia suprimir no anjo e no homem a possibilidade de fazerem o mal, a não ser recusando-lhes a liberdade ou dando-lhes liberdade incapaz de falhar; na primeira hipótese, eles ficariam rebaixados ao nível dos irracionais, o que seria indigno de criaturas espirituais; na segunda, eles se tornariam iguais a Deus, o que é um absurdo.

Deus quer que a criatura racional observe suas leis, não como o animal desprovido de razão, que age seguindo os meros instintos, mas moralmente e meritoriamente; ora, sem a possibilidade do mal moral, não haveria mérito na prática do bem, pois não há mérito senão se faz o bem podendo não fazê-lo.

Deus quis que os anjos e os homens fossem os agentes de sua própria felicidade ou se tornassem responsáveis pela própria desgraça, escolhendo por si mesmos se colaboravam ou não com a graça divina. 
 
Quando os anjos pecaram e quando os homens pecam, fazem um uso desviado de sua liberdade; Deus, porém, não tolhe a liberdade de suas criaturas racionais em razão do seu uso desviado, porque é próprio a Ele criar e não destruir; seria contrariar-se a si mesmo fazer criaturas livres e depois tolher-lhes a liberdade quando a usam mal. Por outro lado, a existência de seres racionais não-livres é absurda.
 
O mal, conseqüência do pecado

A estas considerações de ordem filosófica, o Cristianismo acrescenta os dados revelados por Deus. Estes não somente confrmam as descobertas da razão, conferindo-lhes uma certeza absoluta, mas, indo além, nos dão os meios de saber ao certo aquilo que de outro modo não passaria de mera suposição: corno o mal manifestou concretamente entre os anjos e os homens.

O Cristianismo rejeita toda e qualquer forma de dualismo: tudo quanto existe provém de um só e único princípio, puro e bom.

Sendo Deus substancialmente bom e santo, tudo quanto provêm dele tem que ser, necessariamente, bom em si mesmo. Por isso, todas as criaturas, em si mesmas, são boas e aptas para propósitos do Criador.

Assim, lemos no primeiro livro da Bíblia: “E Deus viu toas as coisas que tinha feito. e eram muito boas” (Gen 1, 31). O livro do Eclesiástico completa: “Todas as obras do Senhor são boas e cada uma delas, chegada a sua hora, fará seu serviço" (Ecli 39, 39). E o livro da Sabedoria explicita: “Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Porquanto criou Êle criou todas as coisas para que subsistissem e não havia nelas nenhum veneno mortífero, nem o domínio da morte existia sobre a terra” (Sal, 1, 13-14).

Diz ainda a Escritura que “foi na soberba que teve início a perdição” (Tob4, 14).

Parte dos anjos se revoltou contra Deus, e foram expulsos do Céu, transformando-se em demônios; do mesmo modo, nos primeiros pais desobedeceram o Criador com o pecado original perderam o estado de inocência e de integridade, sendo expulsos do Paraíso terrestre.

Como decorrência do pecado original, houve uma debilitação da natureza humana, tornando-se o homem mais vulnerável às paixões e às seduções do demônio, e mais inclinado ao pecado; em castigo desse mesmo pecado, Deus permitiu que o sofrimento se abatesse sobre o homem e a terra se lhe tomasse ingrata. No Gênesis, depois da narração da primeira desobediência, vêm as palavras do Criador ao primeiro homem: “Porque deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que eu te tinha ordenado que não comesses, a terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos” (Gen 3, 17-18). E o inspirado autor do Eclesiástico escreve, numa alusão ao pecado original: “Da mulher nasceu o princípio do pecado e por causa dela é que todos morremos" (Eccli 25, 33).

O Apóstolo São Paulo resume magnificamente essa doutrina sobre o pecado original, nos seguintes termos: “Assim como por um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram...Pois o salário do pecado é a morte” (Rom 5, 12, 23).

Em virtude da Redenção operada por Jesus Cristo, entretanto, o sofrimento e a morte podem ser aproveitados pelo homem como meio de aperfeiçoamento moral, de santificação. É assim que o mesmo São Paulo exclama: “A morte foi tragada na vitória ( de Cristo). Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está teu aguilhão?” E prossegue: “Sejam dadas graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, meus irmãos amados, sêde firmes, constantes, progredi sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso esforço não é inútil no Senhor (1 Cor 15, 54-58).

Está esperança que nos dá a força para lutar contra a ação do mal em nós mesmos e no mundo. E é a doutrina a respeito do pecado original que nos esclarece quanto á origem histórica do mal e quanto ao verdadeiro sentido da presença do mal no mundo. Do contrário, o problema do mal ficaria insolúvel e nos atiraria no desespero da incompreensão e da revolta.

 

 

parte 02

Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas
 

A queda dos anjos maus

 
"Tu, desde o principio, quebraste o meu 

jugo, rompeste os meus laços e 

disseste: — Não servirei!”

 (Jor 2,20)


EU5 CRIOU OS ANJOS num alto estado de perfeição natural e além disso os elevou à ordem sobrenatural. É de fé que todos os espíritos angélicos foram criados bons.*

*Essa é uma conseqüência obrigatória da verdade de fé, de que todos os espíritos angélicos foram criados por Deus, atestada pelo símbolo niceno-constantinopolitano ( o Credo da Missa), o qual proclama: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, criador ... das coisas visíveis e invisíveis”; essa verdade foi ainda definida nos Concílios IV de Latrão e I Vaticano.


A Sagrada Escritura, com efeito, chama-os “filhos de Deus" (Jó 38, 7), “santos” (Dan 8, 13), “anjos de luz” (2 Cor 11, 14). Entretanto, os próprios Livros Sagrados se referem a “espírito imundos” (Lc 8, 29); “espíritos malignos” (Ef 6, 12); “espíritos piores" (Lc 11, 26); e outras expressões análogas.


Isto indica que certos anjos tornaram-se maus, tiveram sua vontade pervertida. Em suma: pecaram.


A batalha no Céu


Tu, desde o princípio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!” (Jer 2, 20).


Este versículo do Profeta Jeremias sobre a revolta do povo eleito contra Deus tem sido aplicado à revolta de Lúcifer. M de rebelião de Lúcifer “Não servirei!” — respondeu São Miguel com o brado de fidelidade: “Quem é como Deus!” (significado do nome Miguel em hebraico).

No apocalipse, São João descreve essa misteriosa batalha que então se travou no céu:


"E houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejavam contra ele; porém estes não prevaleceram e o seu lugar não se achou no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama o Demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra e foram precipitados com ele os seus anjos” (Apoc 12,7-9).


O próprio Jesus dá testemunho dessa queda: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18). “(O Demônio) foi homicida desde o principio, e não permaneceu na verdade" (Jo 8,44)

Os anjos podiam pecar


Como poderia o anjo ter pecado, uma vez que ele não está sujeito às paixões ou ao erro no entendimento, como nós homens?

"Como compreender semelhante opção e rebelião a Deus em seres de tão viva inteligência?” — pergunta João Paulo II. O Pontífice responde: “Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de cegueira, produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de ocultar a supremacia de Deus, a qual exigia, ao contrário, um ato de dócil e obediente submissão. Tudo isto parece expresso de maneira concisa nas palavras: "Não servirei" (Jer 2, 20), que manifestam a radical e irreversível rejeição de tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. Satanás, o espírito rebelde, quer seu próprio reino, não o de Deus, e se levanta como o primeiro adversário do Criador, como opositor da Providência, antagonista da sabedoria amorosa de Deus”  (Apud Mons.C. BALDUCCI, El díablo, p. 20.)

E o Papa explica que os anjos, por serem criaturas racionais, são livrs,  isto é, têm a capacidade de escolher a favor ou contra aquilo que conhecem ser o bem: “Também para os anjos a liberdade significa possibilidade de escolha a favor ou contra o bem que eles conhecem, quer dizer, o próprio Deus”. (João Paulo II, Mcm, ibidem.)


Criando os anjos racionais e livres, quis Deus que eles - com o auxílio da graça — fossem os agentes de sua própria felicidade ou de sua perda, caso cooperassem ou resistissem à graça. Para que merecessem a felicidade eterna, submeteu-os a uma prova.


É de fé que todos os espíritos angélicos foram submetidos a uma prova. Entretanto, não sabemos qual teria sido essa prova. Os teólogos procuram excogitar qual teria sido.

O pecado dos anjos maus


Qual teria sido a prova a que foram submetidos os anjos? E qual teria sido o pecado dos que sucumbiram à prova?


Um pecado de soberba


Acredita-se comumente que tenha sido um pecado de orgulho,  de soberba, pois a Escritura diz que “foi na soberba que teve início toda a perdição” (Tob 4, 14).

Santo Atanásio (séc. IV) o afirma explicitamente: "O grande remédio para a salvação da alma é a humildade.  Com efeito, Satanás não caiu por fornicação, adultério ou roubo, mas foi o seu orgulho que o precipitou ao fundo do inferno.  Porque ele falou assim: "Eu subirei e colocarei meu trono diante de Deus e serei semelhante ao Altíssimo" (Is 14, 14). E é por essas palavras que ele caiu e que o fogo eterno se tornou sua sorte e sua herança”.(
Apud Card. P. GASPARRI, Catechisme Catholique pour Adultes. p. 345.)

Em que teria consistido essa soberba?


Segundo São Tomás de Aquino, essa soberba consistiu em que os anjos maus desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus, por obra da graça, e sim por sua virtude própria, como mera decorrência de sua natureza. Desse modo, quiseram manifestar sua independência em relação a Deus; eles recusaram assim a homenagem que deviam a Deus como seu criador e desejaram substituir-se a Ele e ter o domínio sobre todas as coisas: ser como deuses (cf.Gen 3,5).


São Tomás faz igualmente referência à seguinte passagem de Isaías — referente ao rei de Babilônia, mas geralmente aplicada a Satanás — para ilustrar o pecado dele e dos anjos maus que o acompanharam na revolta: “Como caíste do céu, ó astro brilhante [em latim: “Lúcifer”J, que, ao nascer do dia brilhavas? ... Que dizias no teu coração: ... serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14).


O pecado de Lúcifer e dos anjos que se revoltaram com ele teria sido, pois, um pecado de soberba, ou seja de complacência na própria excelência, com menoscabo da honra e respeito devidos a Deus.


Estes elementos se encontram em todo pecado — explica o Pe. Bujanda — pois quem ofende a Deus prefere a própria vontade, em vez da vontade divina, e nela se compraz.

Revelação da Encarnação


Não está formalmente revelado no que consistiu exatamente a prova dos anjos; os teólogos fazem hipóteses teológicas, como a de São Tomás, exposta acima.

Francisco Suárez, teólogo jesuíta do século XVII, levanta outra hipótese: a prova dos anjos teria consistido na revelação antecipada por Deus, da Encarnação do Verbo. Os anjos maus se teriam revoltado contra a submissão em que ficariam em relação à natureza humana do Verbo Encarnado, a qual, enquanto natureza, seria à natureza angélica.


Uma variante dessa hipótese é a que afirma que Lúcifer e os anjos revoltados não quiseram submeter-se à Mãe do Verbo Encarnado, pela sua dignidade ficaria colocada acima dos próprios anjos, embora inferior a eles por natureza.


Essa hipótese, entretanto, está ligada a uma outra questão: se o Verbo se teria encarnado mesmo sem o pecado de Adão. Suárez,
com algumas adaptações, segue a opinião de Duns Escoto e de Santo Alberto Magno, a qual sustenta que sim; São Francisco de Sales também participa dessa opinião.

São Tomás, porém, é de outro parecer. Argumenta ele: "Seguindo a Sagrada Escritura, que por toda a parte apresenta como razão da Encarnação o pecado do primeiro homem, é conveniente dizer-se que a obra da Encarnação está ordenada por Deus como remédio contra o pecado. De tal modo que, se não existisse o pecado não teria havido a Encarnação, embora a potência divina não esteja limitada pelo pecado, podendo, pois, Deus encarnar-se, mesmo que não houvesse o pecado”  (Suma Teológica, 3, q. 1, a. 3.)


São Boaventura reconhece que a opinião tomista é mais consoante com a Fé, enquanto a outra favorece mais a razão. (
In III Sent.,Dist.I,a.2,q.2.)


Embora ambas as opiniões sejam sustentáveis, o comum dos Doutores acha que a hipótese tomista é mais provável, sendo predominante entre os Santos Padres.


Santo Agostinho afirma: “Se o homem não tivesse caído não se teria feito carne” (
Serm. 174,2.)


Em favor dela fala igualmente o Símbolo dos Apóstolos, isto é,  o Credo, quando proclama: “O Qual [o Verbo], por nós homens, e por nossa salvação, desceu dos céus “. Também a liturgia pascal, que canta:
“Ó culpa feliz, que nos mereceu um tal Redentor!"

O Pe. Christiano Pesch S.J. diz que a posição tomista de tal modo se tornou comum, que hoje há poucos defensores da esposada por Suárez, quanto à Encarnação do Verbo.


Daí decorreria que a hipótese de Suárez com relação ao pecado dos anjos ficaria também prejudicada. (C. PESCH 53, De Angelis, III, p. 71; cf. também Mons. P. PARENTE. Incarnazioni, col 1.751; I. SOLANO, De Verbo incarnato, pp. 15-24).)

A obstinação dos demônios

Nós homens temos certa dificuldade psicológica em compreender que os demônios, por um só pecado, tenham sido condenados eternamente, enquanto Adão e Eva puderam ser perdoados. Por isso, desde os primeiros tempos do Cristianismo, não faltaram autores que sustentaram a possibilidade de reconciliação dos anjos decaídos com Deus.

Essa doutrina foi condenada pela Igreja e São Tomás explica a razão pela qual isso não é possível: em primeiro lugar porque a prova a que os anjos foram submetidos, a fim de merecerem a bem-aventurança eterna, teve para eles o mesmo efeito que tem para nós homens a morte; ou seja, encerra o período em que podemos adquirir méritos, e nos introduz na vida eterna, imutável por natureza. Os anjos bons, tendo sido fiéis, passaram a gozar da bem-aventurança eterna; os anjos maus ou demônios foram precipitados no inferno por toda a eternidade.

Em segundo lugar, por causa da natureza angélica: os anjos, uma vez feita uma escolha, não podem voltar atrás, seja para o bem, seja para o mal. Porque eles não estão sujeitos à mobilidade das paixões humanas, sua inteligência é perfeita, de modo que eles não podem fazer escolhas provisórias, como o homem. Antes de fazer uma escolha, o anjo é perfeitamente livre; feita esta, sua vontade adere a ela para sempre, pois todas as razões que o levaram a fazer essa escolha já estavam perfeitamente claras para ele antes que a fizesse.


O lugar de condenação dos demônios

O Inferno

A tremenda realidade do inferno, como lugar criado para os e os demônios e os precitos, é atestada pelo Divino Salvador ao falar do Juízo Final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o Demônio e para os seus anjos” (Mt 25,41).

São Pedro ensina que Deus não perdoou aos anjos que pecaram prepitou-os no tártaro, para serem atormentados (2 Ped 2, 4).

E São Judas escreve que Deus “prendeu em cadeias eternas, no seio das trevas “, os anjos prevaricadores (Jud v. 6).

Assim como o lugar para os anjos bons é o Céu, para os demônios é o inferno. Mas os demônios têm dois lugares de tormento: um em razão de sua culpa, que é o inferno; outro, em função das tentações a que submetem os homens: a atmosfera tenebrosa, pelo menos até terminar o mundo.

Os demônios dos ares

A doutrina de que os demônios vagueiam pelos ares para tentar os homens é claramente afirmada por São Paulo na Epístola aos Efésios: “O príncipe que exerce o poder sobre este ar ...  os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 2,2; 6, 12).


E é confirmada pela Igreja, por exemplo, na oração a São Miguel Arcanjo, que o Papa Leão XIII compôs e mandou recitar ao fim da Missa, na qual invoca o Príncipe da milícia celeste, para que — pelo divino poder — precipite no inferno " a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.

 A “hierarquia” entre os demônios

Entre os demônios existe urna “hierarquia”, que decorre do fato de, sendo anjos, uns terem a natureza mais perfeita do que outros. Por isso se diz que Satanás é o príncipe, o chefe dos demônios.

Não que exista entre eles uma submissão por amor ou respeito, como na verdadeira hierarquia; os demônios se odeiam muituamente e só se unem circunstancialmente para atormentar os homens.  É o mesmo que — explica São Tomás — se dá entre os homens maus: eles formam quadrilhas e se submetem a um chefe, apenas como meio de melhor cometerem seus roubos ou homicídios contra os homens honestos ( Suma Teológica, 1,Q. 109, A.1-2. )

 Os nomes dos demônios

Os judeus não tinham uma palavra específica para indicar os espíritos malignos; a designação geral de demônio para os anjos decaídos vem da versão grega do Antigo Testamento. A palavra daimon, entre os gregos, designava os seres com forças sobre-humanas, especialmente os maléficos. A palavra hebráica sâtân significa
adversário, acusador; Satanás, o chefe dos demônios, é também conhecido nas Escrituras como Diabo (do grego diábolos, que quer dizer caluniador).

Nas Sagradas Escrituras aparecem os nomes de vários demônios: Azazel, demônio que habita o deserto (Lev 16, 8-10, 26); Asmodeu, que matou os sete maridos de Sara (Tob 3, 8); o nome Belzebu ( ou Beelzebul, cuja significação parece ser “deus do esterco”, nome com que os rabinos indicariam os sacrifícios oferecidos aos ídolos ) é apresentado como sinônimo para Satanás ou príncipe dos demônios (Mt 12, 14; Mc 3, 22-26); Lúcifer foi palavra escolhida na Vulgata* para traduzir para o latim a expressão “astro brilhante" ou  “estrela brilhante”, da profecia de Isaías (Is 14, 12), que costuma ser interpretada como uma referência à queda do Demônio; em geral esse apelativo é utilizado igualmente como sinônimo de Satanás. 

 * Chama-se Vulgata a tradução latina da Bíblia feita em grande parte por são Jerônimo, que iniciou seu trabalho por volta do ano 384. Essa tradução latina foi aperfeiçoada por iniciatiiva da santa Sé, dando origem a chamada Vulgata Sixto-Clementina publicada em 1592 pelo Papa Clemento VIII, em uso ainda hoje.

Psicologia do demônio


"Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu 

na verdade é mentiroso e pai da mentira".

(Jo 8,44)

 
Com base nas Sagradas Escrituras e em outras fontes, poderíamos ressaltar alguns aspectos da psicologia de Satanás e seus anjos malignos.

Embora os demônios sejam diferentes entre si, assemelham-se em seu desejo de fazer o mal e em sua natureza decaída; por isso o que é dito a respeito de Satanás, seu chefe, pode-se dizer dos outros demônios.

Uma vontade pervertida

Os demônios, puros espíritos, como anjos que são, não têm as fraquezas e as debilidades dos homens; de onde, sua revolta contra Deus ser permanente, imutável, eterna. Sua vontade, deixando de ter como objeto o Sumo Bem, tornou-se uma vontade pervertida fixada no mal. Dessa forma, os demônios não desejam senão o mal em todos os seus atos voluntários, e mesmo quando fazem algum bem (como, por exemplo, restituir a saúde a alguém, obter-lhe riquezas ou ensinar-lhe algo), fazem-no apenas para dai tirar o mal, conduzir a pessoa à perdição eterna, que é a única coisa que almejam para os homens.

Tendo sido criados bons por Deus, sua natureza ainda continua boa em si mesma; porém, eles se tornaram seres pervertidos em sua vontade, buscando não mais seu fim último, que é o serviço e a glória de Deus, mas justamente o contrário, isto é, tudo fazer para impedir que Deus seja glorificado. Não podendo atingi-Lo diretamente, eles procuram agir sobre as criaturas de Deus, na medida em que Ele o permite.

 Homicida e mentiroso— Astuto, falso, enganador

O divino Redentor resumiu em poucas palavras essa psicologia diabólica: “Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira,fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44).

O demônio é homicida e o pai da mentira, o mentiroso por excelência que odeia a verdade, porque a verdade nos conduz a Deus: "Eu sou o caminho, a verdade, a vida” (Jo 14, 5); ele odeia o Criador e, tendo-se separado de Deus, separou-se para sempre da verdade e da vida. E através da mentira que ele dá a morte, a morte espiritual.

Santo Agostinho, a respeito da afirmação de Jesus de que o demônio é homicida e mentiroso, comenta: “Perguntamos de onde veio ao diabo o ser homicida desde o princípio, e respondemos que matou o primeiro homem, não enterrando-lhe o punhal ou infligindo-lhe qualquer outro dano no corpo, senão persuadindo-o a que pecasse precipitando-o da felicidade do paraíso”. (Apud J. MALDONADO S.J., Comentarios a los Cuatro Evangelios, p. 563)

Pe. João Maldonado, erudito exegeta jesuíta do século XVI, observa sobre essa mesma frase -  “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44): “A maior parte dos autores entendem isto daquelas palavras que o diabo disse a Eva: ‘Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ (Gen 3, 5); palavras em que  evidentemente mentiu; quer dizer, uniu a mentira com o homicídio (espiritual), perpetrando os dois crimes ao mesmo tempo. ... Chama-se ao diabo pai da mentira porque é ele o autor e inventor da mesma, de tal modo que pode dizer-se que deu à luz a ela”  (J. MALDONADO S.J., op. cit., pp. 564-566)

Quando tenta o homem, procurando afastá-lo de Deus, ele mente apresentando uma falsa imagem da realidade, escondendo seus verdadeiros fins e enredando sua vítima no engano, no sofisma e na falsidade.

Ele é astuto, falso, enganador.

“Satanás se distingue por sua astúcia — escreve Mons. Cristiani. O que quer dizer esta palavra? A astúcia é um artifício enganador. O ser que age por astúcia tem más intenções. Se ele fala, não é para dizer a verdade, mas para enganar, para conduzir ao erro, à inverdade. Satanás é falso. Não se pode confiar nele. O que falta antes de tudo nele é a eqüidade, a lealdade, a franqueza. Ele é equivoco, voluntariamente obscuro e dissimulado” (Mgr L. CRI5TIANI, Présence de satan dons le monde moderne, p. 306.)

Soberba demencial, inveja mortal

 Por detrás dessa dissimulação se esconde o seu desejo oculto, assim expresso por Mons. Cristiani: “Ser como Deus! Este ato de orgulho é o fundo mesmo da psicologia de Satanás! ... ‘Vós sereis como deuses!’ Ele próprio, na sua queda, se considera como um deus. Seu orgulho não está morto. O orgulho levado até à adoração de si mesmo é o que faz o demônio voltar-se contra o Criador. É o orgulho que, tendo-o afastado de Deus, fez dele o Adversário. No livro do Eclesiástico esta conseqüência do orgulho é posta em evidência: ‘O princípio do orgulho é abandonar o Senhor e ter seu coração afastado do Criador, porque o princípio do orgulho é o pecado, aquele que se entrega a ele espalha a abominação.‘ (Ecli 10, 12-13). ... Compreendemos, então, porque Jesus Cristo, que é a Via, a Verdade, a Vida, tenha definido Satanás como o Pai da mentira,  o homicida desde o começo. E, para nós, este termo de homicida longe de ser excessivo, não diz senão um aspecto da verdade total: Satanás é, com efeito, acima de tudo, o DEICIDA!” (Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 308.)

O orgulho de Satanás e seus anjos malignos não conhece limites: "Que orgulho demencial — comenta ainda Mons. Cristiani — nessa palavra de Satanás a Cristo, mostrando-lhe em espírito todos os reinos da terra: ‘Tudo isto eu te darei se prostrado por terra me adorares!´O fundo último da ambição satânica é este: Tirar de Deus seus adoradores, fazer convergir as adorações dos homens para ele próprio!

"Resuimàmo-nos: o orgulho, a vontade de se fazer deus, a astúcia, a inveja e o ódio do homem, tudo isto desembocando na mentira, no homicídio, no deicídio: eis Satanás!”. (Mgr L.CRISTIANI, op. cit., p. 308.)

Não lhe importam as derrotas que sofre continuamente, nem mesmo a final e definitiva a que está condenado; sua soberba se satisfaz com os pequenos triunfos que obtém, no esforço de levar as almas à eterna perdição.

Comenta o Cardeal Lepicier: “Escudado na satisfação de certas vitórias parciais e na esperança de grandes triunfos e, ao mesmo tempo, não se preocupando com as vergonhosas derrotas sofridas, Satanás prossegue loucamente na sua faina de tentar arrastar as almas para a eterna perdição. O seu pendão está sempre erguido e o seu grito insensato de desafio e revolta ouve-se por toda parte: ‘Eu não quero servir! ‘ (Jer 2, 20)”. (Card. A.LEPICIER. O Mundo invisível p. 240.)

O pai da vulgaridade

Outro aspecto da psicologia maldita do demônio é a vulgaridade. Odiando a Deus, ele odeia tudo aquilo que é verdadeiro, belo, bom. Ele odeia a compostura, a dignidade, a seriedade, a serenidade.

O abade João Cassiano já observava no século V: “É fora de dúvida que existe entre os espíritos impuros o que o vulgo chama espíritos vagabundos, que são antes de tudo sedutores e bufões. Eles se postam constantemente em certos lugares e se divertem em enganar, muito mais do que em atormentar, aqueles que eles encontram.  Eles se contentam em fatigá-los por seus escárnios e suas ilusões..." (Apud Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 311.)

São os famosos demônios bufões, que fazem talhar a manteiga, secam o leite das vacas, desencadeiam enxames de vespas ou de abelhas, etc., tudo para fazre os homens perderem a paciência, praguejarem , blasfemarem.

 Mons. F. M. Catherinet, demonólogo francês, analisando a ação dos demônios segundo as narrações evangélicas, traça deles o seguinte perfil:  "Medrosos, obsequiosos, poderosos, malfazejos, versáteis e mesmo grotescos... ( Mgr F. M. CATHERINET, Les Démoniaques dans l´Évangile, P.319. )

 Em carta a Mons. Cristiani, o Pe. Berger-Bergès, famoso exorcista, escreve:  "Vós me perguntais ... qual é a psicologia de Satanás, quando ele está submetido à ação dos exorcismos... É preciso definir e resumir a psicologia de Satanás por estas palavras:  ORGULHO, DESPREZO DE SUA VÍTIMA, TENACIDADE!" |(Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 312.)

O poder dos demônios


"O próprio Satanás se disfarça

 em anjo de luz”.
(2 Cor 11, 14)

 TUDO QUANTO DISSEMOS a respeito do poder e do modo de agir dos anjos sobre a matéria aplica-se igualmente aos demônios, que são anjos decaídos, mas que conservaram a natureza angélica e os poderes a ela inerentes.


Poder dos demônios sobre a matéria


Já vimos anteriormente como a presença dos anjos em um lugar não se dá fisicamente (contato físico), pois são seres incorpóreos, e sim por meio de sua atuação (contato operativo): os anjos estão onde atuam.

Em virtude de sua natureza espiritual, eles podem exercer sua atividade e tanto de fora dos corpos, como no interior deles, conforme observa São Boaventura: “Os demônios, em razão de sua sutileza e espiritualidade, podem penetrar em qualquer corpo e aí permanecer sem o menor obstáculo e impedimento”. (In II Sent., Dist. 8, p. 2, a. um., q. 1, apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p.12.)

De um modo direto e imediato os demônios podem produzir na matéria apenas movimentos locais, ou extrínsecos, transferindo uma coisa de um lugar para outro, sem entretanto alterar a natureza ou substância dessa coisa; de modo indireto, através desses movimentos locais, eles podem agir sobre a própria substância da matéria, ao modificar a posição ou a quantidade dos elementos constitutivos da mesma.

Caso Deus o permitisse, os demônios, por sua natureza angélica, poderiam causar toda espécie de transtornos físicos. O Cardeal Lepicier afirma que se pode dizer que praticamente não há fenômeno no mundo que não possa ser realizado, de um modo ou outro, pelos anjos; logo, também pelos demônios.(Cardeal A. LEPICIER, O Mundo invisível, pp. 74.75.) E não raro o fazem, provocando tempestades, cataclismos, incêndios e outros desastres como também aparições fantasmagóricas, ruídos infernais e perturbações de toda ordem.

Poder dos demônios sobre o homem

Em relação ao homem, os demônios só podem operar de modo direto e imediato sobre aquilo que nele é matéria, ou está e necessária dependência dela; podem agir nas funções da vida vegetativa, enquanto ligadas à matéria, e sobre a vida sensitiva, porque esta depende de órgãos corporais. No que se refere às funções próprias da vida intelectiva, os demônios só podem chegar a elas indireta e mediatamente, quer dizer, atuando sobre a parte corpórea e sobre a vida sensitiva, das quais a alma deve servir-se para desenvolver suas atividades espirituais. Em outros termos, os demônios podem agir diretamente sobre a parte corpórea do homem, mas apenas indiretamente sobre sua inteligência e sua vontade.

Conforme ensina São Tomás,(Suma Teológico. 1-2, q. 80, a. 1-3.) o entendimento, por inclinação própria só se move quando algo o ilumina em ordem ao conhecimento da verdade. Ora, os demônios não querem conduzir o entendimento à verdade, mas, pelo contrário, entenebrecê-lo como meio de levar o homem ao pecado. Por isso, eles não conseguem mover diretamente a inteligência do homem, e procuram então influir sobre ela indiretamente, através de sua ação sobre a imaginação e a sensibilidade.

Os demônios não podem tampouco mover diretamente a vontade humana, pois isto só o próprio homem ou Deus podem fazer; mesmo que o  Maligno, por permissão divina, se assenhoreie do corpo do homem e entenebreça sua mente — como se dá na possessão — , ele não pode obrigá-lo a pecar, pois a vontade não participaria dos atos maus assim realizados, os quais seriam em conseqüência pecados apenas materiais.

Para mover a vontade do homem, os demônios precisam, de algum modo, convencê-lo, persuadi-lo a praticar uma ação má, ainda que sob a aparência de um bem.

A ação persuasiva do demônio

"O demônio não força; ele propõe, sugere, persuade, alicia”

O demônio não tem o poder de obrigar os homens a fazer ou deixarem de fazer algo; por isso procura persuadi-los para que se deixem conduzir pelo seu mal.


"Ele não os força: ele propõe, sugere, persuade, alicia” escreve o Pe. J. de Tonquédec S.J., exorcista e demonólogo francês. E acrescenta: “No Éden, ele deu a Eva razões para ela transgredir a ordem divina (Gen 3, 4-5, 13); no deserto, solicitou Nosso Senhor pela atração de uma dominação universal (Mt 4, 26-27)”. (J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´ation de Satan en ce monde, p. 495.)

São Tomás também se refere a essa obra de persuasão do demônio, explicando que a vontade humana só se move internamente por ação do próprio homem ou de Deus; externamente ela pode ser solicitada pelo objeto que, entretanto, não força o homem a escolher o que não quer. (Suma Teológico, 1-2, q. 80, a. 1.)

O Pe. Cândido Lumbreras O.P., assim comenta essa passagem do Doutor Angélico: “Que influência pode exercer o demônio nos pecados dos homens? ... O demônio pode oferecer aos sentidos seu objeto, falar à razão, seja interiormente, seja exteriormente; alterar os humores e produzir imagens perigosas, excitar enfim as paixões que podem mover a vontade e assenhorear-se do entendimento” .(C. LUMBRERAS O.P., Tratado de los vicios y los pecados — Introducción. p. 766.)

 Em comentário a outra passagem de São Tomás, explica Pe. Jesus Valbuena O.P.:

“Que os anjos possam iluminar e de fato iluminem o entendimento humano, é uma verdade que se atesta por uma multidão lugares nas Sagradas Escrituras ... Também os anjos maus são capazes de produzir, com sua virtude natural, falsas iluminações no entendimento dos homens, conforme nos admoesta São Paulo para que estejamos alerta ´pois o próprio Satanás se disfarça em luz’ (2 Cor 11, 14).

“Afirma São Tomás que nos sentidos do homem, sejam internos, sejam externos, os anjos podem influir e agir a partir de fora e a partir de dentro dos mesmos, quer dizer, extrínseca e intrisecamente; mas, em relação ao entendimento e à vontade humanas, só os podem mover e influir indireta e exteriormente, quer dizer propondo a estas potências espirituais de uma maneira acomodada a elas seus objetos, que são a verdade e o bem e influindo nelas indiretamente mediante os sentidos, as paixões, as alterações corporais sensíveis, etc., embora não possam nunca chegar a dobrar ou completamente a vontade do homem, se este se acha em estado normal” (J. VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo— Introduccion, p. 898.)

Nos casos de Eva e de Nosso Senhor, o demônio “apresentou suas razões” tomando uma forma corpórea, produzindo sons e articulando as palavras oralmente; no geral dos casos, entretanto, o demônio, para persuadir o homem a pecar, conjuga sua ação sensibilidade, a memória e a imaginação.

As doutrinas perversas do demônio

O demônio tem uma doutrina mentirosa, que opõe à doutrina de Cristo.

Em sua introdução ao Tratado sobre os anjos, de São de Aquino, comenta o Pe. Aureliano Martínez O.P.: “O demônio tem suas doutrinas perversas, às quais o Apóstolo chama espírito do erro e ensinamentos do demônio (1 Tim 4, 1), com as quais como deus deste mundo, cega a inteligência dos homens para que não brilhe nelas a luz do Evangelho (2 Cor 4, 4); doutrinas que propala mediante falsos apóstolos e operários enganadores que se disfarçam em apóstolos de Cristo; e não é de espantar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz (2 Cor 11, 13-14), tentando os fiéis de incontinência (1 Cor 7, 5) e de ira (Ef 4, 27)”. (A MARTÍNEZ O.P., Tratado de Los Angeles — Introducción, p. 511.)

Foi por essa razão que o Divino Salvador definiu o demônio como aquele "que não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

Por meio dessa ação de persuasão o demônio procura na tentação, não apenas induzir-nos a cometer este ou aquele pecado, mas afastar-nos completamente de Deus.

Limites à ação do demônio

Por mais poderoso que seja, com uma capacidade de ação superior à de qualquer outro ser criado, o demônio, entretanto, não é onipotente. Sendo mera criatura, ele tem suas limitações, decorrentes de três fatores: sua própria natureza, a condição particular de cada demônio e a vontade permissiva de Deus.

Limites impostos por sua própria natureza

Com toda criatura, o demônio está limitado em sua atuação pela sua própria natureza: por mais elevado que seja seu poder, este não pode ultrapassar os limites de sua natureza criada.


Ele é um ser finito, contingente. Não se deve pois de forma alguma julgar que ele é capaz de saber tudo (oniciência), de poder tudo (onipotência) e estar em todo lugar (onipresença): esses atributos são exclusivos de Deus.

Sua inteligência, embora se tenha mantido intacta, está privada de todo auxílio sobrenatural. Os demônios perderam, com o pecado, toda forma de conhecimento sobrenatural; enquanto os anjos bons vêem em Deus o estado de uma alma (se ela está na graça divina ou em pecado), os demônios só podem fazer conjetura a respeito, O mesmo se deve dizer quanto a certos acontecimentos futuros que Deus revela aos anjos.

Por sua natureza, nem os anjos bons nem os demônios podem conhecer o futuro livre ou futuro contingente isto é, aquele que depende da vontade divina e do livre arbítrio humano mas apenas Deus, que o pode revelar aos seus anjos.

Outro limite natural à ação do demônio é, como vimos, sua impossibilidade de agir diretamente sobre a inteligência e a vontade humanas; ele tem de usar meios indiretos: a sensibilidade, a imaginação, as paixões, e sobretudo a persuasão.

Limites devidos à condição particular de cada demônio

Outro limite à atuação demoníaca vem da diversa condição de cada demônio. Assim como existem desigualdades entre o homens, também entre os anjos e os demônios não há dois iguais.  Por isso, nem todos os demônios têm o mesmo poder.


Outro fator de limitação é a posição relativa de cada demônio na escala dos anjos decaídos, e as eventuais ordens e proibições que existam entre eles.

Limites impostos por Deus

O demônio só pode agir em detrimento do homem com a permissão de Deus.

Ensina o Cardeal Lepicier: “É preciso que nos lembremos sempre de que, por muito grande que seja o poder do demônio, tem limites que lhe foram sabiamente determinados pelo Todo-Poderoso. Ele pode, sem dúvida, fazer-nos mal, mas não além daquilo que lhe é permitido, e bem conhece que o seu poder não pode durar muito. Pode ser que o conhecimento da curta duração do seu reino contribua para que redobre a sua atividade nos tempos que vão correndo; mas todos os seus esforços obedecem aos impenetráveis desígnios da Providência que só permite que a sua influência seja exercida até certo grau, de forma que nos possamos colocar debaixo da proteção de Deus e ganhar, pelos nossos méritos, a vitória final e a coroa da imortal glória que nos espera no Céu" ( Cardeal A. LÉPICIER, O.S.M., O Mundo invisível, p.242.)

No livro de Jó, no qual é nomeado pela primeira vez nas Escrituras, Satanás aparece como agente do mal, porém absolutamente subordinado a Deus.

Embora tenha inveja do justo Jó e queira pôr sua virtude à prova, por meio da infelicidade, Satanás não pode agir senão com a autorização divina.  Ele tem necessidade de uma permissão, ou até mesmo de uma delegação do Senhor.  Sua ação é estritamente limitada à vontade de Deus, que permite, primeiro atacar seu servidor exclusivamente em seus bens e não em sua pessoa; depois em sua pessoa, mantendo entretanto sua vida (Jó 1, 6-12; 2, 1-7).

São Paulo nos tranqüiliza:  "Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças; antes, com a tentação, vos dará as forças necessárias para sair dela e para suportá-la" (1 Cor 10,13).

Por que Deus permite que o demônio tente o homem, como também o prejudique, muitas vezes, de tantos modos?  Como fica patente em tantas passagens da Escritura e ensinamentos do Magistério eclesiástico, essa permissão divina tem como escopo santificar o homem por meio de provações, puní-lo por alguma falta grave, servir de ocasião para que se manifeste o poder divino de um modo visível, como no caso dos exorcismos de possessos.

Poder dos anjos bons sobre os demônios

Ensina São Tomás que os anjos bons, mesmo que por natureza pertençam a uma hierarquia inferior à de algum demônio ( por exemplo em ralação a Satanás), sempre têm um domínio sobre os anjos decaídos.  Pois os anjos gozam de perfeição da amizade de Deus, da qual estão privados os demônio; e esta perfeição é superior à mera excelência natural, a única que permanecesse nos demônios ( Suma Teológica, 1,q. 109,a.4. )Por isso observa o Cardeal Lepicier:  " A sabedoria de Deus torna-se ainda mais manifesta , quando consideramos que ele colocou os espíritos malignos debaixo do domínio dos anjos bons e deu a cada homem, neste mundo, um anjo bom que o ilumina, guia os seus passos e o defende contra os seus inimigos.  Por isso, os assaltos do inimigo das almas são aniquilados pela intervenção daqueles espíritos que se conservam fiéis a Deus, e o demônio acaba por contribuir para a maior glória do Criador". (Cardeal A. LÉPICIER, op. cit., p. 241. )

III - AÇÃO ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO 


DEUS GOVERNA O MUNDO, respeitando sua ordem e suas leis; isto é, a normalidade, a simplicidade, o usual das coisas; tudo aquilo que sai desta linha e que parece maravilhoso, prodigioso, milagroso é excepcional, muito raro. Deus nos criou livres e espera de nós um livre consentimento à fé, sem que nisto sejamos influenciados por uma manifestação habitual do preternatural e do sobrenatural.

Entretanto, para provar-nos, para que mereçamos a bem-aventurança eterna, como também, muitas vezes, para castigo nosso, permite Deus que o demônio nos atormente.


A inclinação para o mal nos provém de três causas: de nossa natureza, ferida pelo pecado original; do mundo e do demônio. Entretanto Satanás desperta em nós, continuamente, a tríplice concupiscência com insistentes tentações de soberba e orgulho, de luxúria, de avidez em todos os níveis.

Essa é a ação ordinária, comum, corrente do demônio — ou seja, a tentação. Além dela, pode o Maligno exercer uma ação extraordinária.

A ação ou atividade demoníaca extraordinária pode ser assim qualificada por duas razões: em primeiro lugar, pelo seu caráter surpreendente, sensacional, espetacular; em segundo, pela sua relativa raridade (se comparada com a ação ordinária). Estamos nos referindo à infestação e à possessão diabólica.


Trataremos em primeiro lugar da tentação; a seguir, das duas formas de infestação - a local e a pessoal; no  capítulo seguinte, da possessão.
A tentação


“Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação. 

porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da 

vida, que Deus promete aos que o amam".
(Tiag 1,12)

A AÇÃO MAIS COMUM e constante do demônio, em relação ao homem, é a tentação. Por esse seu aspecto comum e também por ser a mais freqüente, pode-se chamá-la de ação ordinária do demônio.

Natureza da tentação

Em seu sentido etimológico, tentar alguém significa pô-lo à prova para que se conheçam suas disposições ou qualidades.

Tentação probatória e tentação enganadora ou sedutora

Santo Agostinho estabeleceu uma distinção, que se tomou clássica, entre a tentação probatória (tentatio probationis) e a tentação enganadora ou sedutora (tentatio decepcionis vel seducionis).

A tentação probatória não visa levar ao pecado, e sim tornar patente a virtude de alguém ou fortalecê-la por meio da provação.  Nesse sentido é que se pode falar de tentação de Deus, como, por exemplo, as provações que o Criador, servindo-se do demônio, enviou a Jó para provar sua fidelidade (cf. Jó 14, 1 ss).

Pode-se falar também de tentar a Deus quando se pretende pôr Deus à prova, exigindo dele um milagre ou uma ação extraordinária, com o fim de satisfazer nossa curiosidade, nossos caprichos, ou livrar-nos das conseqüências de nossas irreflexões ou imprudências. “Tentar a Deus — escreve D. Duarte Leopoldo e Silva - é expor-se ao perigo, a grandes tentações, sem necessidade, e depois pedir um milagre para não sucumbir. Deus protege no perigo, mas nem por isso devemos expor-nos temerariamente, porque, diz o Espírito Santo, quem ama o perigo nele perecerá” . (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, Concordancia dos Sanctos Evangelhos, Escola Typographica Salesiana, São Paulo, I edição, 1903.)

A tentação enganadora ou sedutora visa levar o homem à ruína espiritual; ela propõe-lhe um mal sob a aparência de um bem, procurando arrastá-lo ao desejo desse mal, isto é, ao pecado. Pode, então, ser definida como uma incitação ao pecado. Consiste em um estímulo, uma solicitação da vontade para o mal.

Quando procede de nós mesmos (tentação interna), pode ser indicada mais bem como inclinação, arrebatamento, estímulo; se provém de outros inclusive do demônio podemos referir-nos a ela como convite, solicitação, incitação.

Causas naturais da tentação: o mundo e a carne

Nem todas as tentações que o homem padece provém do demônio; também o mundo e a carne têm nelas uma grande parte: "Nem todos os pecados são cometidos por instigação do demônio, mas alguns são cometidos pela livre vontade e corrupção da carne” - ensina São Tomás. ( Suma Teológica, 1,q.114,a.3.)

A raiz mesma da tentação está na própria natureza humana, livre porém demasiado frágil, sobretudo depois que decaiu de sua integridade, em conseqüência do pecado original. “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e o alicia” - escreve o Apóstolo São Tiago (Tiag 1, 14), que repete a mesma idéia pouco à frente: “De onde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros?” (Tiag 4, 1).

São Paulo descreve em termos dramáticos essa terrível realidade: "Sinto imperar em mim unia lei: querendo fazer o bem, eis que o mal se apresenta a mim. Segundo o homem interior, acho satisfação na lei de Deus; mas em meus membros experimento outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me encadeia à lei do pecado que reina em meus membros” (Rom 7, 21-24)*

 *“São Paulo descreve a luta que se trava no interior do homem entre a carne e o e espírito.  O homem reconhece a justiça e a bondade da lei, mas a concupiscência excita-o fortemente a desobedecer-lhe” (Pe. MATOS SOARES).  A carne, aqui, significa a natureza humana decaída em conseqüência do pecado original, que a tornou desregrada. De si, a carne ou seja, a natureza humana é boa, pois criada por Deus.

Essa a lei da carne

Também o mundo procura arrastar-nos ao pecado, pois "está  sob o jugo do maligno” (1 Jo 5, 19), e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” (Tiag 4, 4). Se rompermos com o mundo ele nos perseguirá, adverte o Salvador, pois não somos do mundo ( Jo 15, 19). Por isso, Jesus disse expressamente que não rezava pelo mundo (Jo 17, 9).

Um homem pode ser tentador de outro homem, segundo o espírito do mundo. Foi o que fez São Pedro, procurando desviar o Senhor do caminho da Cruz: “A partir daquele momento, começou Jesus a revelar a seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém, padecesse muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e fosse condenado à morte, e ao terceiro dia ressuscitasse. Pedro, tomando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: ´Deus te livre, Senhor! Isto não te pode acontecer!´Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: 'Retira-te de mim, Satanás! Pois és para mim obstáculo (isto é, tentação); os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!' “ (Mt 16, 21-23).


Somos, pois, tentados pela nossa própria fragilidade, pelo nosso temperamento, nossa índole, formação, ambiente, familiares, amigos, situações e ocasiões; em uma palavra: pela carne e pelo mundo.


A tentação demoníaca

Porém, conforme ensina o Apóstolo, “não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espiritos malignos espalhados pelos ares.. “(Ef 6, 10-11).


É fora de dúvida que muitíssimas tentações são obra direta do demônio, cujo oficio próprio — diz São Tomás — é tentar. (
Suma Teológica, 1,q. 114,a .2. )

A maior parte da atividade demoníaca se concretiza na tentação. Por isso o demônio, no Evangelho, é chamado tentador (cf. Mt 4, 3).


As demais causas da tentação — o mundo e a carne — podem atuar dependentemente umas das outras; entretanto, é comum que, nas tentações, a atração do mundo se una à revolta da sensualidade, e a ambas se some a ação aliciante do demônio.

De tal modo que, embora os teólogos aceitem no plano teórico a possilidade de a tentação poder ter uma causa apenas natural o mundo ou a carne sem entrar necessariamente a ação do demônio, no plano prático, em geral, admitem que o Maligno, sempre à espreita, se aproveita de todas as circunstâncias para cavalgar a tentação e aumentar a sua intensidade ou malícia.


De onde a advertência de São Paulo: “Se sentirdes raiva, seja sem pecar: não se ponha o sol sobre vossa ira, para não dardes oportunidade ao demônio” (Ef 4, 26-27).


O homem diante da tentaçã


A tentação não é pecado


A tentação, de si mesma, obviamente não é pecado. Pois o próprio salvador permitiu ser tentado pelo demônio (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Como dissemos, o demônio não pode agir diretamente sobre a inteligência ou a vontade humanas e por isso procura influenciá-las por meios indiretos, em seu escopo de fazer-nos pecar. Mesmo podendo resistir ao tentador, o homem freqüentemente se deixa seduzir.

Para nos tentar, o demônio pode excitar a imaginação de modo a formar nela imagens e representações lúbricas ou perturbadoras; interferir em movimentos corporais que favoreçam os maus atos ou maus pensamentos, intensificar as paixões, procurar enredar-nos em sofismas, em erros, etc.

Entretanto, o homem não é culpado das tentações que sofre, a não ser quando elas são conseqüência de imprudências, permitidas ou procuradas voluntariamente, por exemplo, com olhares indevidos, freqüência a lugares perigosos, más companhias, etc. Do contrário, ele só será culpado nos casos em que der um consentimento pleno e deliberado ás solicitações das tentações.*

 *“Três coisas devemos distinguir na tentação: a sugestão, a deleitação e o consentimento.  A sugestão não é um pecado, porque não depende da nossa vontade, A simples deleitação, quando involuntária, também não é pecado. Só o consentimento é sempre criminoso, porque depende exclusivamente de nós o aceitar ou não a sugestão do pecado" (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, op. cit., p. 34, n. 5).

Por mais intensa que seja uma tentação, se o homem lutou contra ela o tempo todo, não cometeu a menor falta; pelo contrário adquiriu méritos para sua santificação, segundo escreve São Tiago Apóstolo: “Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam” (Tiag 1, 12).

Necessidade da vigilância e da oração

Devemos estar sempre alertas para enfrentar as provocações, como nos recomendou Nosso Senhor na hora de sua Paixão: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). O mesmo aconselha São Pedro: “Séde sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda ao redor como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Ped 5,8).

Vigiar, porém, não basta. É preciso resistir ao demônio: "Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (Tiag 4, 7) — nos assegura São Tiago. “Resisti-lhe [ao demônio] fortes na fé” — manda São Pedro (1 Ped 5,9).

E São Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do demônio. ... tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade, e vestindo a couraça da justiça ... tomai o escudo da fé com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno, tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito ( que é a palavra de Deus)” (Ef 6, 11-17).

Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças

Devemos, entretanto, ter sempre presente esta consoladora verdade: é certo que Deus não permite sejamos tentados além de nossas forças. Este é o ensinamento de São Paulo: “Nenhuma tentação vos sobreveio que superasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças: mas, com a tentação, vos dará também o meio de sair dela e a força para que suportá-la” (1 Cor 10,13).

 A infestação


"Não temos que lutar somente 

contra a carne e o sangue, mas sim 

contra os principados e as potestades, 

contra os dominadores deste mundo de 

trevas, contra os espíritos malignos 

espalhados pelos ares.. "
(Ef 6, 10-11)

 A TERMINOLOGIA a respeito da ação extraordinária do demônio sobre os homens, as coisas e os locais, não é uniforme: alguns autores falam em obsessão, para designar essa atuação demônio, quer se trate de sua simples presença local, quer de atuação sobre o homem, mas sem possuí-lo, quer da possessão. Outros criam termos especiais como circumissessão, para designar a ação demoníaca externa ao homem.

Adotamos aqui a terminologia utilizada por Mons. Corrado Balducci, por parecer-nos mais simples e direta: infestação local, infestação pessoal e possessão diabólica. (Cf Mons. C. BALDIJCcI, Gli indemoniati, p. 3; El diablo, pp. 156-158.)

Trataremos em primeiro lugar das duas formas de infestação — a local e a pessoal; no capítulo seguinte, da possessão.


Infestação local


A infestação local consiste em uma atividade perturbara que o demônio exerce diretamente sobre a natureza inanimada (reino mineral, elementos atmosféricos, etc.) e animada inferior (reino vegetal e reino animal), e também sobre lugares, procurando desse modo atingir indiretamente o homem, sempre em modo maléfico.

Com efeito, todas as criaturas, mesmo as irracionais, por maldição do pecado, ficaram sob o poder do demônio (cf. Rom 8, 21ss). Assim, os lugares e as coisas, do mesmo modo que as pessoas, estão sujeitas à infestação demoníaca. E preciso não esquecer a atuação dos demônios dos ares, a respeito das quais nos adverte o Apóstolo: “Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares...” (Ef 6, 10-11).

Entram nessa categoria as casas e lugares infestados: objetos que voam ou se deslocam de lugar, sons estranhos ou perturbadores (passos, pedradas nas vidraças ou no telhado, uivos, gritos, gargalhadas); impressão de presenças invisíveis, sensação de perigos inexistentes, etc.; distúrbios visíveis, estranhos e repentinos que se verificam no mundo vegetal e no mundo animal (árvores ou plantações que secam repentinamente, doenças desconhecidas nos animais, pragas, etc.).

Certos fenômenos ou calamidades de aparência e estruturas naturais (tempestades, terremotos e outros cataclismos, incêndios, desastres, etc.) podem ter igualmente o demônio como autor, senão único direto (como na possessão), ao menos parcial e dirigente.  Por exemplo, o raio que caiu do céu e consumiu os pastores e as
ovelhas de Jó, do mesmo modo que o vento do deserto que fez cair a casa dos filhos do Patriarca, esmagando-os sob as ruínas, foram suscitados por Satanás (Jó 2, 16-19). Nesse caso, podem ser incluídos essas manifestações demoníacas extraordinárias.


Muitas vezes, tais manifestações ocorrem em concomitância com casos de infestação pessoal ou de possessão diabólica.

Infestação pessoal

A infestação pessoal é uma perturbação que o demônio exerce, já não mais sobre o mundo material e as criaturas irracionais, mas sobre uma pessoa, diretamente, sem contudo impedir-lhe o uso da inteligência e da livre vontade. Apesar de ser excepcional, é talvez o mais freqüente dos três tipos de atividade maléfica extraordinária - isto é, infestação local, infestação pessoal, possessão.

Como a infestação local, a pessoal também comporta graus de intensidade, e diversa modalidade.

A infestação pessoal pode ser externa ou física e interna ou psicológica, conforme se exerça sobre os sentidos externos ou internos e sobre as paixões do homem. Com freqüência, a infestação é simultaneamente externa e interna.

Na infestação externa ou física, demônio age sobre nossos sentidos externos: a vista, provocando aparições sedutoras ou, contrário, apavorantes; a audição, fazendo ouvir rumores, palavras ou canções obscenas, blasfêmias, convites, agrados ou ameaças; o tacto, com sensações provocantes, abraços, movimentos carnais; então dores, doenças, etc.

Mas o demônio pode atuar também sobre os sentidos internos (fantasia e memória) e sobre as paixões.

