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O Derradeiro Combate do Demônio  - Padre Paul Krammer
 

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Preâmbulo .................................................................... I

Colaboradores ................................................................ II

Prefácio do editor .................................................................................. III

Introdução ......................................................................... IV

1 A Mensagem e o Milagre .......................................................................................... 25

2 Uma longa oposição começa .................................................................................... 36

3 O Plano de Paz do Céu em microcosmo ................................................................. 42

4 O Terceiro Segredo ................................................................................................... 49

5 Descobre-se um motivo ............................................................................................ 61

6 O motivo consolida-se ............................................................................................... 76

7 A Demolição de Bastiões ........................................................................................ 108

8 A Mensagem de Fátima contra a Linha do Partido ............................................ 120

9 Fazer valer a Nova Orientação numa Igreja do “pós-Fátima” .......................... 155

10 Revelando nomes ......................................................... 163

11 A “Mensagem de Fátima” do Cardeal Ratzinger .............................................. 166

12 -Será o Terceiro Segredo constituído por dois textos distintos? ...................... 185

13 O Terceiro Segredo completamente revelado .................................................... 209

14 -Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus! ...................................... 237

15 Deitando contas ao nosso tempo .......................................................................... 260

16 Delineando uma acusação formal ....................................................................... 271

17 - E entretanto o que podemos fazer? .................................................................. 300

18 Petição ao Sumo Pontífice .................................................................................... 307

Apêndice: Uma cronologia do encobrimento de Fátima ........................................ 313

Bibliografia seleccionada .......................................................................................... 348

Glossário ........................................................................

Índice onomástico e temático .................................................................................... 364


 
Preâmbulo

     Ao longo do último meio-século tem vindo a desenrolar-se, dentro da Igreja Católica, uma estranha história que poderá vir a ter implicações gravíssimas para o Mundo inteiro.

     Neste livro, o leitor verá por que razão dizemos que é “uma estranha história”, embora ela comece (e termine - por fim - segundo a promessa de Nossa Senhora) de uma forma muito bela. No âmago de todo o enredo está uma Mensagem vinda do Céu.

     Em 1917, Nossa Senhora desceu do Céu até à pequena aldeia de Fátima, mais propriamente até à Cova da Iria - onde três pequenitos se ocupavam a guardar o rebanho familiar -, para lhes confiar essa Mensagem como um segredo que devia ser cuidadosamente guardado por muitos anos, até a Santíssima Virgem indicar que era chegado o momento de revelar a todo o mundo aquela Mensagem vinda do Céu. O conteúdo e a forma como foi transmitida a Mensagem são únicos na História da Igreja - o que distancia as aparições de Fátima de todas as outras manifestações visíveis de Nossa Senhora, mesmo daquelas que deram nome a Santuários Marianos mundialmente conhecidos, como Lourdes (França) ou Guadalupe (México).

De que forma foi transmitida a Mensagem de Fátima

     Muito longe de ser um acontecimento privado, Nossa Senhora dialogou com os pastorinhos (só a Lúcia Lhe falava directamente) em pleno campo, na presença de muitas pessoas. Além disso, o próprio Deus quis autenticar as Aparições de Sua Mãe em Fátima, através de um milagre público - o Milagre do Sol -, anunciado três meses antes, testemunhado por mais de 70.000 pessoas e noticiado em todo o mundo, em títulos de caixa alta, nas primeiras páginas dos jornais da época. Esta forma espectacular - que não tinha acontecido em aparição alguma - foi propositada: “para que todos acredit[ass]em”.

     Por si só, um tal milagre impedia que as aparições de Fátima fossem relegadas à categoria genérica de “revelações privadas” - como as que, ao longo dos séculos, foram experimentadas por vários Santos e místicos católicos.

     Mas este é apenas um dos vários aspectos únicos das aparições de Fátima.

O conteúdo da Mensagem

     Também o conteúdo da Mensagem confiada aos pastorinhos era único nos anais da Cristandade: continha um pedido, e uma advertência sobre castigos iminentes se não se obedecesse a esse pedido. Nenhuma aparição anterior, pública ou privada, tinha transmitido uma mensagem semelhante à Humanidade.

     Quando, nos anos 40, este conteúdo foi mais largamente publicitado, tanto maior foi o apoio que se começou a reunir em prol da autenticidade da Mensagem de Fátima. Continha ela uma série de profecias – o fim da I Guerra Mundial, a eleição do Papa Pio XI, o começo da II Guerra Mundial e a expansão da Rússia comunista –, cada uma das quais aconteceu como fora predito. Desde o tempo das aparições que as evidências provaram ser suficientes para suscitar a adesão de seis Papas sucessivos, assim como de milhões de Fiéis; e foram também suficientes para levar o Vaticano, no reinado do actual Papa, a beatificar os pequenos Francisco e Jacinta Marto, falecidos ainda crianças, e a comemorar as aparições de Nossa Senhora de Fátima no Missal Romano - livro oficial da Igreja para a celebração da Santa Missa.

     Uma outra profecia da Mensagem, apenas parcialmente divulgada, é o Terceiro Segredo de Fátima - a que nos referiremos mais adiante neste Preâmbulo.

A Igreja pronuncia-se sobre as Aparições da Cova da Iria

     A Igreja é geralmente relutante em confirmar, de ânimo leve, factos deste género. Por isso, e como em todos os casos semelhantes, o Vaticano procedeu a uma investigação intensa e exaustiva - e não encontrou nenhuma inconsistência, contradição ou discrepância como as que frequentemente invalidam outras supostas “aparições”. Pelo contrário, os inquiridores encontraram tudo em ordem, e reconheceram também a natureza única do Milagre do Sol, evento para o qual ainda não há uma explicação científica adequada.

     Quanto ao pedido da Consagração da Rússia - que, se for feita, trará «ao Mundo algum tempo de paz» e, se não for, «várias nações serão aniquiladas» (entre outros males de que o mundo há-de padecer) -, será credível o castigo que ameaça o seu não-cumprimento?

     Claro que uma Mensagem vinda do Céu é, naturalmente, um assunto de Fé e de crença religiosa. Por isso poderia parecer que diria respeito só à Igreja Católica e aos seus Fiéis, tal como o castigo iminente se não se atender ao pedido da Senhora mais brilhante do que o Sol. Se fosse só isso o que nos diz a Mensagem, os Não-Católicos e os Não-Cristãos (e até muitos Católicos com outros modos de devoção) poderiam não fazer caso dela. Mas, tanto para uns como para os outros, é impossível - e gravemente insensato - ignorar ou desprezar tudo o que diz respeito a Fátima. Com efeito, não é preciso acreditar que esta mensagem veio do Céu para ela merecer uma consideração séria - que lhe dê, pelo menos, o “benefício da dúvida” -, uma vez que está em causa o futuro de «várias nações».

     É isto precisamente que dá a Fátima a sua dimensão universal.

     A partir do momento em que foi comprovada a credibilidade dos factos e dos depoimentos dos pastorinhos - desde os Bispos locais, em Portugal, até uma série de Papas, no Vaticano (como já vimos) -, toda a Hierarquia Católica pronunciou unanimemente “fidedignas” as aparições de Fátima. O Papa João Paulo II declarou mesmo que «a Igreja se sente interpelada» pela Mensagem de Fátima. Esta aprovação hierárquica, uniforme ao longo dos anos, reforçou fortemente a convicção dos Fiéis de que Fátima transmitia uma autêntica Mensagem do Céu.

- Que aconteceu hoje à Mensagem?
- Que aconteceu ao pronunciamento da Igreja?

     De 1917 aos anos 60, Portugal e o mundo consideram de Fátima «o Altar do Mundo». E, dentro das humanas limitações, aí punham as suas esperanças e recebiam a coragem para suportar o sofrimento - embora a Hierarquia, por uma ou outra razão, continuasse a demorar a Consagração da Rússia.

     Ora em 26 de Junho de 2000 esta ‘estranha história' em torno de Fátima foi ainda mais estranhamente ‘desfigurada', quando, no Vaticano, o Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e o seu mais directo colaborador deram uma conferência de imprensa a que o jornal Los Angeles Times chamou uma tentativa de «desacreditar “com luva branca” o culto de Fátima». A intenção foi divulgar amplamente, através da imprensa, a ideia de que as profecias de Fátima eram “revelações privadas” e que estas já “pertenc[ia]m ao passado” - pelo que, neste momento, nem profecias são.

     Que aconteceu entretanto? Como é que as aparições de Fátima passaram de oficialmente fidedignas a oficialmente desacreditadas por um alto Prelado? Que aconteceu à Mensagem, com o seu pedido e a sua ameaça de castigo pelo seu não-cumprimento? Qualquer Católico, em pleno uso da razão, poderá fazer estas perguntas, devido ao comportamento inexplicável da alta Hierarquia da Igreja - e mesmo todo e qualquer ser humano (crente ou não) o poderá fazer, devido ao conteúdo (conhecido) da Mensagem. Porque a Mensagem de Fátima tem implicações mais amplas do que os domínios da Fé e da crença, pelo que merece uma mais ampla atenção.

     O pedido é que a Rússia seja consagrada, pelo Papa em conjunto com todos os Bispos Católicos do mundo, ao Imaculado Coração de Maria. Uma Consagração, cerimónia de funda tradição na Igreja Católica e que só Ela pode efectuar, tem um efeito santificante. Aos olhos dos Católicos, seria vantajosa para a Rússia. Para os descrentes pode ter pouco ou nenhum significado, mas é evidente que não faz mal a ninguém. Além disso, se a Mensagem tivesse a mínima hipótese de ser autêntica, o benefício da Consagração da Rússia do modo como fora pedido poderia ser de um valor mundialmente incalculável: a anunciada recompensa («será concedido ao Mundo algum tempo de paz»), e não o anunciado castigo («várias nações serão aniquiladas»). Dadas as circunstâncias, mesmo para os mais cépticos a Consagração “valia a pena”.

     Ora, se o Vaticano julgou credíveis as aparições, e se está em jogo a aniquilação de várias nações, essa Consagração já devia ter sido feita há muito tempo. Apesar disso (e com pleno conhecimento da Igreja), o pedido de Nossa Senhora de Fátima não foi satisfeito ao longo de, pelo menos, seis décadas - por motivos apenas conhecidos de um pequeno grupo de altos Prelados do Vaticano.

     Realizaram-se já várias consagrações formais (numa delas, inclusive, a Rússia foi nomeada explicitamente) - mas ficaram sempre por cumprir todos [ou alguns d]os requisitos que Nossa Senhora pedira em Fátima: que o Papa, em conjunto com todos os Bispos católicos do Mundo, consagrasse(m) a Rússia, pelo seu nome, e em cerimónia solene e pública.

     Recentemente ainda (2001), o Papa João Paulo II e 1.500 Bispos visitantes fizeram, em Roma, uma Consagração do Mundo. Muitas pessoas pensaram então que o Papa aproveitaria a oportunidade para realizar o pedido da Virgem de Fátima - mas, para desilusão geral, a Rússia não foi mencionada.

-Que se passará no Vaticano?

     Toda a gente - católica ou não -, há-de concordar que o comportamento do Vaticano face à Consagração da Rússia (e às consequências da sua não-realização) não só parece estranhamente incoerente, face às normas e tradições da Igreja, como mostra um desprezo temerário em relação à segurança dos Católicos fiéis e de toda a Humanidade: se o castigo predito na Mensagem de Fátima se realizar, o preço desta indecisão do Vaticano será muito alto - e pago por toda a humanidade a incluir os inocentes. Então, porque continua a Igreja a desprezar a Mensagem, sabendo que arrisca o mundo inteiro a sofrer consequências tão catastróficas?

     Também este aspecto é tratado neste livro – que nos mostra um Vaticano a atravessar uma série de mudanças em relação a Fátima: inicialmente, confirma a veracidade da Mensagem de Fátima; depois, põe-a em dúvida; a seguir, suprime-a; e, por fim, descarta-se dela totalmente. Remontar até à origem deste processo é difícil, pois muito do que acontece no Vaticano é feito em sigilo, e as atitudes oficiais têm que ser decifradas a partir de pronunciamentos que, frequentemente, são obscuros.

     O que irá no coração e no espírito desses Prelados do Vaticano, conspiradores que desprezam a Mensagem de Fátima? Não o sabemos. Só podemos julgar esses indivíduos pelas consequências lógicas da posição que abertamente assumiram e pelas suas próprias acções. Ao analisá-las - como o fazemos neste livro -, uma conjuntura perturbadora emerge: a de uma Igreja dividida contra Si mesma, vindo essa fractura, precisamente, desde o cimo. Depois - seguindo os factos que compõem a acusação que esboçamos e que nos levam muito longe -, vemos como a autenticidade da Mensagem provoca perguntas alarmantes sobre o estado da Hierarquia da Igreja de hoje.

     E o Papa? Qual a sua posição quanto a este assunto? Como todos os seus antecessores (desde o tempo das Aparições), João Paulo II tem professado, aberta e repetidamente, a crença na sua autenticidade: visitou por três vezes o Santuário de Fátima, e atribui a Nossa Senhora de Fátima o ter sobrevivido a uma tentativa de assassínio em 1981. Apesar disso, neste Vaticano dividido, até o Santo Padre se vê impotente perante os Cardeais que o rodeiam e que, ocupando os mais altos cargos, tomam sobre Fátima uma posição bem diferente. Note-se que o Santo Padre não esteve presente na já referida conferência de imprensa (Junho de 2000), onde dois dos mais altos Prelados ficaram totalmente “à vontade” para minarem a credibilidade das profecias de Fátima e as relegarem para o passado.

Fátima, “politicamente incorrecta”

     Como explicam vários capítulos deste livro, Fátima tem também implicações políticas que poderiam ter influenciado o modo como o Vaticano a (mal)tratou. No seu contexto ideológico actual, a Mensagem de Fátima é vista como “politicamente incorrecta”: pede a Consagração da Rússia (pelo seu nome) para que essa nação se converta ao Catolicismo; no entanto, essa cerimónia iria contra a Ostpolitik (que o aparelho de estado do Vaticano adoptou, por respeito para com o Comunismo internacional e a Igreja Ortodoxa Russa). Assim, e para não ser “politicamente incorrecta”, a Igreja Católica abandona a sua atitude militante e o seu ensino tradicional; abstém-se de denunciar o comunismo como um mal e deixa de procurar converter ao Catolicismo os Ortodoxos Russos.

     Nesta obra examinamos e divulgamos as maquinações políticas que, sem qualquer dúvida, influenciaram certas atitudes tomadas em relação a Fátima por parte de alguns diplomatas do Vaticano; e também não há dúvida de que os arquitectos da Ostpolitik conciliatória no Vaticano acham que a Mensagem de Fátima é inconveniente.

     Poderíamos, então, pensar que o Vaticano não fará a Consagração da Rússia simplesmente por motivos políticos. Mas, o que pesaria mais para o Vaticano? O aniquilamento de várias nações ou um incidente diplomático? E a Rússia? Sentir-se-ia realmente ofendida com uma cerimónia de Consagração? E mesmo que ficasse ofendida, que poderia fazer a Rússia de pior do que o anunciado castigo por não se ter feito a Consagração «deste pobre país»?

     Vendo bem, parece pouco provável que, por si só, tais considerações diplomáticas levassem o Vaticano a não fazer caso de uma mensagem vinda do Céu. Dá a impressão de que uma outra coisa tinha que estar em laboração: algo ainda mais profundo e mais escuro que as políticas mundiais - e assim era. É este o objecto fulcral deste livro.

Mais profundo e mais escuro que a política

     Lavrando mais escura e profundamente que a política é o modo como a Igreja Católica tem vindo a ser transformada de diversos modos, deixando confusos muitos dos Fiéis.

     Vista de longe e do exterior, a Igreja parece continuar a exercer normalmente a sua função salvífica; mas isso é só na aparência - porque a reforma iniciada nos anos 60 pelo Concílio Vaticano II conduziu a grandes mudanças, únicas até então (e.g. a Missa em vernáculo, o abandono do traje clerical distintivo, etc.) e que, embora dramáticas para os Fiéis, passavam quase despercebidas às pessoas ‘de fora’, imersas nas tendências laicas da sociedade da segunda metade do Século XX. Comparativamente com a sociedade, a Igreja parecia ser uma instituição resistente à mudança, mantendo inalteráveis os Seus ensinamentos (o celibato sacerdotal, a ordenação de mulheres, a contracepção, o divórcio e o aborto) - aspectos em que ainda parece conservar a posição firme que sempre teve ao longo dos séculos.

     Quererá isto dizer que a liderança do Vaticano é resolutamente tradicionalista? Quem considerar apenas os elementos visíveis, como as alocuções públicas do Papa, provavelmente pensará que sim. Mas os Fiéis atentos vão dizer o contrário.

As mudanças na Igreja Católica
hoje não são o que aparentam ser

     Por isso cada vez aumenta mais a separação entre a Sua imagem pública e a Sua verdadeira realidade. As crenças que dantes estavam no centro da Fé Católica estão agora a ser abandonadas - não pelos Fiéis, que continuam a ocupar os bancos da igreja; mas por algumas das Suas mais altas autoridades.

     Ao longo dos séculos, a Igreja Católica canonizou muitas centenas de pessoas, com base em milagres obtidos por sua intercessão e, como sabemos, muitos destes santos experienciaram aparições de Cristo ou da Santíssima Virgem Maria. A tradição católica afirma a Sua Fé num diálogo entre a terra e o Céu, através de santos que tiveram visões e que, chamados por Deus a serem profetas do seu tempo, autenticam as suas profecias com milagres.

     Muito longe de reiterarem este aspecto, tão antigo, da crença cristã, certos Prelados do Vaticano afirmam hoje enfaticamente que as “aparições privadas” podem ser tratadas com indiferença, porque “não [são] essenciais” à Fé - e incluem nas suas afirmações (apesar da advertência da Mensagem acerca de uma catástrofe mundial) as aparições de Fátima que, obviamente, foram públicas.

     O que se passa é que, enquanto se mantêm oficialmente certos aspectos das tradições da Igreja – e isso é largamente publicitado -, noutros aspectos as tradições são abandonadas ou minadas pela base - o que eles só muito raramente admitem, e ao de leve. Devido à “modernização” do período post Concílio Vaticano II, os Católicos de todo o mundo, unidos antes pelas mesmas crenças religiosas, passaram a vê-las trivializadas e reduzidas a um mero estatuto de culto. Entre elas estão, principalmente, as aparições, os milagres e as profecias – que se situam tradicionalmente no coração da história de Fátima. E foi precisamente o abandono da crença em tudo isto que transformou Fátima – de algo “fidedigno” a um mero culto que o dirigente doutrinal da Igreja tenta desacreditar “com luva branca”.

     Poucas crenças resistiram e, mesmo assim, sofrendo desafios a um altíssimo nível. É o caso de certos artigos fundamentais da Fé, como a Ressurreição e a Divindade de Cristo, postos em dúvida por Hans Küng - “Teólogo” largamente publicado e abertamente herético - que, por tão graves afirmações, recebeu apenas uma ligeira repreensão.

Uma crise de Fé e de disciplina na Igreja

     Os Católicos fiéis, dantes agrupados em torno de crenças comuns – universais –, sentem-se agora confusos e dispersos; como se, separados uns dos outros, caminhassem em diferentes direcções em cada região. E isto devido a uma liderança contraditória e duvidosa a todos os níveis. Aquela Igreja Católica sólida e monolítica deixou já de existir: hoje está cheia de fracturas - ao longo das quais iremos avançando neste livro. Nele verá o leitor uma liderança eclesial fragmentada, cuja primeira fissura divide um Papa absolutamente crente nos seus súbditos imediatos - que podem ser tudo menos verdadeiros súbditos.

     Neste ponto, é bom recordar como é, tradicionalmente, a estrutura da Igreja, que é muito diferente de uma democracia. Os Bispos da Igreja Católica não são eleitos pelos Fiéis, nem sequer pelos seus pares; são escolhidos pelo Papa e sagrados por ele ou (mais geralmente) por um Bispo mais antigo; e o poder que lhes é conferido através desta consagração vem directamente de Deus. Uma vez sagrado, o novo Bispo fica, em última instância, responsável apenas perante Deus e, abaixo de Deus, devedor de obediência (nos assuntos da Igreja) só ao Papa. Ora o que acontece é que certos altos Prelados que rodeiam o Papa e que deviam ser os Seus assessores são antes ( como dissemos) tudo menos súbditos fiéis.

     Esta obra examina de perto quatro Prelados do Vaticano e documenta largamente qual tem sido o seu papel num plano para “fechar o livro” de Fátima - porque Fátima é “politicamente incorrecta” e a voz da crença tradicional católica. Enquanto não houver certezas sobre as motivações individuais destes Prelados, continuará de pé, como conclusão, que a sua actuação tem contribuído muito para a actual crise de Fé e de disciplina na Igreja. Vem-se tornando por demais evidente que já não é possível determinar com clareza em que é que acreditam, verdadeiramente, estes funcionários do Vaticano. O lugar de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que dantes era ocupado por pessoa idónea cujo compromisso à conservação da Doutrina Católica era absoluto e indiscutível, está hoje nas mãos do Cardeal Joseph Ratzinger - e em que acredita ele? As suas entrevistas e pronunciamentos contêm afirmações tão cheias de ambiguidade que em muitas áreas nem os peritos em Teologia conseguem afirmar, com exactidão, em que é que ele acredita.

     Se aquilo que o Cardeal Ratzinger pensa ou deixa de pensar sobre assuntos de doutrina católica nada significa para os Não-Católicos - já o que ele pensa sobre as aparições, milagres e profecias significa muitíssimo para todos no caso de Fátima. Vejamos: se ele não acredita nas aparições de Fátima, se trata com indiferença o Milagre do Sol, e ignora e despreza as profecias da Mensagem de Nossa Senhora, então pode estar a pôr em risco o Mundo inteiro - Católicos ou não, crentes ou ateus. Não é preciso alguém ser Católico para se interrogar sobre Deus, e sobre qual o modo que Deus escolhe para comunicar com a Humanidade. Ora, para comunicar com a humanidade, Deus bem poderia escolher a Mensagem de Fátima - porque (como sabiamente diz a Bíblia) os caminhos de Deus não são os nossos caminhos.

O calapso da crença tradicional entre Católicos

     É assim que esta situação da Igreja Católica (em colapso, confusa, caótica em certos aspectos e muitas vezes contraditória nas palavras e nas acções de alguns dos Seus altos Prelados) emerge como a explicação mais plausível para o comportamento da Igreja em relação a Fátima – o que, de outro modo, seria inexplicável.

     Em última análise, a questão que se põe não é, apenas, em que acredita a Igreja Católica; é também o que poderá isso significar para a Humanidade. Tal situação que convida todos (Católicos ou não, Cristãos ou não) a considerarem a possibilidade de a Mensagem de Fátima poder ser autêntica. E o certo é que há provas capazes de apoiarem esta ideia.

     Apenas parcialmente divulgada, há ainda na Mensagem a profecia do Terceiro Segredo de Fátima. As evidências esboçadas neste livro apontam fortemente para uma profecia de graves problemas na liderança da Igreja - problemas esses que têm uma semelhança inquietante com aquilo que hoje está efectivamente a acontecer. Na sua procura de explicação para uma situação aterradora, todos os olhares se voltarão para o Terceiro Segredo, ainda por divulgar.

     Esta obra fornece bons motivos para acreditar que o Terceiro Segredo prediz, exactamente, o que está a acontecer agora: os escândalos, noticiados em catadupa, entre o clero - com o abuso sexual de crianças e jovens (coisa que raramente aconteceu ao longo dos séculos, sendo então os prevaricadores severamente castigados pela Igreja e pelo Estado cristão) - serão o começo do prometido castigo, se a Consagração não for feita. Quando, como última consequência, o mundo inteiro for castigado, a punição cairá em primeiro lugar sobre a Igreja Católica: o estiolar do sacerdócio e a sua degeneração moral são apenas os primeiros sinais de uma calamidade que acabará por engolir toda a Humanidade. O facto de os quatro Prelados do Vaticano, examinados neste livro, se terem dado ao (enorme) trabalho de pôr termo à questão de Fátima enquanto ainda está oculto o texto do Terceiro Segredo apoia fortemente esta interpretação. E – sem dúvida – pode pensar-se que eles têm ainda algo a ocultar… Se assim não fosse, porque não publicariam eles o Terceiro Segredo e não deixariam que a Irmã Lúcia dos Santos testemunhasse da sua autenticidade?

     Quando um dia toda a história for contada, leitor, todos verão por qual motivo o Vaticano não efectuará a Consagração da Rússia: é que, se a fizesse, estaria a afirmar a autenticidade da Mensagem de Fátima e, consequentemente, da apostasia aí profetizada que havia de partir do interior do próprio Vaticano. Estes Prelados (que são descrentes) não querem sequer prestar atenção a uma Mensagem que contra eles aponta o dedo acusador. Pelo contrário, tentaram o mais possível sepultá-la - de um modo tal que fosse desacreditado aquilo que, anteriormente, o próprio Vaticano declarara digno de todo o crédito.

     Se os factos relatados nesta obra poderão convencer muitos não-Católicos de espírito aberto de que a autenticidade de Fátima é, pelo menos, possível, quanto mais os Católicos? Pois apesar de poderem levar os descrentes a acreditarem, as Aparições de Fátima, ironicamente, parecem exercer o efeito oposto sobre certos Prelados do Vaticano.

     Em qualquer outra era da História da Igreja, os membros da mais alta Hierarquia do Vaticano teriam sido, decerto, os primeiros entre os crentes: não teriam perdido tempo em obedecer a uma mensagem vinda do Céu, e corresponderiam ao Seu pedido.

     Mas com a confusão que se seguiu ao Concílio Vaticano II e com o avanço do laicismo adentro de cada instituição, incluindo a Igreja, ao longo dos últimos 40 anos, é dada agora à Mensagem uma recepção hostil - até mesmo pelo (por certos funcionários do) Vaticano. Não fazendo caso da Mensagem, estes Prelados colocam-se fora do grupo dos crentes e também do dos não-crentes (que ainda possuem um certo senso comum) - porque eles não querem dar à Mensagem uma oportunidade, nem sequer o benefício da dúvida, pelo sim, pelo não.

Uma lição paralela da Escritura Sagrada

     Há um paralelo impressionante entre a quase negação do Vaticano quanto à Consagração da Rússia e um acontecimento bíblico milagroso contado no Quarto Livro dos Reis (4 Reis 5:1-15; referido em alguns Bíblias como 2 Reis 5:1-15): a cura de Naaman.