A infestação interna ou psicológica consiste em sugestões violentas e tenazes: idéias fixas, imagens expressivas e absorventes, movimentos profundos de emotividade e de paixão - por exemplo, desgostos, amargura, ressentimentos, ódio, angústias, desespero; ou, ao contrário, inclinação para algum objeto ilícito, ou inclinação, de si lícita, mas desregrada quanto ao modo e à intensidade.

Comenta o Pe. Tanquerey: “A pessoa se sente, embora com desgosto, invadida por fantasias importunas, tediosas, que persistem não obstante os esforços vigorosos para afastá-las; ou então por frêmitos de ira, angústia, desespero, ímpetos instintivos de antipatia; ou pelo contrário, por perigosas ternuras sem razão alguma que as justifiquem” . (Adolphe TANQUEREY, Precis de Théotogie Ascétique ei Mystique. p. 958.)

Os acessos de melancolia e os transportes de furor que afligiam Saúl, por obra de um demônio e por permissão divina ( cf. 1 Reis 16, 14-23), são característicos da infestação pessoal interna, infestação psicológica.

Diferentemente do possesso, o infestado guarda a disposição de seus atos exteriores, embora em muitos casos tenha sua liberdade diminuída. Ele conserva o poder de reagir contra as sugestões do interior ( por exemplo, sugestões de blasfêmias), de julgar sobre o valor moral destas sugestões, achando-as abomináveis.

Uma das modalidades de infestação pessoal, talvez das mais freqüentes são as doenças, muitas vezes desconhecidas e incuráveis, que chegam a levar à morte, se Deus o permitir. É o que, aliás, lemos no livro de Já: “Disse, pois, o Senhor a Satanás: Eis que ele (Jó) está na tua mão; conserva, porém, a sua vida” (Jó 2, 6).

As escrituras apresentam vários casos de tais enfemidades de origem de diabólica. Exemplo clássico, é a lepra que cobre de chagas o justo Jó, da planta dos pés até o alto da cabeça (Já 2, 7-8).

Seriam igualmente vítimas de infestação diabólica a mulher encurvada, atormentada pelo demônio havia dezoito anos, de tal sorte que não se podia endireitar, e que foi curada por Nosso Senhor (Luc 13, 11); o menino epilético (Mt 17, 14; Mc 9, 17; Luc 9, 38); o mudo (Mt 9,32); e o cego mudo (Mt 12, 22).

Mons. Balduecci se refere a doenças de origem demoníaca, por efeito de maleficios, observando que nestes casos os distúrbios são com freqüência de ordem física, sendo dificilmente diagnosticados pelos médicos; outras vezes se trata de inconvenientes que atacam a vida psíquica, a própria personalidade do indivíduo, tomando-o difícil, raivoso e até incapaz de atuar no âmbito de sua vida familiar e social.(Cf. Mons. C.BALDUCCI, El diablo, p. 184.)

Convém precisar que muitas das manifestações acima descritas, embora próprias às infestações locais ou pessoais, não são exclusivas delas e nem sempre são de origem demôniaca; várias anomalias de ordem psíquica (ilusões, alucinações, delírios) podem se externar pelos mesmos fenômenos; um cuidadoso exame do indivíduo e das circunstâncias que acompanham os fatos poderá revelar a origem natural patológica ou demoníaca dos distúrbios.

Vítimas prediletas da infestação

Se bem que qualquer pessoa possa ser vítima desse tipo de tormento diabólico, Mons. Balducci indica três categorias de pessoas que estariam mais sujeitas a ele: os santos, os exorcistas e demonólogos, e os maleficiados (vítimas de malefício).

Os santos, por causa do ódio que o demônio tem daqueles que de modo especial amam a Deus e procuram a perfeição; isto, do lado da intenção do demônio; do lado da permissão divina, esta é dada como provação especial a almas muito eleitas. Vários santos a experimentaram. Entre os antigos, basta lembrar Santo Antão; do mesmo modo Santa Catarina de Siena (1347-1380); São Francisco Xavier (1506-1552); Santa Teresa de Jesus (1515-1582); Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607); São João Batista Vianney, o Cura d’Ars (1786-1859) São João Bosco (1815-1888); Santa Gemma Galgani (1878-1903).*

*Os exorcistas e demonólogos: a razão é tão óbvia que quase não é preciso dá-la; os primeiros, com seu ministério, fazem diminuir a presença do demônio no mundo e libertam suas vítimas; os segundos, com seus estudos, esclarecem os fiéis com relação à existência e atividade demoníacas.

Os maleficiados (vítimas de malefício), por permissão de Deus, para seu castigo, ou provação, ou para manifestar o poder divino. ( Cf. Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 179.)

4 Esta Santa leiga, grande mística, recebeu os estigmas da Paixão, tinha freqüentes visões de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, e um comércio quase contínuo com seu Anjo da Guarda. Foi muito atormentada pelo  demônio que a espancava com uma vara durante horas e horas, às vezes a noite inteira, causando-lhe profundas esquimoses no corpo, que duravam vários dias, até que Nosso Senhor as curasse. Perseguia-a por toda a parte, em casa, na rua, na igreja, com aparições, assumindo o aspecto de um cachorro, de um gato, de um macaco, de pessoas conhecidas, ou de homens ferozes e espantosos. Várias vezes um desses homens horríveis a jogou na lama quando saia de casa para ir comungar. O demônio lhe aparecia também sob a figura de seu confessor, Mons. Volpi e outras debaixo da aparência do Anjo da Guarda, chegando a confundi-la; de certa feita o Maligno assumiu a figura de Jesus flagelado, com o coração aberto e todo ensangüentado, para pedir-lhe maiores penitências, com a dupla finalidade de fazer deteriorar sua já delicada saúde e incitá-la a desobedecer o confessor que as havia proibido ( Mons. C. BALDUCCI, El diablo PP. 179-181).

 A possessão


“E pela tarde apresentaram-Lhe
muitos possessos do demônio".

(Mt 8, 16)

A POSSESSÃO é a mais espetacular das manifestações diabólicas e a que mais impressiona as imaginações; a tal ponto, que deixa na penumbra o trabalho constante do demônio que, por meio da tentação, procura seduzir os homens ao pecado.

Realidade da possessão diabólica

No que se refere à possessão diabólica, há duas posições erradas que é preciso evitar: a primeira, consiste em acreditar com facilidade que uma pessoa está possessa, sem maior exame, pela impressão causada por sintomas que podem bem corresponder a outros estados, não sendo de si suficientes para caracterizar a possessão; a segunda posição está em negar que hoje ocorram casos de possessão; chega mesmo a negar que alguma vez se tenham dado. Esta posição extremada se choca com uma verdade claramente ensinada pela Sagrada Escritura, pela Tradição e pela prática da Igreja.

Os racionalistas pretendem que os casos de possessão diabólica relatados na Escritura não passam de casos patológicos — mania, loucura, histeria e epilepsia. Dizem que Jesus não pretendia que esses infelizes enfermos, chamados endemoniados, estivessem realmente possessos, mas tratava-os de acordo com as convicções dos seus contemporâneos, os quais acreditavam na ação demoníaca.

Nada mais falso, e os Evangelistas distinguem bem entre a doença e a possessão.

Assim, São Marcos escreve: “E de tarde, sendo já posto o sol, traziam-lhe (a Jesus) todos os que estavam doentes e os possessos do demônio E curou muitos que se achavam oprimidos com varias doenças. e expeliu muitos demonios” (Mc 1, 32-34).

E em São Mateus está escrito: “E pela tarde apresentaram-lhe muitos possessos do demônio, e ele com a (sua) palavra expelia os espíritos maus, e curou todos os enfermos” (Mt 8, 16).


Do mesmo modo São Lucas: “E quando foi sol posto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias, traziam-lhos. E ele impondo as mãos sobre cada um, sarava-os. E de muitos saíam demônios gritando”          (Lc 4,40-41).


É evidente nestas passagens que os Evangelistas se referem à cura de doentes e à expulsão de demônios como dois casos diferentes.


De resto, o próprio Salvador afirma que expulsava os demônios dos possessos. Por exemplo, aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de  Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente chegou a vós reino de Deus”(Lc 11,20).

E Ele mesmo distingue bem os casos de doença dos de possessão, ao dizer: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32).

A Liturgia e a prática da Igreja, com a instituição dos exorcismos, bem como o ensinamento dos teólogos, indicam que Ela crê na possessão diabólica. Ao mesmo tempo, estabelecendo que os exorcismos sobre possessos não sejam feitos senão depois de maduro exame e mediante especial autorização, a Igreja indica que não se deve crer levianamente nos casos de possessão.


Em resumo, que se tenham dado alguns casos, pelo menos de verdadeira possessão diabólica, como os relatados nos Evangelhos, é verdade de fé; que depois se tenham dado outros, é doutrina comum dos teólogos, que não pode ser negada sem temeridade.


Natureza da possessão

A possessão consiste em um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma pessoa. Esta se converte em um instrumento cego, dócil, fatalmente obediente ao poder perverso e despótico do demônio.


O indivíduo em tal estado é chamado justamente possesso, endemoniado, enquanto instrumento, vitima do poder demoníaco, ou energúmeno, porque mostra uma agitação insólita.


Características

A possessão se caracteriza por dois elementos: a) presença do demônio no corpo do homem; b) exercício de um poder por parte demônio sobre o mesmo.

Quanto â presença demoníaca, ela não significa uma presença física, como anjo (decaído), o demônio é puro espírito; sua presença se dá pelo contacto operativo, isto é, o demônio está onde atua desse modo, o demônio pode desenvolver sua atividade por toda a parte, tanto fora como dentro dos corpos humanos. Sendo assim, um indivíduo pode  estar possuído por vários demônios (os quais operam simultaneamente sobre ele, embora sob aspectos diversos), como um só demônio pode possuir várias pessoas (atuando sucessivamente sobre cada uma delas).

O modo como se opera a possessão é explicado por São Tomás de Aquino:

"Os anjos bons e os maus têm o poder, em virtude de sua natureza, de modificar nossos corpos, como qualquer outro objeto material. E como eles estão presentes num lugar na medida em que operam nele, assim eles penetram em nossos corpos. Do mesmo modo, ainda, eles impressionam as faculdades ligadas a nossos órgãos: às modificações dos órgãos respondem as modificações das faculdades. Mas a impressão não chega até à vontade, porque a vontade, nem seu exercício, nem em seu objeto, depende de um órgão corporal; ela recebe seu objeto da inteligência, na medida em que esta desentranha, do que ela percebe, a noção de bondade do ser”. (In 2dum Sent., Dist. VIII, q. un. a. 5, sol. apud L. ROURE, Possession Diabolique, col.)

Em outro lugar o Santo Doutor explica que o diabo não pode penetrar diretamente na alma do homem, pois isto somente a Santíssima Trindade pode fazer. (Suma Teológica, 3,q. 8,a.8)

Isto quer dizer que, na possessão, embora o demônio domine o corpo, sobretudo o sistema nervoso, e possa impedir o uso das potências da alma, ele não pode penetrar nela e obrigar sua vítima a cometer um pecado, ou aceitar as doutrinas diabólicas.

O possesso não é moralmente responsável por seus atos, por piores que sejam, uma vez que não tem plena consciência deles,  nem existe colaboração da vontade.

Efeitos da ação do demônio sobre o possesso

A presença operante do demônio no endemoniado não é contínua, mas se manifesta por períodos de crise. Não falta ao demônio poder nem  vontade de atormentar ininterruptamente sua vítima, tal o ódio ao homem; Deus é que não o permite, pois a pessoa não resistiria.

A influência do demônio sobre os possessos não é simplesmente indireta ou moral, como, por exemplo, nas tentações, mesmo as mais fortes; ela é uma ação direta e física, exercida pelos espírito das trevas sobre os órgãos corporais do infeliz submetido ao seu império. De onde resulta para este último um estado doentio, estranho, que sai das leis ordinárias das afecções mórbidas, embora freqüentemente acompanhado de fenômenos de ordem puramente natural, que o demônio determina nele, simultaneamente com aqueles que ultrapassam a esfera própria aos agentes físicos. Esses fenômenos são habitualmente uma superexcitação geral e profunda de todo o sistema nervoso.

Outras vezes, ao contrário, o demônio comunica à sua vítima um crescimento extraordinário da força muscular. O infeliz entra em fúria a ponto de espumar de raiva, ranger os dentes, soltar gritos espantosos, precipitar-se na água ou no fogo. Ele se torna então perigoso para aqueles que se aproximam dele; destrói, como simples pedaço de palha, as cadeias de feno com as quais o querem prender; e, se ele não puder atingir os outros, volta conta si mesmo o seu furor, arranhando-se com as unhas, machucando-se com as pedras do caminho.

Essa ação perturbadora e nociva do demônio sobre os órgãos corporais expande-se sobre as faculdades mistas, como a imaginação, a memória, a sensibilidade. Estende-se mesmo mais longe e mais alto no ser humano, porque ela tem sua repercussão até na inteligência.  As operações intelectuais apresentam, às vezes, um tal caráter de incoerência, que os demoníacos parecem atingidos  de alienação mental. Não é raro também ver-se produzir, no domínio do espírito, um fenômeno análogo àquele que se passa no seus órgãos. Assim como o demônio, em lugar de paralisar as energias corporais do demoníaco, aumenta seu poder, do mesmo modo, em vez de diminuir suas luzes naturais, ele comunica à sua inteligência conhecimentos que ultrapassam de muito seu poder.

Possessão e infestação: fenômenos da mesma espécie

A infestação pessoal (ou obsessão) e a possessão constituem fenômenos da mesma espécie, variando apenas em grau, e são classificadas pelos teólogos como ações extraordinárias e diretas do demônio, enquanto a tentação é indicada como ordinária e indireta.

Observa o Cardeal Lepicier que a diferença entre a infestação pessoal e a possessão não é um diferença de espécie, mas somente de grau, visto que estas formas diferem mais ou menos, conforme for maior ou menor o grau do poder exercido pelo demônio sobre o corpo do indivíduo a quem ele resolveu atormentar. Os fenômenos de infestação pessoal não são, por vezes, menos graves do que os de possessão. De fato, o Ritual Romano não estabelece diferença alguma entre eles, e as línguas latina e italiana têm apenas uma palavra clássica para designar ambas as formas, isto é, obsessão diabólica.(Cf. Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, p. 277.)

É verdade — explica o Pe. Roure — que a possessão não penetra até o íntimo da alma; conseqüentemente ela não pode ditar, impor ao possesso um ato pessoal de inteligência ou de vontade; mas a ação diabólica chega a neutralizar, a impedir o exercício da inteligência e da vontade, de modo que o possesso torna-se incapaz de conhecer, de julgar e de querer tudo o que se passa e se agita nele.  Na infestação tal não se dá; a vítima conserva o domínio de suas faculdades superiores (a inteligência e a vontade), e pode mesmo servir-se delas para enfrentar os assaltos do Maligno. Dessa forma acontece que a efervescência diabólica pode deixar o fundo da alma em paz. (Cf. L. ROURE, Possession Diabolique, cols. 2645-2646.)

Causas da possessão


Punição, provação...

A permissão dada por Deus ao demônio de, na possessão apoderar-se assim dos órgãos corporais e das faculdades espirituais de uma criatura humana, é, às vezes, punição de certos pecados graves cometidos pelos possessos, em particular os pecados da carne.  Entretanto não é sempre assim. Um endemoniado não é necessariamente culpado. Algumas vezes, Deus permite esse estado para ressaltar sua glória pela intervenção ostensiva de seu poder absoluto (cf. Jo 9, 1-8), ou para provar os possessos.

São Boaventura explica que Deus permite a possessão “seja em vista de manifestar sua glória, obrigando o demônio pela boca possesso a confessar, por exemplo, a divindade de Cristo, seja para punição do pecado, seja para nossa instrução. Mas, por qual dessas causas precisamente ele deixa o demônio possuir um homem, é o  que escapa à sagacidade humana: os julgamentos de Deus são escodidos aos homens. O que é certo, é que eles são sempre justos” (In 2dum Sent. dist. VIII. part II. q. 1 art único apud L. ROURE, Possession Diabolique., col. 2644.)

O caráter espetacular da possessão acaba por apresentar um efeito apologético e ascético benéfico, pois torna patente e quase visível a existência do Espírito das trevas.

 Esta é uma das razões pelas quais Deus permite a possessão diabólica, pois obriga o Maligno a agir como que a descoberto, dando mostras públicas da sua maldade, do seu ódio contra o homem e a criação.


Práticas supersticiosas, espiritismo, macumba

Não devemos esquecer, entre as causas das infestações e da possessão, as práticas supersticiosas, o recurso a magos, pais-de-santo, cartomantes, adivinhos, etc.


"O demônio, quando um homem colabora com ele em práticas superti ciosas, facilmente exerce sobre esse indivíduo a mais cruel e implacável tirania” — observa o Cardeal Lepicier. Ele chama a atenção para as práticas espíritas: “Não pode haver dúvida de que atuar como médium é o mesmo que expor-se aos perigos da obsessão diabólica ... Recorrer a um médium é, pois, equivalente a cooperar na obsessão de uma pessoa”.
(Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 222-223.
)

Uma das causas muito comuns da ação extraordinária do demônio sobre pessoas é o malefício, a respeito do qual falaremos adiante.

O Pe. Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma, afirma que oscasos mais difíceis de infestação e de possessão diabólica que ele tem encontrado são os resultantes de macumbas realizadas no Brasil e na África. (Cf. G. AMORTH, Un  esocista racconta, pp. 116 e 157.)

Existem ainda casos de possessão voluntária, em que a pessoa que recorreu ao diabo e fez um pacto com ele pode agir como um instrumento do Maligno para levar avante os desígnios dele. A figura típica do médium de Satanás, foi Hitler, segundo julga o teólogo e demonólogo beneditino austríaco Dom Aloïs Mager.("Não há nenhuma outra definição mais breve, mais precisa, mais adaptada à natureza de Hitler que esta tão absolutamente expressiva: Medium de Satã” (D. Aloïs MAGER O.S.B., Satan de nos jours, p. 639).)  Poderiam ser mencionadas igualmente as figuras sinistras de Lenin, Stalin, e tantos outros...

Freqüência da possessão

Após o estabelecimento da Igreja, o número dos demoníados diminuiu, de muito, nas nações tomadas cristãs. E que, pelo Batismo e demais Sacramentos, os fiéis são preservados desses ataques sensíveis do demônio. Este perdeu seu império, mesmo sobre aqueles que, embora batizados, vivem de maneira pouco conforme com à Fé de seu Batismo. Membros da Igreja, embora membros mortos, eles encontram nessa união, entretanto imperfeita, ao Corpo Místico de Cristo, um socorro em geral suficiente para que o demônio não possa apoderar-se deles, como faria, se se tratasse de pagãos.

“Entretanto — observa o Pe. Ortolan — não somente nas regiões que não receberam o Evangelho, mas também naqueles em que a Igreja está estabelecida, encontram-se ainda demoníacos. Seu número aumenta na proporção do grau de apostasia das nações que, outrora católicas, abandonam pouco a pouco a Fé, e retornam ao paganismo teórico e prático” (T. ORTOLAN, Demoniaque, col.410.)

Para avaliarmos corretamente a presença e atuação do demônio no mundo atual é preciso considerar que o estado de apostasia a que se referia o Pe. Ortolan há mais de quarenta anos — chegou em nossos dias a um grau inimaginável. E que, mais ainda do que os casos de possessão, o número dos infestados é sem conta.

Possessão diabólica:
o diagnóstico

"Para estabelecer a realidade
de uma possessão, um único método
é válido: provar a presença dos sinais
indicados no Ritual Romano”.

(Dom Louis de Cooman,
Bispo-missionário e exorcista)

Estados patológicos e possessão diabólica

Problema complexo

Um dos problemas mais complexos colocados pela ação diabólica extraordinária sobre o homem é o seu diagnóstico. A questão consiste em saber quando estamos realmente em presença de uma ação preternatural (isto é, provocada por anjos ou demônios) ou diante meras manifestações de morbidez, ou de outro gênero, por certo incomuns, mas que não escapam ao âmbito dos fenômenos naturais da alçada da Medicina e outras ciências.


Nem sempre é fácil distinguir entre as infestações e possessões demoniácas e certos fenômenos de natureza mórbida, pois é sabido que inúmeros distúrbios patológicos, especialmente de caráter neuro-psiquiátrico, provocam estados de extrema agitação, decuplicam as forças físicas, provocam fobias em relação às coisas sacras, etc. Em resumo, fazem o pobre doente parecer um possesso.

É o que faz notar o Cardeal Alexis Henri Marie Lépicier, O.SM.:

Sabemos que em algumas pessoas a imaginação, estando fora do normal, pode ultrapassar os seus naturais limites e ser a origem de manifestações estranhas que, à primeira vista, apresentam uma certa afinidade com ocorrências preternaturais [isto é, produzidas por anjos ou demônios]. ... Todos nós sabemos quantas perturbações pode causar uma doença nervosa em certas criaturas, como, por exemplo, nas que sofrem de histeria. Há, de fato, nas ações destes indivíduos muitas coisas que causam admiração. ... Mas é principalmente nos períodos de paroxismo que a histeria está mais apta a exibir muitos e curiosos fenômenos, o principal dos quais é a alucinação.


“Toda gente vê, portanto, a necessidade imperiosa de estabelecer a distinção entre estes fenômenos e os que são devidos a causas preternaturais” (Card. A. LEPICIER, O Mundo invisível, p. 201.)


Outras vezes, são fenômenos da natureza, insuficientemente explicados pelos cientistas, ou simplesmente fora de alcance de pessoas sem formação especializada: luminosidades, movimentos de massas de ar, variações térmicas, etc., os quais podem parecer fenômenos maravilhosos provocados por ação diabólica.

Objetividade e rigor científico


Mons. F. X. Maquart — renomado estudioso da matéria - compara o diagnóstico do exorcista ao diagnóstico médico.

O exorcista deve proceder com a mesma objetividade, o mesmo rigor que o exame do médico, de modo a não deixar fora do exame nenhuma das manifestações apresentadas pelo comportamento do paciente, evitando com isso deixar-se levar pela impressão, que pode ser enganosa. Esse exame crítico tem por finalidade eliminar alguma possível explicação natural observável na presumida manifestação diabólica.

Mons. Maquart explica que um certo número de sintomas da possessão são comuns com os de algumas doenças como a psicastenia, a histeria, algumas formas de epilepsia, etc. Como fazer para discernir então entre um simples doente mental e um possesso pelo demônio? Entram em jogo os outros sinais da possessão, que não têm explicação natural: falar línguas estrangeiras não aprendidas,  conhecer fatos à distância, revelar ciência ou força física muito em desproporção com a idade, etc. ( Cf. F. X. MAQUART. L´Exorciste devant les manifestations diaboliques, pp. 338-339.)

Essa posição exige, ao mesmo tempo, muita objetividade e bom senso, ao lado de muita fé. Pois, como é evidente, não se pode, sob pretexto de que o extranatural é uma exceção, negar em princípio toda a ação demoníaca, ou proceder de tal forma como se sempre se tivesse que encontrar, a qualquer preço, uma explicação natural.

Perigos de um diagnóstico errado

Um diagnóstico errado não é isento de perigos, tanto de ordem moral e espiritual, como até mesmo física.

Em primeiro lugar, a prática de exorcismos em simples doentes mentais, sem que estes, obviamente, experimentem qualquer melhora, pode conduzir ao descrédito em relação aos mesmos exorcismo e às coisas sagradas de modo geral. Pode ainda oferecer argumentos aos céticos, que se aproveitarão para tachar a prática dos exorcismos como puramente supersticiosa.

Além do mais, a prática dos exorcismos solenes representa para o exorcista um desgaste muito grande, o qual seria sem fruto em caso de erro de diagnóstico.

Por fim, o exorcizar doentes mentais oferece o perigo de agravar seus males, seja pela grande tensão e esforço mental e até físico que o exorcismo comporta, seja pelo caráter impressionante deste.

É o que afirma Mons. Maquart, experimentado demonólogo francês:  “Não seria sem inconvenientes graves exorcizar, sob simples aparências de possessão, doentes mentais. Em vez de os curar, o exorcismo teria o risco de agravar seu mal”. (Mgr F. X. MAQUART, L ‘Exorciste devam les manjfestations diaboliques, p. 328.)

O mesmo assegura Dom Gustavo Waffelaert (Bispo de Bruges): "Há inconveniente real em exorcizar uma pessoa não possessa. Por ela, antes de tudo; pois o exorcismo, pela forte impressão que produz, pode afetar desfavoravelmente um sistema nervoso já perturbado e acabar de o arruinar; ele é também um poderoso meio de sugestão e arrisca desenvolver, num indivíduo fraco, hábitos mórbidos. Além do que, não se tem o direito de empregar, sem motivo grave, as orações sagradas do Ritual: é preciso que elas tenham um objeto. Dessa forma, a Igreja, para pemitir o exorcismo, requer a prudência e um julgamento moralmente certo ou ao menos provável da possessão” . (Mgr G. 3. WAFFELAERT, Possession Diabolique. col. 55.)

Em muitos lugares — como nas dioceses de Roma e Veneza - os exorcistas trabalham sempre em estreita união com psiquiatras católicos, os quais os ajudam a distinguir meros doentes de eventuais possessos; por seu lado, esses profissionais, muitas vezes, recorrem aos serviços dos exorcistas, quando percebem em seus clientes sinais que ultrapassam os limites da Medicina.

Na realidade, certas manifestações, à primeira vista patológicas, podem esconder a ação do Maligno. Por isso o médico católico não deve excluir sem mais a possibilidade dessa ação, conforme observa Mons. Catherinet: “O médico que quiser manter-se um homem completo, sobretudo se ele possuir as luzes da fé, não excluirá, a priori, a presença do demônio, podendo, em certos casos, suspeitar, por trás da doença, a presença e a ação de alguma força oculta (cujo estudo ele pedirá ao filósofo ou ao teólogo, os quais se guiam segundo seus próprios métodos). (Mgr F. M. CATHERJNET. Les Demoniaques dons l Évangile, pp. 324-32.)

Critérios seguros

A Igreja nunca negou essa dificuldade de diagnóstico da possessão; ao contrário, sempre foi muito cautelosa no pronunciar-se sobre os casos concretos, recomendando que na avaliação de cada um deles se examine com muito cuidado se o fenômeno pode ter uma origem natural. Só depois de diligente e acurado exame, e de descartadas todas as possibilidades de explicação natural, é que a Igreja autoriza a proceder aos exorcismos solenes sobre os possessos. Para garantir tal rigor de procedimento, a Igreja estabeleceu que esses exorcismos só podem ser praticados por sacerdotes devidamente autorizados pelo Ordinário do lugar para cada caso concreto; bispo não pode dar essa autorização senão a um padre de conhecida ciência, prudência, piedade e integridade de vida. (Cf. Código de Direita Canônico, cânon 1172 § § 1 e 2.)

Dom Louis de Cooman, antigo Vigário Apostólico no Vietnã ( ele próprio exorcista em um caso famoso de possessão coletiva, que será relatado adiante), dá o único critério que considera seguro para se determinar se há ou não possessão: “Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais clássicos indicados pela Igreja no Ritual Romano” (Mgr Louis de COOMAN, Le Diable au Couvent, p. 12.)

O Ritual Romano (que data do século XVI) estabeleceu, para orientar exorcistas, os seguintes indícios por parte do suposto possesso:

1. Falar ou compreender línguas estrangeiras sem tê-las antes aprendido;
2. Revelar coisas secretas ou distantes;
3. Manifestar força física acima de sua idade e condição;
4. E outras manifestações do mesmo gênero, que quanto mais numerosas forem, mais constituem indícios. (
Rituale Romanum, Tit. XI, Cap. 1, n. 3.)

Se certas manifestações (como, por exemplo, demonstrar uma força extraordinária, dar uivos animalescos, gritar blasfêmias ou palavrões) podem ser causadas por uma doença, a revelação de pensamentos ocultos ou o conhecimento de coisas que se passam à distância já não podem ter a mesma explicação.


Hoje em dia muitas pessoas (infelizmente até sacerdotes) pretendem negar, senão doutrinariamente, ao menos na prática, toda possibilidade de possessão ou infestação diabólica, apresentando explicações pseudo-cientificas em nome da
Parapsicologia.


A esse respeito observa Mons. Louis Cristiani: querer dar uma explicação natural às manifestações demoníacas pela Parapsicologia é explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda...]

IV - A LUTA CONTRA O PODER DAS TREVAS


DEPOIS DE TERMOS ESTUDADO a atividade demoníaca ordinária (a tentação) e a atividade extraordinária (infestação pessoal e a local, possessão), de ter visto os critérios para o diagnóstico dessas manifestações, parece-nos indispensável dar aqui os meios que temos para fazer face às investidas diabólicas.


O homen não está desarmado diante do poder das trevas. Ele dispõe de armas sobrenaturais e também naturais com que enfrentar as investidas diabólicas.

Primeiramente, cabe ver de que meios preventivos dispomos; ou seja, como fazer para evitar, tanto quanto está em nós, as investidas do demônio. A seguir, quais os meios terapêuticos á nossa disposição, para nos curarmos, caso nos ocorra sermos atingidos por tais investidas.


Esses meios podem ser chamados remédios, porque a ação demoníaca provoca em nós distúrbios que não são menos incômodos que as enfermidades do corpo. E assim como as doenças do corpo podem conduzir à morte física, a atuação do demônio visa produzir a morte da alma.

Remédios gerais, preventivos e liberativos


“E não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal”.

(Mt 6, 13)


NA LUTA CONTRA a atividade demoníaca ordinária (tentações) e extraordinária (infestação local, infestação pessoal sessão e possessão), os autores recomendam, em primeiro lugar, os remédios gerais oferecidos pela Igreja.


Práticas religiosas e devocionais

 
Oração e penitência; sacramentos e sacramentais


Antes de qualquer outro, vem o grande remédio indicado pelo próprio Salvador, como o único capaz de vencer certa casta de demônios — a oração e o jejum, acompanhados por aquela fé que move as montanhas (cf. Mt 17, 14-20).


A oração por excelência é aquela que o próprio Cristo ensinou quando seus discípulos Lhe pediram: “Senhor, ensina-nos a rezar" — o Pai-Nosso (Lc 11, 1-4; Mt 6,9-13).


Nas duas últimas petições, rogamos ao Pai celeste que nos dê forças para resistir aos assédios da carne, do mundo e do demônio: “Não nos deixeis cair em tentação"; e que nos livre do mal, do supremo mal — o pecado; e de seu instigador — o demônio: livrai-nos do mal” ou “livrai-nos do Maligno”.* A liturgia em várias cerimônias recita o Pai-Nosso, todo ou, apenas essas duas petições.  É recitado por inteiro nos exorcismos solenes sobre possessos.

* Os especialistas explicam que, no texto grego dos Evangelhos, podemos entender essa petição tanto no sentido de sermos livres do mal, como do autor do mal, o Maligno, o demônio. “De fato, as duas interpretações não se excluem — comenta o P. Jean Carmignac - uma vez que o fim do demônio é o pecado e o pecado tem o demônio por instigador.  Contudo, segundo as diretrizes de Cristo, devemos pedir o afastamento não somente do pecado, mas sobretudo do demônio” (Abbé Jean CARMIGNAC, Á l´écoute du Notre Père, Éditions de Paris, 1971, p. 87; no mesmo sentido, J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´action de Satan en ce monde, p. 496, nota 5).


Depois vem a Ave-Maria — louvor da Mãe de Jesus, a qual, por sua imaculada Conceição, esmaga para sempre a cabeça da antiga serpente.  É igualmente recitada nos exorcismos sobre possessos.


Por fim, o CredoCreio em Deus Pai — solene profissão de fé católica, que infunde especial terror ao demônio; também é recitado nos exorcismos sobre possessos.

Junto com a oração e a penitência, é indispensável a freqüência aos sacramentos, sobretudo da Confissão e da Comunhão; assim como o uso de sacramentais (como a água-benta e o Agnus Dei) e de objetos bentos (velas, escapulários, imagens, cruzes, medalhas - particularmente a Medalha Milagrosa e a medalha-cruz exorcística de São Bento).

Devemos lembrar também o poder do Sinal da Cruz para afugentar o demônio: o símbolo de nossa Redenção, que destruiu seu reino, causa-lhe particular terror; o demônio foge... como o diabo da cruz...— segundo o dito popular.


Além das quatro cruzes que se fazem no Sinal da Cruz, as próprias palavras pronunciadas são de natureza
exorcística deprecatória: "Pelo sinal (+) da Santa Cruz, livrai-nos Deus (+) Nosso Senhor, dos nossos (+) inimigos. Em nome do Pai, e do Filho, (+) e do Espírito Santo. Amém."


Por isso devemos fazer o Sinal da Cruz nas mais diversas ocasiões: ao levantar e ao deitar, antes das refeições, ao sair de casa, nas viagens, antes de tomar alguma resolução, etc.

A água-benta é feita expressamente para afastar dos lugares e das sobre as quais é aspergida “todo o poder do inimigo e o próprio inimigo com seus anjos apóstatas” conforme se lê no Ritual Romano. (Rituale Romanum, tit. VIII, c. 2. ).  São numerosas no mesmo Ritual as bênçãos, orações e cerimônias com o mesmo fim, aplicadas a objetos e lugares diversos, as quais contém a mesma fórmula deprecatória contra Satanás.

A confissão: mais forte que o exorcismo

Convém insistir na confissão freqüente — apesar das dificuldades que hoje se apresentam para essa prática sacramental - pelo empenho dos teólogos e dos exorcistas quanto à sua eficácia.

O exorcista da arquidiocese de Veneza, Pe. Pellegrino Emetti, da Ordem de São Bento, enfatiza: “O sacramento da Confissão, nós o sabemos, é a segunda tábua de salvação depois do Batismo. ... A experiência ensina que dificilmente Satanás consegue penetrar em uma alma que se lava freqüentemente com o Sangue preciosíssirno de Jesus. Este sangue torna-se a verdadeira couraça contra a qual Satanás pode forçar, porém não consegue abrir nenhuma brecha.  A freqüência assídua e constante desse sacramento é necessária, seja para quem faz o exorcismo, seja para quem dele tem necessidade. Estou certo, por urna longa experiência, que o sacerdote deveria lavar a sua alma no sangue de Jesus até mesmo diariamente, se quiser lutar juntamente com Jesus contra Satanás, e sair vitorioso. É verdadeiramente este o sacramento do qual Satanás tem medo ... Cristo venceu Satanás com o próprio Sangue. E o Apocalipse explicitamente nos diz: "Estes são aqueles que venceram Satanás com o Sangue do Cordeiro “. (D. P. ERNETTI O.S.B., La Catechesi di Satana, p. 251.)


É igualmente taxativo o Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma: “Muitas vezes escrevi que se causa muito mais raiva ao demônio confessando-se, ou seja, arrancando do demônio a alma, do que  exorcizando e arrancando-lhe assim o corpo. ... A confissão é mais forte que o exorcismo “. (G. AMORTH, Un esorcista racconta, pp. 63 e 86.)

Desprezo soberano ao demônio


A esses meios, os santos e autores espirituais acrescentam o desprezo soberano ao demônio.

Ouçamos Santa Teresa: “É muito freqüente que esses espíritos malditos me atormentem; mas eles me inspiram muito pouco medo, porque, eu o vejo bem, eles não podem sequer se mexer sem a permissão Deus... Que se saiba bem: todas as vezes que nós desprezamos os demônios, eles perdem sua força e a alma adquire sobre eles mais domínio... Verem-se desprezados por seres mais fracos, é, com efeito,  uma rude humilhação para esses soberbos. Ora, como dissemos apoiados humildemente em Deus, nós temos o direito e o dever de os desprezar: Se Deus está conosco, quem será contra nós? Eles podem latir, mas não podem nos morder, senão no caso em que — seja por imprudência, seja por orgulho — nos colocaremos em seu poder”. (Apud Ad.  TANQUEREY - Jean GAUTIER, Abrégé de Théologie Ascétique et Mystique, p. 112.)

É evidente que não devemos confundir esse desprezo ao demônio com a vã pretensão de que, por nós mesmos, temos algum poder sobre os anjos decaídos. Por natureza não temos nenhum poder sobre eles; pelo contrário, por sua natureza superior, eles é que podem ter domínio sobre nós. A base desse desprezo salutar dos inimigos infernais tem de ser a mais perfeita humildade e a confiança verdadeira e não temerária no Criador, na Santíssima Virgem. Tomados esses cuidados, convém fazer o que a grande Santa Teresa indica com tanta propriedade.


Sobretudo, devemos nos esforçar por ter uma vida de piedade séria e autêntica,  sem superstições nem sentimentalismos. Isto manterá o demônio distante de nós, o quanto é possível.

Fortalecimento da inteligência e da vontade

Um grande meio preventivo na luta contra o demônio é o fortalecimento de nossa inteligência e de nossa vontade.

Com efeito, a principal defesa de ordem natural que temos contra as investidas dos espíritos malignos é a inviolabilidade dessas faculdades superiores, as quais mais nos assemelham a Deus. Na medida em que permitimos seu enfraquecimento, estamos nos colocando á mercê de Satanás e seus seqüazes. Pois o demônio tem lucrado tanto com o enlouquecimento geral a que estamos assistindo em nossos dias, que é o caso de perguntar se não é ele quem o está provocando.

Sem o consentimento da vontade humana, nenhua ação externa — quer da parte dos anjos, quer dos demônios — pode surtir o seu efeito: nenhum anjo pode constranger o homem a uma ação boa e nenhum demônio o pode fazer pecar.

Deus dotou o homem de vontade livre, dom natural inapreciável, que lhe permite decidir se acolhe ou não as boas inspirações, se cede ou não às tentações, por mais que estas possam ser apresentadas com grande habilidade e astúcia, comprometendo a fantasia, ou com veemência, exacerbando as paixões e os instintos. O homem não é mero objeto passivo de disputa entre os anjos e os demônios, nem simples espectador inerte, mas um sujeito eminentemente ativo e operante.

Os autores costumam ressaltar os perigos de uma pretensa mística, que conduz ao abandono voluntário da inteligência e da vontade.


É certo que Deus nos pode conceder a graça excecional da contemplação passiva dos místicos; isso, porém, só acontece por uma eleição gratuita exclusiva de Deus, sem cooperação de nossa parte, a não ser uma humilde prontidão em fundir inteiramente a nossa vontade com a divina, unindo-nos misticamente com Deus.

Se, entretanto, procuramos culpavelmente provocar em nós mesmos essa passividade da vontade (por exemplo, por meio do hipnotismo, do transe, do uso de estupefacientes e narcóticos de vários tipos, de técnicas corporais ou espirituais), podemos nos transferir ao mundo do pretersensível, como acontece no sono e na contemplação mística; mas esse estado, ao invés de nos elevar nas vias luminosas dos êxtases, pode arrastar-nos para baixo, rumo a escuros abismos, onde não encontraremos anjos e sim demônios, que nos tratarão como presas sem vontade, podendo levar-nos à possessão.

De onde o perigo de certas escolas ou correntes que se apresentam como meras técnicas de meditação, de concentração espiritual ou coisa parecida, as quais, infelizmente, têm encontrado aceitação até mesmo em setores e movimentos católicos. (Escrevem Noldin-Schmitt: “As Gnoses modernas que seguem teósofos e antropósofos e as técnicas de meditação e concentração hinduístas (ioga, budismo), que buscam conhec er ordens superiores não estão isentas de influxo demoníaco, especialmente quando diretamente buscados” (H. NOLDIN-A. SCHMITT, Summa Theologiae Moralis, II, nn, 1 48ss, pp 138-155).)

Evitar toda superstição, refrear a vã curiosidade,


Por fim, é preciso evitar qualquer forma de superstição, de curiosidade malsã e às vezes mórbida com relação ao mundo do Além.

Aquilo que Deus quis que soubéssemos a esse respeito, Ele, em sua bondade e misericórdia, revelou aos homens e colocou essa Revelação sob a guarda e a interpretação da Santa Igreja. E aí que devemos procurá-la, de acordo com nossas capacidades, e não nas falácias de advinhos e de médiuns, com risco de entrar em promiscuidade com os espíritos infernais.

Quanto ao nosso futuro imediato, terreno, também devemos respeitar o mistério no qual Deus o mantém envolto. Podemos rezar pedindo-Lhe que nos esclareça algo, se essa for a Sua vontade e se isso for 
útil para nossa eterna salvação. Porém, ir mais longe é correr o risco de cair em superstição e assim ficarmos expostos ao demônio, como também faltar com a confiança em Deus, que sabe melhor do que nós o que nos convém conhecer. Devemos antes agradecer-Lhe por nos poupar tantas angústias, escondendo-nos hoje os males e preocupações de amanhã. Como disse o Salvador:"A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34).

Exorcismo: aspectos históricos


“Se eu, porém, lanço fora os demônios pela virtude do 

Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus".

(Mt 12, 28)

 OS EXORCISMOS constituem a grande arma (ou remédio específico) da Igreja e dos fiéis contra a ação extraordinária do demônio — isto é, a infestação e a possessão. Para melhor compreender o que são os exorcismos convém estudar sua origem, natureza e história.

O poder exorcístico, sinal do Reino de Deus


Jesus dá como característica do Reino de Deus por Ele fundado a expulsão de satanás e dos seus demônios, e transmite este carisma exorcístico aos seus Apóstolos, à sua Igreja.

Aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente  chegou a vós o reino de Deus” (Lc 11, 20 ).


Após a Ressurreição, pouco antes de subir aos Céus, Nosso Senhor enviou os Apóstolos pregar o Evangelho por todo e fez a seguinte promessa: “E eis os milagres que acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome...”(Mc 16, 17).

O Salvador destruiu as obras diabólicas, triunfou sobre Satanás e, com a humilhação levada até a própria morte na cruz, mereceu um nome superior a qualquer outro nome, por cuja invocação todos os joelhos se dobram, seja dos seres celestes, terrestres ou infernais: 

 " Deus o exaltou (a Jesus) e lhe deu um nome que está acima de todo o nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no céu, na terra e no inferno” (Filip 2, 9-10).


"Santo e terrível é o seu nome!"
— exclamara profeticamente o Salmista (Sl 110,9).

Ao comunicar depois o poder exorcístico, Jesus recordou expressamente que a eficácia dele provém, de um modo todo especial, da utilização do Seu nome (cf. Mc 16, 17); de modo que invocá-Lo sobre os endemoniados equivale a esconjurá-los e libertar a pessoa pela mesma virtude de Cristo.

Santos Padres repetidamente exaltam a potência de um tal remédio. São Justino, por exemplo, nos diz: “Invoquemos o Senhor, de cujo simples nome os demônios temem a potência; e ainda hoje esconjurados em nome de Jesus Cristo... se submetem a nós ... Todo demônio esconjurado no nome do Filho de Deus ... permanece vencido e atado”. (Apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p. 86.)

O ministério exorcístico de Jesus e dos Apóstolos

A libertação dos possessos ocupa um lugar tão saliente na vida pública do Salvador que os Evangelistas, de tempos em tempos, resumem seu ministério por frases como as seguintes: “E caindo a tarde, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio... e Ele expulsava numerosos demônios... Ele pregava nas sinagogas em toda a Galiléia, e expulsava os demônios” (Mc 1, 32-34; 39) “Apresentavam-lhes todos os que estavam doentes..., e os possuídos do demônio, e Ele os curava” (Mt 4, 23-24). “Jesus curava muitas pessoas que tinham doenças e espíritos malignos” (Lc 7, 21).  Acompanhavam o Mestre “algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de doenças, entre elas Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 2). O próprio Jesus sintetiza as várias formas de sua atividade do modo seguinte: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32). São Pedro repete a mesma idéia ao resumir a vida do Mestre para o centurião Cornélio: “Ele passou fazendo o bem e curando todos os que estavam sob o império do diabo” (At 10, 38).*

O tom imperativo, as fórmulas de um laconismo autori absoluto que não admite réplica, com que Jesus se dirigia mônios, e a prontidão com que estes obedeciam sem sombra sisténcia, indicavam bem que Ele falava “como quem tinha dade” (Mc 1,22), como Deus e Senhor.Já em sua vida terrena o Salvador, associando os Após Discípulos ao seu ministério de evangelização, conferiu-lhes mente o poder sobre os demônios. Em primeiro lugar, ao Apóstolos: “E, convocados os seus doze discípulos, deu-lhe poder sobre os espíritos imundos para os expelirem” (Mt 10, 6, 7; Lc 9, 1). E, logo depois, aos Setenta Discípulos: “E os (discípulos) voltaram alegres, dizendo: Senhor, até os denzôi nos submetem em virtude de teu nome” (Lc 10, 17).
Depois da Ascensão, vemos os Apóstolos e Discípulos e rem esse ministério exorcístico. Assim, São Paulo expulsa o nio de uma mulher em Filipos, cidade da Macedônia, dizei espírito imundo: “Ordeno-te, em nome de Jesus, que saias (mulher). E ele, na mesma hora, saiu” (At 16, 18). Era tal a força do exorcismo em nome de Jesus, que exorcistas judeus quiseram imitar os Apóstolos e Discípulos. ocorreu com os filhos de Ceva, príncipe dos sacerdotes, na de Efeso. Tendo invocado sobre um possesso o nome “de .i quem Paulo prega ‘Ç o espírito maligno os interpelou pela b possesso: “Eu conheço Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, sois?” E o energúmeno, atirando-se sobre dois deles, agarrou-os e "maltratou-os de tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa" (At 19, 13-16).

* Além dessas referências gerais, os Evangelhos relatam sete casos especiais de expulsão do demônio por Jesus: 1º o endemoniado de Cafarnaum (Mc 1,21-28; Le 4. 31-37); 2º um possesso surdo-do-mudo, cuja libertação deu lugar à blasfêmia dos fariseus (Mt 12, 22-23; Lc 11,14); 3° os endemononiados de Gerasa (Mt 8, 28-34; Mc 5, 1-20; Lc 8, 26-39); 4º o possesso mudo (Mt 9,32-34); 5º a filha da Cananéia (Mt 15, 21-28; Mc 21-20 ); 6º o jovem lunático (Mt 17, 14-20; Mc 9,13-28; Lc 9,37-44); 7° a mulher paralítica (Lc 13, 10-17).

O poder exorcístico dos Apóstolos se manifestava não só por sua ação direta, mas também através de objetos neles tocados: “E Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo; de tal modo que até sendo aplicados aos enfermos lenços e aventais que tinham sido tocados no seu corpo, não só saíam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam” (At 19, 11-12).

Esse poder sobre o demônio, Jesus o comunicou a todos os seus seguidores, de modo geral, e à sua Igreja, de modo particular.

Na Igreja primitiva

Nos primeiros séculos da Igreja, o poder exorcístico carismático cpncedido por Jesus aos Apóstolos e aos Discípulos (Mt 10, 1 e 8; Mc 3, 14-15; Mt 6,7; 10, 17-20), e prometido mais tarde, antes da Ascensão, a todos os cristãos (Mc 16, 17), era muito difundido inclusive entre os simples fiéis, por um desíginio particular da Divina Providência, que assim facilitar nos inícios a difusão da fé cristã.

Todos os cristãos, clérigos ou simples fiéis, expulsavam os demônios; o fato era tão generalizado, que constituía até um argumento utilizado pelos apologistas para provar a divindade do Cristianismo.

Os testemunhos são numerosos nos Santos Padres e escritores eclesiásticos, tanto ocidentais como orientais.


Com o correr do tempo e estabelecida já a Igreja, esse poder exorcístico carismático foi diminuindo, porém não desapareceu totalmente da Igreja, como o testemunham a vida dos santos e as crônicas missionárias. Em todas as épocas houve servos de Deus que pela sua simples presença ou pelo contato de algum objeto que lhes  pertencia, ou ainda por intermédio de qualquer relíquia sua, muitas vezes expulsaram os demônios, ou dos corpos que eles molestavam, ou dos lugares por eles infestados.

A figura do exorcista

Exorcista (do grego eksorkistés) é aquele que pratica exorcismos sobre pessoas ou lugares que se acredita estarem submetidos a algum influxo ou ação extraordinária do demônio; em outros termos, é aquele que, em nome de Deus, impõe ao demônio que cesse de exercer influxos maléficos em um lugar ou sobre determinadas pessoas ou coisas. Em um sentido mais estrito, a palavra exorcista, na praxe recente da Igreja latina (até 1972), indicava quem havia recebido a ordem menor do exorcistado, que conferia o poder de expulsar os demônios, ou seja, de realizar exorcismos.

Atualmente, chama-se Exorcista o sacerdote que recebe do bispo a incumbência e a faculdade de fazer exorcismos sobre possessos. Ele só pode usar dessa faculdade de acordo com as normas estabelecidas, as quais serão vistas adiante. Muitas dioceses têm pelo menos um exorcista permanente; em outras, o bispo nomeia exorcistas conforme ocorram os casos em que sua intervenção se faz necessária.

Nos primeiros séculos, sendo muito difundido na Igreja, mesmo entre os simples fiéis, o poder carismático de expulsar os demônios, não havia uma disciplina especial para os exorcismos sobre os endemoniados, nem uma categoria especial de pessoas eclesiásticas incumbidas de praticá-los em nome da Igreja.

Desde cedo, porém, se estabeleceu um cerimonial para os exorcismos batismais — isto é, aqueles que se procediam sobre os catecúmenos, como preparação para o Batismo; e logo se constituiu uma classe particular de pessoas para proceder a eles. Era a ordem menor dos exorcistas que surgia na Igreja latina, com a incumbência, num primeiro momento, de realizar apenas os exorcismos batismais, e não aqueles sobre os possessos, os quais, como ficou dito, eram feitos por qualquer fiel, sem mandato especial.

Com o passar do tempo e com a consolidação e expansão da Igreja, a freqüência do poder exorcístico carismático foi diminuído, se bem que de forma desigual conforme os lugares; os fiéis se voltaram então, nos casos de infestação ou possessão demoníaca,  para as pessoas revestidas do poder de ordem — isto é, os diáconos,  os sacerdotes e os bispos — e igualmente, como era natural. exorcistas dos catecúmenos.

A Igreja sancionou essa prática com o seu poder ordinário, conferindo a tais exorcistas também a faculdade e o poder de exorcizar possessos.

Entretanto, devido à dificuldade no diagnosticar a possessão, bem como por causa da delicadeza e importância de um tal oficio, a Igreja foi limitando pouco a pouco o exercício desse poder a um número restrito de pessoas. Uma carta do Papa Santo Inocêncio I a Decêncio , bispo de Gubbio (Itália), do ano de 416, supõe já que os exorcismos sobre possessos eram feitos em Roma unicamente por sacerdotes ou diáconos que para isso tinham recebido autorização episcopal.

O exorcistado passará a ser considerado desde então somente como um dentre os vários graus através do qual o futuro sacerdote se preparava para as ordens maiores. Embora essa ordem menor concedesse sempre um poder efetivo sobre Satanás, o exercício desse poder ficava ligado a outros requisitos.

Essa disciplina, estabelecida pelo menos desde o século V, foi prevalecendo com o tempo em toda a Igreja do Ocidente, até tornar-se norma universal, e assim chegou até os nossos dias com o Código de Direito Canônico de 1917 (cânon 1151) e o novo Código de 1983 (cânon 1172), os quais mantiveram a reserva dos exorcismos sobre possessos unicamente a sacerdotes delegados para tal respectivo Ordinário, o qual deve considerar neles especiais dotes de virtude e ciência.

Quanto à ordem menor do exorcistado, ela confinou a existir como preparação ao sacerdócio na Igreja latina até ser completamente abolida por Paulo VI em 1972, juntamente com as demais ordens menores.

Nas Igrejas orientais, o oficio de exorcista era conhecido desde o século IV, porém não constituía uma ordem menor e seus membros não faziam parte do clero.

Exorcismo: o que é?

“Nós te elo exorcizamos, espírito imundo...
em nome e pelo poder de Jesus (+) Cristo..."

(Exorcismo contra Satanás 
e os anjos apóstatas)

OS EXORCISMOS CONSTITUEM atos insignes de fé religião e de religião, pois supõem a crença no poder soberano de Deus sobre os demônios, sendo mesmo uma aplicação prática dessa crença.


No presente capítulo aprofundaremos um pouco mais a noção de exorcismo, em que consistem, qual o seu fundamento teológico e a sua eficácia, como se dividem e sobre quem podem ser feitos.

Noção e divisão

Os exorcismos não são simples orações a Deus, á Virgem aos anjos e santos pedindo que nos livrem dos ataques do Maligno, ou graças para enfrentá-los. Isso é necessário, sem dúvida, mas constitui apenas um dos  recursos ordinários à disposição de qualquer pessoa. Os exorcismos são mais do que isso: são um ato pelo qual o exorcista, pela autoridade da Igreja ou pela força do nome de Deus, impõe ao demônio que obedeça e cesse a presença ou atuação nefasta que está exercendo sobre lugares, coisas ou pessoas.

Assim, fazem-se exorcismos sobre lugares e coisas (incluindo aí o reino vegetal e o reino animal, e também os elementos atmosféricos), com os quais se proíbe que o demônio exerça más influências sobre eles (infestação local); praticam-se igualmente exorcismos sobre pessoas atormentadas ou perturbadas pelos espíritos malignos (infestação pessoal) ou até possuídas por eles (possessão diabólica), que têm a finalidade de libertar essas pessoas das influências maléficas e do poder e domínio de Satanás.