     Tendo este comandante do exército da Síria ficado leproso, o seu Rei (que muito o estimava) enviou-o a Israel, ao profeta Eliseu, para que com um milagre o curasse de tão terrível enfermidade. Antes mesmo de se terem encontrado, Eliseu mandou dizer a Naaman se lavasse sete vezes no rio Jordão, que ficaria curado. Naaman irritou-se no seu íntimo por Eliseu não ter vindo ter com ele para lhe administrar a cura. E pensou: “Então é só lavar-me no Jordão? Em que seria isso melhor do que eu lavar-me em qualquer um dos fecundos rios da Síria?”. Rejeitando as indicações – tão insignificantes – do profeta, Naaman preparava-se para se ir embora, quando os seus conselheiros o dissuadiram. Argumentaram, dizendo que se o profeta lhe tivesse pedido uma façanha notável, Naaman tê-la-ia feito para obter a cura. Se assim era, então porque não faria ele esse acto social que lhe fora pedido, em vez de uma tal façanha? Por que razão não haveria ele de experimentar, sendo uma coisa tão simples?

     Então Naaman resolveu-se a experimentar. E à sétima lavagem no rio Jordão, a sua lepra desapareceu.

     Tal como Naaman, parece que os Prelados do Vaticano são incapazes de acreditar que algo tão simples como uma Consagração pode conceder um benefício tão momentoso como a verdadeira Paz para o Mundo. E estão tão obstinados na sua posição que nem sequer permitem que se experimente o remédio - apesar dos apelos, repetidos ao longo de muitas décadas, por milhões de Fiéis, incluindo milhares dentro do próprio clero católico.

     Para os “de fora”, parecerá incrível que um grupo minúsculo de incrédulos da alta Hierarquia possa bloquear uma acção tão ardentemente desejada por numerosíssimos Fiéis. Para entender isto, é necessário compreender a estrutura da Igreja que, como vimos, é basicamente hierárquica. Ora dado o contexto dos tempos e o estilo administrativo do actual Papa, é mais que certo que o Sumo Pontífice não dará uma ordem directa a todos os Bispos, a menos que tenha havido um consenso global entre eles. O que significa que, em última instância, cabe aos Bispos da Igreja, aproximadamente uns 4.500, concordarem voluntariamente em efectuar a Consagração da Rússia do modo como foi pedida. Mas devido aos largos poderes que esses Prelados têm sobre a marcação de audiências, as promoções e outros privilégios, é fácil ao pequeno grupo que lidera no Vaticano impedir que, em tempo algum, venha a emergir um tal acordo espontâneo.

     Claro que hoje é evidente, para todos os membros do clero católico que o facto de divulgar, alto e bom som, a Mensagem de Fátima é garante de um ‘bilhete sem regresso' para o esquecimento - quer se trate de um Sacerdote, de um Bispo ou mesmo de um Cardeal. Logo, os Bispos conservam-se calados, na sua maioria, no que toca a este assunto - indiferentemente daquilo que eles possam, na realidade, pensar ou em que possam acreditar. O mesmo se aplica aos Sacerdotes que, de todos eles, são ainda os mais vulneráveis à punição por serem “politicamente incorrectos”.

     Por isso, este livro também menciona o tratamento repressivo do Padre Nicholas Gruner, o “Sacerdote de Fátima”, que se devotou a promover a Mensagem de Fátima com um grande custo pessoal. As tentativas do Vaticano para o silenciar - o que chegou a incluir a ameaça de excomunhão - fazem um contraste flagrante com o tratamento brando de centenas de outros Sacerdotes, e até Bispos e Arcebispos, que têm sido implicados em alegações de abuso sexual de menores. O estado lamentável do clero católico de hoje está resumido neste contraste entre o tratamento dado ao Padre Nicholas Gruner e o que é outorgado aos clérigos católicos realmente culpados de crimes graves.

     A Igreja Católica tem nas suas mãos um remédio cujo resultado mais ninguém sabe como conseguir - trazer a Paz a este Mundo interminavelmente atormentado pela lepra da guerra. Com base nas evidências apresentadas neste livro, aqueles que impedem este remédio de ser experimentado têm muito que confessar. Devem uma explicação pelo seu comportamento, tanto aos Fiéis Católicos como a todo o Mundo. Além disso, e devido à sua importância para o mundo inteiro, o encobrimento da Mensagem de Fátima é uma ocasião de ultraje público bem mais grave do que o encobrimento, por parte de alguns Bispos, do mau comportamento sexual de sacerdotes e que a imprensa trouxe a público no ano de 2002.

     Como esta obra torna claro, tanto os católicos como os não-católicos têm muito a ganhar e muitíssimo a perder se a Mensagem de Fátima continuar a não ser reconhecida por aqueles mesmos homens a quem o próprio cargo obrigava a seguir os imperativos nela traçados.

     O capítulo final deste livro oferece algumas sugestões sobre aquilo que cada leitor, crente ou descrente, pode fazer para persuadir os dirigentes da Igreja Católica a agir, tanto no maior interesse da Igreja como da Humanidade.


 

Colaboradores

Andrew Cesanek é formado em Engenharia Electrotécnica pela Universidade Estadual de Nova York em Buffalo e tem um mestrado em Engenharia Electrotécnica e Informática pela Universidade de Massachusetts. Trabalhou como engenheiro de software na Motorola durante 15 anos, até se aposentar da profissão de engenheiro. É actualmente investigador e escritor a tempo inteiro para o Fatima Center.

Mark Fellows é um escritor católico, com diversos artigos publicados em vários periódicos católicos, incluindo The Remnant e Catholic Family News. É autor dos livros The Ninth Pius sobre a vida do Bem-Aventurado Papa Pio IX, A Second Coming sobre o Santo Sudário de Turim, e Fatima in Twilight, que foi recentemente publicado.

Dr. Christopher Ferrara obteve o bacharelato e o doutoramento em Direito pela Universidade de Fordham. É Presidente e Consultor Jurídico Principal da Associação Americana dos Advogados Católicos. É autor de uma profusão de trabalhos sobre temas católicos. Os seus artigos apareceram em The Latin Mass e The Remnant, assim como em outras publicações periódicas. Foi co-autor, com o Dr. Thomas Woods, do livro The Great Façade: Vatican II and the Regime of Novelty in the Roman Catholic Church.

Padre Nicholas Gruner, S.T.L., S.T.D. (Cand.) dirige um dos maiores Apostolados de Fátima existentes, com várias filiais espalhadas pelo Mundo. Dá conferências por toda a América do Norte sobre o tema de Fátima, e publica a revista The Fatima Crusader. Produz ainda o programa de televisão “Fatima: ‘The Moment Has Come’” e o programa de rádio “Heaven's Peace Plan”.

Padre Gregor Hesse, S.T.D., J.C.D. foi ordenado em 1981 na Basílica de S. Pedro. Doutorou-se em Teologia Tomista e em Direito Canónico. Foi Secretário do Cardeal Stickler no Vaticano de 1986 a 1988. A partir de 1991, tem trabalhado na Áustria, na Alemanha e nos Estados Unidos, dando conferências e escrevendo artigos sobre temas de Teologia que têm aparecido no Catholic Family News, The Fatima Crusader e outras publicações periódicas.

Padre Paul Kramer, B.Ph., S.T.B., M.Div., S.T.L. (Cand.) é conferencista e autor de numerosos artigos sobre a Fé Católica e sobre o tema de Fátima. Recebeu o grau de B.Ph., S.T.B. pelo Angelicum de Roma e o mestrado em Teologia pelo Holy Apostles College em Connecticut. É autor do livro The Theological Vindication of Roman Catholic Traditionalism, e preparou uma edição radicalmente actualizada do mesmo livro com o título The Suicide of Altering the Faith in the Liturgy.

John Vennari é escritor, investigador, catequista e editor do jornal mensal Catholic Family News. Os seus artigos têm aparecido também em periódicos como Christian Order e The Angelus. É autor dos livros Close-ups of the Charismatic Movement e The Permanent Instruction of the Alta Vendita, a Blueprint for the Subversion of the Catholic Church.

Nota do Tradutor

      A tradução portuguesa das citações de alguns documentos pontifícios em baixo foi feita com base em versões em língua inglesa desses documentos. Noutros casos, os excertos de documentos  pontifícios (e os do opúsculo do Vaticano A Mensagem de Fátima) citados neste livro seguiram traduções portuguesas existentes (conservámos a grafia e a sintaxe daquelas que seguiam a norma do Português do Brasil).

No Capítulo 5:
* Papa S. Pio X, Motu Proprio — Sacrorum Antistitum. * Papa Leão XIII, Humanum Genus

No Capítulo 6:
* Carta de 11 de Fevereiro de 1949 do Papa Pio XII * Papa S. Pio X, Notre Charge Apostolique. * Acta Apostolicae Sedis 42-142. * Papa Pio XII, Admoestação do Santo Ofício: “Sobre o Movimento Ecuménico, de 20 de Dezembro de 1949.

No Capítulo 7:
* Papa Paulo VI, Discurso da Audiência de 26 de Novembro de 1969.

Coimbra, Portugal
11 de Setembro de 2003,
Véspera da Festa do Santíssimo Nome de Maria

 

O Derradeiro Combate
do Demonio

Prefácio do editor


     Um hipotético homem da rua ficaria surpreendido se lhe dissessem que o ataque terrorrista de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos e o escândalo sexual que agora desmorona a Igreja Católica são acontecimentos que se relacionam muito de perto. Mas, efectivamente, relacionam-se mesmo muito de perto. Tal relacionamento acaba por se tornar evidente quando ambos os factos são observados através do prisma da Mensagem de Fátima.

     Muitas vezes se diz que tal como vai a Igreja, assim vai o Mundo. E foi isso, precisamente, o que a Mãe de Deus veio confirmar quando apareceu em Fátima (Portugal) há 86 anos, numa série de aparições autenticadas por um milagre público e sem precedentes na história do Mundo. Até este momento, as advertências proféticas da Mensagem de Fátima foram, todas elas, cumpridas à letra - excepto uma: o aniquilamento de várias nações, que a Virgem de Fátima avisou serem as últimas consequências da falta de cumprimento em honrar os Seus pedidos.

     As aparições de Fátima foram declaradas autênticas por uma série de Papas e são agora comemoradas no Missal Romano por um decreto do Papa João Paulo II. Pois mesmo assim - verdadeiro mistério de iniquidade! -, os simples pedidos da Santíssima Virgem continuam sem cumprimento, devido a decisões calculadas de alguns dos mais altos prelados da Igreja Católica. O resultado, tal como a Senhora o predisse, é uma crise cada vez mais funda na Igreja e no Mundo, acompanhada por um sentimento crescente, mesmo entre os não-Católicos, de que estamos a assistir ao começo de um apocalipse.

     Este livro foi inicialmente idealizado como uma compilação de alguns dos escritos ou prédicas mais importantes sobre Fátima nos anos mais recentes1. Ao reunir essas obras em volume, havia o desejo de lhes dar não só uma mais ampla divulgação como uma maior vitalidade nas livrarias. Mas essa ideia foi em breve suplantada por outra melhor: reeditar artigos e prédicas como livro sob um único tema, o que lhes daria uma coesão global. Assim, e com a permissão dos respectivos autores, o Padre Paul Kramer e o grupo redactorial da “The Missionary Association” modelaram esses artigos e prédicas (a que acrescentaram bastante informação) de modo a formarem uma obra diferente de qualquer outra jamais publicada sobre Fátima.

     E foi durante o processo de ponderação e complementação destes materiais que algo notável aconteceu: houve um tema que emergiu e se impôs por si só, como se tivesse sido indicado pela Providência. Ao abordar o tema da Mensagem de Fátima sob diferentes ângulos, os vários oradores e escritores convergiam todos no sentido de uma conclusão: os eventos ocorridos em Fátima representam um ponto-foco, marcado pelo Céu, no combate que agora devasta furiosamente a Igreja e o Mundo. Ambas as crises - tanto a da Igreja como a do Mundo - se concentram em torno das Verdades divinas que se encontram reunidas, com uma concisão celeste, nas aparições de Fátima. No cumprimento da Mensagem de Fátima reside o términus destas crises gémeas. Na negação dessa Mensagem reside, em grande medida, a origem e o aumento de ambas.

     Os acontecimentos surpreendentes ocorridos em Fátima não foram um qualquer espectáculo inútil, pois Deus não toma parte em espectáculos inúteis. A Mãe de Deus desceu à terra conhecendo bem as nossas circunstâncias presentes e, com a solicitude de uma mãe, Ela veio oferecer-nos uma solução - a solução escolhida pelo próprio Deus para o nosso tempo. Assim sendo, não se pode compreender o actual estado da Igreja e do Mundo sem se compreender o que aconteceu em Fátima.

     Do mesmo modo é preciso compreender o estranho e sistemático esforço de certos membros da Igreja Católica para obstruirem o cumprimento dos imperativos celestes da Mensagem de Fátima - incluindo a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, a miraculosa conversão da Rússia ao Catolicismo e o consequente Triunfo do Seu Imaculado Coração que trará ao Mundo um período de Paz. Para demonstrar a importância central de Fátima no paradigma do decurso actual dos acontecimentos mundiais, basta apenas evocar os recentes (e quase frenéticos) esforços de certos funcionários do Vaticano para “desconstruirem” e “desmitificarem” Fátima, de modo a não melindrarem diversos elementos exteriores à Igreja - em especial os Ortodoxos Russos cuja implacável oposição a Roma é mais intensa do que nunca, depois de quarenta anos de um inútil “diálogo ecuménico” com representantes do Vaticano. As páginas que se seguem apresentam provas evidentes que incriminam alguns dos mais proeminentes membros da Igreja que estão envolvidos nesta campanha contra Fátima, lançando-lhes aos pés o grande peso de culpa que lhes cabe na crise eclesial e na crise mundial que todos temos de enfrentar.

     A quem nos disser que é escandaloso o nosso empreendimento de tornar pública a campanha destes indivíduos contra Fátima, só podemos responder com as próprias palavras da Santíssima Virgem: «Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão Paz; se não, espalhará os seus erros pelo Mundo, causando guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados; o Santo Padre terá muito que sofrer; várias nações serão aniquiladas.» Ora a Rússia não se converteu. Os erros da Rússia - onde se inclui o holocausto do aborto “legalizado” - têm-se espalhado pelo Mundo inteiro. Não há Paz. E até mesmo os não-Católicos e aqueles que não acreditam vivem hoje no temor de um aniquilamento de nações. Assim, fazendo-nos eco das palavras do Papa São Gregório Magno, é melhor que surja este escândalo do que a verdade permaneça escondida - especialmente quando, como é o caso, a verdade pode impedir uma catástrofe à escala mundial.

     Submetemos a presente obra ao julgamento do Papa e também ao julgamento dos nossos leitores. Fazemo-lo publicamente, porque os inúmeros e veementes pedidos apresentados a título particular e durante mais de cinco anos às altas autoridades da Igreja foram, todos eles, inúteis. Entretanto, aqueles que rodeiam o Papa - de saúde cada vez mais frágil - tornam-no efectivamente incapaz de corresponder às petições de toda uma legião de membros do Clero e de leigos. Neste preciso momento, há uma vigília ansiosa junto do leito de um Papa moribundo, com possíveis sucessores ao trono pontifício manobrando, na sombra, para obterem uma posição de vantagem no próximo conclave. Como fica demonstrado pelo encobrimento de longas décadas de escândalos sexuais entre os membros do Clero, nas circunstâncias presentes o foro público é o único foro, aberto aos Católicos, que procura a reparação pelas justas queixas que afectam toda a Igreja.

     Ao apresentar este livro, a nossa motivação é a de fiéis filhos e filhas da Igreja, que conhecem e amam a Fé e que, em consciência, acreditam que o caminho tomado por certos líderes da Igreja é um caminho gravemente errado - como os acontecimentos recentes deveriam mostrar, à evidência, a qualquer observador objectivo. Se acaso errámos em alguns dos factos, na lógica de raciocínio ou nas conclusões que apresentamos, ou se cometemos qualquer injustiça, o dever de toda e qualquer pessoa que ler este livro será, pois, não dirigir-nos invectivas ou fazer denúncias sem fundamento, mas sim fornecer-nos correcções legítimas e baseadas nos factos - para nosso bem, e para o Bem da Santa Igreja. Mas se aquilo que relatamos, revelamos e demonstramos é verdadeiro e conforme à Justiça, há então um outro dever que se impõe a cada indivíduo: é o dever de agir de acordo com as evidências que aqui apresentamos - agora, enquanto ainda é tempo.

Padre Paul Kramer e a equipa de redacção de The Missionary Association
 

8 de Dezembro de 2002
Festa da Imaculada Conceição

Nota:

1.Entre as principais fontes deste livro considerem-se: “Are There Two Original Manuscripts on the Third Secret?” (“Há dois manuscritos originais do Terceiro Segredo?” publicado no site www.fatima.org), Andrew M. Cesanek (The Fatima Crusader, nº 64, Primavera de 2000); “Cardinal Ratzinger’s Third Secret”, Padre Gregor Hesse (The Fatima Crusader, nº 66, Inverno de 2001); “Chronology of a Cover-up” (“Cronologia de um encobrimento” publicado no site www.fatima.org), Padre Paul Kramer; “Freemasonry and the Subversion of the Church (The Alta Vendita)”, John Vennari (Transcrição de comunicação in: Conferência sobre Fátima, em Roma, Outubro de 2001); “It Doesn’t Add Up” John Vennari (The Fatima Crusader, nº 70, Primavera de 2002); “Let us Hear the Witness, for Heaven’s Sake” (“-Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus!” publicado no site www.fatima.org), Dr. Christopher Ferrara (The Fatima Crusader, nº 70, Primavera de 2002); “Lucy and the Pirates”, Mark Fellows (The Fatima Crusader, nº 70, Primavera de 2002); “The Lying Press Conference of June 26, 2000”, Padre Paul Kramer (Transcrição de comunicação in: Conferência sobre Fátima, em Roma, Outubro de 2001); “Our Lady of Fatima vs. the Desire to Destroy our Catholic Heritage”, John Vennari (Transcrição de comunicação in: Conferência intitulada: Fátima polariza forças contra o Terrorismo, New York, Nov. de 2001); “The ‘Party Line’ and its Relationship to Fatima”, Padre Paul Kramer (Transcrição de comunicação in: Conferência sobre Fátima, em Roma, Outubro de 2001); “Pope John Paul II Gives Us the Key to the Real Third Secret” (“O Papa João Paulo II dá-nos a chave do autêntico Terceiro Segredo” publicado no site www.fatima.org), Padre Nicholas Gruner (Série de três partes, The Fatima Crusader, nºs 67-69); “The Stalinization of the Catholic Church” (Transcrição de comunicação in: Conferência sobre Fátima, em Roma, Outubro de 2001); “The Third Secret”, Padre Nicholas Gruner (Transcrição de comunicação in: Conferência sobre Fátima, em Roma, Outubro de 2001).
 

O Derradeiro Combate
do Demonio

Introdução


 

     Um grande crime tem vindo a ser cometido contra a Igreja Católica e contra o Mundo inteiro. Os perpetradores deste crime são homens que detêm altos cargos na Hierarquia eclesiástica católica; os seus nomes serão revelados no decurso deste volume.

     As vítimas deste crime incluem-no a si, leitor, e aos seus entes queridos. As consequências deste crime já foram catastróficas; e, se os responsáveis não forem desviados rapidamente do seu actual percurso, o resultado final atingirá nada mais nada menos do que dimensões apocalípticas. Com efeito, mesmo os não-Católicos e os não-crentes têm a sensação de que hoje o Mundo se precipita na direcção de um apocalipse. E o facto de não deixar de se cometer tal crime é uma das principais razões para que isto seja assim.

     O assunto submetido ao crime que tanto nos preocupa é comummente conhecido como “a Mensagem de Fátima”. Em 1917, a Mãe de Deus escolheu três crianças de Fátima (Portugal), de vida muito santa, para lhes confiar uma mensagem da maior urgência para a Igreja e para a Humanidade; uma mensagem autenticada por um milagre público sem precedentes, anunciado três meses antes e testemunhado por 70.000 pessoas; uma mensagem cujas profecias de acontecimentos futuros mundiais se têm, até agora, cumprido à letra; uma mensagem que as mais altas autoridades da Igreja Católica pronunciaram ser digna de todo o crédito; uma mensagem cuja autenticidade é atestada por toda uma sucessão de Papas — incluindo o actual Papa reinante que, repetidamente, tem aludido aos elementos apocalípticos que ela contém.

     A natureza deste crime é a tentativa sistemática, que vem já desde o ano de 1960, de abafar, apresentar erroneamente e negar a autenticidade dessa mensagem, embora as suas alarmantes profecias se estejam a concretizar mesmo diante dos nossos olhos. Como iremos demonstrar, esta tentativa de ‘assassinar’ a Mensagem de Fátima tem sido perpetrada precisamente por altos dignitários da Igreja, pertencentes às cúpulas da Hierarquia católica — homens que pertencem ao aparelho de estado do Vaticano e que rodeiam um Papa doente e cada vez mais debilitado.

     Todo o crime tem um motivo, a menos que o criminoso sofra de insanidade mental. Ora os homens envolvidos neste crime não sofrem de qualquer insanidade, e estamos convictos de que têm, efectivamente, um motivo. Se bem que o motivo possa ser, por vezes, difícil de provar, as evidências do motivo são, neste caso, abundantes.

     Sem presumir que os perpetradores são inimigos conscientes da Igreja (embora alguns deles o possam bem ser), com base em provas evidentes surge, como motivo provável para o crime, o seguinte: Esses indivíduos reconhecem que o conteúdo da Mensagem de Fátima, tal como é compreendido no sentido católico tradicional, não se coaduna com decisões tomadas a partir do Concílio Vaticano Segundo (1962-65) — decisões essas que eles continuam com determinação a pôr em prática, para mudarem totalmente a orientação da Igreja Católica. Tal mudança de orientação transformaria a Igreja Católica (se tal fosse possível), de Instituição Divina que orienta a sua actuação na terra no sentido da salvação eterna das almas, numa simples co-participante — ao lado das organizações humanas — na construção de um utópico mundo de “fraternidade” entre os homens de todas as religiões ou sem religião nenhuma.

     Esta nova orientação da Igreja não só vai atrás de uma visão ilusória do Mundo, como é contrária à missão dada por Deus à Sua Igreja: fazer discípulos em todas as nações, baptizando-os em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esta nova orientação é, de facto, o acarinhado objectivo das forças organizadas que têm vindo a conspirar contra a Igreja desde há cerca de 300 anos, e cujas actividades foram expostas e condenadas em pronunciamentos papais em número muito maior do que os que foram exarados sobre qualquer outro assunto na História da Igreja.

     Isto não quer dizer que a própria Igreja alguma vez renunciasse de modo oficial à Sua missão divina, porque isso é impossível, segundo a promessa de Nosso Senhor sobre a sobrevivência da Igreja Católica na terra até ao fim dos tempos. Mas é inegável que, a partir do Concílio Vaticano II, muitos dos elementos humanos da Igreja deixaram efectivamente de seguir aquela missão, devido a uma aproximação ao Mundo mais politicamente correcta e moderna. Em vista das promessas de Nosso Senhor e de Nossa Senhora de Fátima, o fim desta experiência e a restauração da Igreja Católica são incontornáveis; mas até que isso aconteça, muitas almas serão eternamente perdidas e continuaremos a testemunhar a pior crise de toda a história da Igreja — uma crise vaticinada, como demonstraremos, pela própria Virgem de Fátima.

     As provas, tanto directas como circunstanciais, indiciam que o crime inclui a deliberada ocultação daquela parte da Mensagem de Fátima que prediz, precisamente, essa tentativa de mudar a orientação da Igreja, e as ruinosas consequências de uma tal actuação. Essa parte da Mensagem que permanece oculta e é comummente conhecida como o Terceiro Segredo de Fátima seria, pois, uma acusação formal vinda do Céu contra as decisões tomadas e as acções realizadas pelos mesmos homens que levaram a cabo tal crime.

     Prova a evidência que o crime de que falamos inclui ainda interferir, fraudulenta e activamente, junto da última testemunha viva da Mensagem de Fátima, a Irmã Lúcia dos Santos. A Irmã Lúcia foi submetida a “entrevistas” sigilosas e a outras formas de pressão, na tentativa de a fazer alterar o seu invariável testemunho sobre o verdadeiro conteúdo da Mensagem, que barra o caminho aos perpetradores no seu desejo de impor essa nova orientação na Igreja.

     É este o crime; e aqui está o motivo. Cabe-nos a nós, agora, a responsabilidade de provar um e outro. É o que vamos tentar fazer nas páginas que se seguem, usando as próprias palavras dos acusados, o depoimento de outras testemunhas e uma grande quantidade de outras provas em que se baseie a evidência da sua culpa. E então, quando tivermos acabado de apresentar essas provas, pedir-lhe-emos a si, leitor, que pronuncie o veredicto. Não um veredicto no sentido legal — porque não temos o direito de nos constituirmos como um tribunal eclesiástico — mas, antes, um veredicto que represente que, em plena consciência, há entre os Fiéis quem acredite haver sólidos fundamentos para que se faça uma investigação sobre o crime que aqui alegamos e se inicie o seu procedimento criminal pela mais alta autoridade da Igreja: o Sumo Pontífice, João Paulo II — ou o seu sucessor, se tal for o caso.

     Pedir-lhe-emos, então, que o seu veredicto possa ser somado a uma espécie de denúncia contra os acusados do alegado crime. Pediremos também a sua ajuda para fazer chegar ao Papa essa denúncia e para, apoiando o direito dado por Deus aos Fiéis — infalivelmente definido pelo Concílio Vaticano Primeiro e de cuja inalterabilidade é garante o Direito Canónico -, dirigir directa e imediatamente uma petição ao Sumo Pontífice para rectificar estes verdadeiros agravos. Ao fazer estes pedidos temos em mente não apenas os ensinamentos de São Tomás de Aquino, mas ainda a voz unânime dos Teólogos e dos Doutores da Igreja, de que «se a Fé estiver em perigo, um súbdito [leigo, ou membro menor do Clero] deve repreender o seu prelado, ainda que seja publicamente.»

     Ao considerar as evidências que de seguida vamos apresentar, pedimos-lhe que tenha sempre bem presente no seu espírito um princípio basilar: como São Tomás ensina, contra factum non argumentum est — ‘contra factos não há argumentos’. Se uma afirmação for contrária a um facto, nenhuma autoridade no Mundo pode esperar que se acredite nela. Por exemplo: se um alto prelado do Vaticano emitisse um decreto pelo qual os Católicos tinham de acreditar que a Torre Eiffel está na Praça de São Pedro, tal afirmação não faria que assim acontecesse — e seríamos obrigados a rejeitar tal decreto. Porque o facto é que a Torre Eiffel está situada em Paris, e não há argumento algum contra tal facto. Deste modo, pessoa alguma, seja qual for a sua autoridade, pode exigir que acreditemos numa coisa que é manifestamente contrária ao facto.