 No caso das criaturas irracionais, a adjuração se dirige mais propriamente àquele que queremos mover; isto é, ou se dirige a Deus, a modo de súplica, para que evite que essas criaturas sirvam de instrumento do demônio; ou se dirige ao demônio, impondo-lhe que deixe ou cesse de se servir delas. E este é o sentido da adjuração da Igreja nos exorcismos e também nas bênçãos deprecatórias contra ratos, gafanhotos, vermes e outros animais nocivos.

Os exorcismos podem ser divididos segundo vários critérios. Assim, no que diz respeito à solenidade com que se fazem, os exorcismos se classificam em solenes e simples.

Os exorcismos solenes, também chamados exorcismos maiores, são àqueles feitos sobre pessoas possessas, e visam libertá-las do domínio exercido sobre elas pelo espírito do mal. Constituem o exorcismo-tipo, isto é, o que que retém o sentido mais estrito da palavra e se encontram no Ritual Romano.(Rituale Romanum, tit. XI c. 2: Ritus exorcizandi obsessos a daemonio — Rito para exorcizar os possessos pelo demônio.)

Os exorcismos simples são de dois gêneros:


a) aquele feito para impedir ou coarctar o influxo do demônio sobre as pessoas, coisas e lugares (infestação pessoal ou local), chamado Exorcismo de Leão XIII ou pequeno exorcismo, contido igualmente no Ritual; (Rituale Romanum, tit. XI c. 3:
Exorcismus in satanam et angelos apostaticos — Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas.)


b) exorcismos vários, que se efetuam nas cerimônias do Batismo solene, na bênção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, etc (encontram-se no Ritual Romano e livros litúrgicos correspondentes).

O principal critério, entretanto, para a divisão dos exorcismos é aquele referente à autoridade em nome da qual e por cujo poder se fazem.  De acordo com esse critério, os exorcismos se dividem em pública e privados, segundo sejam feitos em nome e pela autoridade da Igreja, no primeiro caso, ou em nome do próprio exorcizante, no segundo. Essa distinção é fundamental para as considerações que vêm adiante.

Origem e fundamento teológico do poder exorcístico

O homem não tem nenhum poder natural sobre os demônios uma vez que estes, embora decaídos, não perderam sua natureza angélica.  Por isso tem que recorrer, obrigatoriamente, a uma natureza superior à deles para livrar-se dos ataques e insídias dos espíritos malignos.

Por natureza, os demônios dependem exclusivamente de Deus, única natureza acima da angélica.* Só Deus tem um poder absoluto sobre todas as criaturas; portanto, só Ele pode dominar de modo absoluto sobre os demônios. Contudo, Ele pode conferir a quem desejar o poder de dominar sobre os demônios, pela virtude de Seu Nome. Por isso, a força coercitiva dos exorcismos e a garantia de sua eficácia — assim como a sua liceidade — estão em serem praticados em nome de Deus e por aqueles que dEle receberam tal poder.

*Algum anjo poderia ter uma natureza mais elevada do que a de Lúcifer; entretanto, se gundo a crença comum, Lúcifer teria sido o anjo mais elevado, naturalmente falando, estando assim, por natureza, acima de todos os demais anjos. Quanto aos outros demônios, alguns são mais elevados, outros menos, que os anjos bons, estando pois, no que se refere á pura natureza, acima ou abaixo deles. Pela graça, todos os anjos bons estão acima dos demônios — inclusive de Lúcifer — ainda que inferiores em natureza.

A quem conferiu Deus tal poder sobre os demônios?

Em primeiro lugar, Cristo conferiu à Sua Igreja, por meio dos Apóstolos, um “poder sobre os espíritos imundos para os expelir"  (Mt 10, 1; Mc 6,7; Lc 9, 1). E o que se chama poder exorcístico ordinário da Igreja.

Além disso, alguns cristãos — sacerdotes ou mesmo simples fiéis — recebem de Deus um carisma de expulsar os demônios.  É o que se chama poder exorcístico carismático.** Chama-se poder carismático aquele que deriva de um carisma. Os carismas são dons gratuitos, extraordinários e em geral transitórios, concedidos por Deus a algumas pessoas, não tanto para proveito próprio delas (embora possam contribuir para sua santificação), mas sobretudo para o bem do próximo e a edificação da Igreja. O fundamento da doutrina sobre os carismas se encontra em São Paulo (cf. 1 Cor 12, 7; Ef. 4, 12, Rom 12 6-8). Os teólogos distinguem três classes de carismas: dons de governo, dons de ensino e exortação e dons de assistência corporal.  Entre estes últimos estão os dons de cura, dos quais uma espécie é o de expulsar os demônios, o que constitui uma forma de curaPor fim, os teólogos explicam que existe um outro poder exorcístico, que tem sua origem e fundamento numa apropriação do poder exorcistico por parte de qualquer fiel, “seja motivada pela vida que Cristo Nosso Senhor obteve sobre Satanás, seja da união com Ele pela fé ao menos atual”. (Mons. C. BALDUCCI, Gli indemoniati, pp. 90-91; El diablo, p. 256.)

Com efeito, todo cristão pode fazer uso do poder exorcístico que Cristo prometeu genericamente a todos os que crerem nEle, quando disse: “E eis os milagres que acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome(Mc 16, 17). Ou então aplicar a si mesmo aquela outra promessa ainda mais ampla: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12).  Ora, entre as obras de Jesus destaca-se a expulsão dos demônios e a vitória final sobre Satanás. Finalmente, pode fazer valer para si aquele poder concedido por Nosso Senhor aos Seus seguidores: “Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano” (Lc 10, 19).

De onde poder-se indicar um tríplice título ou fundamento teológico do poder exorcístico:

1. uma concessão ordinária feita por Cristo à sua Igreja;
2. uma comunicação carismática extraordinária a alguns de seus servidores, independentemente de pertencerem ou não ao clero;
3. uma apropriação de tal poder por parte de qualquer fiel.


Dessas três vias, a primeira constitui o fundamento dos exorcismos públicos, enquanto as duas últimas fundamentam os exorcismos privados.

Daí se deduz a eficácia de uns e de outros, como veremos a seguir.

Eficácia dos exorcismos


Exorcismos públicos


Há uma diferença relevante entre os exorcismos públicos e os privados; no primeiro caso, o exorcismo será um
sacramental,* que não ocorre com os últimos.

* Por sacramentais entendem-se certas coisas sensíveis (água-benta, velas bentas, Agnus Dei, medalhas) ou certas ações (bênçãos, exorcismos, consagrações, etc.) da quais a Igreja se serve pata obter determinados efeitos especialmente espirituais. A força dos sacramentais vem do poder de intercessão da Igreja.

Enquanto sacramentais, os exorcismos públicos têm uma eficácia toda particular, que depende não só das disposições do exorcista e do paciente, mas também e principalmente da oração da Igreja, a qual tem um especial valor impetratório junto a Deus.

A eficácia dos exorcismos públicos, se bem que muito grande, não é infalível; e isto porque as orações mesmas da Igreja, segundo a economia ordinária que Deus segue no atendê-las, não têm efeito infalível; e também porque o poder da Igreja sobre os demônios não é absoluto mas condicionado ao beneplácito do poder divino, que às vezes pode ter justos motivos para retardar ou proibir a saída deles de um lugar ou de uma pessoa. Este valor condicionado, porém, não está minimamente em contradição com a forma imperativa do exorcismo, pois que a condição diz respeito à vontade divina, não à demoníaca, a qual de si, está plenamente sujeita ao poder da Igreja.

Exorcismos privados

Os exorcismos privados não constituem um sacramental como o público, isto é, não contam com a força intercessora da Igreja. Assim, a sua eficácia vem ou da força do carisma por base a fé na promessa feita pelo Salvador.

A eficácia do poder exorcístico carismático é segura, infalível, uma vez que o próprio Deus, ao conceder o carisma, garante, por meio de uma inspiração, que o uso desse carisma está conforme com os Seus desígnios, e obterá, por conseguinte, o efeito qual foi concedido.*

*Segundo os teólogos, Deus concede o dom do carisma com muita parcimônia; de modo que se deve proceder com muita prudência, antes de concluir que alguém é possuidor de algum carisma; maior prudência ainda é exigida da própria pessoa que presume ser possuidora de algum deles. Os autores de teologia ascética e mística, seguindo o ensinamento de São João da Cruz, aconselham a não se desejar nem pedir graças e dons extraordinários: deve bastar-nos a via normal; pois esses dons não são necessários para alcançar a salvação e a perfeição cristã, e até, ao contrário, por causa de nossas más inclinações, podem servir de obstáculo a elas. Por outro lado, é muito freqüente o demônio imiscuir-se nessas vias extraordinárias, de maneira que nem sempre é fácil distinguir o que vem do Espírito de Deus e o que vem do espírito das trevas.

No caso da apropriação do poder exorcístico por parte do fiel, ao contrário, a eficácia resulta inferior àquela do exorcismo público, pois falta-lhe a força impetratória da Igreja, por não constituir ele um sacramental. Em conseqüência, a eficácia do exorcismo privado não-carismático depende muito da virtude — sobretudo da fé - daquele que o pratica, condicionada sempre ao divino beneplácito.

 É preciso acentuar, como acima ficou dito, que muitas vezes os exorcismos não têm efeito, não pela falta de fé da pessoa exorcizante, ou pelo poder dos demônios, mas pelos desígnios de Deus, seja para castigo, seja para a purgação e santificação da vítima, ou por outro motivo que só Ele conhece.

A quem exorcizar?

Número infinito de infelizes atormentados pelo demônio


O Ritual Romano reserva os exorcismos solenes somente às pessoas que dêem sinais inequívocos de possessão. Mas os exorcistas ( e não só eles, também os demais sacerdotes) se deparam com casos muito mais freqüentes de pessoas que, sem estarem propriamente possessas, estão sofrendo vexações do demônio.

O Pe. Joseph de Tonquédec S.J., que por mais de vinte anos foi exorcista da arquidiocese de Paris e grande demonólogo, escrevia, já em 1948.

"A questão que vamos tratar não é do campo da psicologia ou da experiência em geral; ela é propriamente teológica.


"O que nos levou a refletir sobre ela foi a insistência de um número infinito de infelizes que, não apresentando os sinais de possessão diabólica, não se comportando como possessos, recorrem, entretanto, ao ministério do exorcista para serem libertados de suas misérias: doenças rebeldes, azar, infelicidade de toda espécie.

“Enquanto os possessos são muito raros, os pacientes dos quais falo são legião. Não seria legítimo tratá-los como possessos, uma vez que, em toda evidência, eles não o são. Por outro lado, eles não são também, sempre e necessáriamente, doentes mentais sobre os quais um tratamento psiquiátrico teria chance de dar certo...

“Em qualquer caso, estamos simplesmente em presença de infelizes de toda espécie, cujas queixas nos fazem compreender a gama dos infortúnios humanos. Tomados de pena por eles, nós nos perguntamos a que meios recorrer para os ajudar.

“Então nos vêm à lembrança certas páginas dos nossos Santos Livros, certas orações ou práticas litúrgicas que supõem a influência do demônio, presente muito além das regiões onde temos o costume de o confinar”.

O autor recomenda que nesses casos se usem os sacramentais (água-benta, sal bento), orações, bênçãos, o Exorcismo de Leão XVIII (Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas), etc. (J. de TONQUEDEC S.J., Quelques aspects dei l‘action de Satan eu ce monde, p. 493.)

Por seu lado, o exorcista da diocese de Roma, Pe. Gabriele Amorth, comenta:

“Atualmente o Ritual considera diretamente só o caso de possessão diabólica, ou seja, o caso mais grave e mais raro. Nós exorcistas nos ocupamos, na prática, de todos os casos nos quais percebemos uma intervenção satânica: os casos de infestação diabólica (que são muito mais numerosos do que os casos de possessão) , os casos de infestação pessoal, de infestação de casas e ainda outros casos nos quais temos visto a eficácia das nossas orações. ... Por exemplo, não são claros os confins entre possessos e infestados; tampouco são claros os confins entre infestados e vítimas de outros males: males físicos que podem ser causados pelo Maligno; males morais (estados habituais de pecado, sobretudo nas formas mais graves), nos quais certamente o Maligno tem sua parte. Por exemplo tenho visto às vezes vantagem em usar o exorcismo breve na ajuda ao sacramento da Confissão nas pessoas endurecidas em certos pecados, como os homossexuais. Santo Afonso, o Doutor da Igreja para a Teologia Moral, falando para os confessores, diz que antes de qualquer coisa o sacerdote deve exorcizar privadamente quando se encontra diante de algo que possa ser infestação demoníaca" (G. AMORTH, Un esorcista racconta, pp. 199-200.)


Uso freqüente dos exorcismos simples e dos exorcismos privados

Nesses casos a solução parece estar no uso mais freqüente dos exorcismos (públicos) simples (que são sacramentais e por isso têm a uma força própria, que é a da Igreja), por parte dos sacerdotes — tanto exorcistas como não-exorcistas, já que não exigem delegação especial — sobre todas essas pessoas que, sem serem possessas, são perseguidas ou influenciadas pelo demônio.

É o que recomendam os Moralistas; assim os jesuítas Pes. H. Noldin e A. Schmitt:

"Deve-se persuadir muitíssimo os ministros da Igreja a que mais freqüentemente façam uso do exorcismo simples, lembrando-se das palavras do Senhor: Em meu nome expulsarão os demônios; façam uso sobretudo sobre aqueles que sejam objeto de tentação veemente sobre penitentes nos quais percebem dificuldades em excitar a dor e os propósitos a respeito dos pecados, ou em manifestar sinceramente os seus pecados. Podem utilizar esta fórmula ou semelhantes: Eu te ordeno, em nome de Jesus, espírito imundo, que te afastes desta criatura de Deus” (H. NOLDIN S.J. - A. SCHMITT S.J. - G. HEINZEL S.J., Summa Theologiae Moralis, p. 43.)

Nada impede — como veremos — que em tais circunstâncias também os leigos pratiquem exorcismos privados, não só sobre si mesmos, mas igualmente sobre terceiros importunados pelo demônio, observadas as cautelas que adiante se dirão. Pois as palavras de Nosso Senhor lembradas acima — Em meu nome expulsarão os demônios — foram ditas a todos os fiéis.

Esse é o ensinamento também de São Tomás, citando outra passagem dos Evangelhos: “Podemos pois adjurar os demônios pelo poder do nome de Jesus, expulsando-os de nós mesmos como a inimigos declarados, a fim de evitar os danos espirituais e corporais que nos possam vir deles. Poder que nos deu o próprio Cristo: 'Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano’ (Lc 10, 19)”.
(
Suma Teológica, 2-2, q. 90, a. 2.)

Exorcismo: legislação "Sem licença peculiar e expressado Ordinário do lugar, 

ninguém pode realizar legitimamente ente 

exorcismos sobre os possessos".
(Código de Direito Canônico)


DEPOIS DE VER a noção, o fundamento teológico e a eficácia dos exorcismos, parece conveniente dar em linhas gerais a legislação atualmente em vigor sobre a matéria.


Das origens ao Código de Direito Canônico


Direito da Igreja de restringir poderes


A Igreja, detentora do poder das chaves, tem o direito de reservar aos sacerdotes certas práticas que, em si mesmas, teologicamente falando, poderiam ser realizadas também por leigos, por não exigirem o poder de ordem. Assim foi com a distribuição da Sagrada Eucaristia, que nos primeiros tempos era feita também por simples fiéis, sendo mais tarde reservada aos diáconos e sacerdotes e só recentemente voltando a ser permitida aos leigos, mediante licença do respectivo bispo.

Foi o que se deu igualmente com relação aos exorcismos sobre os possessos: nos primórdios da Igreja, quando a abundância de carismas era um fato, os fiéis expulsavam os demônios por força desses carismas, sem necessidade de recorrer aos sacerdotes e ao bispo.

Porém a partir já do século V, em vista de abusos, como também da diminuição dos carismas, ao mesmo tempo que decrescia o número de possessos pela expansão do Cristianismo, começou a reserva desses exorcismos apenas aos sacerdotes, e somente quando autorizados pelo seu bispo. Essa norma foi-se estendendo com o tempo até que, finalmente, com o Código canônico mandado elaborar por São Pio X e promulgado por Bento XV em 1917, se tornou lei universal. (Cf. Código de Direito Canônico (1917), cânon 1151 § 1.) O novo Código de Direito Canônico (1983) conservou essa norma: “Sem licença peculiar e expressa do Ordinário do lugar, ninguém pode realizar legitimamente exorcismos sobre os possessos”. (Código de Direito Canônico, cânon 1172 § 1.)

Prudência da Igreja

Mons. Maquart, demonólogo francês, ressalta a prudência da Igreja ao reservar os exorcismos solenes sobre os possessos apenas aos padres autorizados: “Diversas razões levaram a Igreja a reservar muito estritamente a prática dos exorcismos solenes. A luta do exorcista contra o demônio não está isenta de perigos morais mesmos físicos, para o padre exorcista; a Igreja não quer e não pode expor desconsideradamente seus ministros”. (Mgr F. X. MAQUART, L’exorciste devant les manifestations diaboliques, p. 328.)

Entre as razões dessa reserva dos exorcismos sobre os possessos a sacerdotes que satisfaçam a certos requisitos — com a conseqüencia proibição aos leigos — os Autores enumeram as seguintes:


a. Perigos espirituais e mesmo físicos a que o exorcista está exposto: tentações contra a fé, contra a pureza; agressões psíquicas ou mesmo físicas por parte do demônio...

b. Necessidade de grande ciência, piedade e prudência para o confronto direto com o demônio: preparo para enfrentar as falácias, sofismas e embustes do pai da mentira; para saber como conduzir o exorcismo; para certificar-se de que o demônio saiu realmente do corpo do possesso ao fim dele; e também para discernir a verdadeira possessão de outros fenômenos, até naturais, parecidos com ela, como estados mórbidos, alucinações, ilusões...

c. Risco de se profanar o Nome de Deus, tomando-O em vão na falsa possessão, sendo o exorcismo a adjuração do demônio em nome de Deus a que abandone a criatura que possui ou infesta (a obrigatoriedade de recorrer ao bispo de cada vez conduz a que os casos estudados com maior cuidado, os indícios examinados [com maior prudência).

d. Possibilidade de abusos, como exorcizar doentes mentais, com perigo de agravar seus males (pela grande tensão e esforço mental até físico que o exorcismo comporta, e pelo caráter impressionante deste); ganância (pedidos de remuneração, aceitação de presentes...); solicitações pecaminosas...

Se esses riscos existem para membros do clero (a tal ponto que a lei canônica estabelece que não sejam facultados para fazer exorcismos senão sacerdotes que tenham ciência, prudência e santidade de vida), que têm formação teológica, graça de estado, experiência pastoral, muito maiores serão para os leigos que, normalmente, não tem estudos especializados ou qualquer outro preparo.

A legislação em vigor


Exorcismos solenes sobre possessos

Embora qualquer sacerdote (e mesmo, como veremos, qualquer fiel) seja teologicamente capaz de fazer exorcismos, mesmo sobre possessos, entretanto, desde há muitos séculos, a Igreja dá a faculdade de exorcizar solenemente (isto é, de fazer exorcismos sobre possessos) só a sacerdotes distintos pela piedade e prudência, mediante uma expressa licença do Ordinário e com a obrigação de observar fielmente o disposto no Código de Direito Canônico e no Ritual Romano.

Os exorcismos sobre possessos (exorcismos solenes;), só podem ser feitos legitimamente:

a. mediante licença peculiar (para cada caso concreto) e expressa (não pode ser presumida) do Ordinário do lugar. (CIC-83 cânon 1172 § 1; CIC- 17 cânon 1151, § 1.)

b. essa licença não deve ser concedida senão a sacerdotes (não pode ser dada a leigos ou religiosos não-sacerdotes) de reconhecida piedade, prudência, ciência e integridade de vida. (CIC-83 cânon 1172 § 2; CIC-17 cânon 1151 §2.)

c. estes sacerdotes não procederão senão depois de constatar, mediante diligente e prudente investigação, que se trata realmente de um caso de possessão diabólica.(C1C- 17 cânon 1151 § 2; Ritual Romano, titulo XI, c. 1.)

d. os exorcistas observarão cuidadosamente os ritos e as formulas aprovados pela Igreja. (C1C- 83 cânon 1167 § 2; cf. CIC-17 cânon 1148 § 1; Ritual Romano, título XI, c.2.)

Os exorcismos são feitos normalmente na igreja ou em algum outro lugar pio ou religioso, salvo os casos de enfermos ou a presença de motivos graves em contrário; não, porém, diante de um público numeroso. Sempre que os exorcismos devam fazer-se sobre uma mulher é necessário que assistam a ele parentes próximos ou mulheres de honestidade exemplar; e que a vítima esteja vestida decorosamente.

No exorcizar, o ministro deve ater-se ordinariamente às fórmulas do Ritual Romano, evitando em cada caso o uso de remédios ou de práticas supersticiosas. Deve evitar absolutamente fazer perguntas não oportunas ou não adaptadas ao escopo, ou não necessárias, ou de mera curiosidade, bem como aquelas que visem a descobrir acontecimentos futuros. Por outro lado, o exorcista deve perguntar ao demônio se ele está só ou com outros espíritos malignos, qual o nome deles, o tempo do início da possessão e a causa dela.

Os exorcismos podem ser realizados não apenas sobre possessos católicos, praticantes ou não, e até excomungados, mas também sobre pessoas de outras religiões ou de todo pagãs, desde que em cada caso se tenha uma certeza moral de que se trata de verdadeiros endemoniados. (Código de Direito Canônico (1917), cânon 1152.)

Exorcismos em casos de infestação local e pessoal

No caso de infestações locais e pessoais, o Ritual Romano reserva a recitação do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, publicado por ordem de Leão XIII, aos bispos e padres autorizados pelo bispo diocesano.(Rituale Romanum, tit. XII, c.3. ) (Como simples oração, pode ser recitado por qualquer pessoa, sacerdote ou leigo, sem necessidade de nenhuma autorização especial.).

Além disso, um documento recente da Santa Sé transforma em norma disciplinar essa rubrica do Ritual, reiterando assim a proibição de os sacerdotes não autorizados pelos respectivos bispos - como também os leigos — utilizarem a referida fórmula (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Ordinários de lugar. relebrando  as normas vigentes sobre os exorcismos, 29 de setembro de 1985, in Acta Apocalipse  Sedis, An. et vol. LXXVII, 2 Decembris 1985, N. 12, pp 1169-1170.)

O mesmo documento proíbe, ainda, ao sacerdote não autorizado pelo Ordinário, a presidência de “reuniões de libertação do demônio",  nas quais se dêem ordens diretamente ao demônio, ainda que não se trate propriamente de exorcismos sobre possessos, desde que pareça haver algum influxo diabólico. (Carta cit. § 3. )

Outros exorcismos

Os exorcismos que se efetuam nas cerimônias do batismo solene, na benção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, apresentados no Ritual Romano e demais livros litúrgicos, podem ser feitos legitimamente proceder às cerimônias em que eles ocorrem (por exemplo, os catequistas e outros ministros extraordinários do Batismo, mesmo que sejam leigos e até mulheres). 

 “Somos todos exorcistas"

"Em meu nome expulsarão os demônios."
(Mc 16,17)

DO ATÉ AQUI EXPOSTO ficou claro que também os leigos podem proceder a exorcismos, pelo menos em certas circunstâncias e sob certas condições. O presente capítulo procura esclarecer qual a origem e o fundamento teológico do poder exorcístico específico dos leigos, bem como as condições em que legitima e eficazmente podem fazer uso dele.

Podem os leigos exorcizar?

Possibilidade teológica

A rigor, do ponto de vista teológico, nada impede que um leigo possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo sobre possessos. A explicação teológica já ficou insinuada acima, porém de modo fragmentário, pelo que parece oportuno aprofundá-la aqui.

Já vimos como, nos primeiros tempos, fiéis que não tinham recebido o caráter sacerdotal, nem tampouco carismas especiais, procediam aos exorcismos batismais. Esses fiéis foram incorporados ao clero, vindo a constituir a ordem menor dos exorcistas, e passando a exorcizar também possessos; com o tempo, por uma série de razões históricas e disciplinares, suas funções acabaram por ser absorvidas pelos sacerdotes, e o exorcistado, embora continuando conferir um poder efetivo sobre o demônio, ficou reduzido simples degrau para a recepção do sacerdócio, até ser abolido em 1972, junto com as demais ordens menores. Com a reforma litúrgica de Paulo VI esse ministério, relativamente aos exorcismos batismais, passou a ser novamente confiado a leigos: os atuais catequistas e outros ministros extraordinários do Batismo.

Num e noutro caso - isto é, no dos primitivos exorcistas e no dos novos ministros extraordinários do Batismo — trata-se de fiéis que, como ficou dito, não receberam a ordenação sacerdotal (no segundo, esse ministério é confiado inclusive a mulheres), o que indica que tal ordenação não é teologicamente necessária para que alguém possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo em caráter oficial, isto é, em nome da Igreja.

Porém, não é a estes casos de pessoas delegadas pela Igreja que queremos nos referir, pois se poderia pensar que sempre é necessária alguma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade teológica para exorcizar o demônio. O que investigamos aqui é se o simples fiel, sem nenhuma investidura oficial, tem poderes
— teologicamente falando — para proceder eficazmente aos exorcismos.

Poder dado pelo Batismo, pela Confirmação e pela Eucaristia

O homem não tem nenhum poder natural sobre Satanás e os espíritos infernais: se não fosse socorrido por Deus, ficaria inteiramente à mercê do Maligno. E, de fato, pelo pecado original, todos nos tínhamos tornado escravos dele. Nosso Senhor, na sua misericórdia, resgatou-nos da tirania do demônio por sua morte de Cruz. E Ele que participemos de sua luta, assim como nos associa ao seu triunfo.  Isto se dá pelo Batismo, que nos incorpora a Cristo e nos faz partícipes de sua luta e de sua vitória. Pois o corpo participa de toda a vida da Cabeça. Eis aí o título fundamental que nos faz exorcistas a todos os batizados.

É por isso que Dom Pellegrino Ernetti 0.S.B. — exorcista da arquidiocese patriarcal de Veneza dá ao capítulo final de seu livro o seguinte título: “Somos todos exorcistas “.

Escreve Dom Pellegrino: “As orações e o exorcismo preventivo são inerentes ao próprio estado de ser cristão, enquanto batizado, crismado e que vive a vida da Eucaristia. Do caráter batismal lhe provém já o título de verdadeiro lutador contra Satanás. E a própria oração do Pai-Nosso lhe confere o título válido para lutar em forma preventiva. O cristão não somente tem o estrito dever de soldado e seguidor de Cristo, o qual veio á terra para expulsar e destruir a obra do demônio, mas tem inclusive o direito de participar nesta luta, direito sempre proveniente, seja do caráter batismal, seja crismal, e, nutrido de Jesus na mesa eucarística, se torna sempre mais forte para obter a vitória, juntamente com seu Rei e Vencedor, Cristo.

“Portanto: todos somos exorcistas, lutadores e vencedores de Satanás! Como exorcista, o fiel no faz outra coisa senão exercitar o seu jus nativum, consubstanciado no sacerdócio comum dos fiéis”. (D. Pellegrino ERNETTI O.S.B., La Catechesi di Satana, pp. 245-246)

Teológicamente falando — e abstraindo igualmente de carismas extraordinários —, todos os fiéis somos, pois, exorcistas, sem que seja necessária nenhuma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade para exorcizar o demônio. Essa capacidade está in radice no Batismo, que nos faz filhos de Deus, membros do Corpo Místico de que Cristo é a Cabeça; e é reafirmada pela Confirmação, que nos faz soldados de Cristo e nos dá, junto com o dever de lutar por Ele, a capacidade para tal combate; e é alimentada pela Eucaristia.

Porém, esse poder exorcístico, por sábias razões de prudência, está limitado pela leis da Igreja, como se verá a seguir.

Limitações canônicas

Se não existem empecilhos de natureza teológica para que um leigo possa praticar exorcismos, ocorrem entretanto impedimentos de natureza canônica, isto é, de lei positiva da Igreja.

O primeiro deles é a proibição de praticar exorcismos sobre possessos, os quais, como ficou exposto anteriormente, são reservados aos sacerdotes devidamente autorizados pelo respectivo bispo.

Outra restrição diz respeito ao emprego da fórmula do chamado Exorcismo de Leão XIII, reservada para os bispos e sacerdotes autorizados.

Os simples fiéis também não devem realizar sessões de exorcismos nas quais se interpele diretamente o demônio, ainda que não se trate de casos de possessão propriamente dita, desde que se suspeite de presença demoníaca? (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Ordinários de lugar, relembrando as normas vigentes sobre as exorcismos, 29 de setembro de 1985.)

Quando e como os leigos podem exorcizar

Nas infestações locais ou pessoais

Então os leigos ficam à mercê dos ataques do demônio, já que não podem exorcizar os possessos?

De nenhum modo. Convém lembrar que a principal defesa contra o demônio é a graça de Deus, que se recebe no Batismo e se recupera na Confissão, sendo alimentada pelos sacramentos, sacramentais, boas obras e vida de piedade. Portanto, mesmo que um leigo possa fazer exorcismos sobre possessos, ele não está indefeso diante do demônio.

É preciso recordar ainda que a possessão, de si, não é um obstáculo à salvação nem à santificação das pessoas, podendo mesmo ser uma provação útil para a vida espiritual da vítima, ou de seus familiares e amigos e mesmo do próprio exorcista.

Cabe considerar, ainda, que a possessão não é a ofensiva extraordinária, mais freqüente do demônio. Excetuando a tentação (que é uma ofensiva ordinária), os Autores dizem que a ofensiva extraordinária mais corrente é a infestação tanto local como pessoal. Eles dizem que é grande o número de pessoas que procuram os exorcistas por estarem atormentadas pelo demônio, sem que, entretanto, se trate de casos de possessão. E que se sentem aliviadas com exorcismos simples ou apenas com bênçãos e outros remédios espirituais.

Ora, com relação à infestação local e mesmo pessoal, não existe na legislação canônica nenhuma proibição: os leigos podem fazer exorcismos privados, desde que não empreguem a fórmula do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas (o chamado Exorcismo de Leão XIII), nem “se interpele diretamente o demônio, e se procure conhecer sua identidade". E o que adverte a Congregação para a Doutrina da Fé, no documento acima citado. (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Doc, cit.)

Portanto, nos casos menos raros de ação demoníaca extraordinária, isto é, nas infestações locais e nas pessoais, os fiéis não estão indefesos, em decorrência da regulamentação dos exorcismos estabelecida pelo Código de Direito Canônico e por documentos da Congregação para a Doutrina da Fé. Além dos remédios gerais, ordinários, podem eles, com as cautelas adiante indicadas, fazer uso do remédio extraordinário do exorcismo privado.

Para repelir as tentações e perturbações do demônio

Não é apenas em casos ou situações de certo modo extremas, que os leigos são livres para proceder a exorcismos privados.  Eles os podem praticar preventivamente sempre que se sentirem tentados ou perturbados pelo demônio.

É o que ensinam os moralistas e canonistas. Por exemplo escreve o Pe. Felix M. CAPPELLO S.J.: “O exorcismo privado pode ser realizado por todos os fiéis. Porque qualquer um pode, para repelir as tentações ou perturbações do demônio, ordenar a ele, por Deus ou Jesus Cristo, que não prejudique a si ou a outros. O efeito desse exorcismo não deriva da autoridade e preces da Igreja, uma vez que não se faz em seu nome, mas somente pela virtude do nome de Deus e Jesus Cristo”. (Felix M. CAPPELLO S.J.. Tractatus Canonico-Moralis DE SACRAMENTIS. p.84). No mesmo sentido escreve o Pe. Marcelino ZALBA S.J.: “Exorcismos: ... privados imperativamente (pode ser feito) por qualquer um, somente para coarctar a influência dos demônios...”(Marcelino ZALBA S.J., Theologiae Moralis Compendium, p. 661).)

É igualmente o que diz o exorcista de Veneza, D. Pellegrino Ernetti: “Para todas as outras atividades demoníacas acima elencadas [tentações, infestações locais e pessoais], todos os batizados e crismados, indistintamente, têm o munus e o dever de lutar juntamente com Jesus para debelar o inimigo infernal”. (D. Pellegrino ERNETTI O.S,B., La Catechesi di Satana, pp. 247-249.)

Em resumo: os simples fiéis podem, e até devem, realizar exorcismos privados nas tentações ou infestações demoníacas; não, porém, nos casos de possessão, pois os exorcismos sobre possessos são reservados, como ficou afirmado, aos sacerdotes autorizados.

Evitar uso de fórmulas solenes e aparência de carisma

Quanto ao modo de fazer os exorcismos, os leigos devem evitar o uso das fórmulas do Ritual Romano, reservadas apenas aos sacerdotes que receberam a devida licença do bispo, pois tal uso podia fazer crer que se tenciona fazer os exorcismos em nome da Igreja, ou seja, que se está investido de um mandato eclesiástico.

É recomendada uma prudência particular para evitar toda solenidade e formalidade, inclusive a forma imperativa, sempre que isso possa fazer pensar que se trata de um carisma extraordinário, pois isso poderia causar estranheza a muitos, dada a raridade dos carismas hoje.

É preciso precaver-se ainda contra o perigo do escândalo, sobretudo nas possessões. Por isso, se se tratar de possessão diabólica do corpo, relativamente à qual tal perigo de escândalo e abuso pode ser maior, os fiéis devem abster-se de praticar os exorcismos (aliás, encontram-se proibidos de o fazer pela lei da Igreja), devendo dirigir-se a um sacerdote; podem, entretanto, fazer uma oração, pedindo a Deus - por intercessão de Nossa Senhora, de São Miguel, dos anjos e dos santos — que libertem aquela pessoa do domínio de Satanás e impeçam que o espírito maligno faça mal a outras pessoas. Também nos casos de infestação local ou pessoal grave, em que a atuação do demônio seja certa ou ao menos muito provável, ou haja manifestações extraordinárias, será mais prudente abster-se da fórmula imperativa, ao fazer exorcismos privados. O mais recomendável seria chamar igualmente um sacerdote, sempre que possível.

Do mesmo modo, deve-se evitar qualquer procedimento que possa dar a impressão de vã presunção nos próprios méritos. O Pe. Guillerme Arendt (jesuíta belga, cuja orientação estamos seguindo neste item) observa que uma ordem dada ao demônio por um simples fiel, em nome de Deus, com presunção de êxito sem ter em conta a vontade divina, pode constituir uma tentação a Deus, uma vez que é quase obrigá-Lo a interferir por respeito ao próprio Nome.

Mas quando não há essa presunção e se espera únicamente em Deus e no poder do nome e da cruz de Cristo, então não há esse perigo. Nesse caso, o que se está fazendo é apenas uma oração a Deus, que Ele atenderá segundo seus augustos desígnios.  Trata-se também de um ato de fé e de esperança na promessa do Redentor de que aqueles que cressem teriam o poder de expulsar os demônios.

Quando se tratar somente de repelir a tentação do diabo pecar para pecar, é conveniente desprezar e calcar aos pés, pela virtude de Cristo, a soberba diabólica, com exprobação imperativa, de modo que o inimigo confundido seja posto em fuga em virtude de sua própria impotência. (Cf. 6. ARENDT, De Sacramentalibus, n. 311 apud Mons. c. BALDUCCI, Gli Indemoniati, pp. 99-100.)


“Orações de libertação”


Cabe aqui uma palavra sobre as chamadas orações de
libertação.

“Orações de libertação — define Mons. Corrado Balducci -  são aquelas com as quais pedimos a Deus, à Virgem, a São  Miguel, aos Anjos e aos Santos sermos libertos das influências maléficas de Satanás. São muito distintas dos exorcismos, nos quais nos dirigimos ao diabo, ainda que em nome de Deus, da Virgem, etc.; distintas seja pelo destinatário direto, seja obviamente pela modalidade, pelo tom: deprecativo e suplicante no primeiro caso, imperativo e ameaçador no segundo”. (Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 261.)

Nessas orações, em vez de se impor ao demônio, em nome de Jesus Cristo, que deixe aquela pessoa, aquele lugar, ou que cesse aquela situação, implora-se a Deus que — pelos méritos de Nosso Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, dos Anjos, dos Santos, de pessoas virtuosas — nos proteja e liberte do jugo do Maligno ( sem interpelar diretamente o demônio nem procurar conhecer sua identidade).

Devemos fazer essa súplica com humildade e confiança, pois Deus não o despreza um coração contrito e humilhado (SI 50, 19). Deus não deixará certamente de nos atender, sobretudo se tivermos em vista antes de tudo a sua glória.

"Orar para sermos libertados do diabo, de suas tentações, de suas maquinações, enganos e influências — escreve Mons. Balducci - é louvável e não só recomendável, e sempre se fez assim, em privado e em público; esta petição, Jesus a incluiu na única oração que nos ensinou, o Pai-Nosso; e se fazia assim, como ficou dito, no final de cada Missa com a oração a São Miguel Arcanjo”.

Porém, continua o Prelado, ultimamente, em algumas reuniões de grupos de oração e outras iniciativas privadas, nas quais se faziam orações de libertação, ás vezes se saía dos âmbito da simples oração e se chegava ao uso de verdadeiras fórmulas exorcísticas, com a interpelação direta do demônio. Tais práticas determinaram a intervenção da Congregação para a Doutrina da Fé, com a Carta de 29 de setembro de 1985, várias vezes referida aqui.

V - SATANISMO — MAGIA — FEITIÇARIA


ATÉ AQUI VIMOS a interferência espontânea do demônio na vida dos homens, seja pela sua ação ordinária — a tentação, seja pela ação extraordinária — infestação local e pessoal e possessão.  Cabe agora estudar a sua intervenção a convite do próprio homem: a magia ou feitiçaria, os pactos satânicos, as práticas supersticiosas em geral.

É certo que o homem, por sua natureza, não tem nenhum poder sobre o demônio, não podendo, portanto, obrigá-lo a atender às suas solicitações, nem a cumprir o que foi pactuado com ele.

Porém, não é menos certo que o demônio — sempre à espreita de uma ocasião para fazer mal aos homens e perdê-los - não deixaria escapar a oportunidade única de atuar quando convidado por eles próprios. Assim, se Deus o permitir, ele pode atender aos pedidos que lhe são feitos e obter, para os homens que a ele recorrem,
riquezas, poder político, satisfação de paixões e ambições, e mesmo prejudicar outras pessoas.

Em outros  termos, o homem não pode ser a causa da interferência do demônio, mas pode muito bem ser a ocasião dessa interferência.

De modo que a magia, se entendida no sentido de arte pela qual o homem adquire um poder sobre o demônio, não existe e é impossível; se entendida, no entanto, como a arte de operar prodígios por obra do demônio, a magia não só é possível teoricamente, mas existe e é largamente praticada, desde as mais remotas eras até o dia de hoje.

É fora de dúvida que o malefício é teoricamente possível.  Ele não comporta o menor absurdo em si, nem da parte do homem, nem da parte do demônio, nem da parte de Deus. Com efeito, o homem animado de um ódio satânico e abusando da sua liberdade, pode praticar as ações mais perversas, sem excetuar a de invocar e adjurar os espíritos infernais, para que eles apliquem seus poderes maléficos sobre uma pessoa determinada, O demônio, por sua vez, pode atormentar os homens das maneiras mais estranhas e mais inexplicáveis, e ele encontrará aí sua própria satisfação; e nada impede que ele faça depender sua intervenção do emprego de um ritualismo simbólico, que seria uma manifestação concreta de culto ao demônio, da parte do homem, coisa muito agradável a Satanás, sempre desejoso de macaquear a Deus. E Deus pode permitir o malefício, nos seus desígnios de justiça, assim como permite os casos de possessão.

O feiticeiro não desenvolve, no malefício, as suas forças. A intervenção de Satanás é aí evidente e Deus a permite, como permite a tentação, as infestações e mesmo as possessões.  As provas dessa intervenção demoníaca são tão abundantes nas Sagradas Escrituras e na História religiosa, que a ninguém é legítimo duvidar dela.

Quando se crê no demônio, no que os Livros Sagrados e a História dizem dele, rejeitar essa possibilidade é irracional.

Na verdade, diante de testemunhos tão irrefutáveis, não se pode não crer na existência de feiticeiros e na eficácia de seus feitiços, por obra do demônio, sempre que Deus o permitir.

Da superstição à adoração do demônio

“Os que se apegam às superstições
enganosas abandonam a graça
que lhes era destinada".

(Jon 2, 9)

A superstição

A superstição é um arremedo indigno do verdadeiro culto a Deus, por depositar a confiança em fórmulas e ritos empregados para forçar Deus a atender o que Lhe é pedido, e para desvendar o futuro. Chama-se também superstição a veneração de caráter religiosos tributada a “forças” reais ou imaginárias, em lugar de Deus.

A superstição procura aprisionar o sobrenatural mediante fórmulas ou ritos para pô-lo ao seu serviço. O supersticioso quer servir-se da religião para proveito próprio e não para cultuar desinteressadamente a Deus. Por isso Deus, através do Profeta Jonas, adverte: "Os que se apegam às superstições enganosas abandonam a graça que lhes era destinada” (Jon 2, 9).

O supersticioso põe uma confiança indevida em práticas às quais nem Deus, nem a Igreja (por concessão divina), nem a natureza conferiram o poder de obter certos efeitos.

Sempre que se procuram determinados efeitos por meios desproporcionados, os quais de nenhum modo podem conduzir ao resultado desejado, se confia na atuação de forças misteriosas, ao menos implicitamente, para obter esse resultado. Como essas forças vêm de Deus nem de seus anjos, só podem provir do espírito das trevas.

E assim, a partir da superstição, se chega, facilmente, ainda que de forma não inteiramente consciente, ao recurso implícito ao demônio. Daí, para a invocação explícita, não há senão um passo.

Em suma, o desejo de subjugar as forças superiores e de as instrumentalizar para proveito próprio, e dessa maneira chegar a "ser como deuses” (cf. Gen 3, 5), é o fundamento de toda a supertição, de toda a magia.

Pacto com o demônio

Possibilidade de pacto com o demônio

Sabemos pela Revelação que os homens podem entrar em comunicação voluntária com os demônios e pedir que eles façam ou concedam coisas que superam as forças humanas.

Está fora de dúvida que o demônio intervém espontaneamente, de um modo sensível, na vida dos homens; porque não haveria ele de intervir diante da solicitação de uma vontade humana? Não há nisto nada que seja contrário á ordem das coisas, nem da parte de Deus, nem do demônio. Da parte de Deus, Ele pode permitir à ação do demônio como castigo para o homem por causa de suas faltas,* ou como provação para a vítima, ou para algum outro efeito que Ele conhece, nos Seus desígnios de sabedoria e justiça. Do lado do demônio, está bem de acordo com a sua psicologia atender a uma solicitação que tanto lisonjeia seu orgulho, gratifica seu ódio a Deus e do homem, e satisfaz seu desejo de fazer o mal.

*É o que pensava santo Agostinho, o qual afirma que os homens que se dedicam à su perstição " são entregues, como suas vontades más merecem, aos anjos prevaricadores, para Lerem escarnecidos e enganados".

O homem pode entrar em relação com os anjos e com os demônios, uma vez que uns e outros são seres inteligentes e livres. Nessa condição, tanto o homem quanto os anjos e os demônios podem fazer uso de sua liberdade e unir-se para a obtenção de um fim comum. Mas, para isso, é preciso haver um ponto de contacto entre uns e outros; quer dizer, é preciso que uns e outros tenham disposições análogas. Quando as relações são estabelecidas entre seres de natureza diversa, é evidente que o ser de natureza superior impõe as suas disposições ao inferior: é a lei do mais forte. Se o ser mais elevado é um espírito bom (isto é, um anjo) o acordo se faz para o bem; se, ao contrário, o ser mais elevado é um espírito maligno, o acordo não pode fazer-se senão para o mal. Pois o demônio, espírito pervertido, não visa senão o mal.

Como todo contrato, cada parte procura atender aos seus interesses. Se, de um lado, o espírito maligno aceita o acordo unicamente para o mal, a outra parte, o homem, poderá exigir que esse mal lhe traga alguma vantagem, ao menos subjetiva: dinheiro, honras, vingança, prazer; do contrário, não haverá razão para haver acordo.

Por sua inteligência e seu poder, os demônios são superiores aos homens. Eles conhecem os segredos da natureza e os agentes físicos bem melhor que os sábios jamais chegarão a conhecer. Eles são capazes de produzir resultados surpreendentes e mesmo, quando isso serve a seus pérfidos desígnios, obter vantagens materiais que recorrem a eles.

Como é evidente, o homem não tem poder sobre os demônios e estes não são obrigados a atender aos desejos do homem, não o faz porque esteja a isso obrigado; seja forçado a isso pelo homem, mas sim porque satisfaz à
sua soberba ver-se solicitado pelo homem, e até venerado por ele, em lugar de Deus; de outro lado, atendendo a esses pedidos, ele pratica o mal, quer em relação a terceiros, como se dá com freqüência, quer em relação ao próprio solicitante, cuja alma conduz à perdição, que é o que ele tem em vista ao aceitar o pacto.

Espécies de pacto: explícito e implícito


É certo que pode haver, que houve e ainda há pactos com o demônio.

1º Pacto explícito


O pacto com o demônio consiste num acordo entre uma pessoa e o demônio, pelo qual essa pessoa se obriga a algo em relação ao demônio, em troca da ajuda deste para conseguir aquela vantagem que deseja.

Muitas vezes o pacto é feito por escrito, e o demônio exige que o homem o assine com o próprio sangue. Para estabelecer o pacto não é necessário que as duas partes estejam presentes pessoalmente: elas podem atuar por meio de procuradores. O demônio quase sempre é representado pelo feiticeiro, pai-de-santo, médium etc. E isto já nos encaminha para o estudo da feitiçaria, da magia, da macumba, que será feito a seguir.


Outras vezes o pacto se faz por meio de sociedades secretas iniciáticas e com certas formalidades ou ritos estabelecidos.


Por fim, há ocasiões em que o pacto se faz com a aparição real do demônio. Há casos de feiticeiros que têm um comércio habitual com o Espírito das trevas, o qual vêem sob as mais variadas formas: humana, animal, fantástica.

2º Pacto implícito

Mas, ao lado do pacto explícito, há o pacto implícito cor demônio.

É fácil, sobretudo para os cristãos, compreender que um pacto formal, um recurso explícito ao demônio é contrário à lei de Deus.  Mas o recurso implícito, mediante práticas supersticiosas nem sempre aparece claramente como um recurso ao Maligno e choca menos o senso moral.

Para que se possa dizer que há pacto implícito com o demônio é preciso, bem entendido, que se tenha uma esperança mais ou menos firme de que o efeito pretendido realmente será obtido; também é preciso que se trate de práticas feitas com seriedade e não por mera brincadeira (embora seja muito perigoso brincar nessa matéria, pois o demônio pode tomar a coisa a sério). Como esse efeito não pode ser esperado dos meios empregados (que evidentemente não são aptos para conduzir a esse resultado), ao menos implicitamente, se crê na presença de certas forças misteriosas, extra-naturais, para obter aquele resultado. Que forças são essas? Se não vêm de Deus (seja diretamente ou indiretamente, através dos seus anjos ou da Igreja), de onde procederão?

A resposta não pode ser outra: vêm do Maligno.

Em muitos casos o homem se dá conta disso; porém, cego por suas paixões desregradas, já não cogita de averiguar a origem do resultado obtido: o que lhe interessa é alcançá-lo. Assim, vai-se acostumando aos poucos a ver o demônio não como o espírito do mal, que ele é, mas apenas corno urna ser poderoso, que ele pode utilizar em seu proveito; como uma espécie de divindade conivente com suas paixões, a quem convém cultuar.

A superstição, em qualquer de suas formas, por conter sempre um recurso claro ou velado, explícito ou implícito ao demônio, constitui um pecado gravíssimo, contra a virtude da religião, que nos prescreve prestar culto somente a Deus, e só a Ele recorrer e nunca ao poder das trevas "Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a êle servirás" (Lc 4,8).

Adoração do demônio: sacrifícios humanos 

Culto idolátrico do espírito das trevas

A credulidade indisciplinada, soltando o freio da fantasia no campo duplamente misterioso das forças  sobre-humanas e do mal, adultera o conceito de Satanás — inimigo de Deus e dos justos, porém mera criatura limitada — para fazer dele uma espécie de divindade malfazeja, a que se deve servir e agradar no interesse pessoal.

De onde, alguns ritos, como na macumba, umbanda e candomblé, se fazerem ofertas de alimentos e sacrifícios de animais para aplacar o diabo e tomá-lo propício a quem recorre a ele.

Essa postura pode levar, e muitas vezes leva, o supersticioso a fazer uma autêntica substituição de Deus pelo demônio e a realizar paródias blasfemas do culto divino como nas Missas negras. Chega-se então ao satanismo pleno, que se caracteriza pela vontade de praticar o mal, pelo ódio ativo, em nome da liberdade absoluta, que investe contra toda lei religiosa e moral. Esse ódio não é explicável pela psicologia humana, participando do mistério do mal, do “mistério da iniquidade", de que fala São Paulo (cf. 2 Tes 2, 7).

E assim se passa do pacto implícito ao pacto explícito com o demônio, e se chega ao culto idolátrico do espírito das trevas, invocado às vezes sob nomes bárbaros corno orixás, xangôs, exús e outros, sobretudo nos ritos da macumba, da umbanda, do candomblé, e nas práticas de magia em geral.

O sacrifício: ato de culto de adoração

De acordo com a doutrina católica, só se pode oferecer sacrifícios a Deus, por se tratar de ato essencial do culto de adoração, pelo qual reconhecemos o poder absoluto que o Criador tem sobre nós. Todo sacrifício oferecido a outrem que não a Deus reveste-se de um caráter idolátrico, pecado gravíssimo de lesa-majestade divina.

O sacrifício consiste no oferecimento e na imolação de uma vítima (sacrifício propriamente dito) ou no oferecimento e entrega de um bem em honra da divindade (sacrifício impropriamente dito), com a finalidade de proclamar que Deus é o Senhor de todas as coisas e que nós não ternos nada de próprio, mas tudo pertence a Ele.


Por causa do pecado, nós mesmos é que deveríamos ser imolados a Deus; mas o Criador não permite a imolação cruenta do próprio homem, corno faziam as religiões pagãs (cf. Lev 18, 21; 20, 1-5; Deut 12, 31; 18, 9ss).* Assim, não pode haver um sacrifício de imolação cruenta de seres humanos. Não podendo fazer a imolação de nossa vida a Deus, imolamos nossa vontade, que é no que consiste o sacrifício interno. O sacrafício externo consiste no ato de oferecimento de uma vítima ou de uma coisa a Deus, e deve ser apenas um sinal do sacrifício interno, do oferecimento de nós mesmos.

*Quando alguns judeus, no Antigo Testamento, por imitação dos povos pagãos vizinhos imolaram vítimas humanas (cf. 1 Reis 16,34), Deus, por meio dos Profetas proferiu severas condenações a esses atos (cf. Jos 6, 26; SI 105, 37ss; Miq 6, 7; Jer 7, 31; 19,5; 32, 35; Ez 16, 2Oss; 20, 26).

Sacrifícios humanos

O demônio, em sua soberba demencial, quer se pôr no lugar de Deus e ser adorado: “Tudo isto eu te darei se, prostrado, me adorares" (Jo 6, 9), ousou ele dizer ao próprio Salvador, oferecendo-lhe os reinos deste mundo E este é o convite que ele faz aos homens, sobretudo aos que o procuram: Adorem-me que eu lhes darei tudo!"


"Homicida desde o princípio" como o caracterizou Nosso Senhor (Jo 8, 44), o demônio não se satisfaz apenas com as oferendas de animais, alimentos, velas, cachaça, etc., segundo se pratica correntemente nos cultos de macumba. Sempre que pode, ele exige sacrifícios humanos. Isto não é algo que se tenha dado apenas na Antiguidade, ou entre os povos bárbaros, mas ocorre ainda em nossos

PARTE 2

Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas

A queda dos anjos maus

 


"Tu, desde o principio, quebraste o meu 

jugo, rompeste os meus laços e 

disseste: — Não servirei!”

 (Jor 2,20)

 


EU5 CRIOU OS ANJOS num alto estado de perfeição natural e além disso os elevou à ordem sobrenatural. É de fé que todos os espíritos angélicos foram criados bons.*

 

*Essa é uma conseqüência obrigatória da verdade de fé, de que todos os espíritos angélicos foram criados por Deus, atestada pelo símbolo niceno-constantinopolitano ( o Credo da Missa), o qual proclama: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, criador ... das coisas visíveis e invisíveis”; essa verdade foi ainda definida nos Concílios IV de Latrão e I Vaticano.


A Sagrada Escritura, com efeito, chama-os “filhos de Deus" (Jó 38, 7), “santos” (Dan 8, 13), “anjos de luz” (2 Cor 11, 14). Entretanto, os próprios Livros Sagrados se referem a “espírito imundos” (Lc 8, 29); “espíritos malignos” (Ef 6, 12); “espíritos piores" (Lc 11, 26); e outras expressões análogas.

 


Isto indica que certos anjos tornaram-se maus, tiveram sua vontade pervertida. Em suma: pecaram.


A batalha no Céu


Tu, desde o princípio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!” (Jer 2, 20).


Este versículo do Profeta Jeremias sobre a revolta do povo eleito contra Deus tem sido aplicado à revolta de Lúcifer. M de rebelião de Lúcifer “Não servirei!” — respondeu São Miguel com o brado de fidelidade: “Quem é como Deus!” (significado do nome Miguel em hebraico).