     Mas, como o leitor pode verificar, o crime que envolve Fátima é, a uma larga escala, a tentativa de certos indivíduos (que gozam da influência dos altos cargos que ocupam dentro da Igreja) de impor aos Católicos uma interpretação da Mensagem de Fátima claramente contrária aos factos — como, por exemplo, afirmar que a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria pôde ser concretizada com a Consagração do Mundo, sem ter havido, deliberadamente, qualquer menção à Rússia.

     Como a própria Igreja ensina (cf. Vaticano I, e a encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II), a Fé não entra em conflito com a razão. Não é necessário que os Católicos deixem de raciocinar ou de usar o seu senso comum só por serem Católicos. Isso não seria Fé, mas cegueira — a cegueira dos Fariseus. E é o que acontece com a Mensagem de Fátima. Não interessa o que alguns indivíduos no Vaticano gostariam que ela fosse; a Igreja não quer que acreditemos em disparates quando se trata do verdadeiro significado da Mensagem.

      Por isso lhe pedimos, leitor, que use o seu senso comum, que tenha um espírito aberto, que considere as evidências desapaixonadamente e, então, decida. Com efeito, deve tomar uma decisão. Porque, se o empreendimento que levámos a cabo é verdade, então o que está em risco neste caso é nada menos do que a salvação de milhões de almas (incluindo, possivelmente, a sua), a sanidade da Igreja e a sobrevivência da própria civilização, nesta era da humanidade. Não foi por outra razão que a Mãe de Deus confiou a Mensagem de Fátima ao nosso Mundo, cada vez mais crescentemente exposto ao perigo.


 

A Mensagem e o Milagre

     Deus não desperdiça milagres. Através de toda a história da salvação - de Josué até Moisés, até aos Doze Apóstolos e aos Santos da Igreja Católica ao longo dos séculos - Deus concedeu milagres com um único propósito: o de servirem como credencial divina, em prol de uma testemunha que invoca o milagre em Seu Nome. Quando Deus escolhe uma Sua testemunha e depois associa um milagre autêntico ao depoimento daquela testemunha, é para que nós saibamos, sem qualquer dúvida, que essa testemunha é digna de todo o crédito. Deus não concede milagres para confirmar testemunhas que não são fidedignas; Deus não escolhe testemunhas que não sejam fidedignas.

     Não, Deus não desperdiça milagres. Muito menos desperdiçaria Deus um milagre público - testemunhado por 70.000 pessoas, tanto crentes como descrentes - como o que aconteceu naquele preciso momento vaticinado três meses antes por três testemunhas de cujo depoimento se tem duvidado: Lúcia dos Santos (conhecida em todo o Mundo como Lúcia) e seus primos, Francisco e Jacinta Marto1.

     É 13 de Outubro de 1917. Num campo humilde conhecido como a Cova da Iria, em Fátima, reuniram-se cerca de 70.000 pessoas à espera que acontecesse um milagre. Isto, em si mesmo, é surpreendente. Ora, nunca antes na história da salvação algum vidente vaticinou, meses antes, que um milagre público aconteceria, num tempo e lugar bem precisos. Nunca antes se reuniu uma vasta multidão, para testemunhar um milagre público que alguém tivesse previsto. E, apesar disso, foi exactamente o que aconteceu naquele dia.

     Porquê nesse dia? Porque a Lúcia dos Santos e os primos, Francisco e Jacinta, tinham vindo a receber aparições d'“a Senhora” no dia 13 de cada mês, a partir de Maio desse ano. A Senhora tinha-lhes aparecido sobre uma azinheira na Cova da Iria e, a cada aparição, as multidões iam crescendo. Mas também iam crescendo as dúvidas sobre a veracidade dos videntes, tal como a troça e a perseguição dos “três pastorinhos” e das suas famílias, num tempo em que Portugal estava sob o domínio de um regime político ateu e maçónico.

     Foi então que, em 13 de Julho de 1917, a Senhora lhes mostrou algo que os iria aterrorizar e modificar para sempre, fazendo deles santos que consumiam as suas vidas (no caso de Francisco e Jacinta, vidas bem breves) rezando e fazendo sacrifícios pelos pecadores. Como Lúcia reconta num depoimento que a Igreja Católica julgou digno de todo o crédito, a Senhora mostrou-lhes o Inferno:

     Abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo. Mergulhados nesse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhantes ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizavam e faziam estremecer de pavor (devia ser ao deparar-me com esta vista que dei esse ai! que dizem ter-me ouvido). Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa2. Esta vista foi um momento. E graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição). Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor3.

     Tendo mostrado às crianças o destino dos condenados - no que é considerada a primeira parte do Grande Segredo de Fátima -, a Senhora confiou-lhes depois a segunda parte. Todos - inclusive aqueles membros do aparelho de poder do Vaticano que são visados nesta obra - estão de acordo em como a segunda parte do Segredo, recontada assim nas memórias da Irmã Lúcia, é o seguinte:

     Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no Mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o Mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

     Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá a terão paz; se não, espalhará seus erros pelo Mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao Mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc. Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo4.

     Os elementos basilares desta Mensagem surpreendente são os seguintes:

  • Muitas almas vão para o Inferno por causa dos pecados que cometem.

  • Para as salvar, Deus quer estabelecer no Mundo a devoção, única e plenamente católica, ao Imaculado Coração de Maria.

  • Isto será efectuado pela Consagração da nação da Rússia ao Imaculado Coração de Maria (em conjunto com as Comunhões de Reparação dos Primeiros Sábados de cada mês), depois do que a Rússia converter-se-á à Fé Católica.

  • Se isto for feito, salvar-se-ão muitas almas e haverá Paz.

  • Se isto não for feito, a Rússia espalhará os seus erros pelo Mundo. Haverá guerras, fome, perseguições à Igreja e os bons serão martirizados. O Santo Padre terá muito que sofrer. E se os pedidos de Nossa Senhora continuarem sem serem cumpridos, então, várias nações serão aniquiladas.

  • Mesmo assim, «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao Mundo algum tempo de paz.»

     A isto acrescentou a Senhora um pedido urgente: que os Católicos incluam na sua recitação do Terço, no fim de cada dezena, a oração seguinte: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno. Levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.» Em obediência ao pedido da Senhora - espécie de testemunho, também, da autenticidade das Suas aparições em Fátima - a Igreja incluiu esta oração no Terço, e os Católicos rezam-na até hoje.

     A Igreja também adoptou a devoção das Comunhões de Reparação dos Primeiros Sábados, que a Senhora explicou deste modo:

     Todos aqueles que durante 5 meses, ao Primeiro Sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.

     Fazemos aqui uma pausa para notar de passagem (mais tarde será alvo de discussão mais pormenorizada) a curiosa frase do final das primeiras duas partes do Segredo: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.» A frase incompleta que acaba com este “etc.” aparece na quarta memória das aparições, da Irmã Lúcia. É, claramente, uma introdução a uma predição do Céu contendo outras palavras de Nossa Senhora (que aqui não estão) sobre o grau de adesão ao Dogma da Fé Católica na Igreja, considerada na Sua globalidade - e considerada à parte em relação a Portugal, onde o dogma da Fé se conservará sempre.

     Ora, por si só, esta observação sobre a adesão ao Dogma Católico em Portugal aparece gratuitamente e assaz sem sentido, porque a frase não segue, de modo algum, a lógica das primeiras duas partes do Segredo. Daqui, todos e cada um dos conceituados estudiosos de Fátima concluíram que a frase representa o começar de uma terceira parte do Segredo - que veio a ser conhecida, simplesmente, como o Terceiro Segredo de Fátima. Como veremos, a Lúcia estava tão aterrorizada pelo seu conteúdo que, ainda depois de lho terem mandado pôr por escrito, em Outubro de 1943, viu-se incapaz de o fazer até à Aparição seguinte, a 2 de Janeiro de 1944, na qual Nossa Senhora lhe assegurou que o deveria fazer. Pois apesar disso e até hoje, o Vaticano ainda não revelou as palavras da Santíssima Virgem que, sem qualquer dúvida, vêm a seguir a: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé, etc.» O “etc.” permanece ainda em sigilo. Esta ocultação contínua é um elemento-chave do crime que é o tema deste livro.

     Tendo recebido do próprio Céu uma mensagem de uma importância evidentemente profunda para a Igreja e para toda a humanidade, Lúcia bem sabia que tanto ela como os primitos precisariam de uma credencial divina para serem acreditados. Durante a Aparição de 13 de Julho, Lúcia - a futura Irmã Lúcia - dirigiu-se à Senhora: «- Queria pedir-Lhe para nos dizer Quem é; para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.» E a Senhora respondeu: «Continuem a vir aqui, todos os meses. Em Outubro direi Quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão-de ver para acreditar5.» A Senhora repetiu esta promessa em aparições posteriores à Lúcia e aos outros videntes (em 19 de Agosto e, de novo na Cova da Iria, em 13 de Setembro).

     E foi assim que uma grande multidão de pessoas se reuniu na Cova da Iria a 13 de Outubro. E, precisamente na hora vaticinada em Julho - às 12h., meio-dia solar; e às 13h30 pelo relógio em Portugal -, algo de espantoso começa. Inesperadamente - porque uma chuva torrencial enchera de lama a Cova da Iria -, a Lúcia diz à multidão para as pessoas fecharem os guarda-chuvas. Então ela fica num êxtase, e a Senhora, aparecendo de novo, diz-lhe primeiro Quem é e o que quer, tal como tinha prometido: «Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário.» A Senhora é a Mãe de Deus, a Santíssima Virgem Maria, que desde então será conhecida também sob o título de Nossa Senhora de Fátima, um dos muitos conferidos pela Igreja à Santíssima Virgem. A capela, evidentemente, foi construída; tal como foi construída outra vez depois de, em 6 de Março de 1922, ter sido arrasada por uma bomba, aí colocada pelos amigos do “latoeiro” - alcunha do autarca maçónico do município de Ourém6.

     E nessa altura o Milagre começou. Recontamos aqui o depoimento de um jornalista que não pode, definitivamente, ser acusado de parcialidade neste assunto - e por um bom motivo! Referimo-nos ao Senhor Avelino de Almeida, editor-chefe de O Século, o grande jornal diário, “liberal”, anticlerical e maçónico de Lisboa. Escrevia ele:

     (…) Do cimo da estrada onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meterem à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zénite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar: - Milagre, milagre! Maravilha, maravilha! Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos, fora de todas as leis cósmicas, - o sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses (…)7.

     Atacado com violência por toda a imprensa anticlerical, o Senhor Avelino de Almeida renovava o mesmo testemunho, quinze dias depois, na sua revista Ilustração Portuguesa. Dessa vez ilustrava o seu reconto com uma dúzia de fotos da grande multidão extática, e ia repetindo, como um refrão, do princípio ao fim do seu artigo: «Vi... Vi...Vi.» E concluía, como que ao acaso: «Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi ... O resto é com a Ciência e com a Igreja (…)»8

     Naquele Sábado, 13 de Outubro, começa um caminho de penitência para os peregrinos, porque tinha chovido toda a noite anterior - «sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quase repentina do tempo, quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçais e às doçuras do Outono sucederam por um dia, os aspérrimos rigores do Inverno (…)»9

     Ao fazer uma comparação dos numerosos depoimentos das testemunhas, podemos distinguir os aspectos diversos e o resultado dos fenómenos surpreendentes visto por todos. Para cada um dos fenómenos, seria possível escrever umas dez páginas de testemunhos que, por si só, constituiriam um livro impressionante.

     Aqui está o primeiro facto maravilhoso descrito pelo Senhor Dr. Almeida Garrett:

     Devia ser uma e meia (treze e trinta) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nú, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez (…)10.

     Enquanto «O céu baço e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de água, prenúncio de chuva abundante e de longa duração», durante o tempo da aparição, a chuva parou totalmente. Abruptamente, o céu clareou: «O sol momentos antes tinha rompido ovante a densa camada de nuvens que o tiveram escondido, para brilhar clara e intensamente.» (Dr. Almeida Garrett) Esta abrupta mudança de tempo apanhou a gente de surpresa: «Era um dia de chuva miudinha e incessante, mas minutos antes do Milagre, deixou de chover.» (Alfredo da Silva Santos)

     E este testemunho de um médico, de um homem de ciência, quanto ao inexplicável prateado do sol que lhe permitia ser visto directamente, sem qualquer dano para os olhos:

     (…) Ouvi o bruhahá de milhares de vozes e vi aquela multidão espraiada pelo largo campo que se estendia a meus pés (…) voltar as costas ao ponto para o qual até então convergiram os desejos e ânsias, e olhar o céu do lado oposto (…) Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido, de aresta viva, luminosa e luzente, mas sem magoar (…) [que] se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo), porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta, como uma tábua de jogo. Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina (Dr. Almeida Garrett)11.

     Da mesma veia, este testemunho pelo editor chefe de O Século:

     E assiste-se então a um espectáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele. Do cimo da estrada (…) vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol que se mostra liberto de nuvens no Zénite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. (Artigo de 15 de Outubro de 1917)

     E, do mesmo modo, outros afirmavam: «A gente podia olhar para o sol tal qual como faz à lua» (Maria do Carmo)12.

     Poder-se-iam multiplicar sem fim os testemunhos sobre o seguinte fenómeno solar - visível até mesmo pelo editor-chefe leigo de um jornal anticlerical. Vejam-se ainda alguns outros:

     «Tremia, tremia tanto; parecia uma roda de fogo» (Maria da Capelinha)13.

     «(…) ele [o Sol] desandava como uma roda de fogo, tornava tudo das cores do Arco-íris (…)» (Maria do Carmo)14.

     «Era como um globo de neve a rodar sobre si mesmo» (Padre Lourenço)15.

     «Este disco tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.» (Dr. Almeida Garrett)16.

     «A certa altura, o sol parou e depois começou a dançar, a bailar; parou outra vez e outra vez começou a dançar» (Ti Marto)17.

     «(…) vi o sol a desandar como uma roda de fogo, tornando aquela multidão das cores do Arco-íris. Até a própria terra ficou como as pessoas!» (Maria do Carmo)18.

     «Uma luz, cujas cores mudaram dum momento para o outro, reflectiu-se nas pessoas e nas coisas» (Dr. Pereira Gens)19.

     O que aconteceu depois constitui o aspecto mais estarrecedor do Milagre, e com implicações profundas para a nossa era em que a humanidade tem aperfeiçoado a capacidade de destruir o Mundo inteiro com fogo vindo do céu: o Sol pareceu desprender-se do céu e lançar-se sobre a terra.

     «De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra, ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.» (Dr. Almeida Garrett)20

     «Vi o sol a rolar e parecia que estava a descer. Era como uma roda de bicicleta.» (João Carreira)21

     «O sol começou a bailar e a certa altura pareceu deslocar-se do firmamento e, em rodas de fogo, precipitar-se sobre nós. (Alfredo da Silva Santos )22

     «Vi-o, perfeitamente, descer. Parecia que se despegava do Céu, correndo para nós. E a pequena altura das nossas cabeças se manteve por algum tempo. Mas foi de muito curta duração este arremesso que fez. (…) Parecia que estava muito perto das pessoas, mas voltava logo para trás.» (Maria do Carmo)23

     «(…) Imediatamente aparece o sol com a circunferência bem definida. Aproxima-se como a altura das nuvens e começa girando sobre si mesmo vertiginosamente como uma roda de fogo preso, com algumas intermitências, durante mais de oito minutos.» (Padre Pereira da Silva)24

     «(…) De repente, pareceu que baixava em zig-zag, ameaçando cair sobre a terra.» (Padre Lourenço)25

     «(…) vi o sol a rodar a grande velocidade e muito perto de mim (…)» (Padre João Gomes Menitra)26

     «Por fim, o sol parou e todos deram um suspiro de alívio.» (Maria da Capelinha)27

     «Dessas centenas de bocas ouvi brados de fé e amor à Santíssima Virgem. E então acreditei. Tinha a certeza de não ter sido vítima de sugestão. Vi aquele sol como nunca mais o tornei a ver.» (Mário Godinho, Engenheiro)28

     Outro facto surpreendente: toda essa gente, que na sua grande maioria tinha ficado molhada até aos ossos, verificou com alegria e assombro que estava seca. O facto é testemunhado no processo canónico dos pastorinhos Jacinta e Francisco, beatificados a 13 de Maio de 2000.

     «Quando menos esperávamos, demos com a farpela enxutinha!» (Maria do Carmo)29

     «Foi um rápido enquanto o fato se enxugou.» (João Carreira)30

     O académico Marques da Cruz testemunhou o seguinte:

     A imensa multidão, como é fácil de compreender, sentia-se molhada, pois que a chuva, desde madrugada até aquela hora, foi incessante. Passado o milagre, porém, (embora pareça inacreditável) todos se sentiram bem, com a roupa enxuta, o que lhes causou grande admiração. Dezenas e dezenas de pessoas, com quem privámos desde menino, de absoluta probidade, ainda vivas, e indivíduos de várias províncias que lá estiveram, nos asseveraram isto com a máxima franqueza e sinceridade31.

     Precisamente num certo aspecto, este é o efeito mais surpreendente do milagre e a sua melhor prova: é que a quantidade de energia necessária para efectuar este processo de secagem de um modo natural e tão rápido teria reduzido a cinzas todos os presentes. Como este aspecto do milagre contradiz radicalmente as leis da natureza, um demónio nunca o poderia ter realizado.

     E finalmente, houve também milagres morais: a conversão de muita gente. No seu livro, Encontro de Testemunhas, John Haffert escreve:

     O comandante do destacamento postado na serra naquele dia, com ordens de evitar o ajuntamento do povo, foi instantaneamente convertido. Aparentemente, também se converteram centos de outros descrentes, de cujo testemunho este livro dá uma amostra32.

     (…) Havia lá um descrente que tinha passado a manhã a troçar dos simplórios que iam a Fátima ver uma rapariga qualquer. Agora parecia paralisado, com os olhos fixos no sol. Então começou a tremer dos pés à cabeça e, erguendo os braços, caiu de joelhos na lama, invocando a Deus.» (Padre Lourenço)33

     Residia a 25 quilómetros de Fátima. E em Maio de 1917 falaram-me acerca das aparições extraordinárias; mas a notícia chegou-nos de mistura com a fantasia do povo. Naturalmente não acreditámos. Eu sinceramente supus que era obra da imaginação de alguém. (…) A pedido de minha mãe voltei à Cova da Iria em Agosto, à hora das aparições, mas mais uma vez voltei a casa desanimado e desapontado. Mas dessa vez alguma coisa de extraordinário acontecera. Minha mãe que tinha, havia muitos anos, um grande tumor num dos olhos, voltou curada. Os médicos que a tinham tratado diziam não poderem explicar uma tal cura. Todavia, eu não acreditava nas aparições. Finalmente, e mais uma vez a pedido de minha mãe, voltei à Cova da Iria no dia 13 de Outubro. (…) A despeito do que tinha acontecido a minha mãe, continuei desapontado, sem acreditar nas aparições. Novamente fiquei dentro do carro (…) Então, de repente, reparei que toda a gente olhava para o céu. A curiosidade despertou-me a atenção. Saí do carro e olhei também. (…) Dessas centenas de bocas ouvi brados de fé à Santíssima Virgem. E então acreditei.» (Mário Godinho, Engenheiro)34

     Um número considerável de outros casos de curas e conversões estão documentados, de entre outras fontes, nos seguintes livros: Documentação Crítica de Fátima e Era uma Senhora mais brilhante que o sol35.

     Àqueles que pudessem dizer que o milagre era fruto de uma “histeria colectiva” provocada in loco, o próprio Deus arranjou uma pronta refutação: o fenómeno pôde ser admirado muito para além de Fátima. Testemunhas perfeitamente credíveis, que estiveram muito longe da Cova da Iria, contaram terem visto o espectáculo sem precedentes do “Baile do Sol”, exactamente como o viram os 70.000 peregrinos reunidos em redor da azinheira onde a Santíssima Virgem apareceu36.

     Na pequena aldeia de Alburitel, que fica a cerca de 13 quilómetros de Fátima, todo o povo podia apreciar a visão do prodígio solar. O testemunho mais frequentemente citado é o do Padre Inácio Lourenço, por ser o mais pormenorizado. Mas aquilo que ele narra ter visto, todos os aldeãos, interrogados pelos investigadores, confirmaram terem visto exactamente do mesmo modo.

     As testemunhas do acontecimento foram com efeito inúmeras, os depoimentos concordantes, e fomos inundados com os documentos que nos forneceram37.

     Em primeiro lugar, numerosos relatos apareceram de imediato na imprensa portuguesa. E é digno de nota que os primeiros que vieram dar o seu testemunho foram os jornalistas anticlericais. Os três artigos do Senhor Avelino de Almeida - o de 13 de Outubro, imediatamente antes do acontecimento; outro com data de 15 de Outubro, mas editado em Vila Nova de Ourém na tarde desse dia 13, e um terceiro artigo de 29 de Outubro - merecem menção especial. Apesar do tom zombeteiro e da ironia voltairiana que em parte inspiraram o primeiro artigo, apesar do tom anticlerical - que já era de esperar - que ainda aparece no artigo do dia 15, estes textos de um jornalista talentoso que é, aliás, honesto e consciencioso, são documentos históricos de importância capital38. Mas não foi ele a única pessoa a relatar estes factos, porque outros jornalistas estiveram presentes na Cova da Iria.

     Depois, houve as investigações oficiais. Em Novembro de 1917, a pedido do Sr. Bispo D. João Evangelista de Lima Vidal, que estava nessa altura à frente da diocese de Lisboa, o pároco de Fátima conduziu a sua investigação e interrogou várias testemunhas da freguesia. Desafortunadamente, transcreveu apenas quatro depoimentos!

     Mas afortunadamente as pesquisas dos historiadores compensaram a negligência dos investigadores oficiais. O relato do Padre Formigão, que obteve do Sr. Dr. José Maria de Almeida Garrett, professor da Faculdade de Ciências de Coimbra, um depoimento muito extensivo, é o relato mais científico que temos em nossa posse39. Temos ainda os relatos do Padre Fonseca (cuja obra foi feita para verificar os pontos discutidos pelo Padre Dhanis40 que, apesar disso, se recusou a examinar as evidências), o Padre de Marchi, o Cónego Barthas, o Padre Dias Coelho e o Padre Richard.

     Em 1977, para comemorar o sexagésimo aniversário da última aparição, ainda foi possível reunir em Fátima mais de trinta pessoas que tinham estado presentes aquando do prodígio solar e que podiam relatar as suas memórias. Graças àqueles numerosos testemunhos, é possível reconstruir um comentário fluente e preciso, permitindo-nos reviver, hora a hora e minuto a minuto, este dia decisivo, indubitavelmente um dos dias mais importantes na História do Mundo. Com efeito, as provas do Milagre do Sol de 13 de Outubro de 1917 foram tão convincentes que até Hollywood, em 1952, quis corroborar a sua autenticidade produzindo um filme clássico (com o actor Gilbert Roland) intitulado “The Miracle of Our Lady of Fatima”, que ainda hoje se vende em formato vídeo.

     Porque foi tão importante este dia? Porque foi o dia em que uma Mensagem do Céu, da Mãe de Deus e por Ela trazida, foi autenticada para além de toda e qualquer dúvida razoável; uma mensagem que, passados hoje mais de 85 anos, se situa no coração da grave situação que a Igreja e o Mundo atravessam neste preciso momento da História humana - para nos oferecer uma solução.


Notas

1. Este capítulo na sua maioria é transcrito textualmente da obra Fatima: The Astonishing Truth, I Tomo de Fatima: Intimate Joy World Event, de Frère François de Marie des Anges (Edição inglesa, Immaculate Heart Publications, Buffalo, New York, 1993), Capítulo III, pp. 163-198.

2. Da Quarta memória da Irmã Lúcia, Documentos de Fátima (editado pelo Padre António Maria Martins, S.J., Porto, 1976) pp. 339-341.

3. Da Terceira memória da Irmã Lúcia, Documentos de Fátima, p. 219.

4. Da Terceira memória da Irmã Lúcia, Documentos de Fátima, p. 341. Veja-se também Memórias e Cartas da Irmã Lúcia (Centro de Postulação, Fatima, Portugal, 1976); do próprio punho e letra da Irmã Lúcia não há uma elipse depois do “etc.”. Veja-se também Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima - Volume I: Science and the Facts, p. 182.

5. Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima - Vol. I, pp. 180-181.

6. Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima - Vol. II : The Secret and the Church (Edição inglesa, Immaculate Heart Publications, Buffalo, New York, E.U.A. 1989), pp. 357-358.

7. O Século do dia 15 de Outubro de 1917.

8. Artigo do dia 29 de Outubro de 1917, com adições feitas para os propósitos deste livro, o que inclui continuidade e mais explicações.

9. Ilustração Portuguesa, 29 de Outubro de 1917.

10. Serviço de Estudos e Difusão (SESDI) - Santuário de Fátima, Documentação Crítica de Fátima, II - Processo Canónico Diocesano (1922-1930), p. 232.

11. Padre João M. de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, pp. 172-173.

12. Alfredo de Matos, 8 dias com os videntes da Cova da Iria, Gráfica de Leiria, 1968, p. 19.

13. Padre João M. de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 169.

14. Alfredo de Matos, 8 dias com os videntes da Cova da Iria, p. 19.

15. Padre João M. de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 177.

16. Ibid., p. 173.

17. Ibid., p. 169.

18. Alfredo de Matos, 8 dias com os videntes da Cova da Iria, p. 18.

19. Frère François de Marie des Anges, Fatima: The Astonishing Truth, p. 178.

20. Padre João de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 173.

21. John M. Haffert, Encontro de Testemunhas, Edição Portuguesa, Sede Internacional do Exército Azul, Fátima, Portugal, 1961, p. 91. Este livro foi publicado com um Imprimatur do Senhor Bispo de Leiria, e fornece-nos depoimentos directos e credíveis de numerosas testemunhas do Milagre do Sol.

22. Padre João de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 175.

23. Alfredo de Matos, 8 dias com os videntes da Cova da Iria, pp. 19-20.

24. Padre João de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 174.

25. Ibid., p. 177.

26. John M. Haffert, Encontro de testemunhas, p. 128.

27. Padre João de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 170.

28. John M. Haffert, Encontro de testemunhas, p. 85.

29. Alfredo de Matos, 8 dias com os videntes da Cova da Iria, p. 18.

30. John M. Haffert, Encontro de testemunhas, p. 91.

31. José Marques da Cruz, A Virgem de Fátima, Comp. Melhoramentos de São Paulo, 1937, p. 29.

32. John M. Haffert, Encontro de testemunhas, p. 61.

33. Ibid., p. 64.

34. Ibid., pp. 83-85.

35. Documentação Crítica de Fátima, Volume II, (Santuário de Fátima, 1999), 17 casos documentados nas pp. 277-372; e Padre João de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o Sol.