No apocalipse, São João descreve essa misteriosa batalha que então se travou no céu:


"E houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejavam contra ele; porém estes não prevaleceram e o seu lugar não se achou no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama o Demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra e foram precipitados com ele os seus anjos” (Apoc 12,7-9).


O próprio Jesus dá testemunho dessa queda: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18). “(O Demônio) foi homicida desde o principio, e não permaneceu na verdade" (Jo 8,44).

 

 

Os anjos podiam pecar


Como poderia o anjo ter pecado, uma vez que ele não está sujeito às paixões ou ao erro no entendimento, como nós homens?

 


"Como compreender semelhante opção e rebelião a Deus em seres de tão viva inteligência?” — pergunta João Paulo II. O Pontífice responde: “Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de cegueira, produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de ocultar a supremacia de Deus, a qual exigia, ao contrário, um ato de dócil e obediente submissão. Tudo isto parece expresso de maneira concisa nas palavras: "Não servirei" (Jer 2, 20), que manifestam a radical e irreversível rejeição de tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. Satanás, o espírito rebelde, quer seu próprio reino, não o de Deus, e se levanta como o primeiro adversário do Criador, como opositor da Providência, antagonista da sabedoria amorosa de Deus”  (Apud Mons.C. BALDUCCI, El díablo, p. 20.)


E o Papa explica que os anjos, por serem criaturas racionais, são livrs,  isto é, têm a capacidade de escolher a favor ou contra aquilo que conhecem ser o bem: “Também para os anjos a liberdade significa possibilidade de escolha a favor ou contra o bem que eles conhecem, quer dizer, o próprio Deus”. (João Paulo II, Mcm, ibidem.)


Criando os anjos racionais e livres, quis Deus que eles - com o auxílio da graça — fossem os agentes de sua própria felicidade ou de sua perda, caso cooperassem ou resistissem à graça. Para que merecessem a felicidade eterna, submeteu-os a uma prova.


É de fé que todos os espíritos angélicos foram submetidos a uma prova. Entretanto, não sabemos qual teria sido essa prova. Os teólogos procuram excogitar qual teria sido.

 


O pecado dos anjos maus

 


Qual teria sido a prova a que foram submetidos os anjos? E qual teria sido o pecado dos que sucumbiram à prova?


Um pecado de soberba


Acredita-se comumente que tenha sido um pecado de orgulho,  de soberba, pois a Escritura diz que “foi na soberba que teve início toda a perdição” (Tob 4, 14).


Santo Atanásio (séc. IV) o afirma explicitamente: "O grande remédio para a salvação da alma é a humildade.  Com efeito, Satanás não caiu por fornicação, adultério ou roubo, mas foi o seu orgulho que o precipitou ao fundo do inferno.  Porque ele falou assim: "Eu subirei e colocarei meu trono diante de Deus e serei semelhante ao Altíssimo" (Is 14, 14). E é por essas palavras que ele caiu e que o fogo eterno se tornou sua sorte e sua herança”.(
Apud Card. P. GASPARRI, Catechisme Catholique pour Adultes. p. 345.)


Em que teria consistido essa soberba?


Segundo São Tomás de Aquino, essa soberba consistiu em que os anjos maus desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus, por obra da graça, e sim por sua virtude própria, como mera decorrência de sua natureza. Desse modo, quiseram manifestar sua independência em relação a Deus; eles recusaram assim a homenagem que deviam a Deus como seu criador e desejaram substituir-se a Ele e ter o domínio sobre todas as coisas: ser como deuses (cf.Gen 3,5).


São Tomás faz igualmente referência à seguinte passagem de Isaías — referente ao rei de Babilônia, mas geralmente aplicada a Satanás — para ilustrar o pecado dele e dos anjos maus que o acompanharam na revolta: “Como caíste do céu, ó astro brilhante [em latim: “Lúcifer”J, que, ao nascer do dia brilhavas? ... Que dizias no teu coração: ... serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14).


O pecado de Lúcifer e dos anjos que se revoltaram com ele teria sido, pois, um pecado de soberba, ou seja de complacência na própria excelência, com menoscabo da honra e respeito devidos a Deus.


Estes elementos se encontram em todo pecado — explica o Pe. Bujanda — pois quem ofende a Deus prefere a própria vontade, em vez da vontade divina, e nela se compraz.


Revelação da Encarnação


Não está formalmente revelado no que consistiu exatamente a prova dos anjos; os teólogos fazem hipóteses teológicas, como a de São Tomás, exposta acima.


Francisco Suárez, teólogo jesuíta do século XVII, levanta outra hipótese: a prova dos anjos teria consistido na revelação antecipada por Deus, da Encarnação do Verbo. Os anjos maus se teriam revoltado contra a submissão em que ficariam em relação à natureza humana do Verbo Encarnado, a qual, enquanto natureza, seria à natureza angélica.


Uma variante dessa hipótese é a que afirma que Lúcifer e os anjos revoltados não quiseram submeter-se à Mãe do Verbo Encarnado, pela sua dignidade ficaria colocada acima dos próprios anjos, embora inferior a eles por natureza.


Essa hipótese, entretanto, está ligada a uma outra questão: se o Verbo se teria encarnado mesmo sem o pecado de Adão. Suárez,
com algumas adaptações, segue a opinião de Duns Escoto e de Santo Alberto Magno, a qual sustenta que sim; São Francisco de Sales também participa dessa opinião.


São Tomás, porém, é de outro parecer. Argumenta ele: "Seguindo a Sagrada Escritura, que por toda a parte apresenta como razão da Encarnação o pecado do primeiro homem, é conveniente dizer-se que a obra da Encarnação está ordenada por Deus como remédio contra o pecado. De tal modo que, se não existisse o pecado não teria havido a Encarnação, embora a potência divina não esteja limitada pelo pecado, podendo, pois, Deus encarnar-se, mesmo que não houvesse o pecado”  (
Suma Teológica, 3, q. 1, a. 3.)


São Boaventura reconhece que a opinião tomista é mais consoante com a Fé, enquanto a outra favorece mais a razão. (
In III Sent.,Dist.I,a.2,q.2.)


Embora ambas as opiniões sejam sustentáveis, o comum dos Doutores acha que a hipótese tomista é mais provável, sendo predominante entre os Santos Padres.


Santo Agostinho afirma: “Se o homem não tivesse caído não se teria feito carne” (
Serm. 174,2.)


Em favor dela fala igualmente o Símbolo dos Apóstolos, isto é,  o Credo, quando proclama: “O Qual [o Verbo], por nós homens, e por nossa salvação, desceu dos céus “. Também a liturgia pascal, que canta:
“Ó culpa feliz, que nos mereceu um tal Redentor!"


O Pe. Christiano Pesch S.J. diz que a posição tomista de tal modo se tornou comum, que hoje há poucos defensores da esposada por Suárez, quanto à Encarnação do Verbo.


Daí decorreria que a hipótese de Suárez com relação ao pecado dos anjos ficaria também prejudicada. (C. PESCH 53, De Angelis, III, p. 71; cf. também Mons. P. PARENTE. Incarnazioni, col 1.751; I. SOLANO, De Verbo incarnato, pp. 15-24).)

 

 

A obstinação dos demônios


Nós homens temos certa dificuldade psicológica em compreender que os demônios, por um só pecado, tenham sido condenados eternamente, enquanto Adão e Eva puderam ser perdoados. Por isso, desde os primeiros tempos do Cristianismo, não faltaram autores que sustentaram a possibilidade de reconciliação dos anjos decaídos com Deus.


Essa doutrina foi condenada pela Igreja e São Tomás explica a razão pela qual isso não é possível: em primeiro lugar porque a prova a que os anjos foram submetidos, a fim de merecerem a bem-aventurança eterna, teve para eles o mesmo efeito que tem para nós homens a morte; ou seja, encerra o período em que podemos adquirir méritos, e nos introduz na vida eterna, imutável por natureza. Os anjos bons, tendo sido fiéis, passaram a gozar da bem-aventurança eterna; os anjos maus ou demônios foram precipitados no inferno por toda a eternidade.


Em segundo lugar, por causa da natureza angélica: os anjos, uma vez feita uma escolha, não podem voltar atrás, seja para o bem, seja para o mal. Porque eles não estão sujeitos à mobilidade das paixões humanas, sua inteligência é perfeita, de modo que eles não podem fazer escolhas provisórias, como o homem. Antes de fazer uma escolha, o anjo é perfeitamente livre; feita esta, sua vontade adere a ela para sempre, pois todas as razões que o levaram a fazer essa escolha já estavam perfeitamente claras para ele antes que a fizesse.

 


O lugar de condenação dos demônios

 

O Inferno


A tremenda realidade do inferno, como lugar criado para os e os demônios e os precitos, é atestada pelo Divino Salvador ao falar do Juízo Final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o Demônio e para os seus anjos” (Mt 25,41).


São Pedro ensina que Deus não perdoou aos anjos que pecaram prepitou-os no tártaro, para serem atormentados (2 Ped 2, 4).


E São Judas escreve que Deus “prendeu em cadeias eternas, no seio das trevas “, os anjos prevaricadores (Jud v. 6).

 

Assim como o lugar para os anjos bons é o Céu, para os demônios é o inferno. Mas os demônios têm dois lugares de tormento: um em razão de sua culpa, que é o inferno; outro, em função das tentações a que submetem os homens: a atmosfera tenebrosa, pelo menos até terminar o mundo.


Os demônios dos ares


A doutrina de que os demônios vagueiam pelos ares para tentar os homens é claramente afirmada por São Paulo na Epístola aos Efésios: “O príncipe que exerce o poder sobre este ar ...  os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 2,2; 6, 12).


E é confirmada pela Igreja, por exemplo, na oração a São Miguel Arcanjo, que o Papa Leão XIII compôs e mandou recitar ao fim da Missa, na qual invoca o Príncipe da milícia celeste, para que — pelo divino poder — precipite no inferno " a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.

 

A “hierarquia” entre os demônios


Entre os demônios existe urna “hierarquia”, que decorre do fato de, sendo anjos, uns terem a natureza mais perfeita do que outros. Por isso se diz que Satanás é o príncipe, o chefe dos demônios.


Não que exista entre eles uma submissão por amor ou respeito, como na verdadeira hierarquia; os demônios se odeiam muituamente e só se unem circunstancialmente para atormentar os homens.  É o mesmo que — explica São Tomás — se dá entre os homens maus: eles formam quadrilhas e se submetem a um chefe, apenas como meio de melhor cometerem seus roubos ou homicídios contra os homens honestos ( Suma Teológica, 1,Q. 109, A.1-2. )

 

Os nomes dos demônios


Os judeus não tinham uma palavra específica para indicar os espíritos
malignos; a designação geral de demônio para os anjos decaídos vem da versão grega do Antigo Testamento. A palavra daimon, entre os gregos, designava os seres com forças sobre-humanas, especialmente os maléficos. A palavra hebráica sâtân significa
adversário, acusador; Satanás, o chefe dos demônios, é também conhecido nas Escrituras como Diabo (do grego diábolos, que quer dizer caluniador).


Nas Sagradas Escrituras aparecem os nomes de vários demônios: Azazel, demônio que habita o deserto (Lev 16, 8-10, 26); Asmodeu, que matou os sete maridos de Sara (Tob 3, 8); o nome Belzebu ( ou Beelzebul, cuja significação parece ser “deus do esterco”, nome com que os rabinos indicariam os sacrifícios oferecidos aos ídolos ) é apresentado como sinônimo para Satanás ou príncipe dos demônios (Mt 12, 14; Mc 3, 22-26); Lúcifer foi palavra escolhida na
Vulgata* para traduzir para o latim a expressão “astro brilhante" ou  “estrela brilhante”, da profecia de Isaías (Is 14, 12), que costuma ser interpretada como uma referência à queda do Demônio; em geral esse apelativo é utilizado igualmente como sinônimo de
Satanás. 

 


*
Chama-se Vulgata a tradução latina da Bíblia feita em grande parte por são Jerônimo, que iniciou seu trabalho por volta do ano 384. Essa tradução latina foi aperfeiçoada por iniciatiiva da santa Sé, dando origem a chamada Vulgata Sixto-Clementina publicada em 1592 pelo Papa Clemento VIII, em uso ainda hoje.



Psicologia do demônio


"Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu 

na verdade é mentiroso e pai da mentira".

(Jo 8,44)

 


Com base nas Sagradas Escrituras e em outras fontes, poderíamos ressaltar alguns aspectos da psicologia de Satanás e seus anjos malignos.


Embora os demônios sejam diferentes entre si, assemelham-se em seu desejo de fazer o mal e em sua natureza decaída; por isso o que é dito a respeito de Satanás, seu chefe, pode-se dizer dos outros demônios.


Uma vontade pervertida


Os demônios, puros espíritos, como anjos que são, não têm as fraquezas e as debilidades dos homens; de onde, sua revolta contra Deus ser permanente, imutável, eterna. Sua vontade, deixando de ter como objeto o Sumo Bem, tornou-se uma vontade pervertida fixada no mal. Dessa forma, os demônios não desejam senão o mal em todos os seus atos voluntários, e mesmo quando fazem algum bem (como, por exemplo, restituir a saúde a alguém, obter-lhe riquezas ou ensinar-lhe algo), fazem-no apenas para dai tirar o mal, conduzir a pessoa à perdição eterna, que é a única coisa que almejam para os homens.


Tendo sido criados bons por Deus, sua natureza ainda continua boa em si mesma; porém, eles se tornaram seres pervertidos em sua vontade, buscando não mais seu fim último, que é o serviço e a glória de Deus, mas justamente o contrário, isto é, tudo fazer para impedir que Deus seja glorificado. Não podendo atingi-Lo diretamente, eles procuram agir sobre as criaturas de Deus, na medida em que Ele o permite.

 


Homicida e mentiroso— Astuto, falso, enganador

 


O divino Redentor resumiu em poucas palavras essa psicologia diabólica: “Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira,fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44).


O demônio é homicida e o pai da mentira, o mentiroso por excelência que odeia a verdade, porque a verdade nos conduz a Deus:
"Eu sou o caminho, a verdade, a vida” (Jo 14, 5); ele odeia o Criador e, tendo-se separado de Deus, separou-se para sempre da verdade e da vida. E através da mentira que ele dá a morte, a morte espiritual.


Santo Agostinho, a respeito da afirmação de Jesus de que o demônio é homicida e mentiroso, comenta: “Perguntamos de onde veio ao diabo o ser homicida desde o princípio, e respondemos que matou o primeiro homem, não enterrando-lhe o punhal ou infligindo-lhe qualquer outro dano no corpo, senão persuadindo-o a que pecasse precipitando-o da felicidade do paraíso”. (Apud J. MALDONADO S.J., Comentarios a los Cuatro Evangelios, p. 563)


Pe. João Maldonado, erudito exegeta jesuíta do século XVI, observa sobre essa mesma frase -  “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44): “A maior parte dos autores entendem isto daquelas palavras que o diabo disse a Eva: ‘Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ (Gen 3, 5); palavras em que  evidentemente mentiu; quer dizer, uniu a mentira com o homicídio (espiritual), perpetrando os dois crimes ao mesmo tempo. ... Chama-se ao diabo pai da mentira porque é ele o autor e inventor da mesma, de tal modo que pode dizer-se que deu à luz a ela”  (J. MALDONADO S.J., op. cit., pp. 564-566)

Quando tenta o homem, procurando afastá-lo de Deus, ele mente apresentando uma falsa imagem da realidade, escondendo seus verdadeiros fins e enredando sua vítima no engano, no sofisma e na falsidade.

 


Ele é astuto, falso, enganador.


“Satanás se distingue por sua astúcia — escreve Mons. Cristiani. O que quer dizer esta palavra? A astúcia é um artifício enganador. O ser que age por astúcia tem más intenções. Se ele fala, não é para dizer a verdade, mas para enganar, para conduzir ao erro, à inverdade. Satanás é falso. Não se pode confiar nele. O que falta antes de tudo nele é a eqüidade, a lealdade, a franqueza. Ele é equivoco, voluntariamente obscuro e dissimulado” (Mgr L. CRI5TIANI, Présence de satan dons le monde moderne, p. 306.)


Soberba demencial, inveja mortal

 


Por detrás dessa dissimulação se esconde o seu desejo oculto, assim expresso por Mons. Cristiani: “Ser como Deus! Este ato de orgulho é o fundo mesmo da psicologia de Satanás! ... ‘Vós sereis como deuses!’ Ele próprio, na sua queda, se considera como um deus. Seu orgulho não está morto. O orgulho levado até à adoração de si mesmo é o que faz o demônio voltar-se contra o Criador. É o orgulho que, tendo-o afastado de Deus, fez dele o Adversário. No livro do Eclesiástico esta conseqüência do orgulho é posta em evidência: ‘O princípio do orgulho é abandonar o Senhor e ter seu coração afastado do Criador, porque o princípio do orgulho é o pecado, aquele que se entrega a ele espalha a abominação.‘ (Ecli 10, 12-13). ... Compreendemos, então, porque Jesus Cristo, que é a Via, a Verdade, a Vida, tenha definido Satanás como o Pai da mentira,  o homicida desde o começo. E, para nós, este termo de homicida longe de ser excessivo, não diz senão um aspecto da verdade total: Satanás é, com efeito, acima de tudo, o DEICIDA!” (Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 308.)

 


O orgulho de Satanás e seus anjos malignos não conhece limites: "Que orgulho demencial — comenta ainda Mons. Cristiani — nessa palavra de Satanás a Cristo, mostrando-lhe em espírito todos os reinos da terra: ‘Tudo isto eu te darei se prostrado por terra me adorares!´O fundo último da ambição satânica é este: Tirar de Deus seus adoradores, fazer convergir as adorações dos homens para ele próprio!


"Resuimàmo-nos: o orgulho, a vontade de se fazer deus, a astúcia, a inveja e o ódio do homem, tudo isto desembocando na mentira, no homicídio, no deicídio: eis Satanás!”. (Mgr L.CRISTIANI, op. cit., p. 308.)


Não lhe importam as derrotas que sofre continuamente, nem mesmo a final e definitiva a que está condenado; sua soberba se satisfaz com os pequenos triunfos que obtém, no esforço de levar as almas à eterna perdição.


Comenta o Cardeal Lepicier: “Escudado na satisfação de certas vitórias parciais e na esperança de grandes triunfos e, ao mesmo tempo, não se preocupando com as vergonhosas derrotas sofridas, Satanás prossegue loucamente na sua faina de tentar arrastar as almas para a eterna perdição. O seu pendão está sempre erguido e o seu grito insensato de desafio e revolta ouve-se por toda parte: ‘Eu não quero servir! ‘ (Jer 2, 20)”. (Card. A.LEPICIER. O Mundo invisível p. 240.)

 


O pai da vulgaridade


Outro aspecto da psicologia maldita do demônio é a vulgaridade. Odiando a Deus, ele odeia tudo aquilo que é verdadeiro, belo, bom. Ele odeia a compostura, a dignidade, a seriedade, a serenidade.


O abade João Cassiano já observava no século V: “É fora de dúvida que existe entre os espíritos impuros o que o vulgo chama espíritos vagabundos, que são antes de tudo sedutores e bufões. Eles se postam constantemente em certos lugares e se divertem em enganar, muito mais do que em atormentar, aqueles que eles encontram.  Eles se contentam em fatigá-los por seus escárnios e suas ilusões..." (Apud Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 311.)

 

São os famosos demônios bufões, que fazem talhar a manteiga, secam o leite das vacas, desencadeiam enxames de vespas ou de abelhas, etc., tudo para fazre os homens perderem a paciência, praguejarem , blasfemarem.

 

Mons. F. M. Catherinet, demonólogo francês, analisando a ação dos demônios segundo as narrações evangélicas, traça deles o seguinte perfil:  "Medrosos, obsequiosos, poderosos, malfazejos, versáteis e mesmo grotescos... ( Mgr F. M. CATHERINET, Les Démoniaques dans l´Évangile, P.319. )

 

Em carta a Mons. Cristiani, o Pe. Berger-Bergès, famoso exorcista, escreve:  "Vós me perguntais ... qual é a psicologia de Satanás, quando ele está submetido à ação dos exorcismos... É preciso definir e resumir a psicologia de Satanás por estas palavras:  ORGULHO, DESPREZO DE SUA VÍTIMA, TENACIDADE!" |(Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 312.)

 

 

 

O poder dos demônios


"O próprio Satanás se disfarça

 em anjo de luz”.
(2 Cor 11, 14)

 


TUDO QUANTO DISSEMOS a respeito do poder e do modo de agir dos anjos sobre a matéria aplica-se igualmente aos demônios, que são anjos decaídos, mas que conservaram a natureza angélica e os poderes a ela inerentes.


Poder dos demônios sobre a matéria


Já vimos anteriormente como a presença dos anjos em um lugar não se dá fisicamente (contato físico), pois são seres incorpóreos, e sim por meio de sua atuação (contato operativo): os anjos estão onde atuam.


Em virtude de sua natureza espiritual, eles podem exercer sua atividade e tanto de fora dos corpos, como no interior deles, conforme observa São Boaventura: “Os demônios, em razão de sua sutileza e espiritualidade, podem penetrar em qualquer corpo e aí permanecer sem o menor obstáculo e impedimento”.
(In II Sent., Dist. 8, p. 2, a. um., q. 1, apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p.12.)


De um modo direto e imediato os demônios podem produzir na matéria apenas movimentos locais, ou extrínsecos, transferindo uma coisa de um lugar para outro, sem entretanto alterar a natureza ou substância dessa coisa; de modo indireto, através desses movimentos locais, eles podem agir sobre a própria substância da matéria, ao modificar a posição ou a quantidade dos elementos constitutivos da mesma.

 

Caso Deus o permitisse, os demônios, por sua natureza angélica, poderiam causar toda espécie de transtornos físicos. O Cardeal Lepicier afirma que se pode dizer que praticamente não há fenômeno no mundo que não possa ser realizado, de um modo ou outro, pelos anjos; logo, também pelos demônios.(Cardeal A. LEPICIER, O Mundo invisível, pp. 74.75.) E não raro o fazem, provocando tempestades, cataclismos, incêndios e outros desastres como também aparições fantasmagóricas, ruídos infernais e perturbações de toda ordem.

 


Poder dos demônios sobre o homem

 


Em relação ao homem, os demônios só podem operar de modo direto e imediato sobre aquilo que nele é matéria, ou está e necessária dependência dela; podem agir nas funções da vida vegetativa, enquanto ligadas à matéria, e sobre a vida sensitiva, porque esta depende de órgãos corporais. No que se refere às funções próprias da vida intelectiva, os demônios só podem chegar a elas indireta e mediatamente, quer dizer, atuando sobre a parte corpórea e sobre a vida sensitiva, das quais a alma deve servir-se para desenvolver suas atividades espirituais. Em outros termos, os demônios podem agir diretamente sobre a parte corpórea do homem, mas apenas indiretamente sobre sua inteligência e sua vontade.


Conforme ensina São Tomás,(
Suma Teológico. 1-2, q. 80, a. 1-3.) o entendimento, por inclinação própria só se move quando algo o ilumina em ordem ao conhecimento da verdade. Ora, os demônios não querem conduzir o entendimento à verdade, mas, pelo contrário, entenebrecê-lo como meio de levar o homem ao pecado. Por isso, eles não conseguem mover diretamente a inteligência do homem, e procuram então influir sobre ela indiretamente, através de sua ação sobre a imaginação e a sensibilidade.


Os demônios não podem tampouco mover diretamente a vontade humana, pois isto só o próprio homem ou Deus podem fazer; mesmo que o  Maligno, por permissão divina, se assenhoreie do corpo do homem e entenebreça sua mente — como se dá na possessão — , ele não pode obrigá-lo a pecar, pois a vontade não participaria dos atos maus assim realizados, os quais seriam em conseqüência pecados apenas materiais.


Para mover a vontade do homem, os demônios precisam, de algum modo, convencê-lo, persuadi-lo a praticar uma ação má, ainda que sob a aparência de um bem.

 


A ação persuasiva do demônio

 


"O demônio não força; ele propõe, sugere, persuade, alicia”


O demônio não tem o poder de obrigar os homens a fazer ou deixarem de fazer algo; por isso procura persuadi-los para que se deixem conduzir pelo seu mal.


"Ele não os força: ele propõe, sugere, persuade, alicia” escreve o Pe. J. de Tonquédec S.J., exorcista e demonólogo francês. E acrescenta: “No Éden, ele deu a Eva razões para ela transgredir a ordem divina (Gen 3, 4-5, 13); no deserto, solicitou Nosso Senhor pela atração de uma dominação universal (Mt 4, 26-27)”. (J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´ation de Satan en ce monde, p. 495.)


São Tomás também se refere a essa obra de persuasão do demônio, explicando que a vontade humana só se move internamente por ação do próprio homem ou de Deus; externamente ela pode ser solicitada pelo objeto que, entretanto, não força o homem a escolher o que não quer. (
Suma Teológico, 1-2, q. 80, a. 1.)


O Pe. Cândido Lumbreras O.P., assim comenta essa passagem do Doutor Angélico: “Que influência pode exercer o demônio nos pecados dos homens? ... O demônio pode oferecer aos sentidos seu objeto, falar à razão, seja interiormente, seja exteriormente; alterar os humores e produzir imagens perigosas, excitar enfim as paixões que podem mover a vontade e assenhorear-se do entendimento” .(C. LUMBRERAS O.P., Tratado de los vicios y los pecados — Introducción. p. 766.)

 

Em comentário a outra passagem de São Tomás, explica Pe. Jesus Valbuena O.P.:


“Que os anjos possam iluminar e de fato iluminem o entendimento humano, é uma verdade que se atesta por uma multidão lugares nas Sagradas Escrituras ... Também os anjos maus são capazes de produzir, com sua virtude natural, falsas iluminações no entendimento dos homens, conforme nos admoesta São Paulo para que estejamos alerta ´pois o próprio Satanás se disfarça em luz’ (2 Cor 11, 14).


“Afirma São Tomás que nos sentidos do homem, sejam internos, sejam externos, os anjos podem influir e agir a partir de fora e a partir de dentro dos mesmos, quer dizer, extrínseca e intrisecamente; mas, em relação ao entendimento e à vontade humanas, só os podem mover e influir indireta e exteriormente, quer dizer propondo a estas potências espirituais de uma maneira acomodada a elas seus objetos, que são a verdade e o bem e influindo nelas indiretamente mediante os sentidos, as paixões, as alterações corporais sensíveis, etc., embora não possam nunca chegar a dobrar ou completamente a vontade do homem, se este se acha em estado normal” (J. VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo— Introduccion, p. 898.)


Nos casos de Eva e de Nosso Senhor, o demônio “apresentou suas razões” tomando uma forma corpórea, produzindo sons e articulando as palavras oralmente; no geral dos casos, entretanto, o demônio, para persuadir o homem a pecar, conjuga sua ação sensibilidade, a memória e a imaginação.


As doutrinas perversas do demônio


O demônio tem uma doutrina mentirosa, que opõe à doutrina de Cristo.


Em sua introdução ao Tratado sobre os anjos, de São de Aquino, comenta o Pe. Aureliano Martínez O.P.: “O demônio tem suas doutrinas perversas, às quais o Apóstolo chama espírito do erro e ensinamentos do demônio (1 Tim 4, 1), com as quais como deus deste mundo, cega a inteligência dos homens para que não brilhe nelas a luz do Evangelho (2 Cor 4, 4); doutrinas que propala mediante falsos apóstolos e operários enganadores que se disfarçam em apóstolos de Cristo; e não é de espantar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz (2 Cor 11, 13-14), tentando os fiéis de incontinência (1 Cor 7, 5) e de ira (Ef 4, 27)”. (A MARTÍNEZ O.P., Tratado de Los Angeles — Introducción, p. 511.)


Foi por essa razão que o Divino Salvador definiu o demônio como aquele "que não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).


Por meio dessa ação de persuasão o demônio procura na tentação, não apenas induzir-nos a cometer este ou aquele pecado, mas afastar-nos completamente de Deus.

 


Limites à ação do demônio


Por mais poderoso que seja, com uma capacidade de ação superior à de qualquer outro ser criado, o demônio, entretanto, não é onipotente. Sendo mera criatura, ele tem suas limitações, decorrentes de três fatores: sua própria natureza, a condição particular de cada demônio e a vontade permissiva de Deus.


Limites impostos por sua própria natureza


Com toda criatura, o demônio está limitado em sua atuação pela sua própria natureza: por mais elevado que seja seu poder, este não pode ultrapassar os limites de sua natureza criada.


Ele é um ser finito, contingente. Não se deve pois de forma alguma julgar que ele é capaz de saber tudo (oniciência), de poder tudo (onipotência) e estar em todo lugar (onipresença): esses atributos são exclusivos de Deus.


Sua inteligência, embora se tenha mantido intacta, está privada de todo auxílio sobrenatural. Os demônios perderam, com o pecado, toda forma de conhecimento sobrenatural; enquanto os anjos
bons vêem em Deus o estado de uma alma (se ela está na graça divina ou em pecado), os demônios só podem fazer conjetura a respeito, O mesmo se deve dizer quanto a certos acontecimentos futuros que Deus revela aos anjos.


Por sua natureza, nem os anjos bons nem os demônios podem conhecer o futuro livre ou futuro contingente isto é, aquele que depende da vontade divina e do livre arbítrio humano mas apenas Deus, que o pode revelar aos seus anjos.


Outro limite natural à ação do demônio é, como vimos, sua impossibilidade de agir diretamente sobre a inteligência e a vontade humanas; ele tem de usar meios indiretos: a sensibilidade, a imaginação, as paixões, e sobretudo a persuasão.


Limites devidos à condição particular de cada demônio


Outro limite à atuação demoníaca vem da diversa condição de cada demônio. Assim como existem desigualdades entre o homens, também entre os anjos e os demônios não há dois iguais.  Por isso, nem todos os demônios têm o mesmo poder.


Outro fator de limitação é a posição relativa de cada demônio na escala dos anjos decaídos, e as eventuais ordens e proibições que existam entre eles.

 


Limites impostos por Deus


O demônio só pode agir em detrimento do homem com a permissão de Deus.


Ensina o Cardeal Lepicier: “É preciso que nos lembremos sempre de que, por muito grande que seja o poder do demônio, tem limites que lhe foram sabiamente determinados pelo Todo-Poderoso. Ele pode, sem dúvida, fazer-nos mal, mas não além daquilo que lhe é permitido, e bem conhece que o seu poder não pode durar muito. Pode ser que o conhecimento da curta duração do seu reino contribua para que redobre a sua atividade nos tempos que vão correndo; mas todos os seus esforços obedecem aos impenetráveis desígnios da Providência que só permite que a sua influência seja exercida até certo grau, de forma que nos possamos colocar debaixo da proteção de Deus e ganhar, pelos nossos méritos, a vitória final e a coroa da imortal glória que nos espera no Céu" ( Cardeal A. LÉPICIER, O.S.M., O Mundo invisível, p.242.)

 

No livro de Jó, no qual é nomeado pela primeira vez nas Escrituras, Satanás aparece como agente do mal, porém absolutamente subordinado a Deus.

 

Embora tenha inveja do justo Jó e queira pôr sua virtude à prova, por meio da infelicidade, Satanás não pode agir senão com a autorização divina.  Ele tem necessidade de uma permissão, ou até mesmo de uma delegação do Senhor.  Sua ação é estritamente limitada à vontade de Deus, que permite, primeiro atacar seu servidor exclusivamente em seus bens e não em sua pessoa; depois em sua pessoa, mantendo entretanto sua vida (Jó 1, 6-12; 2, 1-7).

 

São Paulo nos tranqüiliza:  "Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças; antes, com a tentação, vos dará as forças necessárias para sair dela e para suportá-la" (1 Cor 10,13).

 

Por que Deus permite que o demônio tente o homem, como também o prejudique, muitas vezes, de tantos modos?  Como fica patente em tantas passagens da Escritura e ensinamentos do Magistério eclesiástico, essa permissão divina tem como escopo santificar o homem por meio de provações, puní-lo por alguma falta grave, servir de ocasião para que se manifeste o poder divino de um modo visível, como no caso dos exorcismos de possessos.

 

Poder dos anjos bons sobre os demônios

 

Ensina São Tomás que os anjos bons, mesmo que por natureza pertençam a uma hierarquia inferior à de algum demônio ( por exemplo em ralação a Satanás), sempre têm um domínio sobre os anjos decaídos.  Pois os anjos gozam de perfeição da amizade de Deus, da qual estão privados os demônio; e esta perfeição é superior à mera excelência natural, a única que permanecesse nos demônios ( Suma Teológica, 1,q. 109,a.4. )

 

Por isso observa o Cardeal Lepicier:  " A sabedoria de Deus torna-se ainda mais manifesta , quando consideramos que ele colocou os espíritos malignos debaixo do domínio dos anjos bons e deu a cada homem, neste mundo, um anjo bom que o ilumina, guia os seus passos e o defende contra os seus inimigos.  Por isso, os assaltos do inimigo das almas são aniquilados pela intervenção daqueles espíritos que se conservam fiéis a Deus, e o demônio acaba por contribuir para a maior glória do Criador". (Cardeal A. LÉPICIER, op. cit., p. 241. )

 

 

 

III - AÇÃO ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO 


DEUS GOVERNA O MUNDO, respeitando sua ordem e suas leis; isto é, a normalidade, a simplicidade, o usual das coisas; tudo aquilo que sai desta linha e que parece maravilhoso, prodigioso, milagroso é excepcional, muito raro. Deus nos criou livres e espera de nós um livre consentimento à fé, sem que nisto sejamos influenciados por uma manifestação habitual do preternatural e do sobrenatural.

 

Entretanto, para provar-nos, para que mereçamos a bem-aventurança eterna, como também, muitas vezes, para castigo nosso, permite Deus que o demônio nos atormente.


A inclinação para o mal nos provém de três causas: de nossa natureza, ferida pelo pecado original; do mundo e do demônio. Entretanto Satanás desperta em nós, continuamente, a tríplice concupiscência com insistentes tentações de soberba e orgulho, de luxúria, de avidez em todos os níveis.


Essa é a ação ordinária, comum, corrente do demônio — ou seja, a tentação. Além dela, pode o Maligno exercer uma ação
extraordinária.


A ação ou atividade demoníaca extraordinária pode ser assim qualificada por duas razões: em primeiro lugar, pelo seu caráter surpreendente, sensacional, espetacular; em segundo, pela sua relativa raridade (se comparada com a ação ordinária). Estamos nos referindo à infestação e à
possessão diabólica.


Trataremos em primeiro lugar da tentação; a seguir, das duas formas de infestação - a local e a pessoal; no  capítulo seguinte, da possessão.

 

 

A tentação


“Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação. 

porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da 

vida, que Deus promete aos que o amam".
(Tiag 1,12)

 


A AÇÃO MAIS COMUM e constante do demônio, em relação ao homem, é a tentação. Por esse seu aspecto comum e também por ser a mais freqüente, pode-se chamá-la de ação ordinária do demônio.


Natureza da tentação


Em seu sentido etimológico, tentar alguém significa pô-lo à prova para que se conheçam suas disposições ou qualidades.


Tentação probatória e tentação enganadora ou sedutora


Santo Agostinho estabeleceu uma distinção, que se tomou clássica, entre a tentação probatória (tentatio probationis) e a tentação enganadora ou sedutora (tentatio decepcionis vel seducionis).


A tentação probatória não visa levar ao pecado, e sim tornar patente a virtude de alguém ou fortalecê-la por meio da provação.  Nesse sentido é que se pode falar de tentação de Deus, como, por exemplo, as provações que o Criador, servindo-se do demônio, enviou a Jó para provar sua fidelidade (cf. Jó 14, 1 ss).


Pode-se falar também de tentar a Deus quando se pretende pôr Deus à prova, exigindo dele um milagre ou uma ação extraordinária, com o fim de satisfazer nossa curiosidade, nossos caprichos, ou livrar-nos das conseqüências de nossas irreflexões ou imprudências. “Tentar a Deus — escreve D. Duarte Leopoldo e Silva - é expor-se ao perigo, a grandes tentações, sem necessidade, e depois pedir um milagre para não sucumbir. Deus protege no perigo, mas nem por isso devemos expor-nos temerariamente, porque, diz o Espírito Santo, quem ama o perigo nele perecerá” . (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, Concordancia dos Sanctos Evangelhos, Escola Typographica Salesiana, São Paulo, I edição, 1903.)


A tentação enganadora ou sedutora visa levar o homem à ruína espiritual; ela propõe-lhe um mal sob a aparência de um bem, procurando arrastá-lo ao desejo desse mal, isto é, ao pecado. Pode, então, ser definida como uma incitação ao pecado. Consiste em um estímulo, uma solicitação da vontade para o mal.


Quando procede de nós mesmos (tentação interna), pode ser indicada mais bem como inclinação, arrebatamento, estímulo; se provém de outros inclusive do demônio podemos referir-nos a ela como
convite, solicitação, incitação.


Causas naturais da tentação: o mundo e a carne


Nem todas as tentações que o homem padece provém do demônio; também o mundo e a carne têm nelas uma grande parte: "Nem todos os pecados são cometidos por instigação do demônio, mas alguns são cometidos pela livre vontade e corrupção da carne” - ensina São Tomás. ( Suma Teológica, 1,q.114,a.3.)


A raiz mesma da tentação está na própria natureza humana, livre porém demasiado frágil, sobretudo depois que decaiu de sua integridade, em conseqüência do pecado original. “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e o alicia” - escreve o Apóstolo São Tiago (Tiag 1, 14), que repete a mesma idéia pouco à frente: “De onde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros?” (Tiag 4, 1).


São Paulo descreve em termos dramáticos essa terrível realidade: "Sinto imperar em mim unia lei: querendo fazer o bem, eis que o mal se apresenta a mim. Segundo o homem interior, acho satisfação na lei de Deus; mas em meus membros experimento outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me encadeia à lei do pecado que reina em meus membros” (Rom 7, 21-24)*

 

*“São Paulo descreve a luta que se trava no interior do homem entre a carne e o e espírito.  O homem reconhece a justiça e a bondade da lei, mas a concupiscência excita-o fortemente a desobedecer-lhe” (Pe. MATOS SOARES).  A carne, aqui, significa a natureza humana decaída em conseqüência do pecado original, que a tornou desregrada. De si, a carne ou seja, a natureza humana é boa, pois criada por Deus.


Essa a lei da carne


Também o mundo procura arrastar-nos ao pecado, pois "está  sob o jugo do maligno” (1 Jo 5, 19), e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” (Tiag 4, 4). Se rompermos com o mundo ele nos perseguirá, adverte o Salvador, pois não somos do mundo ( Jo 15, 19). Por isso, Jesus disse expressamente que não rezava pelo mundo (Jo 17, 9).


Um homem pode ser tentador de outro homem, segundo o espírito do mundo. Foi o que fez São Pedro, procurando desviar o Senhor do caminho da Cruz: “A partir daquele momento, começou Jesus a revelar a seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém, padecesse muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e fosse condenado à morte, e ao terceiro dia ressuscitasse. Pedro, tomando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: ´Deus te livre, Senhor! Isto não te pode acontecer!´Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: 'Retira-te de mim, Satanás! Pois és para mim obstáculo (isto é, tentação); os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!' “ (Mt 16, 21-23).


Somos, pois, tentados pela nossa própria fragilidade, pelo nosso temperamento, nossa índole, formação, ambiente, familiares, amigos, situações e ocasiões; em uma palavra: pela carne e pelo mundo.


A tentação demoníaca


Porém, conforme ensina o Apóstolo, “não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espiritos malignos espalhados pelos ares.. “(Ef 6, 10-11).


É fora de dúvida que muitíssimas tentações são obra direta do demônio, cujo oficio próprio — diz São Tomás — é tentar. (
Suma Teológica, 1,q. 114,a .2. )


A maior parte da atividade demoníaca se concretiza na tentação. Por isso o demônio, no Evangelho, é chamado tentador (cf. Mt 4, 3).


As demais causas da tentação — o mundo e a carne — podem atuar dependentemente umas das outras; entretanto, é comum que, nas tentações, a atração do mundo se una à revolta da sensualidade, e a ambas se some a ação aliciante do demônio.


De tal modo que, embora os teólogos aceitem no plano teórico a possilidade de a tentação poder ter uma causa apenas natural o mundo ou a carne sem entrar necessariamente a ação do demônio, no plano prático, em geral, admitem que o Maligno, sempre à espreita, se aproveita de todas as circunstâncias para cavalgar a tentação e aumentar a sua intensidade ou malícia.


De onde a advertência de São Paulo: “Se sentirdes raiva, seja sem pecar: não se ponha o sol sobre vossa ira, para não dardes oportunidade ao demônio” (Ef 4, 26-27).


O homem diante da tentação

 


A tentação não é pecado


A tentação, de si mesma, obviamente não é pecado. Pois o próprio salvador permitiu ser tentado pelo demônio (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).


Como dissemos, o demônio não pode agir diretamente sobre a inteligência ou a vontade humanas e por isso procura influenciá-las por meios indiretos, em seu escopo de fazer-nos pecar. Mesmo podendo resistir ao tentador, o homem freqüentemente se deixa seduzir.


Para nos tentar, o demônio pode excitar a imaginação de modo a formar nela imagens e representações lúbricas ou perturbadoras; interferir em movimentos corporais que favoreçam os maus atos ou
maus pensamentos, intensificar as paixões, procurar enredar-nos em sofismas, em erros, etc.


Entretanto, o homem não é culpado das tentações que sofre, a não ser quando elas são conseqüência de imprudências, permitidas ou procuradas voluntariamente, por exemplo, com olhares indevidos, freqüência a lugares perigosos, más companhias, etc. Do contrário, ele só será culpado nos casos em que der um consentimento pleno e deliberado ás solicitações das tentações.*

 

*“Três coisas devemos distinguir na tentação: a sugestão, a deleitação e o consentimento.  A sugestão não é um pecado, porque não depende da nossa vontade, A simples deleitação, quando involuntária, também não é pecado. Só o consentimento é sempre criminoso, porque depende exclusivamente de nós o aceitar ou não a sugestão do pecado" (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, op. cit., p. 34, n. 5).

Por mais intensa que seja uma tentação, se o homem lutou contra ela o tempo todo, não cometeu a menor falta; pelo contrário adquiriu méritos para sua santificação, segundo escreve São Tiago Apóstolo: “Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam” (Tiag 1, 12).


Necessidade da vigilância e da oração


Devemos estar sempre alertas para enfrentar as provocações, como nos recomendou Nosso Senhor na hora de sua Paixão: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). O mesmo aconselha São Pedro: “Séde sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda ao redor como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Ped 5,8).


Vigiar, porém, não basta. É preciso resistir ao demônio: "Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (Tiag 4, 7) — nos assegura São Tiago. “Resisti-lhe [ao demônio] fortes na fé” — manda São Pedro (1 Ped 5,9).


E São Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do demônio. ... tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade, e vestindo a couraça da justiça ... tomai o escudo da fé com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno, tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito ( que é a palavra de Deus)” (Ef 6, 11-17).


Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças


Devemos, entretanto, ter sempre presente esta consoladora verdade: é certo que Deus não permite sejamos tentados além de nossas forças. Este é o ensinamento de São Paulo: “Nenhuma tentação vos sobreveio que superasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças: mas, com a tentação, vos dará também o meio de sair dela e a força para que suportá-la” (1 Cor 10,13).

 

A infestação


"Não temos que lutar somente 

contra a carne e o sangue, mas sim 

contra os principados e as potestades, 

contra os dominadores deste mundo de 

trevas, contra os espíritos malignos 

espalhados pelos ares.. "
(Ef 6, 10-11)

 


A TERMINOLOGIA a respeito da ação extraordinária do demônio sobre os homens, as coisas e os locais, não é uniforme: alguns autores falam em obsessão, para designar essa atuação demônio, quer se trate de sua simples presença local, quer de atuação sobre o homem, mas sem possuí-lo, quer da possessão. Outros criam termos especiais como circumissessão, para designar a ação demoníaca externa ao homem.


Adotamos aqui a terminologia utilizada por Mons. Corrado Balducci, por parecer-nos mais simples e direta: infestação local, infestação pessoal e possessão diabólica. (Cf Mons. C. BALDIJCcI, Gli indemoniati, p. 3; El diablo, pp. 156-158.)


Trataremos em primeiro lugar das duas formas de infestação — a local e a pessoal; no capítulo seguinte, da possessão.


Infestação local


A infestação local consiste em uma atividade perturbara que o demônio exerce diretamente sobre a natureza inanimada (reino mineral, elementos atmosféricos, etc.) e animada inferior (reino vegetal e reino animal), e também sobre lugares, procurando desse modo atingir indiretamente o homem, sempre em modo maléfico.

 

Com efeito, todas as criaturas, mesmo as irracionais, por maldição do pecado, ficaram sob o poder do demônio (cf. Rom 8, 21ss). Assim, os lugares e as coisas, do mesmo modo que as pessoas, estão sujeitas à infestação demoníaca. E preciso não esquecer a atuação dos demônios dos ares, a respeito das quais nos adverte o Apóstolo: “Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares...” (Ef 6, 10-11).


Entram nessa categoria as casas e lugares infestados: objetos que voam ou se deslocam de lugar, sons estranhos ou perturbadores (passos, pedradas nas vidraças ou no telhado, uivos, gritos, gargalhadas); impressão de presenças invisíveis, sensação de perigos inexistentes, etc.; distúrbios visíveis, estranhos e repentinos que se verificam no mundo vegetal e no mundo animal (árvores ou plantações que secam repentinamente, doenças desconhecidas nos animais, pragas, etc.).


Certos fenômenos ou calamidades de aparência e estruturas naturais (tempestades, terremotos e outros cataclismos, incêndios, desastres, etc.) podem ter igualmente o demônio como autor, senão único direto (como na possessão), ao menos parcial e dirigente.  Por exemplo, o raio que caiu do céu e consumiu os pastores e as
ovelhas de Jó, do mesmo modo que o vento do deserto que fez cair a casa dos filhos do Patriarca, esmagando-os sob as ruínas, foram suscitados por Satanás (Jó 2, 16-19). Nesse caso, podem ser incluídos essas manifestações demoníacas extraordinárias.


Muitas vezes, tais manifestações ocorrem em concomitância com casos de infestação pessoal ou de possessão diabólica.


Infestação pessoal


A infestação pessoal é uma perturbação que o demônio exerce, já não mais sobre o mundo material e as criaturas irracionais, mas sobre uma pessoa, diretamente, sem contudo impedir-lhe o uso da inteligência e da livre vontade. Apesar de ser excepcional, é talvez o mais freqüente dos três tipos de atividade maléfica extraordinária - isto é, infestação local, infestação pessoal, possessão.

 

Como a infestação local, a pessoal também comporta graus de intensidade, e diversa modalidade.


A infestação pessoal pode ser externa ou física e interna ou psicológica, conforme se exerça sobre os sentidos externos ou internos e sobre as paixões do homem. Com freqüência, a infestação é simultaneamente externa e interna.


Na infestação externa ou física, demônio age sobre nossos sentidos externos: a vista, provocando aparições sedutoras ou, contrário, apavorantes; a audição, fazendo ouvir rumores, palavras ou canções obscenas, blasfêmias, convites, agrados ou ameaças; o tacto, com sensações provocantes, abraços, movimentos carnais; então dores, doenças, etc.


Mas o demônio pode atuar também sobre os sentidos internos (fantasia e memória) e sobre as paixões.


A infestação interna ou psicológica consiste em sugestões violentas e tenazes: idéias fixas, imagens expressivas e absorventes, movimentos profundos de emotividade e de paixão - por exemplo, desgostos, amargura, ressentimentos, ódio, angústias, desespero; ou, ao contrário, inclinação para algum objeto ilícito, ou inclinação, de si lícita, mas desregrada quanto ao modo e à intensidade.


Comenta o Pe. Tanquerey: “A pessoa se sente, embora com desgosto, invadida por fantasias importunas, tediosas, que persistem não obstante os esforços vigorosos para afastá-las; ou então por frêmitos de ira, angústia, desespero, ímpetos instintivos de antipatia; ou pelo contrário, por perigosas ternuras sem razão alguma que as justifiquem” . (Adolphe TANQUEREY, Precis de Théotogie Ascétique ei Mystique. p. 958.)


Os acessos de melancolia e os transportes de furor que afligiam Saúl, por obra de um demônio e por permissão divina ( cf. 1 Reis 16, 14-23), são característicos da infestação pessoal interna,
infestação psicológica.


Diferentemente do possesso, o infestado guarda a disposição de seus atos exteriores, embora em muitos casos tenha sua liberdade diminuída. Ele conserva o poder de reagir contra as sugestões do interior ( por exemplo, sugestões de blasfêmias), de julgar sobre o valor moral destas sugestões, achando-as abomináveis.


Uma das modalidades de infestação pessoal, talvez das mais freqüentes são as doenças, muitas vezes desconhecidas e incuráveis, que chegam a levar à morte, se Deus o permitir. É o que, aliás, lemos no livro de Já: “Disse, pois, o Senhor a Satanás: Eis que ele (Jó) está na tua mão; conserva, porém, a sua vida” (Jó 2, 6).


As escrituras apresentam vários casos de tais enfemidades de origem de diabólica. Exemplo clássico, é a lepra que cobre de chagas o justo Jó, da planta dos pés até o alto da cabeça (Já 2, 7-8).


Seriam igualmente vítimas de infestação diabólica a mulher encurvada, atormentada pelo demônio havia dezoito anos, de tal sorte que não se podia endireitar, e que foi curada por Nosso Senhor (Luc 13, 11); o menino epilético (Mt 17, 14; Mc 9, 17; Luc 9, 38); o mudo (Mt 9,32); e o cego mudo (Mt 12, 22).


Mons. Balduecci se refere a doenças de origem demoníaca, por efeito de maleficios, observando que nestes casos os distúrbios são com freqüência de ordem física, sendo dificilmente diagnosticados pelos médicos; outras vezes se trata de inconvenientes que atacam a vida psíquica, a própria personalidade do indivíduo, tomando-o difícil, raivoso e até incapaz de atuar no âmbito de sua vida familiar e social.(Cf. Mons. C.BALDUCCI, El diablo, p. 184.)


Convém precisar que muitas das manifestações acima descritas, embora próprias às infestações locais ou pessoais, não são exclusivas delas e nem sempre são de origem demôniaca; várias anomalias de ordem psíquica (ilusões, alucinações, delírios) podem se externar pelos mesmos fenômenos; um cuidadoso exame do indivíduo e das circunstâncias que acompanham os fatos poderá revelar a origem natural patológica ou demoníaca dos distúrbios.

 

 

Vítimas prediletas da infestação


Se bem que qualquer pessoa possa ser vítima desse tipo de tormento diabólico, Mons. Balducci indica três categorias de pessoas que estariam mais sujeitas a ele: os santos, os exorcistas e demonólogos, e os maleficiados (vítimas de malefício).


Os santos, por causa do ódio que o demônio tem daqueles que de modo especial amam a Deus e procuram a perfeição; isto, do lado da intenção do demônio; do lado da permissão divina, esta é dada como provação especial a almas muito eleitas. Vários santos a experimentaram. Entre os antigos, basta lembrar Santo Antão; do mesmo modo Santa Catarina de Siena (1347-1380); São Francisco Xavier (1506-1552); Santa Teresa de Jesus (1515-1582); Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607); São João Batista Vianney, o Cura d’Ars (1786-1859) São João Bosco (1815-1888); Santa Gemma Galgani (1878-1903).*

 

*


Os exorcistas e demonólogos: a razão é tão óbvia que quase não é preciso dá-la; os primeiros, com seu ministério, fazem diminuir a presença do demônio no mundo e libertam suas vítimas; os segundos, com seus estudos, esclarecem os fiéis com relação à existência e atividade demoníacas.


Os maleficiados (vítimas de malefício), por permissão de Deus, para seu castigo, ou provação, ou para manifestar o poder divino. ( Cf. Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 179.)

 


4 Esta Santa leiga, grande mística, recebeu os estigmas da Paixão, tinha freqüentes visões de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, e um comércio quase contínuo com seu Anjo da Guarda. Foi muito atormentada pelo  demônio que a espancava com uma vara durante horas e horas, às vezes a noite inteira, causando-lhe profundas esquimoses no corpo, que duravam vários dias, até que Nosso Senhor as curasse. Perseguia-a por toda a parte, em casa, na rua, na igreja, com aparições, assumindo o aspecto de um cachorro, de um gato, de um macaco, de pessoas conhecidas, ou de homens ferozes e espantosos. Várias vezes um desses homens horríveis a jogou na lama quando saia de casa para ir comungar. O demônio lhe aparecia também sob a figura de seu confessor, Mons. Volpi e outras debaixo da aparência do Anjo da Guarda, chegando a confundi-la; de certa feita o Maligno assumiu a figura de Jesus flagelado, com o coração aberto e todo ensangüentado, para pedir-lhe maiores penitências, com a dupla finalidade de fazer deteriorar sua já delicada saúde e incitá-la a desobedecer o confessor que as havia proibido ( Mons. C. BALDUCCI,
El diablo PP. 179-181
).

 

A possessão


“E pela tarde apresentaram-Lhe
muitos possessos do demônio".

(Mt 8, 16)

 

A POSSESSÃO é a mais espetacular das manifestações diabólicas e a que mais impressiona as imaginações; a tal ponto, que deixa na penumbra o trabalho constante do demônio que, por meio da tentação, procura seduzir os homens ao pecado.


Realidade da possessão diabólica


No que se refere à possessão diabólica, há duas posições erradas que é preciso evitar: a primeira, consiste em acreditar com facilidade que uma pessoa está possessa, sem maior exame, pela impressão causada por sintomas que podem bem corresponder a outros estados, não sendo de si suficientes para caracterizar a possessão; a segunda posição está em negar que hoje ocorram casos de possessão; chega mesmo a negar que alguma vez se tenham dado. Esta posição extremada se choca com uma verdade claramente ensinada pela Sagrada Escritura, pela Tradição e pela prática da Igreja.


Os racionalistas pretendem que os casos de possessão diabólica relatados na Escritura não passam de casos patológicos — mania, loucura, histeria e epilepsia. Dizem que Jesus não pretendia que esses infelizes enfermos, chamados endemoniados, estivessem realmente possessos, mas tratava-os de acordo com as convicções dos seus contemporâneos, os quais acreditavam na ação demoníaca.

 

Nada mais falso, e os Evangelistas distinguem bem entre a doença e a possessão.


Assim, São Marcos escreve: “E de tarde, sendo já posto o sol, traziam-lhe (a Jesus) todos os que estavam doentes e os possessos do demônio E curou muitos que se achavam oprimidos com varias doenças. e expeliu muitos demonios” (Mc 1, 32-34).


E em São Mateus está escrito: “E pela tarde apresentaram-lhe muitos possessos do demônio, e ele com a (sua) palavra expelia os espíritos maus, e curou todos os enfermos” (Mt 8, 16).


Do mesmo modo São Lucas: “E quando foi sol posto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias, traziam-lhos. E ele impondo as mãos sobre cada um, sarava-os. E de muitos saíam demônios gritando”          (Lc 4,40-41).


É evidente nestas passagens que os Evangelistas se referem à cura de doentes e à expulsão de demônios como dois casos diferentes.


De resto, o próprio Salvador afirma que expulsava os demônios dos possessos. Por exemplo, aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de  Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente chegou a vós reino de Deus”(Lc 11,20).


E Ele mesmo distingue bem os casos de doença dos de possessão, ao dizer: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32).


A Liturgia e a prática da Igreja, com a instituição dos exorcismos, bem como o ensinamento dos teólogos, indicam que Ela crê na possessão diabólica. Ao mesmo tempo, estabelecendo que os exorcismos sobre possessos não sejam feitos senão depois de maduro exame e mediante especial autorização, a Igreja indica que não se deve crer levianamente nos casos de possessão.


Em resumo, que se tenham dado alguns casos, pelo menos de verdadeira possessão diabólica, como os relatados nos Evangelhos, é verdade de fé; que depois se tenham dado outros, é doutrina comum dos teólogos, que não pode ser negada sem temeridade.


Natureza da possessão


A possessão consiste em um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma pessoa. Esta
se converte em um instrumento cego, dócil, fatalmente obediente ao poder perverso e despótico do demônio.


O indivíduo em tal estado é chamado justamente possesso, endemoniado, enquanto instrumento, vitima do poder demoníaco, ou energúmeno, porque mostra uma agitação insólita.


Características


A possessão se caracteriza por dois elementos: a) presença do demônio no corpo do homem; b) exercício de um poder por parte demônio sobre o mesmo.


Quanto â presença demoníaca, ela não significa uma presença física, como anjo (decaído), o demônio é puro espírito; sua presença se dá pelo contacto operativo, isto é, o demônio está onde atua desse modo, o demônio pode desenvolver sua atividade por toda a parte, tanto fora como dentro dos corpos humanos. Sendo assim, um indivíduo pode  estar possuído por vários demônios (os quais operam simultaneamente sobre ele, embora sob aspectos diversos), como um só demônio pode possuir várias pessoas (atuando sucessivamente sobre cada uma delas).


O modo como se opera a possessão é explicado por São Tomás de Aquino:


"Os anjos bons e os maus têm o poder, em virtude de sua natureza, de modificar nossos corpos, como qualquer outro objeto material. E como eles estão presentes num lugar na medida em que operam nele, assim eles penetram em nossos corpos. Do mesmo modo, ainda, eles impressionam as faculdades ligadas a nossos órgãos: às modificações dos órgãos respondem as modificações das faculdades. Mas a impressão não chega até à vontade, porque a vontade, nem seu exercício, nem em seu objeto, depende de um órgão corporal; ela recebe seu objeto da inteligência, na medida em que esta desentranha, do que ela percebe, a noção de bondade do ser”.
(In 2dum Sent., Dist. VIII, q. un. a. 5, sol. apud L. ROURE, Possession Diabolique, col.)


Em outro lugar o Santo Doutor explica que o diabo não pode
penetrar diretamente na alma do homem, pois isto somente a Santíssima Trindade pode fazer. (Suma Teológica, 3,q. 8,a.8)


Isto quer dizer que, na possessão, embora o demônio domine o corpo, sobretudo o sistema nervoso, e possa impedir o uso das potências da alma, ele não pode penetrar nela e obrigar sua vítima a cometer um pecado, ou aceitar as doutrinas diabólicas.


O possesso não é moralmente responsável por seus atos, por piores que sejam, uma vez que não tem plena consciência deles,  nem existe colaboração da vontade.


Efeitos da ação do demônio sobre o possesso


A presença operante do demônio no endemoniado não é contínua, mas se manifesta por períodos de crise. Não falta ao demônio poder nem  vontade de atormentar ininterruptamente sua vítima, tal o ódio ao homem; Deus é que não o permite, pois a pessoa não resistiria.


A influência do demônio sobre os possessos não é simplesmente indireta ou moral, como, por exemplo, nas tentações, mesmo as mais fortes; ela é uma ação direta e física, exercida pelos espírito das trevas sobre os órgãos corporais do infeliz submetido ao seu império. De onde resulta para este último um estado doentio, estranho, que sai das leis ordinárias das afecções mórbidas, embora freqüentemente acompanhado de fenômenos de ordem puramente natural, que o demônio determina nele, simultaneamente com aqueles que ultrapassam a esfera própria aos agentes físicos. Esses fenômenos são habitualmente uma superexcitação geral e profunda de todo o sistema nervoso.


Outras vezes, ao contrário, o demônio comunica à sua vítima um crescimento extraordinário da força muscular. O infeliz entra em fúria a ponto de espumar de raiva, ranger os dentes, soltar gritos espantosos, precipitar-se na água ou no fogo. Ele se torna então perigoso para aqueles que se aproximam dele; destrói, como simples pedaço de palha, as cadeias de feno com as quais o querem prender; e, se ele não puder atingir os outros, volta conta si mesmo o seu furor, arranhando-se com as unhas, machucando-se com as pedras do caminho.


Essa ação perturbadora e nociva do demônio sobre os órgãos corporais expande-se sobre as faculdades mistas, como a imaginação, a memória, a sensibilidade. Estende-se mesmo mais longe e mais alto no ser humano, porque ela tem sua repercussão até na inteligência.  As operações intelectuais apresentam, às vezes, um tal caráter de incoerência, que os demoníacos parecem atingidos  de alienação mental. Não é raro também ver-se produzir, no domínio do espírito, um fenômeno análogo àquele que se passa no seus órgãos. Assim como o demônio, em lugar de paralisar as energias corporais do demoníaco, aumenta seu poder, do mesmo modo, em vez de diminuir suas luzes naturais, ele comunica à sua inteligência conhecimentos que ultrapassam de muito seu poder.

 

Possessão e infestação: fenômenos da mesma espécie


A infestação pessoal (ou obsessão) e a possessão constituem fenômenos da mesma espécie, variando apenas em grau, e são classificadas pelos teólogos como ações extraordinárias e diretas do demônio, enquanto a tentação é indicada como ordinária e
indireta.


Observa o Cardeal Lepicier que a diferença entre a infestação pessoal e a possessão não é um diferença de espécie, mas somente de grau, visto que estas formas diferem mais ou menos, conforme for maior ou menor o grau do poder exercido pelo demônio sobre o corpo do indivíduo a quem ele resolveu atormentar. Os fenômenos de infestação pessoal não são, por vezes, menos graves do que os de possessão. De fato, o Ritual Romano não estabelece diferença alguma entre eles, e as línguas latina e italiana têm apenas uma palavra clássica para designar ambas as formas, isto é, obsessão diabólica.(Cf. Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, p. 277.)

É verdade — explica o Pe. Roure — que a possessão não penetra até o íntimo da alma; conseqüentemente ela não pode ditar, impor ao possesso um ato pessoal de inteligência ou de vontade; mas a ação diabólica chega a neutralizar, a impedir o exercício da inteligência e da vontade, de modo que o possesso torna-se incapaz de conhecer, de julgar e de querer tudo o que se passa e se agita nele.  Na infestação tal não se dá; a vítima conserva o domínio de suas faculdades superiores (a inteligência e a vontade), e pode mesmo servir-se delas para enfrentar os assaltos do Maligno. Dessa forma acontece que a efervescência diabólica pode deixar o fundo da alma em paz. (Cf. L. ROURE, Possession Diabolique, cols. 2645-2646.)


Causas da possessão


Punição, provação...


A permissão dada por Deus ao demônio de, na possessão apoderar-se assim dos órgãos corporais e das faculdades espirituais de uma criatura humana, é, às vezes, punição de certos pecados graves cometidos pelos possessos, em particular os pecados da carne.  Entretanto não é sempre assim. Um endemoniado não é necessariamente culpado. Algumas vezes, Deus permite esse estado para ressaltar sua glória pela intervenção ostensiva de seu poder absoluto (cf. Jo 9, 1-8), ou para provar os possessos.


São Boaventura explica que Deus permite a possessão “seja em vista de manifestar sua glória, obrigando o demônio pela boca possesso a confessar, por exemplo, a divindade de Cristo, seja para punição do pecado, seja para nossa instrução. Mas, por qual dessas causas precisamente ele deixa o demônio possuir um homem, é o  que escapa à sagacidade humana: os julgamentos de Deus são escodidos aos homens. O que é certo, é que eles são sempre justos” (In 2dum Sent. dist. VIII. part II. q. 1 art único apud L. ROURE, Possession Diabolique., col. 2644.)


O caráter espetacular da possessão acaba por apresentar um efeito apologético e ascético benéfico, pois torna patente e quase visível a existência do Espírito das trevas.

 

Esta é uma das razões pelas quais Deus permite a possessão diabólica, pois obriga o Maligno a agir como que a descoberto, dando mostras públicas da sua maldade, do seu ódio contra o homem e a criação.


Práticas supersticiosas, espiritismo, macumba


Não devemos esquecer, entre as causas das infestações e da possessão, as práticas supersticiosas, o recurso a magos, pais-de-santo, cartomantes, adivinhos, etc.


"O demônio, quando um homem colabora com ele em práticas superti ciosas, facilmente exerce sobre esse indivíduo a mais cruel e implacável tirania” — observa o Cardeal Lepicier. Ele chama a atenção para as práticas espíritas: “Não pode haver dúvida de que atuar como médium é o mesmo que expor-se aos perigos da obsessão diabólica ... Recorrer a um médium é, pois, equivalente a cooperar na obsessão de uma pessoa”.
(Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 222-223.
)


Uma das causas muito comuns da ação extraordinária do demônio sobre pessoas é o malefício
, a respeito do qual falaremos adiante.


O Pe. Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma, afirma que oscasos mais difíceis de infestação e de possessão diabólica que ele tem encontrado são os resultantes de macumbas realizadas no Brasil e na África.
(Cf. G. AMORTH, Un  esocista racconta, pp. 116 e 157.
)


Existem ainda casos de possessão voluntária, em que a pessoa que recorreu ao diabo e fez um pacto com ele pode agir como um instrumento do Maligno para levar avante os desígnios dele. A figura típica do médium de Satanás, foi Hitler, segundo julga o teólogo e demonólogo beneditino austríaco Dom Aloïs Mager.("Não há nenhuma outra definição mais breve, mais precisa, mais adaptada à natureza de Hitler que esta tão absolutamente expressiva: Medium de Satã” (D. Aloïs MAGER O.S.B., Satan de nos jours, p. 639).)  Poderiam ser mencionadas igualmente as figuras sinistras de Lenin, Stalin, e tantos outros...


Freqüência da possessão


Após o estabelecimento da Igreja, o número dos demoníados diminuiu, de muito, nas nações tomadas cristãs. E que, pelo Batismo e demais Sacramentos, os fiéis são preservados desses ataques sensíveis do demônio. Este perdeu seu império, mesmo sobre aqueles que, embora batizados, vivem de maneira pouco conforme com à Fé de seu Batismo. Membros da Igreja, embora membros mortos, eles encontram nessa união, entretanto imperfeita, ao Corpo Místico de Cristo, um socorro em geral suficiente para que o demônio não possa apoderar-se deles, como faria, se se tratasse de pagãos.


“Entretanto — observa o Pe. Ortolan — não somente nas regiões que não receberam o Evangelho, mas também naqueles em que a Igreja está estabelecida, encontram-se ainda demoníacos. Seu número aumenta na proporção do grau de apostasia das nações que, outrora católicas, abandonam pouco a pouco a Fé, e retornam ao paganismo teórico e prático” (T. ORTOLAN, Demoniaque, col.410.)


Para avaliarmos corretamente a presença e atuação do demônio no mundo atual é preciso considerar que o estado de apostasia a que se referia o Pe. Ortolan há mais de quarenta anos — chegou em nossos dias a um grau inimaginável. E que, mais ainda do que os casos de possessão, o número dos infestados é sem conta.

 

 

Possessão diabólica:
o diagnóstico

 


"Para estabelecer a realidade
de uma possessão, um único método
é válido: provar a presença dos sinais
indicados no Ritual Romano”.

(Dom Louis de Cooman,
Bispo-missionário e exorcista)

 


Estados patológicos e possessão diabólica


Problema complexo


Um dos problemas mais complexos colocados pela ação diabólica extraordinária sobre o homem é o seu diagnóstico. A questão consiste em saber quando estamos realmente em presença de uma ação preternatural (isto é, provocada por anjos ou demônios) ou diante meras manifestações de morbidez, ou de outro gênero, por certo incomuns, mas que não escapam ao âmbito dos fenômenos naturais da alçada da Medicina e outras ciências.


Nem sempre é fácil distinguir entre as infestações e possessões demoniácas e certos fenômenos de natureza mórbida, pois é sabido que inúmeros distúrbios patológicos, especialmente de caráter neuro-psiquiátrico, provocam estados de extrema agitação, decuplicam as forças físicas, provocam fobias em relação às coisas sacras, etc. Em resumo, fazem o pobre doente parecer um possesso.


É o que faz notar o Cardeal Alexis Henri Marie Lépicier, O.SM.:


Sabemos que em algumas pessoas a imaginação, estando fora do normal, pode ultrapassar os seus naturais limites e ser a origem de manifestações estranhas que, à primeira vista, apresentam uma certa afinidade com ocorrências preternaturais [isto é, produzidas por anjos ou demônios]. ... Todos nós sabemos quantas perturbações pode causar uma doença nervosa em certas criaturas, como, por exemplo, nas que sofrem de histeria. Há, de fato, nas ações destes indivíduos muitas coisas que causam admiração. ... Mas é principalmente nos períodos de paroxismo que a histeria está mais apta a exibir muitos e curiosos fenômenos, o principal dos quais é a alucinação.


“Toda gente vê, portanto, a necessidade imperiosa de estabelecer a distinção entre estes fenômenos e os que são devidos a causas preternaturais” (Card. A. LEPICIER, O Mundo invisível, p. 201.)


Outras vezes, são fenômenos da natureza, insuficientemente explicados pelos cientistas, ou simplesmente fora de alcance de pessoas sem formação especializada: luminosidades, movimentos de massas de ar, variações térmicas, etc., os quais podem parecer fenômenos maravilhosos provocados por ação diabólica.

 


Objetividade e rigor científico


Mons. F. X. Maquart — renomado estudioso da matéria - compara o diagnóstico do exorcista ao diagnóstico médico.


O exorcista deve proceder com a mesma objetividade, o mesmo rigor que o exame do médico, de modo a não deixar fora do exame nenhuma das manifestações apresentadas pelo comportamento do paciente, evitando com isso deixar-se levar pela impressão, que pode ser enganosa. Esse exame crítico tem por finalidade eliminar alguma possível explicação natural observável na presumida manifestação diabólica.


Mons. Maquart explica que um certo número de sintomas da possessão são comuns com os de algumas doenças como a psicastenia, a histeria, algumas formas de epilepsia, etc. Como fazer para discernir então entre um simples doente mental e um possesso pelo demônio? Entram em jogo os outros sinais da possessão, que não têm explicação natural: falar línguas estrangeiras não aprendidas,  conhecer fatos à distância, revelar ciência ou força física muito em desproporção com a idade, etc. ( Cf. F. X. MAQUART. L´Exorciste devant les manifestations diaboliques, pp. 338-339.
)

 

Essa posição exige, ao mesmo tempo, muita objetividade e bom senso, ao lado de muita fé. Pois, como é evidente, não se pode, sob pretexto de que o extranatural é uma exceção, negar em princípio toda a ação demoníaca, ou proceder de tal forma como se sempre se tivesse que encontrar, a qualquer preço, uma explicação natural.


Perigos de um diagnóstico errado


Um diagnóstico errado não é isento de perigos, tanto de ordem moral e espiritual, como até mesmo física.


Em primeiro lugar, a prática de exorcismos em simples doentes mentais, sem que estes, obviamente, experimentem qualquer melhora, pode conduzir ao descrédito em relação aos mesmos exorcismo e às coisas sagradas de modo geral. Pode ainda oferecer argumentos aos céticos, que se aproveitarão para tachar a prática dos exorcismos como puramente supersticiosa.


Além do mais, a prática dos exorcismos solenes representa para o exorcista um desgaste muito grande, o qual seria sem fruto em caso de erro de diagnóstico.


Por fim, o exorcizar doentes mentais oferece o perigo de agravar seus males, seja pela grande tensão e esforço mental e até físico que o exorcismo comporta, seja pelo caráter impressionante deste.


É o que afirma Mons. Maquart, experimentado demonólogo francês:  “Não seria sem inconvenientes graves exorcizar, sob simples aparências de possessão, doentes mentais. Em vez de os curar, o exorcismo teria o risco de agravar seu mal”. (Mgr F. X. MAQUART, L ‘Exorciste devam les manjfestations diaboliques, p. 328.)


O mesmo assegura Dom Gustavo Waffelaert (Bispo de Bruges): "Há inconveniente real em exorcizar uma pessoa não possessa. Por ela, antes de tudo; pois o exorcismo, pela forte impressão que produz, pode afetar desfavoravelmente um sistema nervoso já perturbado e acabar de o arruinar; ele é também um poderoso meio de sugestão e arrisca desenvolver, num indivíduo fraco, hábitos mórbidos. Além do
que, não se tem o direito de empregar, sem motivo grave, as orações sagradas do Ritual: é preciso que elas tenham um objeto. Dessa forma, a Igreja, para pemitir o exorcismo, requer a prudência e um julgamento moralmente certo ou ao menos provável da possessão” . (Mgr G. 3. WAFFELAERT, Possession Diabolique. col. 55.)


Em muitos lugares — como nas dioceses de Roma e Veneza - os exorcistas trabalham sempre em estreita união com psiquiatras católicos, os quais os ajudam a distinguir meros doentes de eventuais possessos; por seu lado, esses profissionais, muitas vezes, recorrem aos serviços dos exorcistas, quando percebem em seus clientes sinais que ultrapassam os limites da Medicina.


Na realidade, certas manifestações, à primeira vista patológicas, podem esconder a ação do Maligno. Por isso o médico católico não deve excluir sem mais a possibilidade dessa ação, conforme observa Mons. Catherinet: “O médico que quiser manter-se um homem completo, sobretudo se ele possuir as luzes da fé, não excluirá, a priori, a presença do demônio, podendo, em certos casos, suspeitar, por trás da doença, a presença e a ação de alguma força oculta (cujo estudo ele pedirá ao filósofo ou ao teólogo, os quais se guiam segundo seus próprios métodos). (Mgr F. M. CATHERJNET. Les Demoniaques dons l Évangile, pp. 324-32.)

 


Critérios seguros


A Igreja nunca negou essa dificuldade de diagnóstico da possessão; ao contrário, sempre foi muito cautelosa no pronunciar-se sobre os casos concretos, recomendando que na avaliação de cada um deles se examine com muito cuidado se o fenômeno pode ter uma origem natural. Só depois de diligente e acurado exame, e de descartadas todas as possibilidades de explicação natural, é que a Igreja autoriza a proceder aos exorcismos solenes sobre os possessos. Para garantir tal rigor de procedimento, a Igreja estabeleceu que esses exorcismos só podem ser praticados por sacerdotes devidamente autorizados pelo Ordinário do lugar para cada caso concreto;
bispo não pode dar essa autorização senão a um padre de conhecida ciência, prudência, piedade e integridade de vida. (Cf. Código de Direita Canônico, cânon 1172 § § 1 e 2.)


Dom Louis de Cooman, antigo Vigário Apostólico no Vietnã ( ele próprio exorcista em um caso famoso de possessão coletiva, que será relatado adiante), dá o único critério que considera seguro para se determinar se há ou não possessão: “Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais clássicos indicados pela Igreja no Ritual Romano” (Mgr Louis de COOMAN, Le Diable au Couvent, p. 12.)


O Ritual Romano (que data do século XVI) estabeleceu, para orientar exorcistas, os seguintes indícios por parte do suposto possesso:

 

1. Falar ou compreender línguas estrangeiras sem tê-las antes aprendido;
2. Revelar coisas secretas ou distantes;
3. Manifestar força física acima de sua idade e condição;
4. E outras manifestações do mesmo gênero, que quanto mais numerosas forem, mais constituem indícios. (
Rituale Romanum, Tit. XI, Cap. 1, n. 3.)


Se certas manifestações (como, por exemplo, demonstrar uma força extraordinária, dar uivos animalescos, gritar blasfêmias ou palavrões) podem ser causadas por uma doença, a revelação de pensamentos ocultos ou o conhecimento de coisas que se passam à distância já não podem ter a mesma explicação.


Hoje em dia muitas pessoas (infelizmente até sacerdotes) pretendem negar, senão doutrinariamente, ao menos na prática, toda possibilidade de possessão ou infestação diabólica, apresentando explicações pseudo-cientificas em nome da
Parapsicologia.


A esse respeito observa Mons. Louis Cristiani: querer dar uma explicação natural às manifestações demoníacas pela Parapsicologia é explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda...

 

 

 

IV - A LUTA CONTRA O PODER DAS TREVAS


DEPOIS DE TERMOS ESTUDADO a atividade demoníaca ordinária (a tentação) e a atividade extraordinária (infestação pessoal e a local, possessão), de ter visto os critérios para o diagnóstico dessas manifestações, parece-nos indispensável dar aqui os meios que temos para fazer face às investidas diabólicas.


O homen não está desarmado diante do poder das trevas. Ele dispõe de armas sobrenaturais e também naturais com que enfrentar as investidas diabólicas.


Primeiramente, cabe ver de que meios preventivos dispomos; ou seja, como fazer para evitar, tanto quanto está em nós, as investidas do demônio. A seguir, quais os meios terapêuticos á nossa disposição, para nos curarmos, caso nos ocorra sermos atingidos por tais investidas.


Esses meios podem ser chamados remédios, porque a ação demoníaca provoca em nós distúrbios que não são menos incômodos que as enfermidades do corpo. E assim como as doenças do corpo podem conduzir à morte física, a atuação do demônio visa produzir a morte da alma.

 

Remédios gerais, preventivos e liberativos


“E não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal”.

(Mt 6, 13)


NA LUTA CONTRA a atividade demoníaca ordinária (tentações) e extraordinária (infestação local, infestação pessoal sessão e possessão), os autores recomendam, em primeiro lugar, os remédios gerais oferecidos pela Igreja.


Práticas religiosas e devocionais

 


Oração e penitência; sacramentos e sacramentais


Antes de qualquer outro, vem o grande remédio indicado pelo próprio Salvador, como o único capaz de vencer certa casta de demônios — a oração e o jejum, acompanhados por aquela fé que move as montanhas (cf. Mt 17, 14-20).


A oração por excelência é aquela que o próprio Cristo ensinou quando seus discípulos Lhe pediram: “Senhor, ensina-nos a rezar" — o Pai-Nosso (Lc 11, 1-4; Mt 6,9-13).


Nas duas últimas petições, rogamos ao Pai celeste que nos dê forças para resistir aos assédios da carne, do mundo e do demônio: “Não nos deixeis cair em tentação"; e que nos livre do mal, do supremo mal — o pecado; e de seu instigador — o demônio: livrai-nos do mal” ou “livrai-nos do Maligno”.* A liturgia em várias cerimônias recita o Pai-Nosso, todo ou, apenas essas duas petições.  É recitado por inteiro nos exorcismos solenes sobre possessos.


* Os especialistas explicam que, no texto grego dos Evangelhos, podemos entender essa petição tanto no sentido de sermos livres do mal, como do autor do mal, o Maligno, o demônio. “De fato, as duas interpretações não se excluem — comenta o P. Jean Carmignac - uma vez que o fim do demônio é o pecado e o pecado tem o demônio por instigador.  Contudo, segundo as diretrizes de Cristo, devemos pedir o afastamento não somente do pecado, mas sobretudo do demônio” (Abbé Jean CARMIGNAC, Á l´écoute du Notre Père, Éditions de Paris, 1971, p. 87; no mesmo sentido, J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´action de Satan en ce monde, p. 496, nota 5).


Depois vem a Ave-Maria — louvor da Mãe de Jesus, a qual, por sua imaculada Conceição, esmaga para sempre a cabeça da antiga serpente.  É igualmente recitada nos exorcismos sobre possessos.


Por fim, o CredoCreio em Deus Pai — solene profissão de fé católica, que infunde especial terror ao demônio; também é recitado nos exorcismos sobre possessos.


Junto com a oração e a penitência, é indispensável a freqüência aos sacramentos, sobretudo da Confissão e da Comunhão; assim como o uso de sacramentais (como a água-benta e o Agnus Dei) e de objetos bentos (velas, escapulários, imagens, cruzes, medalhas - particularmente a Medalha Milagrosa e a medalha-cruz exorcística de São Bento).


Devemos lembrar também o poder do Sinal da Cruz para afugentar o demônio: o símbolo de nossa Redenção, que destruiu seu reino, causa-lhe particular terror; o demônio foge... como o diabo da cruz...— segundo o dito popular.


Além das quatro cruzes que se fazem no Sinal da Cruz, as próprias palavras pronunciadas são de natureza
exorcística deprecatória: "Pelo sinal (+) da Santa Cruz, livrai-nos Deus (+) Nosso Senhor, dos nossos (+) inimigos. Em nome do Pai, e do Filho, (+) e do Espírito Santo. Amém."


Por isso devemos fazer o Sinal da Cruz nas mais diversas ocasiões: ao levantar e ao deitar, antes das refeições, ao sair de casa, nas viagens, antes de tomar alguma resolução, etc.


A água-benta é feita expressamente para afastar dos lugares e das sobre as quais é aspergida “todo o poder do inimigo e o próprio inimigo com seus anjos apóstatas” conforme se lê no Ritual Romano. (Rituale Romanum, tit. VIII, c. 2. ).  São numerosas no mesmo Ritual as bênçãos, orações
e cerimônias com o mesmo fim, aplicadas a objetos e lugares diversos, as quais contém a mesma fórmula deprecatória contra Satanás.

 


A confissão: mais forte que o exorcismo


Convém insistir na confissão freqüente — apesar das dificuldades que hoje se apresentam para essa prática sacramental - pelo empenho dos teólogos e dos exorcistas quanto à sua eficácia.


O exorcista da arquidiocese de Veneza, Pe. Pellegrino Emetti, da Ordem de São Bento, enfatiza: “O sacramento da Confissão, nós o sabemos, é a segunda tábua de salvação depois do Batismo. ... A experiência ensina que dificilmente Satanás consegue penetrar em uma alma que se lava freqüentemente com o Sangue preciosíssirno de Jesus. Este sangue torna-se a verdadeira couraça contra a qual Satanás pode forçar, porém não consegue abrir nenhuma brecha.  A freqüência assídua e constante desse sacramento é necessária, seja para quem faz o exorcismo, seja para quem dele tem necessidade. Estou certo, por urna longa experiência, que o sacerdote deveria lavar a sua alma no sangue de Jesus até mesmo diariamente, se quiser lutar juntamente com Jesus contra Satanás, e sair vitorioso. É verdadeiramente este o sacramento do qual Satanás tem medo ... Cristo venceu Satanás com o próprio Sangue. E o Apocalipse explicitamente nos diz: "Estes são aqueles que venceram Satanás com o Sangue do Cordeiro “. (D. P. ERNETTI O.S.B., La Catechesi di Satana, p. 251.)


É igualmente taxativo o Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma: “Muitas vezes escrevi que se causa muito mais raiva ao demônio confessando-se, ou seja, arrancando do demônio a alma, do que  exorcizando e arrancando-lhe assim o corpo. ... A confissão é mais forte que o exorcismo “. (G. AMORTH, Un esorcista racconta, pp. 63 e 86.)

 


Desprezo soberano ao demônio


A esses meios, os santos e autores espirituais acrescentam o desprezo soberano ao demônio.


Ouçamos Santa Teresa: “É muito freqüente que esses espíritos malditos me atormentem; mas eles me inspiram muito pouco medo, porque, eu o vejo bem, eles não podem sequer se mexer sem a permissão Deus... Que se saiba bem: todas as vezes que nós desprezamos os demônios, eles perdem sua força e a alma adquire sobre eles mais domínio... Verem-se desprezados por seres mais fracos, é, com efeito,  uma rude humilhação para esses soberbos. Ora, como dissemos apoiados humildemente em Deus, nós temos o direito e o dever de os desprezar: Se Deus está conosco, quem será contra nós? Eles podem latir, mas não podem nos morder, senão no caso em que — seja por imprudência, seja por orgulho — nos colocaremos em seu poder”.
(Apud Ad.  TANQUEREY - Jean GAUTIER, Abrégé de Théologie Ascétique et Mystique, p. 112.)


É evidente que não devemos confundir esse desprezo ao demônio com a vã pretensão de que, por nós mesmos, temos algum poder sobre os anjos decaídos. Por natureza não temos nenhum poder sobre eles; pelo contrário, por sua natureza superior, eles é que podem ter domínio sobre nós. A base desse desprezo salutar dos inimigos infernais tem de ser a mais perfeita humildade e a confiança verdadeira e não temerária no Criador, na Santíssima Virgem. Tomados esses cuidados, convém fazer o que a grande Santa Teresa indica com tanta propriedade.


Sobretudo, devemos nos esforçar por ter uma vida de piedade séria e autêntica,  sem superstições nem sentimentalismos. Isto manterá o demônio distante de nós, o quanto é possível.

 


Fortalecimento da inteligência e da vontade


Um grande meio preventivo na luta contra o demônio é o fortalecimento de nossa inteligência e de nossa vontade.


Com efeito, a principal defesa de ordem natural que temos contra as investidas dos espíritos malignos é a inviolabilidade dessas faculdades superiores, as quais mais nos assemelham a Deus. Na medida em que permitimos seu enfraquecimento, estamos nos colocando á mercê de Satanás e seus seqüazes. Pois o demônio tem lucrado tanto com o enlouquecimento geral a que estamos assistindo em nossos dias, que é o caso de perguntar se não é ele quem o está provocando.


Sem o consentimento da vontade humana, nenhua ação externa — quer da parte dos anjos, quer dos demônios — pode surtir o seu efeito: nenhum anjo pode constranger o homem a uma ação boa e nenhum demônio o pode fazer pecar.


Deus dotou o homem de vontade livre, dom natural inapreciável, que lhe permite decidir se acolhe ou não as boas inspirações, se cede ou não às tentações, por mais que estas possam ser apresentadas com grande habilidade e astúcia, comprometendo a fantasia, ou com veemência, exacerbando as paixões e os instintos. O homem não é mero objeto passivo de disputa entre os anjos e os demônios, nem simples espectador inerte, mas um sujeito eminentemente ativo e operante.


Os autores costumam ressaltar os perigos de uma pretensa mística, que conduz ao abandono voluntário da inteligência e da vontade.


É certo que Deus nos pode conceder a graça excecional da contemplação passiva dos místicos; isso, porém, só acontece por uma eleição gratuita exclusiva de Deus, sem cooperação de nossa parte, a não ser uma humilde prontidão em fundir inteiramente a nossa vontade com a divina, unindo-nos misticamente com Deus.


Se, entretanto, procuramos culpavelmente provocar em nós mesmos essa passividade da vontade (por exemplo, por meio do hipnotismo, do transe, do uso de estupefacientes e narcóticos de vários tipos, de técnicas corporais ou espirituais), podemos nos transferir ao mundo do pretersensível, como acontece no sono e na contemplação mística; mas esse estado, ao invés de nos elevar nas vias luminosas dos êxtases, pode arrastar-nos para baixo, rumo a escuros abismos, onde não encontraremos anjos e sim demônios, que nos tratarão como presas sem vontade, podendo levar-nos à possessão.


De onde o perigo de certas escolas ou correntes que se apresentam como meras técnicas de meditação, de concentração espiritual ou coisa parecida, as quais, infelizmente, têm encontrado aceitação até mesmo em setores e movimentos católicos. (Escrevem Noldin-Schmitt: “As Gnoses modernas que seguem teósofos e antropósofos e as técnicas de meditação e concentração hinduístas (ioga, budismo), que buscam conhec er ordens superiores não estão isentas de influxo demoníaco, especialmente quando diretamente buscados” (H. NOLDIN-A. SCHMITT, Summa Theologiae Moralis, II, nn, 1 48ss, pp 138-155).)

 


Evitar toda superstição, refrear a vã curiosidade,


Por fim, é preciso evitar qualquer forma de superstição, de curiosidade malsã e às vezes mórbida com relação ao mundo do Além.


Aquilo que Deus quis que soubéssemos a esse respeito, Ele, em sua bondade e misericórdia, revelou aos homens e colocou essa Revelação sob a guarda e a interpretação da Santa Igreja. E aí que devemos procurá-la, de acordo com nossas capacidades, e não nas falácias de advinhos e de médiuns, com risco de entrar em promiscuidade com os espíritos infernais.


Quanto ao nosso futuro imediato, terreno, também devemos respeitar o mistério no qual Deus o mantém envolto. Podemos rezar pedindo-Lhe que nos esclareça algo, se essa for a Sua vontade e se isso for 
útil para nossa eterna salvação. Porém, ir mais longe é correr o risco de cair em superstição e assim ficarmos expostos ao demônio, como também faltar com a confiança em Deus, que sabe melhor do que nós o que nos convém conhecer. Devemos antes agradecer-Lhe por nos poupar tantas angústias, escondendo-nos hoje os males e preocupações de amanhã. Como disse o Salvador:"A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34).

 

 

Exorcismo: aspectos históricos


“Se eu, porém, lanço fora os demônios pela virtude do 

Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus".

(Mt 12, 28)

 

OS EXORCISMOS constituem a grande arma (ou remédio específico) da Igreja e dos fiéis contra a ação extraordinária do demônio — isto é, a infestação e a possessão. Para melhor compreender o que são os exorcismos convém estudar sua origem, natureza e história.


O poder exorcístico, sinal do Reino de Deus


Jesus dá como característica do Reino de Deus por Ele fundado a expulsão de satanás e dos seus demônios, e transmite este carisma exorcístico aos seus Apóstolos, à sua Igreja.

 


Aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente  chegou a vós o reino de Deus” (Lc 11, 20 ).


Após a Ressurreição, pouco antes de subir aos Céus, Nosso Senhor enviou os Apóstolos pregar o Evangelho por todo e fez a seguinte promessa: “E eis os milagres que acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome...”(Mc 16, 17).


O Salvador destruiu as obras diabólicas, triunfou sobre Satanás e, com a humilhação levada até a própria morte na cruz, mereceu um nome superior a qualquer outro nome, por cuja invocação todos os joelhos se dobram, seja dos seres celestes, terrestres ou infernais: 

 

" Deus o exaltou (a Jesus) e lhe deu um nome que está acima de todo o nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no céu, na terra e no inferno” (Filip 2, 9-10).


"Santo e terrível é o seu nome!"
— exclamara profeticamente o Salmista (Sl 110,9).


Ao comunicar depois o poder exorcístico, Jesus recordou expressamente que a eficácia dele provém, de um modo todo especial, da utilização do Seu nome (cf. Mc 16, 17); de modo que invocá-Lo sobre os endemoniados equivale a esconjurá-los e libertar a pessoa pela mesma virtude de Cristo.


Santos Padres repetidamente exaltam a potência de um tal remédio. São Justino, por exemplo, nos diz: “Invoquemos o Senhor, de cujo simples nome os demônios temem a potência; e ainda hoje esconjurados em nome de Jesus Cristo... se submetem a nós ... Todo demônio esconjurado no nome do Filho de Deus ... permanece vencido e atado”. (Apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p. 86.)


O ministério exorcístico de Jesus e dos Apóstolos


A libertação dos possessos ocupa um lugar tão saliente na vida pública do Salvador que os Evangelistas, de tempos em tempos, resumem seu ministério por frases como as seguintes: “E caindo a tarde, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio... e Ele expulsava numerosos demônios... Ele pregava nas sinagogas em toda a Galiléia, e expulsava os demônios” (Mc 1, 32-34; 39) “Apresentavam-lhes todos os que estavam doentes..., e os possuídos do demônio, e Ele os curava” (Mt 4, 23-24). “Jesus curava muitas pessoas que tinham doenças e espíritos malignos” (Lc 7, 21).  Acompanhavam o Mestre “algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de doenças, entre elas Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 2). O próprio Jesus sintetiza as várias formas de sua atividade do modo seguinte:
“Eis que eu expulso os demônios e opero curas”
(Lc 13, 32). São Pedro repete a mesma idéia ao resumir a vida do Mestre para o centurião Cornélio: “Ele passou fazendo o bem e curando todos os que estavam sob o império do diabo” (At 10, 38).*


O tom imperativo, as fórmulas de um laconismo autori absoluto que não admite réplica, com que Jesus se dirigia mônios, e a prontidão com que estes obedeciam sem sombra sisténcia, indicavam bem que Ele falava “como quem tinha dade” (Mc 1,22), como Deus e Senhor.
Já em sua vida terrena o Salvador, associando os Após Discípulos ao seu ministério de evangelização, conferiu-lhes mente o poder sobre os demônios. Em primeiro lugar, ao Apóstolos: “E, convocados os seus doze discípulos, deu-lhe poder sobre os espíritos imundos para os expelirem” (Mt 10, 6, 7; Lc 9, 1). E, logo depois, aos Setenta Discípulos: “E os (discípulos) voltaram alegres, dizendo: Senhor, até os denzôi nos submetem em virtude de teu nome” (Lc 10, 17).
Depois da Ascensão, vemos os Apóstolos e Discípulos e rem esse ministério exorcístico. Assim, São Paulo expulsa o nio de uma mulher em Filipos, cidade da Macedônia, dizei espírito imundo: “Ordeno-te, em nome de Jesus, que saias (mulher). E ele, na mesma hora, saiu” (At 16, 18).
Era tal a força do exorcismo em nome de Jesus, que exorcistas judeus quiseram imitar os Apóstolos e Discípulos. ocorreu com os filhos de Ceva, príncipe dos sacerdotes, na de Efeso. Tendo invocado sobre um possesso o nome “de .i quem Paulo prega ‘Ç o espírito maligno os interpelou pela b possesso: “Eu conheço Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, sois?” E o energúmeno, atirando-se sobre dois deles, agarrou-os e "maltratou-os de tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa" (At 19, 13-16).


* Além dessas referências gerais, os Evangelhos relatam sete casos especiais de expulsão do demônio por Jesus: 1º o endemoniado de Cafarnaum (Mc 1,21-28; Le 4. 31-37); 2º um possesso surdo-do-mudo, cuja libertação deu lugar à blasfêmia dos fariseus (Mt 12, 22-23; Lc 11,14); 3° os endemononiados de Gerasa (Mt 8, 28-34; Mc 5, 1-20; Lc 8, 26-39); 4º o possesso mudo (Mt 9,32-34); 5º a filha da Cananéia (Mt 15, 21-28; Mc 21-20 ); 6º o jovem lunático (Mt 17, 14-20; Mc 9,13-28; Lc 9,37-44); 7° a mulher paralítica (Lc 13, 10-17).


O poder exorcístico dos Apóstolos se manifestava não só por sua ação direta, mas também através de objetos neles tocados: “E Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo; de tal modo que até sendo aplicados aos enfermos lenços e aventais que tinham sido tocados no seu corpo, não só saíam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam” (At 19, 11-12).


Esse poder sobre o demônio, Jesus o comunicou a todos os seus seguidores, de modo geral, e à sua Igreja, de modo particular.


Na Igreja primitiva


Nos primeiros séculos da Igreja, o poder exorcístico carismático cpncedido por Jesus aos Apóstolos e aos Discípulos (Mt 10, 1 e 8; Mc 3, 14-15; Mt 6,7; 10, 17-20), e prometido mais tarde, antes da Ascensão, a todos os cristãos (Mc 16, 17), era muito difundido inclusive entre os simples fiéis, por um desíginio particular da Divina Providência, que assim facilitar nos inícios a difusão da fé cristã.


Todos os cristãos, clérigos ou simples fiéis, expulsavam os demônios; o fato era tão generalizado, que constituía até um argumento utilizado pelos apologistas para provar a divindade do Cristianismo.


Os testemunhos são numerosos nos Santos Padres e escritores eclesiásticos, tanto ocidentais como orientais.


Com o correr do tempo e estabelecida já a Igreja, esse poder exorcístico carismático foi diminuindo, porém não desapareceu totalmente da Igreja, como o testemunham a vida dos santos e as crônicas missionárias. Em todas as épocas houve servos de Deus que pela sua simples presença ou pelo contato de algum objeto que lhes  pertencia, ou ainda por intermédio de qualquer relíquia sua, muitas vezes expulsaram os demônios, ou dos corpos que eles molestavam, ou dos lugares por eles infestados.


A figura do exorcista

Exorcista
(do grego eksorkistés) é aquele que pratica exorcismos sobre pessoas ou lugares que se acredita estarem submetidos a algum influxo ou ação extraordinária do demônio; em outros termos, é aquele que, em nome de Deus, impõe ao demônio que cesse de exercer influxos maléficos em um lugar ou sobre determinadas pessoas ou coisas. Em um sentido mais estrito, a palavra exorcista, na praxe recente da Igreja latina (até 1972), indicava quem havia recebido a ordem menor do exorcistado, que conferia o poder de expulsar os demônios, ou seja, de realizar exorcismos.

Atualmente, chama-se Exorcista o sacerdote que recebe do bispo a incumbência e a faculdade de fazer exorcismos sobre possessos. Ele só pode usar dessa faculdade de acordo com as normas estabelecidas, as quais serão vistas adiante. Muitas dioceses têm pelo menos um exorcista permanente; em outras, o bispo nomeia exorcistas conforme ocorram os casos em que sua intervenção se faz necessária.

Nos primeiros séculos, sendo muito difundido na Igreja, mesmo entre os simples fiéis, o poder carismático de expulsar os demônios, não havia uma disciplina especial para os exorcismos sobre os endemoniados, nem uma categoria especial de pessoas eclesiásticas incumbidas de praticá-los em nome da Igreja.

Desde cedo, porém, se estabeleceu um cerimonial para os exorcismos batismais — isto é, aqueles que se procediam sobre os catecúmenos, como preparação para o Batismo; e logo se constituiu uma classe particular de pessoas para proceder a eles. Era a ordem menor dos exorcistas que surgia na Igreja latina, com a incumbência, num primeiro momento, de realizar apenas os exorcismos batismais, e não aqueles sobre os possessos, os quais, como ficou dito, eram feitos por qualquer fiel, sem mandato especial.

Com o passar do tempo e com a consolidação e expansão da Igreja, a freqüência do poder exorcístico carismático foi diminuído, se bem que de forma desigual conforme os lugares; os fiéis se voltaram então, nos casos de infestação ou possessão demoníaca,  para as pessoas revestidas do poder de ordem — isto é, os diáconos,  os sacerdotes e os bispos — e igualmente, como era natural. exorcistas dos catecúmenos.

A Igreja sancionou essa prática com o seu poder ordinário, conferindo a tais exorcistas também a faculdade e o poder de exorcizar possessos.

Entretanto, devido à dificuldade no diagnosticar a possessão, bem como por causa da delicadeza e importância de um tal oficio, a Igreja foi limitando pouco a pouco o exercício desse poder a um número restrito de pessoas. Uma carta do Papa Santo Inocêncio I a Decêncio , bispo de Gubbio (Itália), do ano de 416, supõe já que os exorcismos sobre possessos eram feitos em Roma unicamente por sacerdotes ou diáconos que para isso tinham recebido autorização episcopal.

O exorcistado passará a ser considerado desde então somente como um dentre os vários graus através do qual o futuro sacerdote se preparava para as ordens maiores. Embora essa ordem menor concedesse sempre um poder efetivo sobre Satanás, o exercício desse poder ficava ligado a outros requisitos.

Essa disciplina, estabelecida pelo menos desde o século V, foi prevalecendo com o tempo em toda a Igreja do Ocidente, até tornar-se norma universal, e assim chegou até os nossos dias com o Código de Direito Canônico de 1917 (cânon 1151) e o novo Código de 1983 (cânon 1172), os quais mantiveram a reserva dos exorcismos sobre possessos unicamente a sacerdotes delegados para tal respectivo Ordinário, o qual deve considerar neles especiais dotes de virtude e ciência.

Quanto à ordem menor do exorcistado, ela confinou a existir como preparação ao sacerdócio na Igreja latina até ser completamente abolida por Paulo VI em 1972, juntamente com as demais ordens menores.

Nas Igrejas orientais, o oficio de exorcista era conhecido desde o século IV, porém não constituía uma ordem menor e seus membros não faziam parte do clero.

Exorcismo: o que é?

“Nós te elo exorcizamos, espírito imundo...
em nome e pelo poder de Jesus (+) Cristo..."

(Exorcismo contra Satanás ;
e os anjos apóstatas)

OS EXORCISMOS CONSTITUEM atos insignes de fé religião e de religião, pois supõem a crença no poder soberano de Deus sobre os demônios, sendo mesmo uma aplicação prática dessa crença.

No presente capítulo aprofundaremos um pouco mais a noção de exorcismo, em que consistem, qual o seu fundamento teológico e a sua eficácia, como se dividem e sobre quem podem ser feitos.

Noção e divisão

Os exorcismos não são simples orações a Deus, á Virgem aos anjos e santos pedindo que nos livrem dos ataques do Maligno, ou graças para enfrentá-los. Isso é necessário, sem dúvida, mas constitui apenas um dos  recursos ordinários à disposição de qualquer pessoa. Os exorcismos são mais do que isso: são um ato pelo qual o exorcista, pela autoridade da Igreja ou pela força do nome de Deus, impõe ao demônio que obedeça e cesse a presença ou atuação nefasta que está exercendo sobre lugares, coisas ou pessoas.

Assim, fazem-se exorcismos sobre lugares e coisas (incluindo aí o reino vegetal e o reino animal, e também os elementos atmosféricos), com os quais se proíbe que o demônio exerça más influências sobre eles (infestação local); praticam-se igualmente exorcismos sobre pessoas atormentadas ou perturbadas pelos espíritos malignos (infestação pessoal) ou até possuídas por eles (possessão diabólica), que têm a finalidade de libertar essas pessoas das influências maléficas e do poder e domínio de Satanás.

No caso das criaturas irracionais, a adjuração se dirige mais propriamente àquele que queremos mover; isto é, ou se dirige a Deus, a modo de súplica, para que evite que essas criaturas sirvam de instrumento do demônio; ou se dirige ao demônio, impondo-lhe que deixe ou cesse de se servir delas. E este é o sentido da adjuração da Igreja nos exorcismos e também nas bênçãos deprecatórias contra ratos, gafanhotos, vermes e outros animais nocivos.

Os exorcismos podem ser divididos segundo vários critérios. Assim, no que diz respeito à solenidade com que se fazem, os exorcismos se classificam em solenes e simples.

Os exorcismos solenes, também chamados exorcismos maiores, são àqueles feitos sobre pessoas possessas, e visam libertá-las do domínio exercido sobre elas pelo espírito do mal. Constituem o exorcismo-tipo, isto é, o que que retém o sentido mais estrito da palavra e se encontram no Ritual Romano.(Rituale Romanum, tit. XI c. 2: Ritus exorcizandi obsessos a daemonio — Rito para exorcizar os possessos pelo demônio.)

Os exorcismos simples são de dois gêneros:


a) aquele feito para impedir ou coarctar o influxo do demônio sobre as pessoas, coisas e lugares (infestação pessoal ou local), chamado Exorcismo de Leão XIII ou pequeno exorcismo, contido igualmente no Ritual; (Rituale Romanum, tit. XI c. 3:
Exorcismus in satanam et angelos apostaticos — Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas.)


b) exorcismos vários, que se efetuam nas cerimônias do Batismo solene, na bênção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, etc (encontram-se no Ritual Romano e livros litúrgicos correspondentes).


O principal critério, entretanto, para a divisão dos exorcismos é aquele referente à autoridade em nome da qual e por cujo poder se fazem.  De acordo com esse critério, os exorcismos se dividem em pública e privados

Origem e fundamento teológico do poder exorcístico

O homem não tem nenhum poder natural sobre os demônios uma vez que estes, embora decaídos, não perderam sua natureza angélica.  Por isso tem que recorrer, obrigatoriamente, a uma natureza superior à deles para livrar-se dos ataques e insídias dos espíritos malignos.

Por natureza, os demônios dependem exclusivamente de Deus, única natureza acima da angélica.* Só Deus tem um poder absoluto sobre todas as criaturas; portanto, só Ele pode dominar de modo absoluto sobre os demônios. Contudo, Ele pode conferir a quem desejar o poder de dominar sobre os demônios, pela virtude de Seu Nome. Por isso, a força coercitiva dos exorcismos e a garantia de sua eficácia — assim como a sua liceidade — estão em serem praticados em nome de Deus e por aqueles que dEle receberam tal poder.

*Algum anjo poderia ter uma natureza mais elevada do que a de Lúcifer; entretanto, se gundo a crença comum, Lúcifer teria sido o anjo mais elevado, naturalmente falando, estando assim, por natureza, acima de todos os demais anjos. Quanto aos outros demônios, alguns são mais elevados, outros menos, que os anjos bons, estando pois, no que se refere á pura natureza, acima ou abaixo deles. Pela graça, todos os anjos bons estão acima dos demônios — inclusive de Lúcifer — ainda que inferiores em natureza.

A quem conferiu Deus tal poder sobre os demônios?

Em primeiro lugar, Cristo conferiu à Sua Igreja, por meio dos Apóstolos, um “poder sobre os espíritos imundos para os expelir"  (Mt 10, 1; Mc 6,7; Lc 9, 1). E o que se chama poder exorcístico ordinário da Igreja.

Além disso, alguns cristãos — sacerdotes ou mesmo simples fiéis — recebem de Deus um carisma de expulsar os demônios.  É o que se chama poder exorcístico carismático.*

* Chama-se poder carismático aquele que deriva de um carisma. Os carismas são dons gratuitos, extraordinários e em geral transitórios, concedidos por Deus a algumas pessoas, não tanto para proveito próprio delas (embora possam contribuir para sua santificação), mas sobretudo para o bem do próximo e a edificação da Igreja. O fundamento da doutrina sobre os carismas se encontra em São Paulo (cf. 1 Cor 12, 7; Ef. 4, 12, Rom 12 6-8). Os teólogos distinguem três classes de carismas: dons de governo, dons de ensino e exortação e dons de assistência corporal.  Entre estes últimos estão os dons de cura, dos quais uma espécie é o de expulsar os demônios, o que constitui uma forma de cura. 

Por fim, os teólogos explicam que existe um outro poder exorcístico, que tem sua origem e fundamento numa apropriação do poder exorcistico por parte de qualquer fiel, “seja motivada pela vida que Cristo Nosso Senhor obteve sobre Satanás, seja da união com Ele pela fé ao menos atual”. (Mons. C. BALDUCCI, Gli indemoniati, pp. 90-91; El diablo, p. 256.)

Com efeito, todo cristão pode fazer uso do poder exorcístico que Cristo prometeu genericamente a todos os que crerem nEle, quando disse: “E eis os milagres que acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome(Mc 16, 17). Ou então aplicar a si mesmo aquela outra promessa ainda mais ampla: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12).  Ora, entre as obras de Jesus destaca-se a expulsão dos demônios e a vitória final sobre Satanás. Finalmente, pode fazer valer para si aquele poder concedido por Nosso Senhor aos Seus seguidores: “Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano” (Lc 10, 19).

De onde poder-se indicar um tríplice título ou fundamento teológico do poder exorcístico:

1. uma concessão ordinária feita por Cristo à sua Igreja;
2. uma comunicação carismática extraordinária a alguns de seus servidores, independentemente de pertencerem ou não ao clero;
3. uma apropriação de tal poder por parte de qualquer fiel.