36. Padre João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, página 176. Veja-se também Documentação Critica de Fátima, Vol. I, (Santuário de Fátima, 1992) p. 408. Veja-se também Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima - Vol. I, pp. 330-331.

37. Entre as muitas obras de referência, veja-se: Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima - Vol. I: Science and the Facts; John M. Haffert, Encontro de Testemunhas; Padre João de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o Sol.

38. Encontramos a reprodução fotográfica destes três artigos em Fátima 50, do dia 13 de Outubro de 1967, pp. 6-10; 14-15.

39. Novos Documentos de Fátima, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1984, pp. 60-63.

40. O Sr. Padre Dhanis - um sacerdote Jesuita progressista que mais tarde tentaria insinuar a dúvida sobre a visão do inferno e os elementos profeticos da Mensagem, incluindo a Consagração e posterior conversão da Russia - recusou o convite da própria Irmã Lúcia para vir a Fátima e estudar os arquivos de Fátima. O Padre Dhanis será ocasionalmente mencionado por membros-chave do aparelho de Estado do Vaticano, na sua tentativa de “moldar” a Mensagem de Fátima segundo um “comentário” que o Vaticano deu a público em 26 de Junho de 2000.

Uma longa oposição começa

       Mesmo uma leitura superficial das duas primeiras partes do Grande Segredo da Mensagem de Fátima revela que se trata de um desafio do Céu aos poderes do Mundo, cujo domínio, até sobre o Portugal Católico, tinha vindo a crescer desde o início do século XX.

       Recordando o texto do Segredo, de que tratámos no primeiro capítulo, é óbvio que aquilo que o Céu nele propõe seria anátema para o regime maçónico em Portugal - como, de resto, para todas as forças organizadas contra a Igreja, que, no começo do século passado, estavam a preparar (o que elas próprias admitiram, como veremos) um ataque decisivo à cidadela católica. Os elementos básicos da Mensagem constituem uma autêntica “carta estratégica” de oposição a essas forças: livrar as almas do Inferno; estabelecer por todo o Mundo uma devoção católica ao Imaculado Coração de Maria; consagrar a Rússia a esse Imaculado Coração, com a subsequente Conversão da Rússia ao Catolicismo; alcançar a Paz para o Mundo como o fruto do Triunfo do Imaculado Coração de Maria.

       A Mensagem de Fátima é importante para a salvação das almas; isto, pelo menos, é por demais evidente. Mas, o que já não o é tanto - e é isso que enfurece os inimigos externos e internos da Igreja - é que quer a Mensagem quer a Aparição de Nossa Senhora são também muito importantes para o ordenamento correcto da sociedade humana. Se a Humanidade obedecer à Mensagem da Santíssima Virgem, alcançará a Paz - entre indivíduos, entre famílias, cidades e países, e, de facto, por todo o Mundo - na forma de uma ordem social católica. (No capítulo seguinte veremos que esta ordem social não é um sonho utópico, mas algo que já foi conseguido no século XX - em Portugal, através da sua Consagração ao Imaculado Coração de Maria em 1931). É certo que o Pecado Original continuaria a existir; mas veríamos, na história humana, um período semelhante ao que profetizou Isaías que, por inspiração divina, teve a visão de uma era em que os homens não fariam mais guerras nem aprenderiam as artes bélicas, mas transformariam as suas espadas em arados1. A tendência do homem para o pecado seria amplamente contida, e controlada pela influência benéfica da Igreja e dos Seus Sacramentos. E, ao ver o Mundo como ele está hoje, quem poderia pôr em causa com seriedade que até os piores “excessos” dos homens, dentro da ordem social católica existente na Europa antes da “Reforma”, não são nada, comparados com o mal e a violência que praticamente se institucionalizaram em todos os países do nosso tempo - a começar pelo holocausto sem fim do aborto “legalizado”?

       As implicações decorrentes apenas do texto do Grande Segredo de Fátima são suficientemente claras para qualquer pessoa com um mínimo de inteligência: um tal plano de paz mundial só pode ser levado a cabo se um número significativo de indivíduos, em todos os níveis da sociedade, cooperarem livremente. (Claro que não nos referimos aqui a alguma ditadura religiosa imposta pela força, como existe em certos estados islâmicos, mas sim a uma ordem social que brota naturalmente da comum Fé Católica do povo.) E mesmo assim, o plano só poderia resultar se se baseasse nos desígnios do Criador da humanidade, Que ungiu Jesus Cristo, Redentor da humanidade, como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apoc. 19:16). Jesus é Rei: não só dos indivíduos, mas também das sociedades e de todo o Mundo. Por isso, para que este plano da Bem-Aventurada Sempre Virgem Maria, Rainha do Céu e da terra, resulte, é preciso que toda a humanidade reconheça a Soberania de Cristo sobre ela - tal como é exercida através da Sua Igreja Católica. Que haja, na verdade, homens em número suficiente persuadidos a fazê-lo - primeiro na Rússia e depois em toda a parte - é esse, precisamente, o milagre prometido pela Santíssima Virgem se os Seus pedidos forem atendidos.

       Pode compreender-se que o príncipe deste Mundo, como Jesus Cristo chamava ao Demónio, não aceite facilmente a eventual destruição do seu reino, tão florescente aqui na terra. Do mesmo modo, este plano celestial de Paz não será aceite por aqueles homens, associações e sociedades secretas cujo poder e riquezas (conseguidos com o Mal) se perderiam, caso tal plano fosse posto em acção e se lhe seguisse a conversão da Rússia e o Triunfo do Imaculado Coração de Maria - e, portanto, o triunfo da Fé Católica.

       Se considerarmos estes antecedentes, compreenderemos melhor como surgiu - ainda ao tempo das Aparições - uma oposição feroz à Mensagem de Fátima, e por que razão continua até aos nossos dias, obtendo mesmo o apoio de homens que, dentro da Igreja, se opõem aos pedidos da Virgem.

       Por altura das aparições de Fátima, o autarca de Ourém, a sede do Concelho a que pertenciam Fátima e Aljustrel (a aldeia onde viviam os pastorinhos), era Artur de Oliveira Santos, de quem se sabia não ter Fé em Deus. Latoeiro de profissão, era popularmente conhecido pela sua alcunha, “o Latoeiro”. De instrução formal reduzida, as suas ambições eram, porém, grandes. Artur Santos era um jovem autodidacta e intrépido que se fez editor do Ouriense, um jornal local em que exprimia as suas opiniões anti-monárquicas e anti-religiosas com zelo mordaz e algum talento. Aos 26 anos aderiu à loja maçónica de Leiria, filiada no Grande Oriente.

       Como sublinhou William Thomas Walsh, grande historiador católico, Artur Santos adoptara as doutrinas esotéricas de uma religião sincretista e naturalista que tinha sido a principal inimiga da Igreja Católica nos tempos modernos, e que já se gabara de ter dado um grande passo para a eliminação do Cristianismo na Península Ibérica, ao planear e executar a revolução republicana de 1910. Como Walsh nos informa, Magalhães Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente, predissera em 1911 que, dentro de alguns anos, não haveria em Portugal quem quisesse estudar para o Sacerdócio; e o ilustre maçom português Afonso Costa assegurou aos seus irmãos e a alguns delegados das lojas francesas que, dentro de uma geração, acabaria o Catolicismo, «a causa principal da triste situação a que chegou o nosso País». De facto, havia muitos indícios a apoiar este prognóstico - embora não apoiassem uma tal acusação.

       O Professor Walsh acrescenta que, em 1911, os novos donos de Portugal se tinham apoderado dos bens imóveis da Igreja, bem como dispersado, prendido e exilado centenas de Padres e Freiras, dando ao Cardeal Patriarca de Lisboa cinco dias para deixar a cidade e não voltar. Padres e Religiosos refugiaram-se em França e noutros países. Alguns deles foram a Lourdes pedir à Mãe de Deus que ajudasse o seu pobre País, que já se chamara, com orgulho, “Terra de Santa Maria” e que estava reduzido a um cenário de impiedade e anarquia, com uma revolução todos os meses.

       Artur Santos fundou uma nova loja maçónica em Vila Nova de Ourém, para onde mudara a sua oficina de latoeiro, e em 1917 tinha ascendido ao cargo maçónico de Venerável. Graças aos amigos que arranjara na Maçonaria, fez-se eleger Presidente da Câmara de Ourém, cargo que lhe punha nas mãos a administração do Concelho e lhe dava poderes de Juiz suplente do Comércio. Com todas estas honras e a autoridade que lhes pertencia, o Senhor Santos era o homem mais temido e influente no seu recanto de Portugal.

       Durante o seu mandato, cada vez menos pessoas iam à Missa e recebiam os Sacramentos, havia mais divórcios e a natalidade diminuiu. Quando mandou prender seis Padres e os manteve oito dias incomunicáveis, os principais Católicos do Concelho e da Câmara estavam tão preocupados em criar para si compromissos que lhes fossem vantajosos que nem encontraram tempo para erguerem a sua voz em protesto, não admirando, portanto, que não tivessem sido ouvidos. Para ‘o Latoeiro’ e os seus amigos, a luta em prol do “progresso e ilustração” - como insistiam em descrever o seu conflito com a Igreja Católica - estava quase ganha2.

       Em Agosto de 1917, já todo o País sabia da história das Aparições de Fátima, embora segundo diferentes versões: os jornalistas da imprensa anti-religiosa, por exemplo, compraziam-se em escrever notícias cómicas. Como recordou o Padre De Marchi ao referir-se a esta imprensa: diziam eles que «estas crianças eram manobradas pelos Jesuítas. Não o eram pelos Jesuítas? Então, pelo Clero em geral, ou pelo Papa em particular - atraindo gente ignorante e incauta à Cova da Iria, para lhes ficar com o dinheiro. Não tinham dinheiro? Então era para lhes mudarem as ideias políticas, de modo a que o tecido humano da República ilustrada pudesse ser sabotado, para benefício de Roma e da Reacção. A imprensa gostava destes alegres passeios. Os maçons estavam deliciados»3. Todos os leais apoiantes da nova ordem vigente achavam a situação cada vez mais divertida.

       Mas Artur Santos, o autarca de Ourém, não lhe achava assim tanta graça, porque via uma manifestação aberta de religião surgir no seu próprio território. Alguns dos seus constituintes já acreditavam que Nossa Senhora aparecia em Fátima, e ele não sabia o que havia de dizer aos seus colegas da política se esta manifestação religiosa do Catolicismo, contrária às suas esperanças de criação de uma República ateia, continuasse a florescer no seu Concelho. E assim, decidiu fazer baixar o forte braço da Lei sobre os três pastorinhos.

       Em 11 de Agosto de 1917, o Administrador de Vila Nova de Ourém mandou aos pais das crianças que as entregassem na Câmara Municipal, para serem julgadas. Mas o Ti Marto, pai da Jacinta e do Francisco, disse: «“Que vão lá fazer umas crianças daquela idade?!” (…) “Demais, (…) são três léguas (…) e os pequenos a pé não aguentam o caminho e a cavalo não se seguram na burra, porque não estão habituados.” “Ná… Vou eu e respondo por elas!”»4. A sua mulher, a Ti Olímpia, concordou. Mas, por outro lado, tanto o Ti António, pai da Lúcia, como a mulher, a Ti Maria Rosa, concordavam que, se a Lúcia estivesse a mentir, era bom que lhe dessem uma lição; e se estivesse a dizer a verdade - do que eles duvidavam - então Nossa Senhora protegê-la-ia. O Ti António sentou a filha em cima da burra (caiu três vezes pelo caminho) e partiu de jornada para verem o Administrador. O Ti Marto deixou os filhos em casa e foi sozinho, para explicar as suas razões. Antes da partida, a Jacinta disse à Lúcia: «Se eles te matarem diz-lhes que eu mais o Francisco somos como tu e também queremos morrer5. E agora vou ao poço com o Francisco, para rezar muito por ti».

       O Administrador perguntou a Lúcia se tinha visto uma Senhora na Cova da Iria, e quem pensava ela que era. Exigiu-lhe que lhe contasse o segredo que Nossa Senhora confiara aos pastorinhos, e que lhe prometesse que não tornava a voltar à Cova da Iria. A Lúcia recusou-se a contar-lhe o segredo e a fazer tal promessa. (Nossa Senhora pedira aos pastorinhos que voltassem à Cova da Iria no dia 13 de cada mês, e eles prometeram lá ir, no dia e na hora marcados, durante as próximas três visitas). Por fim, o Administrador perguntou ao Ti António se o povo de Fátima acreditava naquela história, ao que ele respondeu: «Não, senhor, tudo isso são histórias de mulheres».

       «E tu, o que dizes?», perguntou o Administrador ao Ti Marto. «Aqui estou ao seu dispor» - respondeu ele - «e os meus filhos dizem as mesmas coisas que eu». «Acha então que é verdade?» «Sim, senhor, acredito no que eles dizem!»6.

       Os presentes riram-se. O Administrador fez um gesto de quem terminou a conversa, e um dos seus homens disse-lhes que se fossem embora. O autarca acompanhou-os à porta e «foi sempre ameaçando a Lúcia que lhe havia de apanhar o segredo, nem que tivesse de a mandar matar»7. Depois disto, a Lúcia, o pai e o Ti Marto regressaram a Aljustrel.

       Ao fim da tarde de 12 de Agosto, três guardas chamaram os pastorinhos a casa do Ti Marto, onde o Administrador os esperava em pessoa. Disse-lhes ele que poderiam ser condenados a morrer, se não contassem o Grande Segredo que tinham recebido a 13 de Julho. Os pastorinhos recusaram-se a fazê-lo, dizendo que não podiam desobedecer a Nossa Senhora. «Não interessa.» - sussurrou a Jacinta aos outros - «Se nos matarem, é o mesmo, vamos direitinhos para o Céu. Que bom!»8.