Dessas três vias, a primeira constitui o fundamento dos exorcismos públicos, enquanto as duas últimas fundamentam os exorcismos privados.

Daí se deduz a eficácia de uns e de outros, como veremos a seguir.

Eficácia dos exorcismos

Exorcismos públicos

Há uma diferença relevante entre os exorcismos públicos e os privados; no primeiro caso, o exorcismo será um sacramental,* que não ocorre com os últimos.

* Por sacramentais entendem-se certas coisas sensíveis (água-benta, velas bentas, Agnus Dei, medalhas) ou certas ações (bênçãos, exorcismos, consagrações, etc.) da quais a Igreja se serve pata obter determinados efeitos especialmente espirituais. A força dos sacramentais

Enquanto sacramentais, os exorcismos públicos têm uma eficácia toda particular, que depende não só das disposições do exorcista e do paciente, mas também e principalmente da oração da Igreja, a qual tem um especial valor impetratório junto a Deus.

A eficácia dos exorcismos públicos, se bem que muito grande, não é infalível; e isto porque as orações mesmas da Igreja, segundo a economia ordinária que Deus segue no atendê-las, não têm efeito infalível; e também porque o poder da Igreja sobre os demônios não é absoluto mas condicionado ao beneplácito do poder divino, que às vezes pode ter justos motivos para retardar ou proibir a saída deles de um lugar ou de uma pessoa. Este valor condicionado, porém, não está minimamente em contradição com a forma imperativa do exorcismo, pois que a condição diz respeito à vontade divina, não à demoníaca, a qual de si, está plenamente sujeita ao poder da Igreja.

Exorcismos privados

Os exorcismos privados não constituem um sacramental como o público, isto é, não contam com a força intercessora da Igreja. Assim, a sua eficácia vem ou da força do carisma por base a fé na promessa feita pelo Salvador.

A eficácia do poder exorcístico carismático é segura, infalível, uma vez que o próprio Deus, ao conceder o carisma, garante, por meio de uma inspiração, que o uso desse carisma está conforme com os Seus desígnios, e obterá, por conseguinte, o efeito qual foi concedido.*

*Segundo os teólogos, Deus concede o dom do carisma com muita parcimônia; de modo que se deve proceder com muita prudência, antes de concluir que alguém é possuidor de algum carisma; maior prudência ainda é exigida da própria pessoa que presume ser possuidora de algum deles. Os autores de teologia ascética e mística, seguindo o ensinamento de São João da Cruz, aconselham a não se desejar nem pedir graças e dons extraordinários: deve bastar-nos a via normal; pois esses dons não são necessários para alcançar a salvação e a perfeição cristã, e até, ao contrário, por causa de nossas más inclinações, podem servir de obstáculo a elas. Por outro lado, é muito freqüente o demônio imiscuir-se nessas vias extraordinárias, de maneira que nem sempre é fácil distinguir o que vem do Espírito de Deus e o que vem do espírito das trevas.

No caso da a apropriação do poder exorcístico por parte do fiel, ao contrário, a eficácia resulta inferior àquela do exorcismo público, pois falta-lhe a força impetratória da Igreja, por não constituir ele um sacramental.

É preciso acentuar, como acima ficou dito, que muitas vezes os exorcismos não têm efeito, não pela falta de fé da pessoa exorcizante, ou pelo poder dos demônios, mas pelos desígnios de Deus, seja para castigo, seja para a purgação e santificação da vítima, ou por outro motivo que só Ele conhece.

A quem exorcizar?

Número infinito de infelizes atormentados pelo demônio


O O Ritual Romano reserva os exorcismos solenes

O Pe. Joseph de Tonquédec S.J., que por mais de vinte anos foi exorcista da arquidiocese de Paris e grande demonólogo, escrevia, já em 1948.

"A questão que vamos tratar não é do campo da psicologia ou da experiência em geral; ela é propriamente teológica.

"O que nos levou a refletir sobre ela foi a insistência de um número infinito de infelizes que, não apresentando os sinais de possessão diabólica, não se comportando como possessos, recorrem, entretanto, ao ministério do exorcista para serem libertados de suas misérias: doenças rebeldes, azar, infelicidade de toda espécie.

“Enquanto os possessos são muito raros, os pacientes dos quais falo são legião. Não seria legítimo tratá-los como possessos, uma vez que, em toda evidência, eles não o são. Por outro lado, eles não são também, sempre e necessáriamente, doentes mentais sobre os quais um tratamento psiquiátrico teria chance de dar certo...

“Em qualquer caso, estamos simplesmente em presença de infelizes de toda espécie, cujas queixas nos fazem compreender a gama dos infortúnios humanos. Tomados de pena por eles, nós nos perguntamos a que meios recorrer para os ajudar.

“Então nos vêm à lembrança certas páginas dos nossos Santos Livros, certas orações ou práticas litúrgicas que supõem a influência do demônio, presente muito além das regiões onde temos o costume de o confinar”.


O autor recomenda que nesses casos se usem os sacramentais (água-benta, sal bento), orações, bênçãos, o o Exorcismo de Leão XVIII (), etc. (J. de TONQUEDEC S.J., Quelques aspects dei l‘action de Satan eu ce monde, p. 493.)

Por seu lado, o exorcista da diocese de Roma, Pe. Gabriele Amorth, comenta:

“Atualmente o Ritual considera diretamente só o caso de possessão diabólica, ou seja, o caso mais grave e mais raro. Nós exorcistas nos ocupamos, na prática, de todos os casos nos quais percebemos uma intervenção satânica: os casos de infestação diabólica (que são muito mais numerosos do que os casos de possessão) , os casos de infestação pessoal, de infestação de casas e ainda outros casos nos quais temos visto a eficácia das nossas orações. ... Por exemplo, não são claros os confins entre possessos e infestados; tampouco são claros os confins entre infestados e vítimas de outros males: males físicos que podem ser causados pelo Maligno; males morais (estados habituais de pecado, sobretudo nas formas mais graves), nos quais certamente o Maligno tem sua parte. Por exemplo tenho visto às vezes vantagem em usar o exorcismo breve na ajuda ao sacramento da Confissão nas pessoas endurecidas em certos pecados, como os homossexuais. Santo Afonso, o Doutor da Igreja para a Teologia Moral, falando para os confessores, diz que antes de qualquer coisa o sacerdote deve exorcizar privadamente quando se encontra diante de algo que possa ser infestação demoníaca" (G. AMORTH, Un esorcista racconta, pp. 199-200.)

Uso freqüente dos exorcismos simples e dos exorcismos privados

Nesses casos a solução parece estar no uso mais freqüente dos exorcismos (públicos) simples (que são sacramentais e por isso têm a uma força própria, que é a da Igreja), por parte dos sacerdotes — tanto exorcistas como não-exorcistas, já que não exigem delegação especial — sobre todas essas pessoas que, sem serem possessas, são perseguidas ou influenciadas pelo demônio.

É o que recomendam os Moralistas; assim os jesuítas Pes. H. Noldin e A. Schmitt:

"Deve-se persuadir muitíssimo os ministros da Igreja a que mais freqüentemente façam uso do exorcismo simples, lembrando-se das palavras do Senhor: Em meu nome expulsarão os demônios; façam uso sobretudo sobre aqueles que sejam objeto de tentação veemente sobre penitentes nos quais percebem dificuldades em excitar a dor e os propósitos a respeito dos pecados, ou em manifestar sinceramente os seus pecados. Podem utilizar esta fórmula ou semelhantes: Eu te ordeno, em nome de Jesus, espírito imundo, que te afastes desta criatura de Deus” (H. NOLDIN S.J. - A. SCHMITT S.J. - G. HEINZEL S.J., Summa Theologiae Moralis, p. 43.)

Nada impede — como veremos — que em tais circunstâncias também os leigos pratiquem exorcismos privados, não só sobre si mesmos, mas igualmente sobre terceiros importunados pelo demônio, observadas as cautelas que adiante se dirão. Pois as palavras de Nosso Senhor lembradas acima — Em meu nome expulsarão os demônios — foram ditas a todos os fiéis.

Esse é o ensinamento também de São Tomás, citando outra passagem dos Evangelhos: “Podemos pois adjurar os demônios pelo poder do nome de Jesus, expulsando-os de nós mesmos como a inimigos declarados, a fim de evitar os danos espirituais e corporais que nos possam vir deles. Poder que nos deu o próprio Cristo: 'Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano’ (Lc 10, 19)”.
(
Suma Teológica, 2-2, q. 90, a. 2.)

Exorcismo: legislaçãoão "Sem licença peculiar e expressado Ordinário do lugar, 

ninguém pode realizar legitimamentete ente 

exorcismos sobre os possessos".
(Código de Direito Canônico)
DEPOIS DE VER a noção, o fundamento teológico e a eficácia dos exorcismos, parece conveniente dar em linhas gerais a legislação atualmente em vigor sobre a matéria.

Das origens ao Código de Direito Canônico


Direito da Igreja de restringir podereses
A Igreja, detentora do poder das chaves, tem o direito de reservar aos sacerdotes certas práticas que, em si mesmas, teologicamente falando, poderiam ser realizadas também por leigos, por não exigirem o poder de ordem. Assim foi com a distribuição da Sagrada Eucaristia, que nos primeiros tempos era feita também por simples fiéis, sendo mais tarde reservada aos diáconos e sacerdotes e só recentemente voltando a ser permitida aos leigos, mediante licença do respectivo bispo.

Foi o que se deu igualmente com relação aos exorcismos sobre os possessos: nos primórdios da Igreja, quando a abundância de carismas era um fato, os fiéis expulsavam os demônios por força desses carismas, sem necessidade de recorrer aos sacerdotes e ao bispo.

Porém a partir já do século V, em vista de abusos, como também da diminuição dos carismas, ao mesmo tempo que decrescia o número de possessos pela expansão do Cristianismo, começou a reserva desses exorcismos apenas aos sacerdotes, e somente quando autorizados pelo seu bispo. Essa norma foi-se estendendo com o tempo até que, finalmente, com o Código canônico mandado elaborar por São Pio X e promulgado por Bento XV em 1917, se tornou lei universal. (Cf. Código de Direito Canônico (1917), cânon 1151 § 1.) O novo Código de Direito Canônico (1983) conservou essa norma: “Sem licença peculiar e expressa do Ordinário do lugar, ninguém pode realizar legitimamente exorcismos sobre os possessos”. (Código de Direito Canônico, cânon 1172 § 1.)

Prudência da Igreja

Mons. Maquart, demonólogo francês, ressalta a prudência da Igreja ao reservar os exorcismos solenes sobre os possessos apenas aos padres autorizados: “Diversas razões levaram a Igreja a reservar muito estritamente a prática dos exorcismos solenes. A luta do exorcista contra o demônio não está isenta de perigos morais mesmos físicos, para o padre exorcista; a Igreja não quer e não pode expor desconsideradamente seus ministros”. (Mgr F. X. MAQUART, L’exorciste devant les manifestations diaboliques, p. 328.)

Entre as razões dessa reserva dos exorcismos sobre os possessos a sacerdotes que satisfaçam a certos requisitos — com a conseqüencia proibição aos leigos — os Autores enumeram as seguintes:

a. Perigos espirituais e mesmo físicos a que o exorcista está exposto: tentações contra a fé, contra a pureza; agressões psíquicas ou mesmo físicas por parte do demônio...


b. Necessidade de grande ciência, piedade e prudência para o confronto direto com o demônio: preparo para enfrentar as falácias, sofismas e embustes do pai da mentira; para saber como conduzir o exorcismo; para certificar-se de que o demônio saiu realmente do corpo do possesso ao fim dele; e também para discernir a verdadeira possessão de outros fenômenos, até naturais, parecidos com ela, como estados mórbidos, alucinações, ilusões.....


c. Risco de se profanar o Nome de Deus, tomando-O em vão na falsa possessão, sendo o exorcismo a adjuração do demônio em nome de Deus
a que abandone a criatura que possui ou infesta (a obrigatoriedade de recorrer ao bispo de cada vez conduz a que os casos estudados com maior cuidado, os indícios examinados [com maior prudência).


d. Possibilidade de abusos, como exorcizar doentes mentais, com perigo de agravar seus males (pela grande tensão e esforço mental até físico que o exorcismo comporta, e pelo caráter impressionante deste); ganância (pedidos de remuneração, aceitação de presentes...); solicitações pecaminosas...

Se esses riscos existem para membros do clero (a tal ponto que a lei canônica estabelece que não sejam facultados para fazer exorcismos senão sacerdotes que tenham ciência, prudência e santidade de vida), que têm formação teológica, graça de estado, experiência pastoral, muito maiores serão para os leigos que, normalmente, não tem estudos especializados ou qualquer outro preparo.

Exorcismos solenes sobre possessos

Embora qualquer sacerdote (e mesmo, como veremos, qualquer fiel) seja teologicamente capaz de fazer exorcismos, mesmo sobre possessos, entretanto, desde há muitos séculos, a Igreja dá a faculdade de exorcizar solenemente (isto é, de fazer exorcismos sobre possessos) só a sacerdotes distintos pela piedade e prudência, mediante uma expressa licença do Ordinário e com a obrigação de observar fielmente o disposto no Código de Direito Canônico e no Ritual Romano.


Os exorcismos sobrere possessos (exorcismos solenes

a. mediante licença peculiar (para cada caso concreto) e expressa (não pode ser presumida) do Ordinário do lugar. (CIC-83 cânon 1172 § 1; CIC- 17 cânon 1151, § 1.)

b. essa licença não deve ser concedida senão a sacerdotes (não pode ser dada a leigos ou religiosos não-sacerdotes) de reconhecida piedade, prudência, ciência e integridade de vida. (CIC-83 cânon 1172 § 2; CIC-17 cânon 1151 §2.)

c. estes sacerdotes não procederão senão depois de constatar, mediante diligente e prudente investigação, que se trata realmente de um caso de possessão diabólica.(C1C- 17 cânon 1151 § 2; Ritual Romano, titulo XI, c. 1.)

d. os exorcistas observarão cuidadosamente os ritos e as formulas aprovados pela Igreja. (C1C- 83 cânon 1167 § 2; cf. CIC-17 cânon 1148 § 1; Ritual Romano, título XI, c.2.)

Os exorcismos são feitos normalmente na igreja ou em algum outro lugar pio ou religioso, salvo os casos de enfermos ou a presença de motivos graves em contrário; ; não, porém, diante de um público numeroso

No exorcizar, o ministro deve ater-se ordinariamente às fórmulas do Ritual Romano, evitando em cada caso o uso de remédios ou de práticas supersticiosas. Deve evitar absolutamente fazer perguntas não oportunas ou não adaptadas ao escopo, ou não necessárias, ou de mera curiosidade, bem como aquelas que visem a descobrir acontecimentos futuros. Por outro lado, o exorcista deve perguntar ao demônio se ele está só ou com outros espíritos malignos, qual o nome deles, o tempo do início da possessão e a causa dela.

Os exorcismos podem ser realizados não apenas sobre possessos católicos, praticantes ou não, e até excomungados, mas também sobre pessoas de outras religiões ou de todo pagãs, desde que em cada caso se tenha uma certeza moral de que se trata de verdadeiros endemoniados. (Código de Direito Canônico (1917), cânon 1152.)

Exorcismos em casos de infestação local e pessoal

No caso de infestações locais e pessoais, o Ritual Romano reserva a recitação do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, publicado por ordem de Leão XIII, aos bispos e padres autorizados pelo bispo diocesano.(Rituale Romanum, tit. XII, c.3. ) (Como simples oração, pode ser recitado por qualquer pessoa, sacerdote ou leigo, sem necessidade de nenhuma autorização especial.).

Além disso, um documento recente da Santa Sé transforma em norma disciplinar essa rubrica do Ritual, reiterando assim a proibição de os sacerdotes não autorizados pelos respectivos bispos - como também os leigos — utilizarem a referida fórmula (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Ordinários de lugar. relebrando  as normas vigentes sobre os exorcismos, 29 de setembro de 1985, in Acta Apocalipse  Sedis, An. et vol. LXXVII, 2 Decembris 1985, N. 12, pp 1169-1170.)

O mesmo documento proíbe, ainda, ao sacerdote não autorizado pelo Ordinário, a presidência dede “reuniões de libertação do demônio",  nas quais se dêem ordens diretamente ao demônio, ainda que não se trate propriamente de exorcismos sobre possessos, desde que pareça haver algum influxo diabólico. (Carta cit. § 3. )

Outros exorcismos

Os exorcismos que se efetuam nas cerimônias do batismo solene, na benção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, apresentados no Ritual Romano

“Somos todos exorcistas"

"Em meu nome expulsarão os demônios."t;
(Mc 16,17)

DO ATÉ AQUI EXPOSTO ficou claro que também os leigos podem proceder a exorcismos, pelo menos em certas circunstâncias e sob certas condições. O presente capítulo procura esclarecer qual a origem e o fundamento teológico do poder exorcístico específico dos leigos, bem como as condições em que legitima e eficazmente podem fazer uso dele.

Podem os leigos exorcizar?

Possibilidade teológica

A rigor, do ponto de vista teológico, nada impede que um leigo possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo sobre possessos. A explicação teológica já ficou insinuada acima, porém de modo fragmentário, pelo que parece oportuno aprofundá-la aqui.

Já vimos como, nos primeiros tempos, fiéis que não tinham recebido o caráter sacerdotal, nem tampouco carismas especiais, procediam aos exorcismos batismais. Esses fiéis foram incorporados ao clero, vindo a constituir a ordem menor dos exorcistas

Num e noutro caso - isto é, no dos primitivos exorcistas e no dos novos ministros extraordinários do Batismo — trata-se de fiéis que, como ficou dito, não receberam a ordenação sacerdotal (no segundo, esse ministério é confiado inclusive a mulheres), o que indica que tal ordenação não é teologicamente necessária para que alguém possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo em caráter oficial, isto é, , em nome da Igreja.

Porém, não é a estes casos de pessoas delegadas pela Igreja que queremos nos referir, pois se poderia pensar que sempre é necessária alguma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade teológica para exorcizar o demônio. O que investigamos aqui é se o simples fiel, sem nenhuma investidura oficial, tem poderes
— teologicamente falando — para proceder eficazmente aos exorcismos.

Poder dado pelo Batismo, pela Confirmação e pela Eucaristia

O homem não tem nenhum poder natural sobre Satanás e os espíritos infernais: se não fosse socorrido por Deus, ficaria inteiramente à mercê do Maligno. E, de fato, pelo pecado original, todos nos tínhamos tornado escravos dele. Nosso Senhor, na sua misericórdia, resgatou-nos da tirania do demônio por sua morte de Cruz. E Ele que participemos de sua luta, assim como nos associa ao seu triunfo.  Isto se dá pelo Batismo, que nos incorpora a Cristo e nos faz partícipes de sua luta e de sua vitória. Pois o corpo participa de toda a vida da Cabeça. Eis aí o título fundamental que nos faz exorcistas a todos os batizados.

É por isso que Dom Pellegrino Ernetti 0.S.B. — exorcista da arquidiocese patriarcal de Veneza dá ao capítulo final de seu livro o seguinte título: “Somos todos exorcistas “.

Escreve Dom Pellegrino: “As orações e o exorcismo preventivo são inerentes ao próprio estado de ser cristão, enquanto batizado, crismado e que vive a vida da Eucaristia. Do caráter batismal lhe provém já o título de verdadeiro lutador contra Satanás. E a própria oração do Pai-Nosso lhe confere o título válido para lutar em forma preventiva. O cristão não somente tem o estrito dever de soldado e seguidor de Cristo, o qual veio á terra para expulsar e destruir a obra do demônio, mas tem inclusive o direito

“Portanto: : todos somos exorcistas, lutadores e vencedores de Satanás!

Teológicamente falando — e abstraindo igualmente de carismas extraordinários —, todos os fiéis somos, pois, exorcistas, sem que seja necessária nenhuma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade para exorcizar o demônio. Essa capacidade está in radice no Batismo, que nos faz filhos de Deus, membros do Corpo Místico de que Cristo é a Cabeça; e é reafirmada pela Confirmação, que nos faz soldados de Cristo e nos dá, junto com o dever de lutar por Ele, a capacidade para tal combate; e é alimentada pela Eucaristia.

Porém, esse poder r exorcístico, por sábias razões de prudência, está limitado pela leis da Igreja, como se verá a seguir.


Limitações canônicas

Se não existem empecilhos de natureza teológica para que um leigo possa praticar exorcismos, ocorrem entretanto impedimentos de natureza canônica, isto é, de lei positiva da Igreja.

O primeiro deles é a proibição de praticar exorcismos sobre possessos, os quais, como ficou exposto anteriormente, são reservados aos sacerdotes devidamente autorizados pelo respectivo bispo.

Outra restrição diz respeito ao emprego da fórmula do chamado Exorcismo de Leão XIII, reservada para os bispos e sacerdotes autorizados.

Os simples fiéis também não devem realizar sessões de exorcismos nas quais se interpele diretamente o demônio, ainda que não se trate de casos de possessão propriamente dita, desde que se suspeite de presença demoníaca? (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Ordinários de lugar, relembrando as normas vigentes sobre as exorcismos, 29 de setembro de 1985.)

Quando e como os leigos podem exorcizar

Nas infestações locais ou pessoais

Então os leigos ficam à mercê dos ataques do demônio, já que não podem exorcizar os possessos?

De nenhum modo. Convém lembrar que a principal defesa contra o demônio é a graça de Deus, que se recebe no Batismo e se recupera na Confissão, sendo alimentada pelos sacramentos, sacramentais, boas obras e vida de piedade. Portanto, mesmo que um leigo possa fazer exorcismos sobre possessos, ele não está indefeso diante do demônio.

É preciso recordar ainda que a possessão, de si, não é um obstáculo à salvação nem à santificação das pessoas, podendo mesmo ser uma provação útil para a vida espiritual da vítima, ou de seus familiares e amigos e mesmo do próprio exorcista.

Cabe considerar, ainda, que a possessão não é a ofensiva extraordinária, mais freqüente do demônio. Excetuando a tentação (que é uma ofensiva ordinária), os Autores dizem que a ofensiva extraordinária mais corrente é a infestação tanto local como pessoal. Eles dizem que é grande o número de pessoas que procuram os exorcistas por estarem atormentadas pelo demônio, sem que, entretanto, se trate de casos de possessão. E que se sentem aliviadas com exorcismos simples ou apenas com bênçãos e outros remédios espirituais.

Ora, com relação à infestação local e mesmo pessoal, não existe na legislação canônica nenhuma proibição: os leigos podem fazer exorcismos privados, desde que não empreguem a fórmula do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas (o chamado Exorcismo de Leão XIII), nem “se interpele diretamente o demônio, e se procure conhecer sua identidade". E o que adverte a Congregação para a Doutrina da Fé, no documento acima citado. (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Doc, cit.)

Portanto, nos casos menos raros de ação demoníaca extraordinária, isto é, nas infestações locais e nas pessoais, os fiéis não estão indefesos, em decorrência da regulamentação dos exorcismos estabelecida pelo Código de Direito Canônico e por documentos da Congregação para a Doutrina da Fé. Além dos remédios gerais, ordinários, podem eles, com as cautelas adiante indicadas, fazer uso do remédio extraordinário do exorcismo privado.

Para repelir as tentações e perturbações do demônio

Não é apenas em casos ou situações de certo modo extremas, que os leigos são livres para proceder a exorcismos privados.  Eles os podem praticar preventivamente sempre que se sentirem tentados ou perturbados pelo demônio.

É o que ensinam os moralistas e canonistas. Por exemplo escreve o Pe. Felix M. CAPPELLO S.J.: “O exorcismo privado pode ser realizado por todos os fiéis. Porque qualquer um pode, para repelir as tentações ou perturbações do demônio, ordenar a ele, por Deus ou Jesus Cristo, que não prejudique a si ou a outros. O efeito desse exorcismo não deriva da autoridade e preces da Igreja, uma vez que não se faz em seu nome, mas somente pela virtude do nome de Deus e Jesus Cristo”. (Felix M. CAPPELLO S.J.. Tractatus Canonico-Moralis DE SACRAMENTIS. p.84). No mesmo sentido escreve o Pe. Marcelino ZALBA S.J.: “Exorcismos: ... privados imperativamente (pode ser feito) por qualquer um, somente para coarctar a influência dos demônios...”(Marcelino ZALBA S.J., Theologiae Moralis Compendium, p. 661).)

Em resumo: os simples fiéis podem, e até devem, realizar exorcismos privados nas s tentações ou infestações demoníacas; não, porém, nos casos de possessão, pois os exorcismos sobre possessos são reservados, como ficou afirmado, aos sacerdotes autorizados.

Evitar uso de fórmulas solenes e aparência de carisma

Quanto ao modo de fazer os exorcismos, os leigos devem evitar o uso das fórmulas do Ritual Romano, reservadas apenas aos sacerdotes que receberam a devida licença do bispo, pois tal uso podia fazer crer que se tenciona fazer os exorcismos em nome da Igreja, ou seja, que se está investido de um mandato eclesiástico.

É recomendada uma prudência particular para evitar toda solenidade e formalidade, inclusive a forma imperativa, sempre que isso possa fazer pensar que se trata de um carisma extraordinário, pois isso poderia causar estranheza a muitos, dada a raridade dos carismas hoje.

É preciso precaver-se ainda contra o perigo do escândalo, sobretudo nas possessões. Por isso, se se tratar de possessão diabólica do corpo, relativamente à qual tal perigo de escândalo e abuso pode ser maior, os fiéis devem abster-se de praticar os exorcismos (aliás, encontram-se proibidos de o fazer pela lei da Igreja), devendo dirigir-se a um sacerdote; podem, entretanto, fazer uma oração, pedindo a Deus - por intercessão de Nossa Senhora, de São Miguel, dos anjos e dos santos — que libertem aquela pessoa do domínio de Satanás e impeçam que o espírito maligno faça mal a outras pessoas. Também nos casos de infestação local ou pessoal grave, em que a atuação do demônio seja certa ou ao menos muito provável, ou haja manifestações extraordinárias, será mais prudente abster-se da fórmula imperativa, ao fazer exorcismos privados. O mais recomendável seria chamar igualmente um sacerdote, sempre que possível.

Do mesmo modo, deve-se evitar qualquer procedimento que possa dar a impressão de vã presunção nos próprios méritos. O Pe. Guillerme Arendt (jesuíta belga, cuja orientação estamos seguindo neste item) observa que uma ordem dada ao demônio por um simples fiel, em nome de Deus, com presunção de êxito sem ter em conta a vontade divina, pode constituir uma tentação a Deus, uma vez que é quase obrigá-Lo a interferir por respeito ao próprio Nome.

Mas quando não há essa presunção e se espera únicamente em Deus e no poder do nome e da cruz de Cristo, então não há esse perigo. Nesse caso, o que se está fazendo é apenas uma oração a Deus, que Ele atenderá segundo seus augustos desígnios.  Trata-se também de um ato de fé e de esperança na promessa do Redentor de que aqueles que cressem teriam o poder de expulsar os demônios.

Quando se tratar somente de repelir a tentação do diabo pecar para pecar, é conveniente desprezar e calcar aos pés, pela virtude de Cristo, a soberba diabólica


“Orações de libertação”


Cabe aqui uma palavra sobre as chamadas orações de libertação.

“Orações de libertação — define Mons. Corrado Balducci -  são aquelas com as quais pedimos a Deus, à Virgem, a São  Miguel, aos Anjos e aos Santos sermos libertos das influências maléficas de Satanás. São muito distintas dos exorcismos, nos quais nos dirigimos ao diabo, ainda que em nome de Deus, da Virgem, etc.; distintas seja pelo destinatário direto, seja obviamente pela modalidade, pelo tom: deprecativo e suplicante no primeiro caso, imperativo e ameaçador no segundo”. (Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 261.)

Nessas orações, em vez de se e impor ao demônio, em nome de Jesus Cristo, que deixe aquela pessoa, aquele lugar, ou que cesse aquela situação, implora-se a Deus que — pelos méritos de Nosso Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, dos Anjos, dos Santos, de pessoas virtuosas — nos proteja e liberte do jugo do Maligno ( sem interpelar diretamente o demônio nem procurar conhecer sua identidade).

Devemos fazer essa súplica com humildade e confiança, pois Deus não o despreza um coração contrito e humilhado (SI 50, 19). Deus não deixará certamente de nos atender, sobretudo se tivermos em vista antes de tudo a sua glória.

Porém, continua o Prelado, ultimamente, em algumas reuniões de grupos de oração e outras iniciativas privadas, nas quais se faziam orações de libertação, ás vezes se saía dos âmbito da simples oração e se chegava ao uso de verdadeiras fórmulas exorcísticas, com a interpelação direta do demônio. Tais práticas determinaram a intervenção da Congregação para a Doutrina da Fé, com a Carta de 29 de setembro de 1985, várias vezes referida aqui.

V - SATANISMO — MAGIA — FEITIÇARIA


ATÉ AQUI VIMOS a interferência espontânea do demônio na vida dos homens, seja pela sua ação ordinária — a tentação, seja pela ação extraordinária — infestação local e pessoal e possessão.  Cabe agora estudar a sua intervenção a convite do próprio homem: a magia ou feitiçaria, os pactos satânicos, as práticas supersticiosas em geral.

É certo que o homem, por sua natureza, não tem nenhum poder sobre o demônio, não podendo, portanto, obrigá-lo a atender às suas solicitações, nem a cumprir o que foi pactuado com ele.

Porém, não é menos certo que o demônio — sempre à espreita de uma ocasião para fazer mal aos homens e perdê-los - não deixaria escapar a oportunidade única de atuar quando convidado por eles próprios. Assim, se Deus o permitir, ele pode atender aos pedidos que lhe são feitos e obter, para os homens que a ele recorrem,
riquezas, poder político, satisfação de paixões e ambições, e mesmo prejudicar outras pessoas.

Em outros  termos, o homem não pode ser a causa da interferência do demônio, mas pode muito bem ser a ocasião dessa interferência.

De modo que a magia, se entendida no sentido de arte pela qual o homem adquire um poder sobre o demônio, não existe e é impossível; se entendida, no entanto, como a arte de operar prodígios por obra do demônio, a magia não só é possível teoricamente, mas existe e é largamente praticada, desde as mais remotas eras até o dia de hoje.

É fora de dúvida que o malefício é teoricamente possível.  Ele não comporta o menor absurdo em si, nem da parte do homem, nem da parte do demônio, nem da parte de Deus. Com efeito, o homem animado de um ódio satânico e abusando da sua liberdade, pode praticar as ações mais perversas, sem excetuar a de invocar e adjurar os espíritos infernais, para que eles apliquem seus poderes maléficos sobre uma pessoa determinada, O demônio, por sua vez, pode atormentar os homens das maneiras mais estranhas e mais inexplicáveis, e ele encontrará aí sua própria satisfação; e nada impede que ele faça depender sua intervenção do emprego de um ritualismo simbólico, que seria uma manifestação concreta de culto ao demônio, da parte do homem, coisa muito agradável a Satanás, sempre desejoso de macaquear a Deus. E Deus pode permitir o malefício, nos seus desígnios de justiça, assim como permite os casos de possessão.

O feiticeiro não desenvolve, no malefício, as suas forças. A intervenção de Satanás é aí evidente e Deus a permite, como permite a tentação, as infestações e mesmo as possessões.  As provas dessa intervenção demoníaca são tão abundantes nas Sagradas Escrituras e na História religiosa, que a ninguém é legítimo duvidar dela.

Quando se crê no demônio, no que os Livros Sagrados e a História dizem dele, rejeitar essa possibilidade é irracional.

Na verdade, diante de testemunhos tão irrefutáveis, não se pode não crer na existência de feiticeiros e na eficácia de seus feitiços, por obra do demônio, sempre que Deus o permitir.

Da superstição à adoração do demônio

“Os que se apegam às superstições
enganosas abandonam a graça
que lhes era destinada".
(Jon 2, 9)

A superstição

A superstição é um arremedo indigno do verdadeiro culto a Deus, por depositar a confiança em fórmulas e ritos empregados para forçar Deus a atender o que Lhe é pedido, e para desvendar o futuro. Chama-se também superstição a veneração de caráter religiosos tributada a “forças” reais ou imaginárias, em lugar de Deus.

A superstição procura aprisionar o sobrenatural mediante fórmulas ou ritos para pô-lo ao seu serviço. O supersticioso quer servir-se da religião para proveito próprio e não para cultuar desinteressadamente a Deus. Por isso Deus, através do Profeta Jonas, adverte: "Os que se apegam às superstições enganosas abandonam a graça que lhes era destinada” (Jon 2, 9).

O supersticioso põe uma confiança indevida em práticas às quais nem Deus, nem a Igreja (por concessão divina), nem a natureza conferiram o poder de obter certos efeitos.

Sempre que se procuram determinados efeitos por meios desproporcionados, os quais de nenhum modo podem conduzir ao resultado desejado, se confia na atuação de forças misteriosas, ao menos implicitamente, para obter esse resultado. Como essas forças vêm de Deus nem de seus anjos, só podem provir do espírito das trevas.

E assim, a partir da superstição, se chega, facilmente, ainda que de forma não inteiramente consciente, ao recurso implícito ao demônio. Daí, para a invocação explícita, não há senão um passo.

Em suma, o desejo de subjugar as forças superiores e de as instrumentalizar para proveito próprio, e dessa maneira chegar a "ser como deuses” (cf. Gen 3, 5), é o fundamento de toda a supertição, de toda a magia.

Pacto com o demônio


Possibilidade de pacto com o demônio

Sabemos pela Revelação que os homens podem entrar em comunicação voluntária com os demônios e pedir que eles façam ou concedam coisas que superam as forças humanas.

Está fora de dúvida que o demônio intervém espontaneamente, de um modo sensível, na vida dos homens; porque não haveria ele de intervir diante da solicitação de uma vontade humana? Não há nisto nada que seja contrário á ordem das coisas, nem da parte de Deus, nem do demônio. Da parte de Deus, Ele pode permitir à ação do demônio como castigo para o homem por causa de suas faltas,* ou como provação para a vítima, ou para algum outro efeito que Ele conhece, nos Seus desígnios de sabedoria e justiça. Do lado do demônio, está bem de acordo com a sua psicologia atender a uma solicitação que tanto lisonjeia seu orgulho, gratifica seu ódio a Deus e do homem, e satisfaz seu desejo de fazer o mal.

*É o que pensava santo Agostinho, o qual afirma que os homens que se dedicam à su perstição " são entregues, como suas vontades más merecem, aos anjos prevaricadores, para Lerem escarnecidos e enganados".

O homem pode entrar em relação com os anjos e com os demônios, uma vez que uns e outros são seres inteligentes e livres. Nessa condição, tanto o homem quanto os anjos e os demônios podem fazer uso de sua liberdade e unir-se para a obtenção de um fim comum. Mas, para isso, é preciso haver um ponto de contacto entre uns e outros; quer dizer, é preciso que uns e outros tenham disposições análogas. Quando as relações são estabelecidas entre seres de natureza diversa, é evidente que o ser de natureza superior impõe as suas disposições ao inferior: é a lei do mais forte. Se o ser mais elevado é um m espírito bom (isto é, um anjo) o acordo se faz para o bem; se, ao contrário, o ser mais elevado é um espírito maligno, o acordo não pode fazer-se senão para o mal. Pois o demônio, espírito pervertido, não visa senão o mal.

Como todo contrato, cada parte procura atender aos seus interesses. Se, de um lado, o espírito maligno aceita o acordo unicamente para o mal, a outra parte, o homem, poderá exigir que esse mal lhe traga alguma vantagem, ao menos subjetiva: dinheiro, honras, vingança, prazer; do contrário, não haverá razão para haver acordo.

Por sua inteligência e seu poder, os demônios são superiores aos homens. Eles conhecem os segredos da natureza e os agentes físicos bem melhor que os sábios jamais chegarão a conhecer. Eles são capazes de produzir resultados surpreendentes e mesmo, quando isso serve a seus pérfidos desígnios, obter vantagens materiais que recorrem a eles.

Como é evidente, o homem não tem poder sobre os demônios e estes não são obrigados a atender aos desejos do homem, não o faz porque esteja a isso obrigado; seja forçado a isso pelo homem, mas sim porque satisfaz à
sua soberba ver-se solicitado pelo homem, e até venerado por ele, em lugar de Deus; de outro lado, atendendo a esses pedidos, ele pratica o mal, quer em relação a terceiros, como se dá com freqüência, quer em relação ao próprio solicitante, cuja alma conduz à perdição, que é o que ele tem em vista ao aceitar o pacto.


Espécies de pacto: explícito e implícito


É certo que pode haver, que houve e ainda há pactos com o demônio.

1º Pacto explícito


O pacto com o demônio consiste num acordo entre uma pessoa e o demônio, pelo qual essa pessoa se obriga a algo em relação ao demônio, em troca da ajuda deste para conseguir aquela vantagem que deseja.

Muitas vezes o pacto é feito por escrito, e o demônio exige que o homem o assine com o próprio sangue. Para estabelecer o pacto não é necessário que as duas partes estejam presentes pessoalmente: elas podem atuar por meio de procuradores. O demônio quase sempre é representado pelo feiticeiro, pai-de-santo, médium etc. E isto já nos encaminha para o estudo da feitiçaria, da magia, da macumba, que será feito a seguir.


Outras vezes o pacto se faz por meio de sociedades secretas iniciáticas e com certas formalidades ou ritos estabelecidos.


Por fim, há ocasiões em que o pacto se faz com a aparição real do demônio. Há casos de feiticeiros que têm um comércio habitual com o Espírito das trevas, o qual vêem sob as mais variadas formas: humana, animal, fantástica.

 2º Pacto implícito


Mas, ao lado do pacto explícito, há o pacto implícito cor demônio.


É fácil, sobretudo para os cristãos, compreender que um pacto formal, um recurso explícito ao demônio é contrário à lei de Deus.  Mas o recurso implícito, mediante práticas supersticiosas nem sempre aparece claramente como um recurso ao Maligno e choca menos o senso moral.


Para que se possa dizer que há pacto implícito com o demônio é preciso, bem entendido, que se tenha uma esperança mais ou menos firme de que o efeito pretendido realmente será obtido; também é preciso que se trate de práticas feitas com seriedade e não por mera brincadeira (embora seja muito perigoso brincar nessa matéria, pois o demônio pode tomar a coisa a sério). Como esse efeito não pode ser esperado dos meios empregados (que evidentemente não são aptos para conduzir a esse resultado), ao menos implicitamente, se crê na presença de certas forças misteriosas, extra-naturais, para obter aquele resultado. Que forças são essas? Se não vêm de Deus (seja diretamente ou indiretamente, através dos seus anjos ou da Igreja), de onde procederão?

A resposta não pode ser outra: vêm do Maligno.


Em muitos casos o homem se dá conta disso; porém, cego por suas paixões desregradas, já não cogita de averiguar a origem do resultado obtido: o que lhe interessa é alcançá-lo. Assim, vai-se acostumando aos poucos a ver o demônio não como o espírito do mal, que ele é, mas apenas corno urna ser poderoso, que ele pode utilizar em seu proveito; como uma espécie de divindade conivente com suas paixões, a quem convém cultuar.


A supertição, em qualquer de suas formas, por conter sempre um recurso claro ou velado, explícito ou implícito ao demônio, constitui um pecado gravíssimo, contra a virtude da religião, que nos prescreve prestar culto somente a Deus, e só a Ele recorrer e nunca ao poder das trevas — "Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a êle servirás" (Lc 4,8).


Adoração do demônio: sacrifícios humanos 

Culto idolátrico do espírito das trevas


A credulidade indisciplinada, soltando o freio da fantasia no campo duplamente misterioso das forças  sobre-humanas e do mal, adultera o conceito de Satanás — inimigo de Deus e dos justos, porém mera criatura limitada — para fazer dele uma espécie de divindade malfazeja, a que se deve servir e agradar no interesse pessoal.


De onde, alguns ritos, como na macumba, umbanda e candomblé, se fazerem ofertas de alimentos e sacrifícios de animais para aplacar o diabo e tomá-lo propício a quem recorre a ele.


Essa postura pode levar, e muitas vezes leva, o supersticioso a fazer uma autêntica substituição de Deus pelo demônio e a realizar paródias blasfemas do culto divino como nas Missas negras. Chega-se então ao satanismo pleno, que se caracteriza pela vontade de praticar o mal, pelo ódio ativo, em nome da liberdade absoluta, que investe contra toda lei religiosa e moral. Esse ódio não é explicável pela psicologia humana, participando do mistério do mal, do “mistério da iniquidade", de que fala São Paulo (cf. 2 Tes 2, 7).


E assim se passa do pacto implícito ao pacto explícito com o demônio, e se chega ao culto idolátrico do espírito das trevas, invocado às vezes sob nomes bárbaros corno orixás, xangôs, exús e outros, sobretudo nos ritos da macumba, da umbanda, do candomblé, e nas práticas de magia em geral.


O sacrifício: ato de culto de adoração


De acordo com a doutrina católica, só se pode oferecer sacrifícios a Deus, por se tratar de ato essencial do culto de adoração, pelo qual reconhecemos o poder absoluto que o Criador tem sobre nós. Todo sacrifício oferecido a outrem que não a Deus reveste-se de um caráter idolátrico, pecado gravíssimo de lesa-majestade divina.

O sacrifício consiste no oferecimento e na imolação de uma vítima (sacrifício propriamente dito) ou no oferecimento e entrega de um bem em honra da divindade (sacrifício impropriamente dito), com a finalidade de proclamar que Deus é o Senhor de todas as coisas e que nós não ternos nada de próprio, mas tudo pertence a Ele.

Por causa do pecado, nós mesmos é que deveríamos ser imolados a Deus; mas o Criador não permite a imolação cruenta do próprio homem, corno faziam as religiões pagãs (cf. Lev 18, 21; 20, 1-5; Deut 12, 31; 18, 9ss).* Assim, não pode haver um sacrifício de imolação cruenta de seres humanos. Não podendo fazer a imolação de nossa vida a Deus, imolamos nossa vontade, que é no que consiste o sacrifício interno. O sacrafício externo consiste no ato de oferecimento de uma vítima ou de uma coisa a Deus, e deve ser apenas um sinal do o sacrifício interno

*Quando alguns judeus, no Antigo Testamento, por imitação dos povos pagãos vizinhos imolaram vítimas humanas (cf. 1 Reis 16,34), Deus, por meio dos Profetas proferiu severas condenações a esses atos (cf. Jos 6, 26; SI 105, 37ss; Miq 6, 7; Jer 7, 31; 19,5; 32, 35; Ez 16, 2Oss; 20, 26).

Sacrifícios humanos

O demônio, em sua soberba demencial, quer se pôr no lugar de Deus e ser adorado: “Tudo isto eu te darei se, prostrado, me adorares" (Jo 6, 9), ousou ele dizer ao próprio Salvador, oferecendo-lhe os reinos deste mundo E este é o convite que ele faz aos homens, sobretudo aos que o procuram: “Adorem-me que eu lhes darei tudo!"

"Homicida desde o princípio" como o caracterizou Nosso Senhor (Jo 8, 44), o demônio não se satisfaz apenas com as oferendas de animais, alimentos, velas, cachaça, etc., segundo se pratica correntemente nos cultos de macumba. Sempre que pode, ele exige sacrifícios humanos. Isto não é algo que se tenha dado apenas na Antiguidade, ou entre os povos bárbaros, mas ocorre ainda em nossos dias. E entre nós, conforme veremos adiante.

PART 3

 

Anjos e Demônios - A Luta Contra o Poder das Trevas

Magia negra ou feitiçaria: aspectos históricos


"Não vos dirijais aos magos, nem interrogueis os advinhos,

 para que vos não contamineis por meio deles".
(Lev 19,31)

 Antiguidade da magia negra ou feitiçaria 


“A magia negra ou diabólica, ou simplesmente feitiçaria, consiste em um poder oculto, que permite ao mago obter efeitos superiores à eficiência dos meios realmente empregados” — define o  Pe. Leonardo Azzolini S.J. (
Pe. Leonardo AZZOLINI S.J., La Magia Secondo la Teologia Morale, col. 1832)

A feitiçaria é encontrada em todas as culturas e em todas as épocas; apresenta-se sob aspectos diversos, mas sempre com característica em comum que é o recurso a fórmulas e rituais mágicos, cabalísticos, para curar doenças, prever coisas futuras, assegurar o sucesso de empreitadas, etc. Mais particularmente, a capacidade de de fazer o mal, de prejudicar outros.

A magia estava tão difundida na Antigüidade, que consistia um perigo para o Povo Eleito, o qual era tentado a imitar vos vizinhos.

A Bíblia ressalta essa prática no Egito. O livro do Êxodo (7, 11 ss), narra como, tendo Moisés e Arão feito prodígios diante do Faraó (transformação de uma vara em serpente e as águas do rio em sangue) os magos do Faraó, pela ação do demônio fizeram o mesmo. O livro de Isaías (47, l2ss) e o de Daniel (1, 20; 2, 2ss) mostram a importância da magia entre os babilônios. Também os gregos romanos nada faziam de importante sem antes consultar as pitonisas e os oráculos.

Por isso Deus estabeleceu a mais severa das punições para quem recorresse a mágicos e advinhos, ou invocasse os espíritos: a pena de morte (Ex 22, 18; Lev 20,27; 19,26-31; 20,6; Deut 18, 9-14).

Mesmo aio depois da Redenção tais práticas, infelizmente, não cessaram (cf. At 13, 6-10; 16, 16-18). Aliás o próprio Divino Mestre havia predito que se levantariam falsos profetas, os quais fariam prodígios e milagres que enganariam até os bons (Mt 24, 24). 

Nos primeiros tempos do Cristianismo os Padres da Igreja combateram muito a feitiçaria; e na Idade Média, os grandes Doutores - como João de Salisbury (1120-1180), São Tomás de Aquino (1225-1274) e São Boaventura (1221-1274), entre outros, continuaram o mesmo combate, estudando a fundo a feitiçaria.

A época, entretanto, em que o problema se tornou mais vivo, foi o começo dos Tempos Modernos, em virtude da enorme decadência religiosa que se seguiu ao declinar da Idade Média, com a explosão de orgulho e sensualidade do Renascimento e, finalmente, a crise de revolta contra a Igreja, que deu no Protestantismo.

De fato, sobretudo nos séculos XV ao XVII, inúmeros Papas e Concílios provinciais promulgaram documentos alertando contra a prática da feitiçaria.

É nessa época que surge um dos documentos mais autorizados sobre a ação de bruxos e feiticeiras, a bula Summis desiderantes, do Papa Inocêncio VIII (1484-1492).


Documentos pontifícios contra a feitiçaria

A bula de Inocêncio VIII
A bula Summis desiderantes, de 6 de dezembro de 1484, descreve a perversa ação dos feiticeiros em certas regiões da Alemanha.

O Papa começa manifestando o seu sumo desejo de que “toda depravação herética seja varrida de todas as fronteiras e de todos os recantos dos fiéis”.

A feitiçaria é aí tratada como depravação herética. E a razão é porque, em geral, as pessoas que se entregam à feitiçaria acabam por ter urna concepção herética a respeito do demônio, atribuindo-lhe qualidades divinas, ou substituindo-o ao próprio Deus.

A bula passa então à descrição das muitas práticas de feitiçaria, tal como constava ocorrer na Alemanha:

“Chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligíssemos na mais profunda amargura, que em certas regras da Alemanha ... muitas pessoas de ambos os sexos, negligenciando a própria salvação e desgarrando-se da Fé Católica, entregaram-se a demônios incubos e súcubos (Íncubo é a forma masculina e súcubo a forma feminina tomada pelo espírito das trevas para manter relações com feiticeiros de um e outro sexo.) e pelos seus encantamentos, pelos seus malefícios e pelas suas conjurações, e por outros encantos e feitiços amaldiçoados e por outras também amaldiçoadas monstruosidades e ofensas horríveis, têm assassinado crianças ainda no  útero materno, além de novilhos, e têm arruinado os produtos da terra, as uvas da vinha, os frutos das árvores, e mais ainda: têm destruído homens, mulheres, bestas de carga, rebanhos, animais de outras espécies, parreirais, pomares, prados, pastos, trigo e muitos outros cereais; estas pessoas miseráveis ainda afligem e atormentam homens e mulheres, animais de carga, rebanhos inteiros e muitos outros animais com dores terríveis e lastimáveis e com doenças atrozes, quer internas, quer externas; e impedem os homens de 
realizarem o ato sexual e as mulheres de conceberem, de tal forma que os maridos não vêm a conhecer as esposas e as esposas não vêm a conhecer os maridos; porém, acima de tudo isso, renunciam de forma  blasfema à Fé que lhes pertence pelo Sacramento do Batismo, e por instigação do Inimigo da Humanidade, não se excusam de cometer e de perpetrar as mais sórdidas abominações e os excessos mais asquerosos para o mortal perigo de suas próprias almas, pelo que ultrajam a Majestade Divina e são causa de escândalo e de perigo para muitos”. (In H. KRAMER-J. 5PRENGER, O Martelo das feiticeiras, pp. 43-46.)

Em seguida, o Papa se refere aos dois inquisidores que nomeou para essa região, professores de teologia e membros da Ordem dos Dominicanos, os Padres Henrique Kramer (também conhecido pelo seu sobrenome latinizado, Institoris) e Jacó Sprenger, aos quais pede todo o apoio para que “as abominações e atrocidades  em questão não permaneçam sem punição”. Sendo necessário, recomenda a busca do auxílio do braço secular, isto é, das autoridades civis.

Têm-se comentado que esta bula não tem valor doutrinário, mas apenas de constatação de fatos. Mas é significativo que tanto ela como as demais bulas de outros Papas tomam com toda a naturalidade a existência de feiticeiras e os resultados de suas artes mágicas.

Outros documentos

Em 1500, o Papa Alexandre VI escreveu ao Prior de Klosterneubourg e ao inquisitor Kramer para se informar dos progressos da feitiçaria na Boémia e Morávia.

Alguns anos mais tarde, o Papa Júlio II ordenava ao inquisitor de Cremona que tomasse medidas contra aqueles que abusavam da Eucaristia num sentido maléfico ou que adoravam o diabo.

O Papa Leão X, pela Bula Honestis petentium votis, de 1521, elevava um protesto contra a atitude do Senado veneziano, que se opunha à ação dos inquisitores de Brescia e de Bérgamo contra os feiticeiros. O Papa fazia ameaças de excomunhão e de interdito.

Pouco depois, Adriano VI adotava atitude semelhante com a Bula Dudum uti nobis, dirigida ao inquisitor de Cremona. Seu sucessor Clemente VII escreveu no mesmo sentido ao governador de Bolonha.

É verdade que Urbano VIII (1623-1644), chamou a atenção dos juízes para que não se deixassem levar por uma repressão inconsiderada em relação à feitiçaria. (Cf. Émile BROUTTE, La Civilisation Chrétienne du XVI siècle devant le problème satanique, pp. 365-366.)

O número de documentos de Concílios provinciais, sobretudo da Alemanha, nos séculos XVI e XVII é excessivo para ser citado aqui. Em todos eles as autoridades eclesiásticas insistem na repressão das práticas de feitiçaria e no julgamento dos culpados.

As leis civis

As leis civis da época proibiam igualmente tais práticas e os magistrados leigos instruíam os processos de feitiçaria: “Os juristas opuseram a rigidez do Direito ao fanatismo da superstição, a serenidade da legislação ao ódio dos camponeses cheios de prevenção. ... Os processos se fazem cuidadosamente, com um desejo profundo de conhecer a verdade. Sua duração não é, com freqüência, senão um sinal a mais do desejo de evitar todo erro judiciário ... O feiticeiro tido como culpado é condenado ao fogo. E a única pena que conhece a lei. Mas essa sentença tem numerosas suavizações". (Émile BROUTTE ,po. cit., p. 379.)

Que possa ter havido excessos e erros judiciários, não há dúvida. Mas estamos muito longe do quadro arbitrário pintado pelos historiadores românticos e anticlericais do século passado, de um fanatismo cego, fruto de uma ignorância estúpida.

É preciso lembrar que os magistrados dos séculos XVI e XVII eram conhecidos pelo seu espírito de erudição verdadeira universal, abarcando quase todos os campos do saber, e sua independência de julgamento.

As campanhas desencadeadas contra a bruxaria no começo dos tempos modernos, em uma época de grande tensão religiosa, que culminou com a explosão protestante, não foram privilégio das regiões católicas, mas, se deram — e até com mais intensidade -  nos países que passaram para a heresia.

Porém, mais do que o problema histórico, sempre difícil de precisar, o que importa aqui é a questão de doutrina: a possibilidade, segundo a teologia católica, da existência de feiticeiras e bruxos.

Consenso dos teólogos e moralistas católicos

A referida bula de Inocêncio VIII deu ocasião a que dois teólogos, nomeados inquisidores pelo Papa — os já citados Padres Henrique Kramer e Jacó Sprenger — escrevessem um livro para analisar, do ponto de vista teológico, a prática da feitiçaria: Malleus MalleficarumO Martelo das Feiticeiras, continuamente traduzido e publicado nas várias línguas do Ocidente. (Heinrich KRAMER e James SPRENGER, O Martelo das Feiticeiras Malleus Maleficarum, tradução de Paulo Fróes, Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2° edição,1991. Cf. J. Paquier, Inocent VIII, DTC, VII, 2ême partie, cols. 2002-2005.)

Numa argumentação escolástica, eles recorrem aos grandes Doutores da Igreja — em especial a Santo Agostinho e São Tomás de Aquino — para mostrar como Deus pode permitir ao demônio que atenda às solicitações de homens e mulheres pérfidos que recorram à sua ajuda; que os fatos extraordinários, atribuídos em geral aos bruxos e feiticeiras, não estão acima da capacidade angélica do demônio sobre a matéria.

A existência de bruxos e feiticeiras tem sido aceita pacificamente por todos moralistas católicos. Ademais de todas as provas que se podem tirar das Sagradas Escrituras e do Magistério da Igreja, a prática da bruxaria é confirmada “pela opinião de todos os teólogos, cuja unanimidade traz uma certeza absoluta em matéria de doutrina. Ora, não existe um manual de teologia moral que não fale da magia e da feitiçaria como tendo sempre existido e existindo ainda”. ("L´Ami du clergé”, Le demonisme, n°44 (1902) p. 978.)

Magia - Espiritismo - Macumba


"Não se ache entre vós ... 

quem seja encantador. nem 

quem consulte os pitões ou advinhos,

ou indague dos mortos a verdade.  

Porque o Senhor abomina 

todas estas coisas, e, por tais maldades 

exterminará estes povos".  

(Deu 9,10-12)


Magia

A Magia geralmente é definida como a arte de operar prodígios por meios ocultos. Aqui não nos referimos às artes dos prestigiadores, impropriamente chamada de magia, nem a outros tipos de magia natural, que não são outra coisa que a arte de operar prodígios e coisas insólitas por meios naturais; ocupamo-nos só da magia propriamente dita, magia supersticiosa, ou simplesmente feitiçaria que se define como a arte de operar prodígios por obra do demônio.

Desde que se trate de magia propriamente dita, isto é, de prodígios alcançados com o auxílio do demônio, não vem muito ao caso que se trate da chamada magia branca (que obteria vantagens, sem prejudicar terceiros), ou a chamada magia negra, que operaria o mal contra terceiros. Pois, todo o recurso ao Maligno é condenável em si mesmo, não importando os efeitos que se quer alcançar.

Como nas outras formas de superstição, também a magia pode dar-se por invocação explícita ou implícita do demônio.

A magia à qual se recorre para prejudicar outros chama-se malefício (encantamento, feitiço), que podemos definir como a arte de prejudicar outros por obra do demônio. Os Autores costumam distinguir dois tipos de malefícios: amatório (filtros de amor) - se a ação do demônio excita em alguém veementíssimo sentimento de amor ou de  ódio em relação a determinada pessoa; e venéfico (envenamento) — se provocar dano em pessoas ou em seus bens.

Não se pode negar que o demônio, seja por si mesmo, seja por meio dos homens maus — desde que Deus assim o permita — pode prejudicar, por vários modos, o corpo ou os bens de certas pessoas visadas. Deus, em seus insondáveis desígnios, é certo que assim algumas vezes o permite, como testemunha o exemplo de Jó (cf. Jó 1, 12, Ex 22, 18). Embora não se deva crer facilmente na existência de maleficio, seria entretanto imprudente negá-lo sempre. Convém ressaltar entretanto que o malefício amatório  não elimina a liberdade, e a ação demoníaca pode ser resistida com a ajuda da graça divina; mas quando se cede a ele, o pecado cometido será mais grave ou menos em razão da deliberação e do grau de liberdade. 

O malefício contém dupla malícia, uma contra a religião, outra contra a caridade e a justiça, uma vez que prejudica o próximo.

Constitui um pecado gravíssimo, contra a virtude da religião, que nos prescreve prestar culto somente a Deus, e só a Ele recorrer e nunca ao poder das trevas — ‘Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a êle servirás‘ (Lc 4, 8).

O malefício (também conhecido em nosso país por despacho, trabalho, feitiço, etc.) é uma das causas muito comuns da ação extraordinária do demônio sobre pessoas (infestação e possessão).

Espiritismo

Uma das formas de superstição mais difundida em nossos dias, e que coloca as pessoas em risco de se pôr em contacto com o demônio são as práticas espíritas.

Superstição herética, contrária à fé


Trata-se de superstição, porque as almas dos que morreram estão sob a especial tutela de Deus, não podendo entrar em comunicação com os vivos a não ser por uma permissão especial concedida por Ele.*

*Os teólogos discutem se Deus permite que a alma de um defunto entre em contato direto com um vivo, ou se, nos casos de aparições, se trata de um anjo (ou, conforme o caso, um demônio) que representa aquela alma.

Ora, os espíritas querem utilizar meios puramente naturais - como a ação de outros homens, os médiuns - para obter que essas almas apareçam ou se manifestem. Há então aqui uma desproporção entre os meios empregados, meios naturais, e uma ação sobrenatural, como é a aparição ou manifestação das almas dos defuntos.(Esse efeito é sobrenatural porque está acima da natureza humana fazer com que as almas dos defuntos se manifestem ou não aos vivos, o que depende exclusivamente de Deus.)

Ensinam os moralistas que a única relação que deve haver entre as almas dos defuntos e nós é uma relação espiritual, baseada na recordação e na oração.(Cf. Mons. Antonio LANZA - Mons. Pietro PALAZZINI, Princípios de Teologia Moral, p. 129.)  Deus não pode consentir em nossos caprichos, curiosidades mórbidas e fantasias; não pode, portanto, permitir que as almas, que só a Ele estão submetidas, se manifestarem quando evocadas para satisfazer a nossos desejos de temerária presunção de penetrar nos mistérios do Além. Por isso, dizem os mesmos moralistas, se é verdade que às vezes essas evocações às almas do outro mundo recebe resposta, tais respostas não podem senão do Maligno. (O Cardeal Lepicier explica como o demônio pode formar um boneco, com elementos da natureza ou mesmo de outros homens, e fazê-los aparecer sob a figura da pessoa falecida, cujo espírito é evocado para que se manifeste na sessão espírita.
“Assim escreve ele , considerando que um anjo tem inteiro conhecimento das feições e de outras qualidades de cada individuo, vivo ou morto, facilmente se pode conceber que ele seja capaz, pelo seu próprio poder, de reproduzir a forma, feições, altura,cor e vestuário de certo individuo que nós possamos conhecer, a ponto de que aqueles que mais intimo trato tiveram com esse indivíduo sejam iludidos, julgando tratar-se da própria pessoa” (Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 76-77).)

A Igreja repetiu com insistência ser pecado de heresia o querer aplicar meios puramente naturais com o fim de obter efeitos não-naturais, preternaturais. Portanto, o Espiritismo, em sua pretensão de querer chamar ou evocar espíritos do Além, é herético além de impossível. Essa superstição é condenada não apenas como ilícita ou contrária à moral cristã, mas também como herética e contrária à fé.

Atuação do demônio no Espiritismo

"Os vivos, do lado de cá”, comenta Dom Boaventura Klopenburg "não dispõem de meios eficientes que possam causar a manifestações de espíritos do lado de lá, isto é, do mundo para além da natureza humana ou para além da morte. Do lado de lá, porém,  existem espíritos malignos que teriam muito interesse em perturbar , transtornar e perverter os do lado de cá. Não o podem fazer à vontade, porque sua liberdade é limitada pela permissão divina, e Deus não o permite facilmente”.

Espiritismo faculta ao demônio o ambiente mais propício para que o espírito satânico possa se manifestar: “Todas as disposições objetivas e subjetivas aí estão. Nada, absolutamente nada falta para que o demônio se sinta á vontade e em casa própria. Dir-se-ia que o centro espírita e principalmente o terreiro de Umbanda é o domicílio de Satanás, como o templo cristão é a casa do Senhor”, conclui o mesmo prelado. (Frei Boaventura KLOPPENBUJRG O.F.M., Atuação do Demônio no Espiritismo, pp. 113-122.)

Não há, pois, dúvida de que as práticas supersticiosas espíritas o homem sob a influência de Satanás e podem conduzir até
possessão. “O demônio — observa o Cardeal Alexis Lepiquando um homem colabora com ele em práticas supersticioimente exerce sobre esse indivíduo a mais ornei e implacável E chama a atenção pan as práticas espíritas: “Não pode balda de que atuar como médium é o mesmo que expor-se aos da obsessão diabólica ... Recorrer a um médium é, pois, equia cooperar na obsessão de uma pessoa” (Cardeal A. LEPICIER, O Mundo invisível, pp. 287, 222-223.)

Por isso o próprio Deus, no Antigo Testamento, condenou a indos mortos: “Não se ache entre vós ... quem consulte pitonisas adivinhos, ou indague dos mortos a verdade. Porque o Senhor abomina todas estas coisas e por tais maldades exterminará estes povos à tua entrada” (Deut 18 , 10-12).

Tudo isto mostra o perigo extremo em que se colocam aqueles que recorrem a práticas espíritas.


Macumba, Candomblé, Umbanda...

Juntamente com o espiritismo, a macumba, o candomblé, a umbanda, estão amplamente difundidas no Brasil; nelas é freqüente o recurso ao demônio, sob nomes africanos de supostas entidades espirituais.

A macumba, o candomblé e a umbanda são diferentes formas de sincretismo de ritos e crenças pagãs africanas com elementos externos do Cristianismo (imagens, invocações), do espiritismo reencarnacionista e de cultos indígenas brasileiros. Essas formas superticiosas de religião baseiam-se em princípios dualistas: elas admitem a existência de entidades boas e entidades más igualmente poderosas; acreditam que estas últimas, embora inimigas do homem, devem entretanto ser cultuadas, para evitar que se vinguem, fazendo o mal. Daí deriva o mais completo amoralismo, pela negação da distinção entre o bem e o mal, fundamento de toda a moralidade.*

*A antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, que apresentou uma tese na Universidade de São Paulo sobre o Candomblé discorrendo sobre as religiões afro-brasileiras, afirma: “Nessas religiões não existe o conceito de bem e de mal e por isso são mal-compreendidas” (“Folha de S. Paulo”, 29-7-92).

Infelizmente, o número de pessoas — mesmo católicas — que recorrem a trabalhos, despachos (ou seja sacrifícios oferecidos ao demônio sob a invocação de divindades pagãs) para solucionar seus problemas, satisfazer suas paixões ou ambições, e mesmo prejudicar outros, é cada vez maior. E isso em todas as classes sociais; por exemplo, nos últimos anos, por ocasião das eleições para preenchimento de cargos políticos em todos os níveis, grande número de candidatos recorreu publicamente a pais-de-santo, médiuns videntes, etc., conforme noticiou a imprensa.

Exú, entidade à qual se oferecem os sacrifícios nesses cultos, não é outro senão o próprio demônio conforme demonstra Dom Boaventura Kloppenburg, citando livros umbandistas: “Toda e qualquer reunião de Umbanda inicia com um presente oferecido ao Exu ‘agente mágico universal, por cujo intermédio o mundo dos vivos se comunica com o mundo espiritual, em seus diversos planos’ (Doutrina e Ritual de Umbanda, Rio, 1951, p. 117).... E não se diga que o culto de Exu é exclusivo da Quimbanda, da Macumba, do Candomblé ou do Batuque.” E faz descrição do livro O Espiritismo e a Lei de Umbanda, de A. Fontenelle, sacerdote de umbanda, o qual afirma: “Na Umbanda os Exus são constantemente invocados e trabalho algum é começado sem que sejam salvadas (isto é reverencidas) essa entidades” (p. 12).

Prossegue o bispo de Nova Hamburgo: “O Sr. Aluísio Fontenelle ... e outros doutrinadores de Umbanda, identifica sem mais os exus com o que nós católicos denominamos demônios (p. 93, 103-116) onde descreve a história da revolta dos anjos, chefiadas por Lúcifer: estes anjos revoltados são os exus”).*

*Frei Boaventura KLOPPENBURG, A Demonolatria nos Terreiros de Umbanda, pp. 139-I40.
Até mesmo um dicionário corrente da língua portuguesa, o chamado Dicionário Aurélio, assim define: “Exú (Do ioruba) S.m. 1. Bras. Orixá que representa as potências contrárias ao homem, e assimilado pelos afro-baianos ao Demônio dos católicos, porém cultuados por eles, porque o temem; 2. Bras. NE. v. Diabo.

As pessoas que se envolvem com as práticas de macumba, candomblé e umbanda podem estar certas de que é ao próprio demônio a quem estão recorrendo, sob nomes exóticos. E não poderia ser de outro modo, visto que os únicos seres inteligentes que existem no Universo são — além do próprio Deus, obviamente — os anjos, os demônios (que são anjos decaídos) e o homem. Se o homem recorre a outros seres inteligentes superiores a ele e que não são nem Deus nem os anjos, só pode estar recorrendo aos demônios.

Outras práticas supersticiosas

Outras práticas supersticiosas também muito correntes em nossa pátria são: a adivinhação, a astrologia, a quiromancia, o uso de amuletos e as simpatias.

Adivinhação, Astrologia, Quiromancia

Pela adivinhação procuram-se conhecer as coisas ocultas, que por meios naturais não se poderiam saber, tanto atuais quanto passadas ou futuras. O característico da adivinhação é o querer chegar ao conhecimento de algo, não por um esforço racional, mas pelo emprego de um artifício, de um meio extraordinário não bem explicado. Em última análise, pela ajuda de forças extrínsecas e superiores ao homem. Essas forças, como é lógico, só poderiam provir de Deus e dos anjos; ou, por permissão divina, dos demônios.  Como isto equivale a querer obrigar a Deus a satisfazer a curiosidade ou o capricho do homem, é certo que Ele não atende a tais pedidos, nem diretamente, nem por meio dos anjos. Logo, essas forças sobre-humanas só podem provir do demônio.: “A essência da adivinhação consiste no comércio com os demônios” — ensinam os teólogos jesuítas Noldin e Schmitt. (H. NOLDIN S.J. - A. SCHMITT S.J. - G. HEINZEL S.J., Summa Theologiae Moralis, II, pp. 138-155 (Quest. terceira: Pecados contra a religião ). Neste capitulo seguimos de perto estes respeitados teólogos-moralistas cuja obra goza de merecido prestigio entre os especialistas.)

A adivinhação pode ser realizada com a invocação expressa dos demônios (pacto explícito) ou pela invocação implícita ou tática (pacto implícito).

A expressa invocação ocorre quando se invoca diretamente o demônio ou se faz com ele um pacto formal mediante o qual, postos certos sinais, se produzirão certos efeitos; para que se estabeleça este pacto divinatório, não é necessário que o demônio de fato responda, mas basta que seus efeitos se sigam. Ou seja, que se chegue ao conhecimento daquilo que se pretende adivinhar.

Entende-se que ocorreu invocação implícita ao demônio quando alguém, para conhecer algo, usa de meios ineptos para essa finalidade, os quais — como ficou acima explicado — nem pela natureza, nem por instituição divina ou eclesiástica têm a força d produzir os efeitos desejados.( ‘As Gnoses modernas que seguem teósofos e antropósofos e as técnicas de meditação e concentração induístas (Ioga, budismo) que buscam conhecer coisas superiores à natureza humana não estão isentas de influxo demoníaco, especialmente quando diretamente buscadas" ( NOLDIN-SCHMITT-HEINZEL, loc,. cit).)

Bem entendido, os demônios não têm poder de conhecer o futuro propriamente dito — o chamado futuro contingente ou futuro livre, isto é, os fatos cuja ocorrência depende da vontade de Deus e do livre arbítrio dos homens. Estes, nem os anjos do céu o conhecem (cf. Mc 13, 32). Mas, sendo seres superiormente  inteligentes podem deduzir qual será o desfecho de acontecimentos causas, uma vez postas, chegarão a seu termo de determinado modo: é o chamado futuro necessário. Ele prevê este futuro do modo que um cientista que conhece as leis da sua ciência - as quais são como que mistérios para o comum dos homens, e mesmo para homens instruídos, porém não especialistas naquelas matérias — e sabe o que ocorrerá de acordo com essas leis. Assim, lançada urna semente à terra, ela cumprirá seu ciclo germinativo em determinadas condições e, se não houver fatores adversos, produzirá necessariamente a planta correspondente, no tempo certo; o mesmo quanto ao desenvolvimento de certas doenças, etc.

Sempre, naturalmente, Deus pode intervir para frustrar os cálculos do demônio, mas normalmente Ele permite que as causas naturais produzam seus resultados. Daí o acerto das previsões do demônio.

Sem falar que o Pai da mentira pode anunciar um fato extraordinário que ele mesmo vai produzir e que por isso prevê com tanta segurança...

Porém, aquilo que depende da vontade de Deus ou da liberdade dos homens escapa inteiramente de suas capacidades de previsão.

Toda forma de adivinhação constitui uma superstição e uma invocação ao menos implícita ao demônio; por isso sua utilização é mesma ilícita; em outro termos, constitui — segundo a Moral católica — um pecado, de si grave.”*

*"Aqueles que consultam adivinhos ou ciganos, pecam gravemente se o fazem com firme fè ou com escândalo de outros, venialmente se apenas por curiosidade.” (NOLDIN-SCHMITTl-HEINZEL, loc. cit.).

A astrologia, através do horóscopo, pretende deduzir da conjunção dos astros, no momento do nascimento de determinada pessoa, seu destino e seu comportamento. Não há proporção entre as causas invocadas (a conjunção dos astros), e os efeitos que se quer obter, ou seja a predição de fatos relativos a uma pessoa que dependem da vontade livre e da providência divina.

O mesmo deve-se pensar da quiromancia — adivinhação pelo exame das linhas da palma das mãos — como de qualquer outro tipo de práticas divinatórias: cartomancia, tarô, búzios, etc.

Amuletos, mascotes, simpatias

Amuletos são pequenos objetos que alguém traz consigo ou guarda, por acreditar em seu poder mágico de dar sorte ou proteger contra perigos: figas, trevos, pés de coelho, ferraduras, etc.; mascotes são animais aos quais se atribui o mesmo poder: cachorrinhos, gatinhos, etc.; simpatias são certas práticas supersticiosas,* ou objetos usados supersticiosamente, para proteger o homem de doenças ou para curá-las.

*São Francisco de Sales, bispo de Genebra, diz em suas Constituições e Instruções sinodais, que “há superstição todas as vezes que se põe toda a eficácia nas palavras, por santas que sejam, ou em qualquer circunstância vã e inútil, como crer que, para curar um doente, seja preciso dizer três Padre Nossos antes de o sol se levantar (cf. L. ROU RE, Superstition, cols. 1563-1569).

Como nos casos anteriores, não se pode esperar séria e racionalmente que esses objetos, esses animais ou essas práticas possam impedir males, curar doenças ou dar sorte na vida. Se se der um crédito real a essa pretensa ação protetora dos amuletos e mascotes e à eficácia das simpatias (não por mera brincadeira, por sinal perigosa, pois o demônio pode infiltrar-se nela) teremos mais um caso de invocação implícita ao demônio.

“Corpo fechado”

Outra prática supersticiosa consiste no recurso a feiticeiros (ou pais-de-santo) para obter aquilo que se chama corpo fechado, isto é, a invulnerabilidade a agressões com armas brancas ou armas de fogo.

Essas pessoas, mesmo que não tenham inteira consciência disso, estão recorrendo ao demônio, de forma pelo menos implícita, conforme já ficou explicado. E o demônio pode atendê-las (se Deus o permitir para castigo dessas mesmas pessoas), desviando os golpes e tiros ou impedindo seu efeito.

À maneira de ilustração, transcrevemos a consulta feita por um missionário francês no Oriente, no começo deste século, a "L´- Ami du Clergé” — conceituada revista eclesiástica — e a respectiva:

"O que os Srs. pensam do seguinte fato, do qual fui testemunhar ocular?"

"Um pagão desferia golpes de sabre sobre um de seus correligionários. O sangue deveria brotar em abundância; ora, o pagão assim golpeado tinha apenas algumas manchas negras sobre o corpo, a lâmina do sabre não conseguia penetrar na carne."

"Os pagãos presentes atribuíram isto aos numerosos amuletos levados por aquele que recebeu os golpes."

"O demônio teria, em certos casos, recebido permissão de proteger seus adeptos neste mundo, com a condição de torturá-los no outro?"

A revista, depois de dizer que é difícil se pronunciar sobre o caso concreto, assim à distância, dá entretanto a solução em doutrina:

"O fato em questão, por mais extraordinário que seja, não nos espanta, e nós seríamos levados a crer que ele vem do demônio, porque não ultrapassa de modo algum seu poder. A História nos mostra que o demônio conservou, sem dúvida com a permissão de Deus, nas nações ainda pagãs, o poder que ele tinha outrora no mundo idólatra; em conseqüência, ele teria, em certos casos, poder e permissão de proteger seus adeptos, que lhes são fiéis, e também de punir aqueles que se deram a ele, quando eles desobedecem a seu senhor. Como o homem é composto de um corpo e de uma alma, Deus se serve de Sacramentos e de sinais exteriores para lhe dar sua graça e o proteger: do mesmo modo o demônio, que por orgulho e por ódio e vingança quer imitar ou ao menos macaquear os sinais exteriores, usa de amuletos, etc. para chegar aos 
seus fins” . ( “L’Ami du Clergê”,n° 35 (1902), p. 763.)

O uso de cruzes e medalhas

Caso muito diferente é o uso de cruzes, medalhas, escapulários e outros objetos bentos, assim como a prática de exercícios piedosos, como novenas, etc.

Aqui não se está atribuindo a esses objetos e práticas uma eficácia que eles de si não têm, nem se pretende atrair o divino por meio de procedimento meramente natural. Trata-se de confiança nas orações da Igreja, que benzeu esses objetos e aprovou essas práticas, como também na proteção de Nossa Senhora ou do Santo cuja medalha se usa e cuja novena se faz, em sinal de devoção.

Não se atribui ao uso desses objetos nem a essas práticas um valor infalível e imediato, mas apenas se deposita neles uma confiança razoável, que a fé em Deus e na Igreja permite, relacionando tudo com a salvação eterna, que é o que mais importa.

“Será que o malefício pega?”

Os meios preventivos contra o malefício são os mesmos antes indicados em relação à tentação, à infestação e à possessão: vida sacramental, vida de piedade, uso de objetos bentos, etc.

Uma vez produzidos os efeitos do malefício, é preciso aumentar as orações, sacrifícios e pode ser que seja necessário, em certos casos, recorrer aos exorcismos.

Frei Severino Gisder O.F.M. indica o estado de espírito que devemos ter diante das maldições e dos malefícios:

“Não se tenha medo da maldição injustificada ou gratuita.  Ela não atinge sua meta! Pelo contrário, não raras vezes tal maldição recai sobre quem a proferiu. Leia o Salmo 9, 16: “Pereceram no fosso que eles mesmos abriram, e na armadilha que armaram prenderam os próprios pés. “ Ou veja o Salmo 7, 15-17: “Eis que o (ímpio) concebeu iniqüidade e está cheio de malícia e dá a luz à fraude. Abriu e cavou urna cova, e caiu na própria cova que fez. Sobre sua própria cabeça recairá a sua maldade, e sobre a sua fronte voltará a sua violência.”

"Os assim chamados despachos da macumba incluem, via de regra, uma maldição em termos de querer fazer mal a alguém. Tais despachos ou feitiços de bruxaria, será que podem fazer mal ou prejudicar? Deles vale o que dissemos da maldição gratuita: Procura viver na graça santificante, isto é, na intimidade de Deus e nada sofrerás. Quem não deve, não teme”. (Fr. S.GISDER O.F.M., Bênção e Maldição, pp. 10-11.)

Se a regra geral é esta apontada pelo piedoso franciscano — que a maldição ou o malefício não atingem a pessoa em estado de graça — no entanto, muitas vezes Deus permite que a pessoa virtuosa seja atingida por tais práticas maléficas para sua provação. Aí é o caso de recorrermos às bênçãos e aos exorcismos: “A maldição pode ser neutralizada ou desfeita pela bênção!” — explica Frei Severino.

Sabás e Missas negras

“Que o seu sangue caia sobre nós
e sobre nossos filhos".

(Mt 27,25)


Sabás: descrições

Pelo nome de sabás se designavam as reuniões de magos, bruxos, feiticeiras — bem como daqueles que queriam consagrar-se ao demônio — sob a presidência do próprio príncipe dos infernos.(Seguimos aqui de perto o capitulo VII (Le demonisme dans les sabbats) da série de artigos sobre demonismo, publicada pela conceituada revista eclesiástica france,"L´Ami du Clergé" (nº 45 [1902] pp. 993-997).

Não existe acordo quanto à origem do nome sabá: uns dizem que foi tomado do hebráico shabbath, que designava o dia repouso dos judeus, porque o demônio gosta de macaquear as obras de Deus; outros procuram a etimologia no grego sabadzios, que em latim deu Bacchus - Baco, o deus do vinho e das orgias. Os sabás seriam então a continuação dos abomináveis e vergonhosos mistérios do paganismo.

Muitos são os pontos obscuros e misteriosos em torno dos sabás, que os seus participantes (e o próprio demônio) tinham interesse em que não fossem conhecidos.

Essas reuniões se realizavam no meio das florestas, no alto dos montes, numa planície ou praia deserta e outros lugares ermos inóspitos, na noite de quarta para quinta-feira, ou de quinta para sexta-feira ou, enfim, mais freqüentemente, da sexta-feira para o sábado. Vigias eram colocados para evitar que algum profano se aproximasse, mas aconteceu algumas vezes de serem interrompidos por pessoas vindas de fora, que faziam o sinal da cruz e jogavam água-benta, produzindo-se então uma algazarra indescritível e em poucos instantes os participantes desapareciam do mesmo modo como tinham vindo: voando pelos ares montados em um cabo de vassoura, ou a cavalo sobre um bode ou algum outro animal imundos; outro a pé, mas numa velocidade vertiginosa que ninguém podia acompanhar.

As descrições variam um pouco quanto ao cenário onde se realizavam essas reuniões e quanto ao cerimonial observado, mas são concordes nas linhas gerais: no centro do local armava-se um altar sobre o qual colocavam um ídolo (em geral um demônio com forma humana e cabeças e pés de bode, ou de um sapo imenso). Todos vinham prestar-lhe homenagem, adorá-lo, beijar-lhe os pés, as mãos, e outras partes do corpo menos honrosas; outras vezes não era um ídolo, e sim o próprio Satanás — sob forma visível — que se sentava em um trono sobre o altar. Todos tinham que trazer-lhe uma oferenda. Esses atos de culto e vassalagem eram prestados no terror e no tremor e aqueles que assim se entregavam ao diabo sabiam que se quisessem se subtrair à sua tirania, seriam cruelmente castigados por ele.

Havia nos sabás prazeres destinados a satisfazer os mais baixos instintos — especialmente a gula e a sensualidade — por meio de banquetes, orgias, danças e luxúria.

Np banquete eram servidos pratos repugnantes: carne de cavalo, de cachorro, de gato e, às vezes, até carne humana, sobretudo de crianças ainda não batizadas, cujos sangue era chupado ou bebido.

As danças começavam ao som de músicas dissonantes, barulhentas, agitadas, arrancadas de instrumentos bizarros (um pedaço de pau qualquer, uma queixada de cavalo, ossos humanos ou de animal, etc), que imitavam flautas agudas, tambores ensurdecedores, guitarras estridentes, aos quais se juntavam as vozes roucas ou penetrantes dos demônios e dos bruxos e bruxas, tudo num ritmo frenético, alucinante. Quanto mais a música era discordante, mais as danças se tomavam voluptuosas, fazendo girar os dançarmos num turbilhão incontrolável, como nas danças giratórias sagradas dos dervixes turcos. Muitos estavam completamente nus e outros sumariamente vestidos. Em suma, tudo se assemelhava a um moderno show de Rock’ n ‘Roll, em especial de Hard Rock.

Seguiam-se as mais asquerosas práticas de depravação sexual, de bruxos e bruxas entre si, em ligações hetero ou homossexuais, e também com animais e com os próprios demônios, que para tal assumiam formas humanas.

Essa explosão da luxúria era acompanhada de uma explosão inaudita de impiedade, com a paródia mais sacrílega das práticas e devoções cristãs. Em lugar da água-benta, aspergia-se os assistentes com urina;* crianças não recebiam o batizadas satânico, sendo-lhes imposto, sendo-lhes imposto um nome luciferino e dados padrinhos que garantissem sua educação no mal e sua fidelidade ao demônio; se já eram batizadas, o demônio procurava raspar com suas garras o caráter do Batismo e as rebatizava. Faziam-nas jurar fidelidade ao demônio, e renunciar a Deus, a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima, aos anjos e santos; prometiam jamais se confessarem, a não ser que fosse para o fazerem sacrilegramente, nem comungar, senão para profanar a hóstia consagrada ou levá-la escondida consigo para rituais satânicos; mais tarde, o iniciado era confirmado, recebendo novos padrinhos e prometendo trazer novos adeptos ao culto de Satanás.

*O demônio, em seu desespero de anjo réprobo, é um ser apalhaçado, debochado, que não recua nem diante dos maiores prosaismos ou obscenidades, para aviltar o homem, a quem despreza, e ofender a Deus, a quem odeia.

Os Mandamentos eram assim recitados: “Adorarás Lúcifer como verdadeiro deus e não amarás a ninguém senão a ele. Blasfemarás assiduamente o nome de Jesus. Cometerás sem dificuldade a fornicação e o adultério. Cobiçarás a mulher do próximo e também as coisas alheias”, etc. A Saudação angélica (Ave-Maria) era dirigida ã futura mãe do Anticristo.

Nos sabás, o demônio ensinava aos magos, bruxos e feiticeiras os segredos da fabricação de beberagens para os mais diversos efeitos mágicos: provocar a morte ou a loucura nas pessoas, nos antimais; filtros de amor e outros malefícios.

Freqüentemente o sabá se encerrava com uma Missa negra, da qual os ocuparemos adiante.

Exame doutrinário

Há discussão entre os Autores sobre vários desses pontos.

1º Se as bruxas se transportavam pelos ares e participavam fisicamente desses sabás.

No que diz respeito a se de fato as bruxas se transportavam realmente pelos ares para essas assembléias, depois de aplicarem ao corpo um ungüento mágico, argumentam alguns que esse ungüento era composto de ervas alucinógenas, que produziam nelas a sensação de estarem voando e de praticarem o que acima ficou descrito; tudo não passaria, nesse caso, de uma alucinação provocada por essas substâncias.

Tanto mais, dizem eles, que muitas bruxas confessaram ficar em dúvida sobre se de fato tinham tido uma participação física no sabá, ou apenas em imaginação. Muitas bruxas, também, foram encontradas em suas camas, no momento em que deviam estar nos sabás. Em sentido contrário, foi verificado que outras realmente tinham desaparecido após untarem seus corpos com o ungüento, e mesmo, um inquisitor, prometendo a uma feiticeira o perdão, obteve que ela voasse, em sua presença e na de diversas testemunhas, por uma janela afora, após induzir-se com o ungüento e invocar o demônio. Ela foi encontrada caída em um campo léguas adiante.

Egon vou Petersdorf (que foi ocultista, antes de sua conversão ao Catolicismo), falando sobre os sabás, explica em seu livro Demonologia que a finalidade para a qual as bruxas utilizavam os unguentos e poções alucinógenas era justamente essa de facilitar, por meio do transe alucinatório, um contacto mais rápido com o demônio.* Com efeito, o alucinógeno perturba o funcionamento da inteligência e da vontade, potências que garantem a liberdade interior do homem e assim oferecem uma barreira a ação do Maligno. Por isso, o uso de alucinógenos é muito comum em meios ocultistas, para facilitar o contacto com o demônio. E aqui fica uma pista muito curiosa sobre um aspecto pouco divulgado do consumo e tráfico de drogas, mas que revela a que profundidades conduzem, ou seja, sua ligação com o satanismo. (No próximo capítulo veremos uma noticia ligando diretamente o tráfico de drogas ao satanismo a propósito de crimes rituais na cidade de Matamoros, no México.)

*Cf. E. von PETERSDORF, Demonologia, p. 143.

Do ponto de vista teológico, nada impede que o demônio transporte bruxos e feiticeiras pelos ares até o local da infame reunião.  Pois, como anjo (decaído, é verdade, mas que não perdeu os poderes próprios à sua natureza), o demônio tem capacidade para isso.  E a prova está na própria Escritura, onde se narra como o profeta Habacuc foi levado pelos ares por um anjo, desde a Judéia até a Babilônia, para alimentar o profeta Daniel, que tinha sido lançado em uma cova de leões (Dan 14, 32-35); e como o próprio Salvador deixou-se transportar pelo demônio, do deserto onde jejuava, até Jerusalém e ser depositado sobre o pináculo do Templo, para ser tentado (Mt 4, 1-5).

Ademais, a opinião de que as feiticeiras voavam corporalmente por obra do demônio foi tida como certa durante séculos por homens sérios e cultos para que se possa pôr em dúvida. Santo Afonso de Ligório (1696-1787), em sua Teologia Moral, escreve o seguinte: “Advirta-se que é opinião comum de que há feiticeiras que com a ajuda do demônio são transportadas corporalmente de um lugar para outro: a opinião contrária, que defenderam Lutero, Melanchton e alguns católicos, é muito perniciosa para a Igreja". (Santo AFONSO, Teologia Moral, in D. NEYRAGUET, Compendio Moral de S. Alfonso Maria de Ligorio, p. 130.)

As duas opiniões, entretanto, podem conciliar-se.

Os frades dominicanos H. Kramer e J. Sprenger julgam, com base em sua experiência de inquisidores, que umas vezes os bruxos e feiticeiras são fisicamente transportados pelos ares para os sabás, e outras vezes participam deles apenas em espírito, por meio de alucinações que o demônio provoca em sua imaginação e ação sobre seus sentidos.(Cf. H. KRAMER - J. SPRENGER, O Martelo das Feiticeiras, pp. 223-231. )

2º Comércio carnal com os demônios

Segundo a conceituada revista eclesiástica francesa “L’Ami du Clergé" não se pode negar a possibilidade do comércio carnal entre homens e demônios: “Digamos mesmo que é impossível negar esse gênero de fatos, após o testemunho tão numeroso, claro e convincente dos Santos Padres. Baste-nos citar as palavras de Santo Agostinho: ‘Os fatos de demônios íncubos ou súcubos são tão múltiplos que não se poderia negá-los sem imprudência: a autoridade de tantos personagens graves, as narrações de fatos indiscutíveis tanto entre os povos civilizados quanto entre os bárbaros, as confissões, enfim, de vários milhares de pessoas devem ser tomadas em consideração’ (De Civit. Dei, XV)”. ("L ´ Ami du Clergé”, Le Demonisme, 1902, p. 1065.) Ainda no século XVIII — o chamado Século das Luzes... — tal prática é confirmada por autores sérios e doutos como Fr. Charles-René Billuart, O.P. (1685-1757), célebre teólogo francês, e Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787),
Doutor da Igreja. (Cf. F. C.-R. BILLUART, Soturno Sancti Tornae, V, p. 264; Santo AFONSO, Teologia Moral, in D. NEYRAGUET, op. cit., p. 248.)

Quanto ao modo como se pode dar esse comércio carnal com o demônio, é certo que este, sendo puro espírito, não pode cometer atos de luxúria. Entretanto, nada impede que ele faça bonecos aos quais dê aparência de vida, apresentando-os ora sob de aspecto de homem (o chamado demônio íncubo), ora de mulher
(súbubo). para que sirvam de objeto de satisfação da luxúria dos que ele se entregam.*

* Um grande conhecedor dessas matérias, o sábio Cardeal Alexis Lepicier, explica o modo como um anjo (ou um demônio, que é anjo decaído) procede para fabricar tais bonecos de aparência viva: ‘Há, na natureza uma tão abundante variedade de elementos um anjo pode, por uma hábil combinação e condensação desses elementos, dar-lhes a forma e até a cor dum corpo humano. De mais a mais, não está fora do seu poder ir buscar nos animais, e até mesmo em certos casos em pessoas vivas, esses elementos, ainda que eles estejam distantes do lugar onde tais fenômenos se produzem” (Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 76-77).

Era com um boneco assim fabricado pelo demônio que as feiticeiras e os bruxos praticavam o ato carnal. E uma das razões para isso é que o demônio despreza a natureza humana e procura aviltá-la de todos os modos.*

* Segundo os moralistas, o pecado daí resultante, sendo cometido com um ser que não é da mesma espécie que o homem (pois se trata de um mero boneco animado artificialmente pelo demônio), é o pecado de bestialidade, análogo ao que é cometido com animais (cf. Santo AFONSO, Teologia Moral in NEYRAGUET, op. cit., p. 248; BILLUART, Summa Sancti Tomae, t. V, p. 264).

São Tomás de Aquino indaga se pode nascer prole da união uma de mulher com um demônio.(Cf. De Potentia, q. 6, art 8; Suma Teológico, 1, q. 51, a, 3, apud “L’Ami du Clerge", nº 48 (1902),p. 1065, n. 1.) E responde que este, não tendo potência divina, não pode criar, e, sendo um espírito, não pode criar, e, sendo um espírito, não pode engendrar. Mas, conclui que parece que ele pode gerar, não com sêmem seu, é evidente, mas indo buscá-lo em algum homem e infudindo-o na mulher. Dessa forma, diz o Doutor Angélico, a criança assim concebida não é gerada pelo demônio, mas sim por um homem, indiretamente e de modo artificial.(As modernas experiências de fecundação artificial (obviamente desconhecidas do Santo Doutor medieval) mostram que sua hipótese está perfeitamente conforme com a ciência.)

Missas negras

Durante os sabás, freqüentemente havia uma paródia da Santa Missa, oficiada por um demônio ou por de seus sacerdotes ou sacerdotisas; ou então uma Missa sacrílega, celebrada por um infeliz padre pervertido às práticas satânicas, chamada correntemente
Missa negra.

Todas as orações e ritos eram invertidos ou deturpados blasfemamente. No Credo, por exemplo, dizia-se: “Creio em Lúcifer e em seu filho Belzebú, concebido por Leviatã, o Espírito Santo”. Na elevação da hóstia, quando um padre havia realmente consagrado,* fazia-se uma algazarra terrível, e se aspergia os assistentes com o sangue de Cristo, e todos gritavam como os judeus na Paixão: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27, 25). Às vezes um punhal era enfiado dentro do cálice e saía gotejando sangue; ou então cravava-se uma hóstia na cruz, e todos os participantes vinham transpassá-la, e acontecia às vezes de jorrar sangue dela.

* Quanto à validade da consagração das espécies eucarísticas no contexto de uma Missa negra, os teólogos discutem; alguns afirmam, outros negam que se opere realmente a transubstanciação. 

Em certas ocasiões, na Semana Santa, crucificavam-se meninos que eram seqüestrados, ou levados pelas próprias mães, elas mesmas feiticeiras, cravando-lhes cravos nos pés e nas mãos, coroando-os de espinhos e transpassando-lhes o lado. Arrancavam-lhes o coração e outras vísceras, e com freqüência também os membros genital, que eram utilizados para malefícios.*

* Um dos casos históricos mais famosos, dos tempos modernos, envolvendo bruxaria e Missa negra, foi o chamado Caso Voisin, no qual esteve envolvida nada menos do que a amante do rei Luis XIV, Madame de Montespan. Essa favorita entrou em contato com a feiticeira Voisin e participou de uma Missa negra, oficiada por um padre desviado, o Pe. Guibourg, com a finalidade de assegurar a paixão adúltera do Rei.  Em depoimento ao magistrado e chefe de polícia La Reynie, a filha da feiticeira declarou o seguinte: “O Pe. Guibourg apresentou na missa de Madame de Montespan, por ordem de minha mãe, um menino parecendo ter nascido antes do termo. Ele o pós numa bacia, o degolou, derramou o sangue no cálice, consagrou-o juntamente com a hóstia, acabou a missa e depois tomou as entranhas do menino; no dia seguinte, minha mãe levou tudo à Dumesnit [outra bruxa], para ele destilar o sangue e, juntamente com a hóstia, preparar um filtro que Madame de Montespan levou consigo”.  Esse fato terrível foi muito bem documentado, tendo em vista a importância das pessoas envolvidas e, a partir de 1679, durante dezesseis meses, foi analisado pelos magistrados franceses, redundando na condenação à morte de várias pessoas e no afastamento de Madame de Montespan da Corte. (Bernardette de CASTELBAJAC, Les Messes Noires au Grand Siècle, in “Historia” Hors Série n°35, 1974, p. 105).  O sacrifício de crianças em cerimônias demoníacas é uma das constantes das práticas de bruxaria; hoje, continuam a ocorrer, realizadas, em geral, no contexto da macumba, umbanda, etc., conforme veremos mais adiante, ao narrar os fatos passados em Guaratuba (Paraná), em 1992.

Até aqui, referindo-nos aos sabás, utilizamos sempre o verbo no passado. Uma pergunta, porém, se põe inevitavelmente: uma vez que continuam a existir bruxos e feiticeiras (embora quase não em esses nomes), não continuarão a existir hoje também os sabás?

Há notícias de que sim: em vários lugares da Europa e dos Estados Unidos têm ocorrido reuniões de feiticeiros, que se apresentam como tais, e chamadas por eles mesmos com o nome de sabás. Se tudo quanto ficou acima descrito se passa nessas reuniões, não há dados para responder. Entretanto, muitas dessas práticas inegável que se dão em contextos de bruxaria, macumba e outros ritos satânicos. E mesmo fora desses contextos passam-se coisas semelhantes, conforme se verá adiante.

Sendo assim, parece que se pode responder sem hesitar pela afirmativa: continuam a ocorrer sabás, com todo, ou quase todo o seu horror.

Destruição de colheitas, impedimento da geração, doenças

Entre os poderes atribuídos às feiticeiras está o de causarem danos materiais e físicos aos homens e animais, ou desencadearem os elementos da natureza por meio de artes mágicas e demoníacas.

Ao tratarmos da magia e do malefício, já dissemos que se Deus o permitir (o que Ele faz com parcimônia) nada impede que demônio, atuando sobre os elementos físicos e atmosféricos ou fisiológicos e psicológicos do homem, provoque efeitos como a destruição de colheitas, impedimento da geração, doenças desconhecidas, e outros. Isso ele opera para provocar impaciência no homem e fazê-lo revoltar-se contra a Providência divina. O caso de Jó é muito ilustrativo a este respeito. Outras vezes, porém, de provoca esses fenômenos extraordinários para atender à solicitação que recebe de feiticeiros, através dos malefícios (também chamados despachos, trabalhos, arranjos, feitiços).

Os historiadores registram em diversas épocas casos pessoas de todas as condições — Reis e nobres, simples burgueses ou camponeses - que se viram impossibilitados de manter relações conjugais, por efeito de malefícios. Em muitos desses casos, pode-se supor tratar-se de fenômenos puramente naturais (doenças desconhecidas, estados psicológicos anômalos, etc.); em certo número de vezes poderá ter havido ação demoníaca.

Lobisomem e outros seres fantásticos

Tema correlato com o que acabamos de expor é o relacionado com a realidade ou fantasia a respeito do alegado poder das bruxas de transformarem pessoas em animais.

Desde a Antigüidade fala-se da possibilidade de homens serem transformados em bichos por artes mágicas. Assim, na Odisséia. Homero (séc. IX a.C.) conta que os companheiros de Ulisses foram transformados em porcos pela feiticeira Circe. Já em tempos cristãos mencionam-se casos de homens que, em consequência de pacto com o demônio ou por efeito de algum feitiço, transformam-se ou são transformados em animais. Em relatos de missionários europeus na África, no século passado e ainda neste século, e também na selva amazônica, aparecem menções a feiticeiros pagãos que se transformavam em animais para aterrorizar os padres e os neo-conversos.

Essa questão é estudada por São Tomás e outros Doutores, os quais negam a possibilidade de o homem ser transformado em animal. E isto por uma razão fundamental, de natureza filosófica: a alma humana não pode unir-se a um corpo como o de um bicho, que não é adeqüado a ela.

Os testemunhos entretanto são numerosos e dignos de crédito para que se possa duvidar da realidade dos fatos.

Como explicá-los, então, à luz da filosofia e da teologia católica? 

O mesmo São Tomás assevera que o demônio pode deformar ao máximo os traços e os membros de um homem, dando-lhe uma aparência fantástica. Não mais do que isso. Contudo, ele pode agir também sobre a fantasia e os sentidos, quer da própria pessoa, quer daqueles que a vêem, de modo a que, por ilusão, tanto ela se sente transformada em bicho, como os demais têm a impressão de estar vendo um animal, ou um ser fantástico, meio homem meio animal: um lobisomem, por exemplo. (Cf. Suma Teológica, I,q.91; 105,a. ad 1; 114,a.4 ad 2.)

Os inquisidores Henrique Kramer e Jacó Sprenger analisam a questão e contam o caso de um homem que julgava transformar-se em lobo: de fato ele caía em sono profundo, e por ação do demônio sobre sua fantasia e sua sensibilidade, julgava que corria com os lobos, atacava e devorava crianças, satisfazia seus instintos com as lobas, etc. Na realidade, o demônio entrava em um lobo que fazia todos esses estragos, de maneira a deixar vestígios daquela alucinações.

Relatam ainda outro caso, de uma jovem que, tendo sido enfeitiçada por uma bruxa, era vista por todos como uma potranca, e ela própria se via assim. Levada à presença de São Macário, este sofria a ilusão dos demais e a via como ela era: uma bela moça. Rezando sobre ela, o Santo fez com que cessasse o encantamento e a jovem voltasse a se sentir e a ser vista normalmente. (H. KRAMER - J. SPRENGER, O Maneio das Feiticeiras, pp. 153-154.)

Às vezes o demônio pode possuir um animal (um lobo por exemplo), e fazê-lo realizar coisas fantásticas. Ele pode, ainda, para obter seus desígnios perversos, formar um boneco de animal ou ser fantástico, do mesmo modo que, como vimos, pode fazer o boneco de um homem. ( Esta poderia ser uma explicação para certos seres fantásticos como dragões, mulas- sem-cabeça, sacis-pererês, caiporas e outros tantos, assim corno fantasmas e assom brações que, mesmo deixando de lado os exageros e fantasias da imaginação popular exaltada, não há dúvida de que de vez em quando se manifestam realmente.)

Há inúmeros casos históricos de animais misteriosos, que assolam certas regiões dizimando o rebanho e aterrorizando as  populações, sem que jamais se conseguisse capturá-los por meio de armadilhas, nem matá-los com armas de corte ou de fogo: as lâminas não penetravam em seus corpos e as balas de grosso calibre não lhes causavam o menor dano.

Um dos casos mais famosos foi o da besta feroz de Gévaudan (região da França) no reinado de Luiz XV (séc. XVIII), que até hoje intriga os historiadores; supõem alguns que se tratasse de um lobo possesso pelo demônio.

O Satanismo moderno

“Tremei, tremei, as bruxas estão de volta".
  (Palavra de ordem de um desfile feminista)
 

"Dez milhões de americanos
praticam magia negra”.

(B. Wenisch, Satanismo)


Vazio e frustração levam ao satanismo

Parece inacreditável que o homem moderno seja capaz de fazer pactos com o demônio. Dir-se-ia que ele considera tudo isso como histórias de épocas de trevas, nas quais a ignorância e o atraso teriam levado alguns à ilusão de terem estabelecido um comércio com seres supostamente superiores aos homens e a procurar deles aquilo que a ciência do tempo não lhes permitia alcançar por outros meios. Do mesmo modo, aliás, como outros se voltavam para Deus, para a Virgem, os anjos e os santos do céu. Uns e outros se auto-sugestionariam e acreditariam ter obtido o que almejavam, por concessão de seres ou forças sobrenaturais.

Mas o homem atual, homem quase já do terceiro milênio, não teria necessidade nem de uma coisa nem de outra: bastar-lhe-iam a ciência e a técnica, as quais, somadas ao seu trabalho, garantir-lhe-iam os elementos para a completa felicidade nesta terra: máquinas e aparelhos para lhe reduzirem os esforços; remédios e tratamentos para conservarem a saúde para o trabalho, e a disposição, para o prazer.

Essa concepção materialista (e ingenuamente otimista) contrasta com os fatos que se passam diariamente sob os olhos até do observador menos atento: ai estão nas páginas dos jornais e nos noticiários da televisão, as notícias de crimes hediondos, praticados fim de conseguir de forças extra-naturais uma vantagem para si próprio, ou para terceiros, ou um mal para algum inimigo.

Na realidade, ao mesmo tempo em que a ciência e a técnica vão desvendando os segredos da natureza e despertando forças que o homem já quase não consegue controlar (basta mencionar aqui a engenharia genética, com a planejada produção em laboratório de seres humanos que se pretende perfeitos e se receia sejam monstruosos). Ao mesmo tempo em que isso se passa, uma imensa sensação de vazio espiritual deixa sem sentido todo esse processo, e faz o homem voltar-se de novo para algo que seja mais do que a prosaica realidade concreta.

Na mesma época em que a ciência e a técnica parecem não ter limites para progredir, as manifestações de recurso a forças extra-naturais parecem maiores do que em qualquer outra época precedente.

O neo-satanismo

Satanismo literário

Já no século passado e começos deste o movimento literário teve um filão satanista ou ao menos demonófilo, no qual  se destacaram os poetas franceses Victor Hugo (1802-1885), Paul Valéry (1871-1945) e Charles Baudelaire (1821-1867), o último dos quais chegou a escrever ladainhas satânicas.*   Na Itália, o literato Giosué Carducci (1835-1907), compôs uma Ode a Satã que se tornou muito conhecida.  O escritor Joris Karl Huysmans (1848-1907), em seu livro Là-bas descreve um ambiente ocultista-satanista que havia nos círculos literários e artísticos de Paris, inclusive com celebração de Missas negras.

*“O romantismo ama a infelicidade, celebra as ilustres vítimas da fatalidade ... quer se persuadir de que o mal e a infelicidade vão ser vencidos.  Satanás, nessa literatura falaciosa e angustiada, torna-se uma figura simbólica, figura na qual se reflete o esplendor do Mal, mas figura que um dia deve ser reintegrada numa luz negra. Vigny alimentou longamente o projeto de um Satã perdoado, que será escrito muito mais tarde por Victor Hugo no poema O Fim de Satã” (Albert BEGLIN, Balzac et la fin de Satan, p. 540).

Em nossos dias, mais do que a literatura (que perdeu muito de sua força de atração), o satanismo é difundido pela música, pelo cinema e pela televisão.

Bruxas na televisão

Bernhard Wenisch, demonólogo alemão, traz dados interessantes a propósito do papel da televisão na difusão do satanismo, em especial, mas não exclusivamente, sobre a juventude:

"Para a propagação do satanismo que, de modo algum, só atinge a juventude e nem mesmo preponderantemente, colaboraram, nos últimos tempos, os meios eletrônicos."

"Assim, por exemplo, apareceu na TV alemã, em 1984, e na TV austríaca, em 1985, a satanista Ulla von Bernus que declarou poder matar pessoas através de rituais mágicos. O ritual que mostrou consistia na queima de um boneco com a aparência da vítima, invocando Satanás e pronunciando repetidas vezes o esconjuro: 'Você precisa queimar! Você precisa morrer lentamente’! Na discussão da TV austríaca, a mulher se mostrou comprometida também com a prática da Missa negra. Algum tempo depois, a TV austríaca apresentou Ela Hard, que se declarou bruxa e afirmou que também dominava a capacidade de matar por mágica. Em seus livros descrevia minuciosamente sua iniciação na magia negra por um aborígene australiano e seus rituais coroados com êxito. Ela Hard morreu em inícios de 1988”.

Continua o mesmo autor:

"É possível observar a onda satanista em toda parte do mundo ocidental. Em muitas cidades alemãs são celebradas Missas negras. A TV alemã mostrou em 1984 o modo pela qual uma jovem mulher era consagrada a Satanás como bruxa — inclusive era submetida, nua, a uma flagelação ritual. Já aconteceu que nessas cerimônias pessoas fossem sacrificadas ao diabo. Em 1986, um desses rituais de assassinato, planejado contra duas jovens de Dortmund, pôde ser impedido pela polícia.  Há satanistas que se sentem inspirados pelo demônio para simplesmente eliminar pessoas que julgam perigosas”.

Passa em seguida a tratar do fenômeno em outros países do Ocidente:

"Também em outros países o satanismo vem ganhando terreno. Em 1985, a TV francesa não só informou sobre a crença nas bruxas, que continua persistindo entre o povo, mas também apresentou um bruxo que, com a ajuda de forças demoníacas, produziu feitiços. Uma especialista norueguesa em ciências da religião, que participou como observadora de várias Missas negras na cidade de Bergen, informou que, nessas missas, trata-se principalmente de sexo e homicídio. E que os próprios satanistas estão convencidos de que em suas reuniões estão presentes forças sobrenaturais, das quais têm medo. Não assumiam qualquer responsabilidade por seus atos porque já não possuíam controle sobre si mesmos. As Missas negras terminavam com sexo grupal ritual. Da Suécia há informes sobre roubo de cadáveres e violação de túmulos em conexão com o satanismo.  O Satã floresce também na Inglaterra”. (Bernhard WENISCH, Satanismo, pp. 29-30.)

Igrejas satanistas nos Estados Unidos

Segundo Wenisch, onde o satanismo se tem espalhado mais são os Estados Unidos, onde existem várias Igrejas Satânicas conhecidas. Ele afirma: “Milhares de crianças são vítimas anualmente do culto a satanás; dez milhões de americanos praticam magia negra; aproximadamente cem milhões sucumbiram a práticas ocultismo - esses números chocantes foram publicados há pouco nos EUA”. (B. WENISCH, Satanismo, p. 31.)

Uma das mais ativas dessas Igrejas Satânicas é a que tem por Sumo Sacerdote Anton Szandor LaVey, com mais de 8.000 membros.

LaVey foi o consultor técnico do produtor cinematográfico Roman Polansky, para a produção do seu filme satanista O bebê de Rosemary (história de uma criança que seria filha do Diabo). Em agosto de 1969, alguns meses depois de lançado esse filme, a mulher de Polansky, a atriz Sharon Tate (dada ela mesma a práticas de feitiçaria), foi horrivelmente assassinada, junto com mais três amigos, num crime que teve todas as características de ritual satânico.  Os assassinos eram adeptos de uma seita satanista chefiada por Charles Manson, um admirador de LaVey, cujo livro de cabeceira era a Bíblia satânica de autoria deste último. (
Cf. Jean-Claude FRÉRE, Crime rituel à Cielo Drive, pp. 130-135.)

Em 1986, o Secretário do Tesouro dos EE.UU, James Baker, informou o senador Jesse Helms sobre a existência de várias organizações satanistas e para a prática da bruxaria, que são reconhecidas oficialmente como religião pelo governo americano, gozando de isenção de impostos. Houve uma polêmica a respeito e vários dirigentes dessas organizações satanistas enviaram cartas ao Congresso americano. De uma delas, assinada por um Reverendo Doutor Sidney Gavin Frost, de 11 outubro de 1985 tiramos alguns significativos:

"Somos bruxos, e praticamos uma religião minoritária, mas bem atestada e documentada. ... Estamos reconhecidos como religião pelo governo federal no seu Manual de Capelães; em dita publicação, os capelães recebem instruções a respeito dos serviços a serem dados aos bruxos nas Forças Armadas e no campo de batalha. ...  Somos uma Igreja oficialmente reconhecida nos Estados Unidos desde l968”. (M. A. COSTA, Quando Jesus Crista é expulso... p. 15.)

Na cidade de Matamoros, no México a polícia, que estava à procura de um jovem universitário desaparecido, encontrou em uma propriedade rural 14 cadáveres de homens. Estes apresentavam sinais de terem sido vítimas de um ritual satânico, (o órgão genital de todos havia sido amputado, o que é uma característica de certo tipo de ritual). A polícia conseguiu identificar os criminosos: tratava-se de um grupo de contrabandistas de maconha, que confessaram crime e se disseram adeptos do vodu (um tipo de macumba haitiana, muito semelhante ao candomblé). A razão do crime ritual foi o desejo de obter proteção para seu comércio criminoso. (Péricles CAPANEMA, Satanismo, drogas e moda, in "Catolicismo”, nº 471, março 19 90 p. 22.)

Feminismo, ecologismo e satanismo


“Magia e ocultismo se alastram cada vez mais nos movimentos feministas" - comenta B. Wenish.
tos feministas” — comenta B. Wenisch. (B. WENISCH, Satanismo, p. 38.)

“Tremei, tremei, as bruxas estão de volta”

Foi na Itália, em 1977, que a palavra bruxa foi empregada pela primeira vez no movimento feminista. Uma jovem havia morrido em conseqüência de estrupo violento. Os jovens culpados foram condenados a penas relativamente leves.  Isto ocasionou uma colossal demonstração feminista de protesto. Aproximadamente 100 mil mulheres se reuniram à noite nas ruas de uma importante cidade italiana fazendo grande alarido e gritando em coro: “Tremei, tremei, as bruxas estão de volta!”. (Ibidem, p. 35.)

Certas militantes do movimento feminista consideram as bruxas como símbolo adequado de seu anseios. Para elas as bruxas teriam sido perseguidas porque eram entendidas em medicamentos, parteiras que conheciam métodos abortivos e de prevenção da gravidez; mulheres que tentavam libertar-se do domínio masculino rompendo com a ordem religiosa e social dominante. Segundo ainda as feministas, é a memória dessas mulheres (as bruxas) que serve de inspiração para sua própria luta contra as estruturas patriarcais da sociedade atual.

Além disso algumas feministas se dedicam a práticas magico-ocultistas, como meio de obter a sua suposta emancipação.

O movimento Wicca

É o caso do poderoso movimento feminista — na realidade uma verdadeira seita satanista — que se apresenta a si mesmo como uma forma de continuação das bruxas e feiticeiras medievais. Trata-se do movimento Wicca palavra inglesa arcáica da qual deriva o moderno vocábulo witch, bruxa. A seita Wicca se define decididamente como pagã e se coloca conscientemente contra o Cristianismo.  Venera a Grande Deusa donde provém toda a vida e para onde tudo retorna. Ao lado, ou antes, abaixo dessa Grande Deusa está o poderoso deus cornudo, derivado do princípio feminino, o qual dizem elas, na época de perseguição às bruxas, era identificado com demônio bíblico. Trata-se de um panteísmo de cunho feminino, e não é de admirar que a seita procure vinculações com o movimento feminista e se considere parte integrante e militante dele, por razões religioso-filosóficas.

As adeptas dessa nova bruxaria se reúnem em grupos de, no máximo, 13 pessoas para praticar a magia. Insistem em que não há magia negra e, portanto, feitiçaria prejudicial, mas que a força mágica só é usada para fins positivos. Seja como for, quem criou rituais para grupos Wicca foi nada menos que o notório satanista inglês Aleister Crowley. Outro ocultista britânico, Alex Sanders, dirigente de um ramo dessa seita, declarava-se, no melhor estilo de Crowley, The Devil Incarnate (o Demônio Encarnado); ele descreve um ritual para a conjuração de um demônio, que consistia na prática de um ato mágico-sexual de incesto com a própria irmã.(Cf. B. WENISCH, Satanismo

Em uma publicação francesa encontramos outros dados sobre as feitiçeiras do movimento Wicca:

"Conhecem-se atualmente os ritos do movimento Wicca, celebrados na ilha de Man (Inglaterra), ou na floresta de Fontainebleau (França). A grande sacerdotisa Monique Maria Mauricette Wilson, que se faz chamar  Lady Olwen, oficia nua, como nos antigos sabás. ...

"Sobre o altar são colocados recipientes para sal e água, hervas, um incensador, velas, um cálice e outros objetos. A feiticeira-chefe, enquanto todos se ajoelham em círculo em torno dela, ajoelha-se por sua vez, benze o sal e a água e os mistura com um punhal de punho negro, símbolo do poder luciferino, que toda feiticeira possui.

"A Missa negra, que é difícil de se distinguir do sabá, comporta um ritual litúrgico análogo ao das missas comuns (católicas) com exceção de certas orações, recitadas ao contrário por espírito de profanação. A elevação é o momento esperado para a profanação suprema. A hóstia é ora uma fatia de pão negro, ora uma rodela de rábano.* O oficiante a eleva em geral sobre o corpo de uma jovem nua sobre um altar, proferindo injúrias; ele atira depois a hóstia para as feiticeiras e bruxos, os quais se precipitam para calcá-la aos pés. A missa termina com uma frase ritual: Ide ao diabo" (Claude PETIT-CASTELLI, Les Sectes enfer ou paradis, p. 154.)

*Aqui se faz uma paródia sacrílega da Santa Missa.  Entretanto, sempre que conseguem, os satanistas preferem que um sacerdote católico, que esteja num grau de apostasia suficiente para se prestar a tal abominação, celebre uma Missa durante uma cerimônia dessas, na qual ocorra verdadeira consagração; ou, senão, procuram obter hóstias verdadeiramente consagradas em Missas válidas, para serem profanadas nesses rituais satânicos. Quanto à validade da consagração das espécies eucarísticas no contexto de uma Missa negra, os teólogos discutem; alguns afirmam, outros negam tal validade. 

Ecologismo e ocultismo


B. Wenisch continua na sua análise do movimento feminista-ocultista: “A onda esotérica aparece também nos grupos alternativo-ecológicos.” E se refere a uma autora feminista-ecologista que “pratica rituais mágicos, sente-se em contacto com seres espirituais, e baseada em supostas experiências de vida terrena pregressa, acredita na reencarnação. Considera-se a reencarnação de uma bruxa executada nos inícios da Idade moderna”. (B . WENISCH, Satanismoo

“Ofensiva da bruxaria — Alerta aos brasileiros"


No Brasil, devido à espantosa decadência religiosa que presenciamos e à descatolicização que se opera em todas as classes sociais, o caminho está aberto para todas as formas de satanismo desde as aberrações sonoras e blasfemas do Rock Heavy Metal, ao ocultismo difundido por autores como Paulo Coelho, discípulo do satanista inglês Aleister Crowley. (Cf. “Folha de S. Paulo”, 2-8-92, caderno Maiss, p. 6, Glossário

De modo especial, cresce o recurso ao demônio por meio da macumba, a qual passou a ser aceita com normalidade; mais do que isso, a receber o apoio das autoridades. Por exemplo, na cidade de São Paulo, durante a gestão da Prefeita Luiza Erundina (PT), foram criados “macumbódromos” — espaços para a prática de rituais de macumba — em vários cemitérios paulistanos. (Sob o titulo Erundina cria 4 ‘macumbôdromos “, o jornal “Folha de S. Paulo,” de 19 de ju lho de 1992, informa que se trata de “espaços sem teto, com muros altos e trancados.  Dentro, haverá um cruzeiro, uma cruz simulando encruzilhada e estátuas dos orixás e Iansã".)


Com chamada de capa que serve de título a este tópico, o mensário "Catolicismo” trouxe reportagem sobre o avassalador progresso de feitiçaria no Brasil, da qual ressaltamos — a título de amostra — algumas citações tiradas da imprensa diária: (Gregório LOPE5, Bruxaria: os antros se abrem, in “Catolicismo”, nº 491, novembro 1991. pp. 6-9.)


— "Nada de vassoura, chapéu, nariz ou verruga .... Os bruxos modernos estão chegando às pencas. ... vestem-se com roupas absolutamente comuns” (“Jornal da Tarde”, São Paulo, 22-5-91).


— “O bruxo Erik assegura que ‘brotará uma nova consciência', e que passaremos então para uma nova era” (“Jornal da Tarde", 22-5-91).

— Foi realizado em Florianópolis, um Festival da Magia, com velas, defumadores, estandartes de orixás e pessoas vestidas de demônio. O festival foi aberto com discurso do Prefeito da cidade, na presença de “místicos, médiuns, dráculas, ufólogos e cartomantes” (“Tribuna da Bahia”, 21-7-91; “Estado”, de Florianópolis, 13-8-91).


— Em São Paulo a 4ª ª Conferência Internacional de Metafísica, ocorre nos salões do Anhembi onde “bruxos de todo o mundo se reúnem” (“ Jornal da Tarde”, 22-5-91).


— Na mesma cidade foi fundada uma Escola de Iniciação à Alta Magia, para “magia branca” e “magia negra”. Segundo um
vespertino, “as escolas de bruxaria no passado deixaram de existir por perseguição do Cristianismo” (“Jornal da Tarde", 8-7-91).


— No Rio de Janeiro foi anunciado para o Planetário da Gávea o 1º Encontro de Magos, com 11 dias de duração e a presença de bruxos, espíritas e cavaleiros de Lúcifer (“Jornal Janeiro", 18 e 21-9-90; “Jornal da Tarde”, 27-9-90).


Com tudo isso vemos a que ponto a descristianização está levando nosso Brasil, jogando-o nos braços de Satanás; longe de serem fenômenos do passado, o satanismo e a feitiçaria ressurgem em nosso país descristianizado, sob a forma de ocultismo, esoterismo, de certo ecologismo, cultos de origem africana (macumba, vodu, etc.) e outros.

 O Rock Satânico


“Canto para inca doce satã.
Quero ir para o inferno".

(Canção do conjunto Led Zeppelin)>)

"Prazer em conhecê-la.
Chame-me apenas Lúcifer”.

(Da canção Rock Simpatia pelo demônio)


O Rock’ n’ Roll não é somente um tipo de música popular; mais do que isso, é uma cultura, com um modo próprio de vestir-se, de falar, de comportar-se; trata-se de uma atitude diante da vida, empanada de anarquismo, de uma postura religiosa que se caracteriza pela revolta contra Deus e a religião. Em última análise, constitui uma espécie de contra-religião, uma religião satanista.

Rock, um dos meios mais poderosos para a difusão do satanismo


Muitos especialistas têm visto na a um dos meios mais poderosos para a difusão do satanismo. (Cf. Bernhard WENISCH, Satanismo, p. 29; W. S. DIAS, Por detrás do Rock in Rio: presença do satanismo? pp. 4-6.; C. A. MEDEIROS, Rock and Roll e satanismo, pp. 1-7.)


Influência de Crowley, "o personagem mais imundo e  perverso da Grã-Bretanha”

Para melhor compreendermos essa afirmação, devemos recordar, ainda que rapidamente, um dos inspiradores confessos desse movimento Rock, sobretudo do Rock pesado (Hard Rock), onde as características satanistas são mais marcantes. Trata-se do satanista inglês Sir Aleister Crowley (1875-1947) considerado pela justiça inglesa como “o personagem mais imundo e perverso da Grã-Bretanha”, que morreu amaldiçoando seu médico por ter-lhe negado mais uma dose de morfina. Sobre sua tumba, após o enterro, foram realizadas cerimônias satanistas, com o cântico da Ode a Satã, de Carducci, o que provocou o protesto da Câmara dos Vereadores de Brighton.

Ele foi fundador ou participante de várias ordens ocultistas inicíaticas, entre as quais a Astrum Argentium (AA) que, em 1920, se transferiu para Cefalú, na Sicília. Em conseqüência de uma morte suspeita na comunidade (falou-se de morte ritual), a policia interveio e a AA foi expulsa do país.

“Em definitivo, comenta um autor a respeito de Crowley, o mago suscitou muitas devoções, mas — corolário ou contrapartida — numerosos discípulos, sobretudo mulheres, se suicidaram tornaram-se dementes ou ficaram reduzidos a meras ruinas” (Serge HUTIN, On l’appelait ‘la Grande Bête’, p. 121, nota 1.)

A doutrina de Crowley, de maneira mais insinuada do que explicita, foi popularizada pelos Beatles e difundida por meio dos movimentos hippie e Rock a partir dos anos 1960. Tal doutrina se resumia na seguinte frase: “Faça o que quiser, esta é toda a lei” (Cf. B. Wenisch, op. cit., p. 27.)

O próprio Crowley considerava esse programa anárquico como algo satânico. Numa referência ao Capítulo 13 do Apocalipse, ele se autodenominava “a grande besta — 666”. (Este número do Apocalipse provavelmente contém uma alusão a Nero como instrumento do demônio e costuma ser utilizado para designar o anti-Cristo.).  Crowley se considerava uma encarnação de Satanás, e sua religião poderia ser qualificada como um panteísmo satânico.

O culto proposto por Crowley é todo permeado de orgia sexual, que para ele é a “meta final, divina e absoluta, forma mais elevada da vida satânico-divina”. (B. WENI5CH, Satanismo, p. 27.)

 Rolling Stones: “Simpatia pelo demônio”

Bernhard Wenisch escreve em seu livro Satanismo: “Uma fonte que esclarece em parte a difusão das idéias satanistas entre a juventude é o Rock pesado (Hard-Rock). A onda já começou no final dos anos 60, quando foi lançada, por exemplo, a música dos Rolling Stones Simpatia pelo demônio (Sympathy for the Devil). Desde 1970, o conjunto musical Black Sabbath Sabá Negro apresentou continuamente temas satânicos. Em 1980 foi sucesso mundial a música Sinos do inferno (Hell’s Bells) de AC/DC. Outro sucesso, em 1982 foi O número da besta (The Number of the Beast), do Iron Maiden. Atualmente quase todos os grupos de Hard-Rock/Heavy Metal-Band apresentam o tema satânico. Que o pensamento de Crowley esteja apadrinhando essas canções não é apenas demonstrável históricamente, mas é possível percebê-lo claramente no conteúdo das letras”.(
B.WENI5CH, , Satanismo

Essa ligação é atestada, por exemplo, por um ex-roqueiro americano, Charles Gugel, que, tendo abandonado o movimento Rock, declarou o seguinte: “Jimmy Page, autor das músicas e líder do grupo Led Zeppelin, admitiu abertamente, por diversas vezes, sua fascinação por magia negra e feitiçaria. Ele possui uma livraria ocultista em Londres, chamada The Equinox e vive num castelo infestado pelo demônio, que pertenceu a Aleister Crowley”. (W.S. DIAS, Por detrás do Rock in Rio: presença do satanismo?, p. 5.)

Cauções satânicas

Quanto à influência satanista nas letras das canções Rock, basta tomar algumas delas para fazer a constatação: as mais explícitas, como as que citaremos a seguir, chegam a evocar diretamente o demônio e a execrar Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja, como o fariam canções compostas pelo próprio demônio. Outra característica que chama a atenção, e que está bem de acordo com a psicologia de Satanás, é o desespero que domina essas canções, a nota de uma condenação irremissível ao inferno.

Sinos do inferno

Vejamos, em primeiro lugar a canção Hell’s Bells - Sinos do Inferno, do conjunto australiano o AC/DC

 Você é ainda muito moço.
mas vai morrer. 

Eu te levarei ao inferno. p;

Satanás vai te pegar! 

Sinos do inferno,

sinos do inferno.

Auto-estrada do interno
Outra canção desse conjunto apresenta a mesma nota de desespero satânico. Ela se intitula significativamente Auto-estrada do inferno:>:


Eu estou indo para baixo.
É hora de festa.
Meus amigos estarão lá também.
Estou na auto-estrada para o inferno
Não há sinais de ‘pare’, nem velocidade limitada.
Ninguém vai me frear...
Ei Satanás, estou pagando minha dívida
tocando num conjunto Rock.....
Estou no meu caminho para a terra prometida.
Estou na auto-estrada para o inferno.

Canto para meu doce satã — Quero ir para o interno.

A nota de desespero blasfemo e luciferismo é ainda mais acentuada na letra abaixo do conjunto Led Zeppelin:i>:


Deus me abandonou, 

Não há escapatória. 

Canto para meu doce satã.

Todo poder é de meu satã,

que nos dará o 666 [o Anti-Cristo].
Quero ir para o inferno.


Meu nome é Lúciferfer


Agora você está comigo em meus pensamentos. sp;

Nosso amor a cada momento se torna mais forte. 

Olhe dentro de meus olhos.
Você verá quem eu sou.

Meu nome é Lúcifer. 


Simpatia pelo demônio

Os Rolling Stones, um dos mais famosos conjuntos Rock, não hesitam em cantar a música com o título inteiramente explícito de Simpatia pelo demônio, na qual também é o próprio Satanás quem fala, numa soberba demencial:


Peço licença para me apresentar......

Eu estava por perto quando Jesus Cristo

teve seu momento de dúvida e de dor. 

Assegurei-me amaldiçoadamente de que

Pilatos lavaria as mãos e decidiria seu destino.
Prazer em conhecê-lo.
Espero que advinhe meu nome...
Chame-me apenas Lúcifer.
(C. A. MEDEIROS, Rock and Roll e satanismo, p. 6.)

O Deus do Trovão
Talvez a canção mais explicitamente satanista seja God of Thunder Deus do Trovão, do conjunto Kiss, que a apresentou a uma platéia de milhares de jovens no Estádio do Morumbi, eu São Paulo, em junho de 1983. Segundo algumas interpretações, o nome do conjunto, Kiss (palavra que significa beijo, em inglês), seria de fato uma sigla formada pelas iniciais de Knights In Satan Service Cavaleiros a serviço de Satanás. Eis a sua tradução:


Eu fui criado por demônios.
E cheguei a reinar como o Senhor porque eu sou
o Deus do Trovão e do Rock´n ‘Roll...
Eu fui criado por um demônio.io.
Fui treinado para reinar como um deles.
Eu sou o Senhor da terra desolada.

Eu não gosto de Cristo... Eu não gosto da Igreja
Já o conjunto brasileiro Titãs faz uma profissão de fé anarquista-religiosa, explode numa revolta satânica contra Deus:us:

Eu não gosto de padre.
Eu não gosto de madre.
Eu não gosto de frei.
Eu não gosto de bispo,
Eu não gosto de Cri sto...
Eu não gosto do terço,
Eu não gosto do berço

de Jesus de Belém.
Eu não gosto do Papa,
eu não creio na graça
do milagre de Deus.
Eu não gosto da Igreja,
Eu não entro na Igreja.
Não tenho religião.


Nós destruiremos o altar-mor......

Outro conjunto brasileiro, Sepultura, na música intitulada Crucifixão, faz também profissão anarquista-religiosa e nega diretamente a divindade de Nosso Senhor:


Nós negamos os deuses e suas leis. 

Desafiamos seu supremo poder, 

crucificado pelo poder das trevas... 

Ele deixou as igrejas para nos atormentar. 

Nós destruiremos o altar-mor... 

Mostraremos ao mundo nosso ódio. 

Os padres terão seu tormento final. 

Romperemos as igrejas, nós temos um ideal... 

O gênero humano ruma para o suicídio 

Eles têm fé no falso Deus
se chamam Cristo.

que prega o bem e a beleza. (Ibidem,p.7.)


Diante desse satanismo explícito do movimento Rock’ n’ Roll, que reune dezenas e às vezes centenas de milhares de jovens em shows-monstro — autênticas orgias anti-cristãs — que proporções tomam os sabás de séculos passados, contra os quais lutou tanto a Igreja?


Por que o silêncio em relação a esses sabás modernos?

VI - CASOS DE INFESTAÇÃO E POSSESSÃO — CENAS DE EXORCISMO — CULTO IDOLÁTRICO AO DEMÔNIO

 APRESENTAMOS alguns casos de infestação ou possessão e algumas cenas de exorcismo, que ilustram quanto foi dito sobre a ação extraordinária do demônio.


O primeiro caso, de uma jovem do Interior de São Paulo, sujeita a uma infestação pessoal em conseqüência de um malefício, revela como não devemos temer o demônio, mas antes enfrentá-lo com coragem e, sobretudo, com muita fé. é.


Outro caso relatado, ocorrido na Itália, de possessão de um menino de onze anos, é muito ilustrativo quanto ao valor da oração fervorosa e de outros meios ordinários para a libertação de um possesso, mesmo sem o recurso aos meios extraordinários, como os exorcismos solenes.


A história de Madalena não é muito diferente da de inúmeras pessoas em nossa triste época: bem casada e com filhos já criados, sem preocupações financeiras, parecia uma pessoa feliz. Na realidade ela se sentia frustrada por uma vida vazia e aparentemente sem sentido. Essa frustração levou-a a procurar algo diferente, que preenchesse o vazio de sua vida. Assim, deixou-se envolver por um ambiente ocultista, onde a droga e as iniciações a conduziram ao pacto com o demônio, e a urna frustração e desespero maiores ainda. Movida pela graça, submeteu-se a uma séria terapia religiosa, constante de exorcismos, orações e catequese, conseguindo sair de sua triste situação.


A comovente história de Anneliese Michel constitui impressionante exemplo de possessão penitencial ou oblativa. Por desígnios insondáveis de Deus a jovem vítima sofreu essa dura provação como vítima expiatória de pecados alheios e para obter graças espirituais de santificação e de reavivamento da fé, para si e para outras pessoas.

Esse caso é muito revelador quanto à incapacidade do demônio de penetrar no fundo da alma. Pois mesmo tendo obtido de Deus permissão para possuir o corpo da jovem alemã, e para atuar em suas faculdades inferiores, o demônio jamais conseguiu fazê-la pecar, nem impedi-la de continuar unida a Deus, de progredir na virtude e se santificar.


Não menos impressionante é a história da jovem noviça vietnamita Maria Catarina Dien, perseguida pelo demônio para que desistisse da vida religiosa, a pedido de um pagão que queria casar com ela. Apesar de todos os tormentos físicos e morais a que foi submetida pelo demônio, a jovem não só perseverou na sua vocação, mas ainda se serviu desse sofrimento para santificar-se.

Todos esses casos nos levam a recordar o que dizem os santos: deve-se temer antes o pecado do que o demônio.


Terminamos esta secção com o relato de casos impressionantes de sacrifícios humanos em honra do demônio, ocorridos recentemente no Brasil, os quais mostram o grau de apostasia e entrega ao Maligno a que se chegou em nossa pátria. Eles nos levam à pergunta sobre se esta não é a causa mais profunda da grave crise que a sacode em todos os planos.

 A moça infestada e o menino possesso


“Desgraçado! Maria Santíssimaima
já te esmagou a cabeça!”


(Irmã Maria Teresa
dirigindo-se ao demônio)

Glória: infestação diabólica por malefício


A vigilância e a ação decidida de uma freira, livrou uma moça dos efeitos de um um
malefício.


Sintomas estranhos

Os fatos se passaram anos atrás em Marília, simpática e pujante cidade do Interior de São Paulo. (Reletado pelo Pe. Gabriele AMORTH, Nuovi racconti, pp. 105-108. Os nomes dos protagonistas são fictícios, mas o caso é real.)l.)


Glória era aluna interna da Escola Normal dirigida por freiras. Oriunda da zona rural, ela era órfã de pai; o avô materno custeava seus estudos para que ela, uma vez formada professora primária, ajudasse na educação de seus irmãos menores.


De volta de casa ao fim das férias, a moça começou a manifestar sintomas estranhos. Até então a jovem tinha sido a melhor aluna de sua classe, sempre fôra respeitosa, obediente, e de conduta exemplar. 

Irmã Maria Teresa, de nacionalidade italiana, notou que a moça estava mudada; outras professoras se queixaram dela, sobretudo quanto à falta de atenção às aulas.

O lencinho misterioso
A zelosa Irmã chamou-a para conversar, alegando um pretexto qualquer. Durante o colóquio, Glória abriu maquinalmente um de seus livros de aula e, para espanto da freira, um lencinho de cores muito vivas esvoaçou de dentro dele e embora ambas tentassem agarrá-lo, desapareceu completamente.


Aterrada, a moça exclamou: “Pobre de mim! Não posso perdê-lo”. Como tocasse o sinal das aulas, a Irmã Maria Teresa mandou depressa a aluna para a classe, desconfiada já do que se tratava.  Em seguida, dirigiu-se ao dormitório das educandas e começou a examinar os livros e cadernos de Glória. Depois de muita busca, encontrou o lencinho dentro de um caderno!


Como teria ido parar lá?lá?


Cheia de fé, a Irmã dirigiu-se ao lencinho como se fosse o próprio demônio, exclamando: “Desgraçado! Maria Santíssima já te esmagou a cabeça!". E agarrando-o com força, correu à cozinha e o lançou ao fogo. 


A reação do Maligno não se fez esperar: Glória começou a se sentir mal e a não conseguir reter nenhum alimento. Estava claro que se tratava de um caso de malefício.

Feitiço de uma vizinha
A Irmã Maria Teresa chamou a moça para nova conversa e conseguiu que ela contasse tudo o que se tinha passado com ela quando estivera em casa nas últimas férias. Glória contou que uma vizinha a havia procurado num dia em que ela estava só na casa e lhe havia dito: “Logo que tirar o diploma, você vai se casar meu filho!”. Deu-lhe então o lencinho colorido, acrescentando: “Você deve guardar este lencinho e não pode perdê-lo em hipótese alguma; do contrário você não poderá mais estudar e morrerá!

A pobre moça havia ficado tão aterrorizada com as ameaças da vizinha (ao que tudo indica, uma feiticeira) que, em vez de pedir conselho às Religiosas, procurou obedecer-lhe, com medo de não poder terminar o curso e com isso prejudicar seus irmãos mais novos, que dependiam dela para poderem também estudar.

Irmã Teresa, Religiosa experiente e que tinha muita fé, disse à moça: “Tenha confiança em Nossa Senhora que tudo se resolverá". Como primeira medida, levou Glória para fazer uma boa Confissão - remédio ideal nos casos de perseguição diabólica, pois a alma em estado de graça tem muito mais possibilidade de resistir às vexações do demônio.  Em seguida, foi com a moça examinar seu dormitório; tomou o travesseiro e pediu-lhe que o abrisse para ver se havia algo anormal dentro dele. Glória tremia de medo ao descosturar o travesseiro e jogar as penas na cama; apareceu então um objeto estranho, uma bolota envolta em pano; ao abrir o embrulho a moça exclamou aterrada: “Meus cabelos!”

De fato, a vizinha, ao mesmo tempo que dirigia ameaças á jovem cortara-lhe um chumaço de cabelos, levando-os consigo. Este é dos feitiços ou malefícios mais correntes: oferecer ao demônio cabelos ou unhas da própria pessoa a ser prejudicada; ou, então, uma fotografia dela, pedaços de sua roupa, etc.

Como esse objeto teria ido parar naquele lugar?

O demônio — sempre que Deus o permita — pode mover os objetos de um lugar para outro como, neste caso, primeiro o lencinho, que foi parar no meio de um caderno; depois a bolota de cabelos, encontrada dentro do travesseiro.


Malefício desfeitoito

Continuando nas buscas, descobriram outro lencinho igual ao primeiro. A Irmã pegou os objetos com precaução — sem tocá-los diretamente com as mãos, o que é perigoso —, jogou gasolina sobre eles e ateou fogo; apesar da intensidade das chamas, o pequeno lenço não se queimava.  A freira começou então a rezar fervorosamente e a bradar: "Os pés de Maria Santíssima continuam a te esmagar a cabeça, espírito maldito!",  até que finalmente os bruxedos se consumiram pelas chamas. 

Depois que os bruxedos foram queimados, Glória voltou a levar vida normal e aplicar-se nos estudos.

Tais casos, quando bem aproveitados, servem para afervorar religiosamente as pessoas, e esta é uma das razões pelas quais Deus permite que eles sucedam.

Na Itália: valor da oração e dos sacramentais


O Pe. Gabriel Amorth, exorcista da diocese de Roma, relata o seguinte caso, ocorrido na Itália.

Em 1987 um casal procurou seu pároco pedindo-lhe que desse uma bênção a seu filho, o qual apresentava um comportamento estranho.  Tratava-se de um menino de onze anos, de aparência calma e amável.

O pároco pediu a um confrade que o ajudasse; apenas os sacerdotes começaram a rezar, o menino passou a espumar, a blasfemar, e proferir ameaças.

Os padres (talvez por não terem licença do seu bispo ou por não estarem seguros de que se tratava de caso de possessão diabólica) não procederam aos exorcismos solenes que se fazem sobre possessos, mas mantiveram-se em oração, dando repetidas bênçãos ao menino, ao mesmo tempo que recorriam ao uso de sacramentais, como velas, água-benta, incenso, etc.

Por quinze dias seguidos o menino foi trazido à presença dos padres, que prosseguiram nas mesmas orações, bênçãos e uso dos sacramentais. No décimo-quinto dia, precisamente, o demônio começou a dar sinais de raiva impotente e de exaustão até que —  ao ser pedido o auxílio da Mãe de Deus e ser invocado o Espírito Santo — pôs-se a gritar pela boca da pequena vítima: “Nossa Senhora não!” — “A pomba branca não!” Após este último grito, o menino caiu por terra e um silêncio completo se fez na igreja. Tudo indicava que o demônio havia sido expulso.

Com efeito, nos dias seguintes o menino não apresentou mais os sintomas de possessão. Entretanto, começou a manifestar sinais de infestação pessoal, tendo visões aterradoras.(O Pe. Amorth, com sua experiência de exorcista, afirma que isto acontece com fre qüência após as possessões, o que é muito perigoso, sendo necessária a assistência do exorcista ainda por algum tempo depois da expulsão do demônio.) Pela atuação prudente e zelosa dos dois sacerdotes, esse estado de infestação também foi vencido, e o menino passou a gozar de excelente saúde e a ter boa vida de piedade. (Cf. J. AMORTH, Nuovi racconti, pp. 108-109.).

Madalena: da frustração ao pacto com o demônio


“Recusar obediência a Deuseus
e dizer sim a Satanás, a Lúcifer”<,
a Belzebú".
(Da pacto com o Demônio)


O CASO QUE SE SEGUE passou-se França, na década passada, e é relatado pela Dra. Marie-Dominique Fouqueray, psiquiatra que participa da equipe que auxilia o exorcista diocesano. (Relatório transcrito pelo Pe. Gabriele AMORTH, Nuovi raconti di un esorcista, pp. 151-155.)

Organista na paróquia e... sacerdotisa do Diabo!

"Um dos primeiros casos que tivemos que enfrentar foi o de uma senhora de seus quarenta anos, casada e mãe de quatro filhos, que trabalhava como educadora especializada. A causa dos seus males devera-se ao fato de que, por mais de dez anos, freqüentara uma seita satânica. Quando se dirigiu a nós, era a terceira vez que tentava sair daquela seita."

"Contrariamente a tudo o que se podia supor, esta senhora era muito próxima a sacerdotes; e foi um deles que a conduziu a nós. De fato, ela levava uma vida dupla: conhecia muitos sacerdotes e todos os domingos tocava o órgão na Missa, embora jamais se aproximasse dos sacramentos; mas, ao mesmo tempo, era grande-sacerdotisa de uma seita chamada Wicca, (Trata-se de uma seita satanista de caráter feminista, da qual já nos ocupamos pouco acima (cf. Parte V, Cap. 5).), cujo chefe é o próprio Lúcifer.  Ela tinha sido iniciada progressivamente, e quem ingressava na seita só poderia deixá-la por efeito de uma morte violenta, á qual ela era destinada: o suicídio. Ela sentia muito medo e queria sair, mas conhecia os riscos que isto comportava.

“Quando a encontramos pela primeira vez, apresentava sinais de uma pessoa deprimida, atormentada, emagrecida; dormia mal, mas não tinha antecedentes psiquiátricos. O exorcista, depois de ter examinado bem o caso, decidiu proceder aos exorcismos: primeiro de quinze em quinze dias, depois toda semana”.


A seguir a Dra. Fouqueray, narra como Madalena (nome fictício que ela usa para designar a infeliz mulher) se aproximou da seita e nela ingressou.

Pacto com o demônio e “batismo” satânico!


Nada levaria a supor que Madalena chegasse um dia a fazer um um pacto com o demônio e a se tomar sacerdotisa de uma seita satanista.


Educada em colégio de freiras, casada e mãe de família, sem preocupações financeiras, parecia uma pessoa feliz. No entanto, seu catolicismo era superficial e ela foi-se deixando levar por certo desencanto, aborrecimento com a vida de família e um vazio que não conseguia preencher.er.


“Num jornal mundano ela leu um convite para uma jornada de lazer."


“Freqüentou esse ambiente, embora percebesse que se tratava de um ambiente muito particular, aumentando cada vez mais o consumo de bebidas alcóolicas e drogas, e os convites para a iniciação numa seita. Mas, ao mesmo tempo, encontrou gente prestimosa, cujas atenções compensavam as carências que sentia em casa. E passou  a ser cada vez mais envolvida: renegou o batismo e aceitou um novo 'batismo’ da seita, no qual lhe foi imposto um novo nome. Recebei uma marca secreta na coxa e assinou com seu sangue um pacto com Satanás, depois de ter queimado a sua certidão de batismo cristão”.

Missas negras e escárnio da Paixão
“Foi iniciada nas as Missas negras< e em celebrações de triunfo satânico pela morte de Cristo, todas as sextas-feiras às três horas da tarde. Viu claramente que os nossos ritos e as nossas orações eram transformados, diabolizados. A Missa negra era uma paródia da Eucaristia e, no momento da comunhão, se transformava em orgia.  É importante conhecer os diversos pontos do pacto satânico porque, durante os exorcismos, é preciso convidar a própria pessoa a renegá-lo com plena renúncia a Satanás:
Renego-te, demômio X não quero mais saber de ti e renuncio ás práticas que tu me inspirastes".

Os doze pontos do pacto maldito

"Eis os doze pontos do pacto satânico:"ot;
1. Abjurar o batismo.
2. Abjurar a fé na Eucaristia.
3. Recusar obediência a Deus e dizer sim
a Satanás, a Lúcifer, a Belzebú.
4. Repudiar Nossa Senhora.ra.
5. Renegar os sacramentos.
6. Pisotear a cruz.
7. Pisotear imagens de Nossa Senhora e dos Santos.
8. Jurar fidelidade eterna ao príncipe das trevas; fazer juramento sobre as escrituras diabólicas.
9. Fazer-se batizar em nome do diabo, escolhendo novo nome apropriado para si.
10. Receber na coxa a marca do diabo, como sinal de filiação à seita.
11. Escolher um padrinho e uma madrinha na seita.
12. Profanar hóstias (não violando o Tabernáculo, mas indo comungar e conservando a partícula sagrada para depois profaná-la na Missa negragra)".


Olhar de fera e repulsa do crucifixo

"Descobri esses pontos pouco a pouco, no decurso dos exorcismos.

“A possessa, durante os exorcismos, tinha o olhar de uma fera e rejeitava com força o crucifixo que mantínhamos diante dela; no final vomitava (às vezes somente água) e a sua temperatura chegava até 41º e baixava somente com o uso da água de São Sigismundo (conhecida em nossa região por curar febres inexplicáveis).


“Madalena demos-lhe este nome — tinha participa de um grande número de Missas negras...”


Madalena não era crismada...

“Permito-me sublinhar um fato. Em um caso como este, não basta únicamente a ação do exorcista: já por duas vezes dois exorcistas tinham falhado, por não terem levado em conta o que dizia a própria infeliz, e por terem minimizado as pressões e ameaças dos membros da seita. Na terceira vez Madalena foi libertada graças ao auxílio que a equipe deu ao exorcista. Por exemplo, era necessária uma reeducação na fé cristã e manter uma assistência contínua quando a possessa era assaltada por impulsos de suicídio e febres inexplicáveis. Nós não a deixamos nunca sozinha, e nos mantivemos sempre perto dela.

“Tudo isto durou três anos...  Os exorcismos foram suspensos quando Madalena pôde conduzir por si mesma a luta espiritual, rezar, confessar-se, comungar; ou seja, quando pôde utilizar os meios ordinários de luta. Acrescento um dado importante: Madalena nunca tinha sido crismada; depois de adeqüada preparação, ela mesma pediu esse sacramento, que lhe foi ministrado pelo Vigário Geral, na presença do marido, dos filhos e dos membros da equipe que auxiliam o exorcista”.

 Anneliese: possessão penitencial


"O demônio abominaina
água-benta e objetos consagrados.

 Ele tem medo do
nome de Jesus e da oração".

(Do Exorcismo de Anneliese Michel)


O CASO RELATADO a seguir constitui impressionante exemplo de possessão penitencial ou oblativa, na qual a vítima sofre essa dura provação para, segundo os desígnios insondáveis de Deus, expiar pecados alheios e obter para si própria, ou para outras pessoas, graças espirituais de santificação e de reavivamento da fé.

Um caso muito bem documentado

A razão da escolha deste caso deve-se a que os fatos se passaram praticamente em nossos dias (de 1974 a 1976), e alcançaram grande repercussão na imprensa, estando muito bem documentados, uma vez que os exorcismos foram gravados em fitas magnéticas e o caso foi parar nos tribunais alemães.es.


Seguimos aqui o livro da Dra. Felicitas D. Goodman, antropóloga americana não-católica, que estudou o caso por interesse acadêmico, aplicando ao exame do mesmo o rigor científico. Ela reuniu toda a documentação a respeito, inclusive as fitas magnéticas com a gravação dos exorcismos.
(Felicitas D. GOODMAN, The Exorcism of Anneliese Michel, Doubleday, New York, 1981, 255pp.   A Dra, Goodman utilizou 42 fitas cassete com a gravação dos exorcismos, fornecidas pel o Pe. Ernst Alt, um dos exorcistas, e um dossier de mais de 800 páginas de documentos, proporcionados pela advogada da família Michel, Dra. Marianne Thora (depoimentos, cartas, laudos periciais, etc).

Menina inteligente, alegre e piedosa

Anneliese Michel nasceu em 21 de setembro de 1952 em Leiblfing, na Baviera, sendo a mais velha das quatro filhas do casal Josef e Ana Michel, católicos praticantes. Ainda na infância, a família mudou-se para a pequena cidade vizinha de Klingenberg.


Anneliese era inteligente e piedosa, embora sua infância tenha sido marcada por contínuas doenças, o que preocupava muito sua mãe, que já havia perdido uma filha em baixa idade. Ela fez Primeira Comunhão com todo o fervor. Terminado o curso primário em sua cidadezinha, passou a viajar de trem com outras meninas, para cursar o ginasial numa cidade vizinha.


Era uma menina alegre, tocava acordeon e aprendia piano.


Quando completou dezesseis anos, entretanto, começaram a manifestar-se os sintomas de uma doença de caráter neuro-psiquiátrico, que os médicos diagnosticaram como epilepsia, prescrevendo o tratamento correspondente.

Incontrolável repulsa pelas coisas sagradas
Ao mesmo tempo, surgiram outros sinais mais inquietadores: uma estranha e incontrolável repulsa pelas coisas sagradas, dificilmente de entrar em igrejas.as.


A jovem fazia esforços para vencer essa estranha repugnância, esses impulsos veementes, porém nem sempre obtinha êxito.  Certa vez, ao tentar entrar em uma capela dedicada a Nossa Senhora, na Itália, onde tinha ido em peregrinação, não conseguia avançar um passo, pois o chão lhe queimava os pés, como se estivesse em brasas. Em diversas ocasiões, quando pretendia levantar-se do lugar para ir comungar, seus membros pareciam pesados como chumbo e ela não conseguia mover-se. Um dia sua mãe a surpreendeu fazendo caretas de ódio e arreganhando os dentes para um crucifixo.

Apesar dessas manifestações anormais, que iam se tornando cada vez mais intensas, a moça foi-se tomando mais religiosa e ligada a outras moças igualmente piedosas; ao mesmo tempo mantinha um namoro casto e bem intencionado com um colega de classe.

Exame cuidadoso revela possessão
A partir de 1974, Anneliese, por causa das perturbações acima referidas, principiou a procurar o Pe. Emst Alt, seu pároco, o qual lhe dava uma simples bênção, com o que ela se sentia aliviada.


A falta de melhora com o tratamento médico, ao contrário do alívio que experimentava com as bênçãos, e a presença de sinais estranhos que aumentavam dia a dia, levaram Anneliese, seus parentes, amigos e igualmente o sacerdote que a assistia, Pe. Alt, à convicção de que se tratava de alguma influência diabólica. Vários sacerdotes doutos examinaram a moça, entre eles o Pe. Adolph Rodewyk S.J., conhecido especialista em demonologia e possessão, com importantes obras publicadas sobre a matéria.

O pároco fez então vários pedidos ao bispo de Würzburg, Dom Joseph Stangl, no sentido de obter a devida licença para a realização dos exorcismos solenes. Depois de muito hesitar, o bispo, por fim, em setembro de 1975, deu autorização para que se procedesse a eles, nomeando exorcistas para aquele caso o Pe. Arnold Renz, salvatoriano, antigo missionário na China e Superior Religioso, e o própio pároco da moça, Pe. Ernst Alt.


Vítima expiatóriaria

De fins de 1975 a junho de 1976 foram realizados inúmeras sessões de exorcismos, durante as quais ficou claro que os demônios não tinham licença para abandonar sua vítima, pois se tratava de uma possessão oblativa, em que a moça sofria como vítima expiatóriaria.


Simultaneamente, o tratamento médico prosseguia, porém se mostrava ineficaz, pois os médicos se apegaram ao diagnóstico de epilepsia, sem que os exames de eletroencefalografia fossem concludentes.

Por fim, os demônios foram expulsos, porém, quando os presentes entoavam cânticos de ação de graças, eles se manifestaram de novo, dizendo que tinham recebido licença para voltar.  Os exorcismos recomeçaram, mas os demônios diziam que não tinham licença de Deus para sair, e essa situação ainda iria durar algum tempo.

 Finalmente, em meio ao exorcismo do dia 30 de junho, repentinamente, Anneliese, com sua voz normal, gritou: “Por favor, absolvição”. O sacerdote imediatamente atendeu o apelo e encerrou os exorcismos.


Na manhã seguinte a moça foi encontrada morta em sua cama.

Vingança do demônio

Apesar de todos os esforços da família e dela própria, a moça passara longos períodos sem conseguir alimentar-se, caindo em um estado de desnutrição e fraqueza generalizada. Em vista disso, o médico negou-se a dar o atestado de óbito e foi aberto um processo judicial contra os pais e os exorcistas, por omissão de socorro médico. Em 21 de abril de 1978 eles foram condenados a seis meses de prisão, notícia essa que foi amplamente divulgada pela imprensa  em todo o mundo.

Toda aquela dolorosa e humilhante provação foi muito útil para o aperfeiçoamento espiritual de Anneliese e de sua família, bem como dos próprios sacerdotes exorcistas.


Após a morte da moça, seu túmulo no cemitério de Klingenberg passou a ser local de peregrinação, para o qual afluem pessoas não só da Alemanha, mas do Exterior, para rezar e pedir graças.

Gritos roucos, guinchos e grunhidos furiosos: a voz do Inferno 
As transcrições de trechos das gravações dos exorcismos que a Dra. Goodman faz em seu livro permitem-nos formar uma pálida idéia da luta dos exorcistas com o poder das trevas.


Não cabe transcrevê-los todos aqui, de maneira que damos alguns excertos como amostra, terrível amostra da voz do próprio demônio. Eis o que diz a Dra. Goodman:


“Na fita original nós sentimos, como os que cercavam Anneliese, algo dessa presença autônoma e alienígena que, no sentido do dogma católico, estabeleceu sua residência no corpo da moça, que usa para os seus propósitos demoníacos.


“Há os gritos ondulados e roucos e os guinchos e grunhidos furiosos que caracterizam o demônio - conforme os ensinamentos da Igreja - alienígena das profundidades, emissário das trevas, de tudo aquilo que é amedrontador e poluído. Os sons infernais fervem e chocam-se formando de vez em quando algumas palavras ou frases. E quando isso acontece, quando o demônio fala, a força do mal transforma-se numa pessoa. Não porém uma pessoa qualquer, porque fala no dialeto da Floresta Bávara, no linguajar de mercado, ele o demônio medieval nas obscenidades de seus assaltos verbais contra o padre”.

Malefício feito por inveja
"Ele toma as palavras latinas do sacerdote, e responde a elas com revolta: Immaculata (Imaculada) ... ‘Você com suas porcas palavras...nem você acredita nisso’. Saecula saeculorum (Pelos séculos dos séculos)...’Não é verdade, nem se devia falar isso aqui.’  Educto (Retira-te)... ‘Pode falar o dia todo, eu não vou sair’. Ut discedas ab hac famula dei Anneliese (Para que abandones esta serva de Deus Anneliese) ... ‘Não, não, ela pertence a mim, dê o fora daqui velha carcaça”.


"É a aldeia que vive e respira na resposta da questão de porque Anneliese estava possessa: ‘Ela não havia nascido ainda quando foi amaldiçoada’ — revela um dos demônios. Uma mulher fez o malefício por inveja. Quem era ela? ‘Uma vizinha de sua mãe em Leiblfing´— responde o demônio.”


A moça está possuída por vários demônios. Em determinado momento um deles deixa escapar seu lamento infernal, no qual não entra nenhum arrependimento, apesar da intensidade do sofrimento:to:
"Danados por toda a eternidade, o-oooh!”.

Demônios abominam água-benta, têm medo do nome de Jesus
De uma outra sessão de exorcismo:mo:


"O padre pode também obrigar o demônio a dizer o que é nocivo para ele e encurralá-lo como o faria um senhor contra seus súditos rebeldes."

"Os assistentes do exorcismo descobrem que o demônio abomina água-benta e objetos consagrados. Eles têm medo do nome de Jesus, da imitação por alguém da vida de Jesus, da oração. 'Reze, diz um dos demônios, e nada pode realmente acontecer de mau com você, seu porco imundo! ... Mas felizmente não muitos acreditam mais nisso’. Eles não toleram as súplicas a São Miguel. cuja missão é a de expulsar para o inferno os espíritos vagando pelo e tentando as almas.


“Eles temem o o Anjo da Guarda e gritam de horror quando a Ladainha das Cinco Chagas de Jesus é entoada: ‘Eu saúdo a adoro a chaga sagrada de vossa mão direita, oh Jesus’. Deixam-se levar por um verdadeiro furor quando chega a invocação da Quinta Chaga: ‘Eu saúdo e adoro a chaga do vosso Sagrado Coração, e nessa chaga eu escondo a minha alma’. Então essas orações são repetidas continuamente, como uma potente ameaça,

“Estou condenado porque não quis servir a Deus!”
“A arma mais efetiva que os padres têm contra o demônio é o interrogatório, submetê-lo a questões. Aqui os demônios estão em desvantagem, pois eles não podem fazer o mesmo e interrogar o padre. O padre faz um uso agressivo do interrogatório durante todo o exorcismo. Suas questões martelam o demônio incessantemente, voltando sempre ao mesmo ponto: Porque eles estão naquele corpo? Quantos e quais são os demônios presentes? Quando eles sairão? Que mensagens da parte da Mãe de Deus eles têm? Porque eles caíram no Inferno?”


Em um dos exorcismos, obrigado pelo sacerdote, um dos demônios explica a causa de sua danação: “Eu estou danado porque eu não quis... eu não quis servir.., a Deus!. Eu queria ser a regra para mim mesmo, embora eu fosse uma mera criatura”.

De outro exorcismo: “Eu... vou dizer algo”, diz um demônio. Segue-se uma série de gritos e blasfêmias, e ele prossegue: "Ela (Nossa Senhora) está feliz com vocês todos” e seguem-se mais gritos. “Porque vocês continuam a rezar. Vocês devem continuar o quanto vocês puderem” — novos gritos e blasfêmias.

"Fui para o inferno porque me desesperei”
O padre impôs como sinal de que os demônios sairiam que eles, ao sair dissessem: Ave Maria! Cheia de graça. Eles relutaram de todo modo mas, pela força do poder exorcístico, foram obrigados a aceitar. Quando chegou a vez de sair o demônio que se chamava a si mesmo de Judas, deu-se o seguinte diálogo:


"Judas Iscariote, você está aí?” Gritos. O Pe. Renz repete a fórmula exorcística de mando, ouvem-se gritos do demônio. E depois a confissão:

"Eu fui para o inferno porque eu me desesperei”. (O demônio fala como se fosse o próprio Apóstolo traidor.)

"Porque você traiu o Salvador?"

"Sim ... mas eu não vou sai?". Ele continua resistindo até que o Pe. Henz repete três vezes mais a fórmula exorcística e lembra ao demônio a ordem dada por Nossa Senhora para que ele saísse.: ‘Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em nome da Santa Mãe de Deus...”. Judas continua desafiador: “Não... não... não... não!’

"Em nome de...”..”
"Judas tenta negociar: ‘Para onde eu devo ir?’
"Para o Inferno."
"Não”
"É lá que é o seu lugar!"

"Não!"
"Você deve ficar lá! Você não quis servir ao Senhor!"
"Judas não pode mais resistir. Seus gemidos e gritos são mais assustadores do que antes. Uma vez mais o Pe. Renz repete a ordem, e então diz enfadado: ‘Vamos, sáia’. Judas saúda a Virgem e sai.  Renz se distende um pouco”.


"Muitas almas estão sendo salvas por este sofrimento”

O caráter penitencial dessa possessão se depreende de todo o conjunto da história e da atitude da moça, e foi posto em relevo por um dos exorcistas, o pároco Pe. Alt, em uma carta de 24 de junho de 1976 ao bispo de Würzburg:

 “Nós não estamos conseguindo forçar o demônio a falar novamente. Isto, me parece, se deve ao fato de que nós estamos lidando com um caso típico de possessão penitente. Em várias conversas que eu tive com a moça recentemente, ela me deixou entender que as coisas ainda ficarão piores para si. Estava muito amedrontada triste com isso. Mas disse que deve passar por isso também.  No caso de uma possessão penitente, as coisas ficam muito difíceis para o exorcista, porque é muito difícil entender o significado da penitência. Isso foi o que o Pe. Rodewyk S.J. de Frankfurt, me disse. A única consolação que temos é que muitas almas estão sendo salvas por este sofrimento”.

Este caso ilustra bem como o exorcismo, apesar de seu poder sobre os espíritos infernais, está condicionado à vontade de Deus, que muitas vezes pode retardar a saída do demônio segundo algum desígnio seu, como o da provação e santificação da pessoa.

É igualmente muito revelador quanto ao que foi dito anteriormente, sobre à incapacidade do demônio de penetrar no fundo da alma. Pois mesmo quando tem permissão de Deus para possuir o corpo de uma pessoa, e de atuar em suas faculdades inferiores, o demônio jamais tem o poder de fazê-la pecar, de impedi-la de continuar unidada a Deus, de progredir na virtude e se santificar, como foi o caso de Anneliese Michel. Por isso cabe bem lembrar aqui o que dizem os santos: deve-se temer a pecado do que o demônio.

 O Diabo no Convento

“Eu não a deixarei em paz
enquanto você não sair do convento”.

(Ameaça do Diabo a Maria Dien)

O DIABO NO CONVENTO: não se trata de título de alguma novela.  É o relato real de um impressionante caso de infestação e possessão coletivas, narrado pelo próprio exorcista que fez os exorcismos e expulsou os demônios: Dom Louis de Cooman M.E.P., antigo bispo no Vietnã. Ele publicou mu livro com esse título, no qual relata de modo objetivo a ação extraordinária do demônio em um convento desse país, onde foi missionário por muitos anos.’