       Na manhã de 13 de Agosto, estava o Ti Marto a trabalhar no campo e veio a casa lavar as mãos. À volta da casa estava uma multidão, que tinha vindo para assistir à aparição que naquele dia devia acontecer na Cova da Iria. A Ti Olímpia, arreliada, apontou para a sala de estar. Ti Marto entrou e, como lemos no relato que fez ao Padre De Marchi: «(…) entrei na sala e dou com os olhos no Administrador. Até nessa ocasião me portei mal por um certo motivo, porque estava lá um Sr. Padre e eu, em vez de cumprimentar este primeiro, cumprimentei o outro.» Depois, disse ao Administrador: «Então por cá, Sr. Administrador?»9.

       Então ele disse que vinha para levar os pequenos à Cova da Iria na sua carroça, e acrescentou que assim teriam tempo de falar com o Pároco de Fátima que, segundo disse, os queria interrogar. Tanto os pastorinhos como os pais desconfiavam daquela ideia de irem com ele na carroça, mas obedeceram. O autarca levou-os primeiro ao Pároco de Fátima, e depois, em vez de os levar à Cova da Iria, viram-no chicotear o cavalo e fazer virar a carroça na direcção oposta. Levou-os para a casa que tinha em Ourém, e fechou-os numa sala.

       Havia cerca de quinze mil pessoas na Cova da Iria, e todos queriam saber onde estavam os pastorinhos. Na altura em que Nossa Senhora havia de aparecer, deram-se várias manifestações sobrenaturais que as multidões já tinham notado durante as aparições anteriores em Fátima, o que convenceu muita gente, mesmo descrentes, de que a Senhora tinha chegado. Mas os pastorinhos não estavam lá para receberem a Sua mensagem. Chegou então gente com a notícia de que o Administrador de Vila Nova de Ourém tinha raptado as crianças e as tinha levado - primeiro, ao Pároco de Fátima; e depois, para a sua própria casa em Ourém. A multidão concluiu (apressadamente) que os dois tinham conspirado para levar a cabo o rapto que, segundo entendiam, tinha “estragado a aparição e desapontado a Mãe de Deus”. Levantaram-se vozes iradas contra o Administrador e o Pároco. Mas o Ti Marto convenceu a multidão a não se vingar: «Sossegai, rapazes, não se faça mal a ninguém. Quem merece o castigo receberá. Tudo isto é pelo poder do Alto!»10.

       Na manhã seguinte, o Administrador de Ourém interrogou de novo os pastorinhos, que voltaram a dizer que tinham visto uma linda Senhora e que se recusaram de novo a contar-lhe o Segredo, apesar de ele os ter ameaçado com prisão perpétua, tortura e morte. O Administrador estava decidido a obter das crianças qualquer tipo de confissão que pudesse acabar com a manifestação religiosa que se desenrolava no seu Concelho. E assim, mandou-os para a cadeia da vila, encerrando-os numa cela escura e fétida, com grades de ferro: era a cela comum, onde se encontrava a maior parte dos presos. Os pastorinhos estavam assustados e tristes, em especial a Jacinta, que tinha apenas sete anos e que pensava que não voltaria a ver os pais. Mas eles animavam-se uns aos outros, lembrando-se do que Nossa Senhora lhes tinha dito acerca do Céu, e ofereceram os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores. Os pastorinhos rezaram o Terço na cadeia, e os presos associaram-se às suas orações.

       Dali a algum tempo, o Administrador mandou um guarda trazê-los à sua presença, e exigiu-lhes pela última vez que lhe contassem o Segredo. Então, como eles continuassem a recusar revelá-lo, o Administrador disse-lhes que os ia fritar vivos em azeite. Gritou uma ordem, e um guarda abriu a porta. Perguntou ao guarda se o azeite já estava quente, ao que ele respondeu que sim. Então, ordenou ao guarda que atirasse primeiro a mais pequenina - a Jacinta - para dentro do azeite a ferver. O guarda agarrou na pequenita e levou-a. Um outro guarda, que viu o Francisco mexer os lábios em silêncio, perguntou-lhe: «Que estás tu a dizer?» «Estou a rezar uma Ave Maria» - respondeu o Francisco - «para que a Jacinta não tenha medo»11. Tanto a Lúcia como o Francisco estavam convencidos de que o guarda voltaria depressa para os matar também. E disse o Francisco à Lúcia: «Se nos matarem, como dizem, daqui a nada estamos no Céu. Oh! que felicidade! Não importa mais coisa nenhuma!…»12.

       Mais tarde, o guarda voltou à sala onde os pastorinhos estavam a ser interrogados pelo Administrador, e informou a Lúcia e o Francisco de que a Jacinta já tinha sido frita em azeite por não querer revelar o Segredo. O Administrador ainda tentou persuadi-los a revelarem o Segredo - senão, acontecer-lhes-ia a mesma coisa. Como não o quisessem fazer, o Francisco foi levado para sofrer o mesmo destino. Algum tempo depois, o guarda voltou para buscar a Lúcia. Apesar de ela acreditar que o Francisco e a Jacinta tinham sido mortos por não revelarem o Segredo, também ela preferia morrer a revelar o Segredo que a Santíssima Virgem lhe tinha confiado. Por isso, foi também levada pelo guarda - para o que ela pensava ser a morte certa.

       O que na realidade acontecera foi ter a Jacinta sido levada para outra sala e, ao chegar a sua vez de serem “fritos em azeite”, o Francisco e a Lúcia foram levados para a mesma sala, onde ficaram os três juntos de novo. Afinal, tudo não passara de um truque para os assustar, de modo a revelarem o Segredo. Ao recordar este incidente nas suas Memórias, conta-nos Lúcia que tanto ela como os primos estavam convencidos de que iam ser martirizados às mãos do Administrador.

       Na manhã seguinte, e apesar de novo interrogatório, o Administrador continuava sem conseguir levá-los a revelar o Segredo. Por fim, convenceu-se de que não valia a pena continuar, e deu ordem para os levarem a Fátima. Era o dia 15 de Agosto, a Festa da Assunção de Nossa Senhora.

       Este facto - de o Administrador maçónico de Ourém ter chegado ao ponto de ameaçar três criancinhas com uma morte horrível, para impedir que o povo acreditasse e manifestasse abertamente a sua Fé em Deus, na Sua Mãe Santíssima e na Igreja Católica - dá-nos uma ideia dos métodos extremos que a Maçonaria estava pronta a usar para destruir, de uma vez por todas, a Igreja e para estabelecer em seu lugar uma República sem Deus - não só em Portugal, mas em todo o Mundo.


Notas

1. «E Ele julgará as nações, e convencerá do erro a muitos povos; os quais das suas espadas forjarão relhas de arados, e das suas lanças foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem daí por diante se adestrarão mais para a guerra» (Is. 2:4). E também: «e eles converterão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças em enxadões; um povo não tirará mais a espada contra um povo; e não aprenderão mais a pelejar» (Miqueias 4:3).

2. William Thomas Walsh, Our Lady of Fatima (Image-Doubleday, New York, Imprimatur 1947), pp. 95-97.

3. Padre João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 98.

4. Ibid.

5. Ibid., p. 99.

6. Ibid., p. 104.

7. Ibid., p. 102.

8. Ibid., p. 106.

9. Ibid., p. 112.

10. Ibid.

11. Ibid.

12. Ibid.


O plano de paz do Céu em microcosmo

       As mentes “iluminadas” do “Mundo moderno” troçam da ideia de que uma simples cerimónia pública de Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria pode levar à conversão daquele país, com enormes benefícios para todo o Mundo, incluindo a Paz entre as nações. Essa atitude não é para admirar, porque o “Mundo moderno” troça dos milagres em geral, assim como da Inspiração Divina da Igreja, cujos santos fizeram milagres em abundância.

       Mas a Consagração da Rússia foi precisamente o que Deus ordenou, na mensagem que Ele autenticou com o Milagre do Sol de 13 de Outubro de 1917 - uma mensagem que, tornamos a sublinhar, teve a aprovação das maiores autoridades da Igreja Católica incluindo uma série de Papas, desde a época das aparições em Fátima. Como veremos, em 2002 o Papa actualmente reinante chegou a decretar que a Festa de Nossa Senhora de Fátima fosse incluída no calendário universal eclesiástico das festividades litúrgicas, para inclusão na Terceira Edição Típica do Missal Romano. Assim, o Magistério validou formalmente a autenticidade das aparições.

       Recorde-se que, na Mensagem de 13 de Julho de 1917, Nossa Senhora prometeu a Lúcia: «Virei pedir a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados». Fiel à Sua palavra, a Santíssima Virgem apareceu de novo a Lúcia em 13 de Junho de 1929 em Tuy (Espanha), onde Lúcia - agora Irmã Lúcia dos Santos, Freira Doroteia (só foi Carmelita a partir de 1948) - estava em oração na capela conventual durante a Hora Santa de Adoração e Reparação. Mesmo nos anais das aparições celestes autenticadas aos santos da Igreja Católica, esta foi extraordinária.

       Deixemos que a Irmã Lúcia nos conte a aparição, nas suas palavras simples mas bem vívidas - e recordemos que estamos perante uma aparição que a Igreja, incluindo o Papa actualmente reinante, declarou ser digna de crédito:

       Eu tinha pedido e obtido licença das minhas Superioras e Confessor para fazer a Hora Santa das 11 à meia-noite, de quintas para sextas-feiras. Estando uma noite só, ajoelhei-me entre a balaustrada, no meio da capela, a rezar, prostrada, as Orações do Anjo. Sentindo-me cansada, ergui-me e continuei a rezá-las com os braços em cruz.

       A única luz era a da lâmpada. De repente iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara via-se, na parte superior da Cruz, uma face de Homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na Cruz, o corpo de outro Homem.

       Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um Cálix e uma Hóstia grande, sobre a Qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e de uma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do Cálix. Sob o braço direito da Cruz estava Nossa Senhora (era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração na mão) (…) Sob o braço esquerdo [da Cruz], umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: «Graça e Misericórdia».

       Compreendi que me era mostrado o mistério da Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é permitido revelar1.

       Frère Michel chamou correctamente a esta aparição “a Teofania Trinitária”. Tal como o Milagre do Sol, não há nada semelhante na história do Mundo. Deus mostrou assim a importância singular do que Nossa Senhora ia dizer à Irmã Lúcia:

       É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio.

       Era um pedido do próprio Deus. A Irmã Lúcia estivera na presença, não apenas da Mãe de Deus, mas da Santíssima Trindade. Como era natural, a Irmã Lúcia transmitiu imediatamente o pedido divino ao seu confessor, o Padre Gonçalves, como se vê pela correspondência entre os dois já publicada2.

       E durante, pelo menos, os setenta anos que se seguiram, a Irmã Lúcia - a mesma Lúcia que não quis negar a verdade, embora fosse ameaçada com uma morte horrível pelo Administrador maçónico de Ourém - deu o mesmo testemunho: Nossa Senhora, como mensageira de Deus, pediu a Consagração pública da Rússia, numa cerimónia a ser feita conjuntamente pelo Papa e por todos os Bispos do Mundo. Como referimos no Prefácio e na Introdução, o esforço persistente de certas pessoas para alterar o seu testemunho, por respeito humano (para evitar ofender os russos) e para servir uma nova orientação da Igreja, é o ponto crucial da grande controvérsia de Fátima que persiste até aos nossos dias e que motivou este livro. Voltaremos a este assunto na devida altura.

       Como para demonstrar a eficácia da Consagração que a Santíssima Virgem pedira, Deus houve por bem permitir a realização em Portugal do que se pode dizer que era um projecto esclarecedor. No aniversário da primeira aparição em Fátima, em 13 de Maio de 1931, e na presença de 300.000 fiéis que se deslocaram propositadamente a Fátima, os Bispos portugueses consagraram solenemente a sua nação ao Imaculado Coração de Maria. Estes bons Prelados colocaram Portugal sob a protecção de Nossa Senhora, para que Ela protegesse esta nação do contágio das ideias comunistas que estavam a espalhar-se por toda a Europa, e especialmente na vizinha Espanha. De facto, a profecia da Santíssima Virgem de que a Rússia espalharia os seus erros pelo Mundo já estava a cumprir-se com inexorável exactidão. E quem, em Julho de 1917, poderia ter previsto o aparecimento do comunismo mundial a partir da Rússia - meses antes da revolução bolchevista e da subida ao poder de Lénin? Só o Céu podia tê-lo previsto; só a Mãe de Deus, informada pelo Seu Divino Filho.

       Em resultado desta Consagração de 1931, Portugal experimentou um tríplice milagre, de que aqui daremos apenas os pormenores essenciais.

       Em primeiro lugar, houve uma magnífica Renascença Católica, uma grande renovação da vida católica, tão espantosa que todos os que a viveram atribuíram-na sem hesitar à intervenção de Deus. Durante este período, Portugal gozou de um aumento drástico de vocações sacerdotais. O número de Religiosos quase quadruplicou em 10 anos. As comunidades religiosas prosperaram também. Houve uma vasta renovação da vida cristã que se fez notar em diversas áreas, incluindo o desenvolvimento de uma imprensa católica, rádio católica, peregrinações, retiros espirituais, e um robusto movimento da Acção Católica que foi integrado nas estruturas da vida diocesana e paroquial.

       Esta Renascença Católica foi de tal amplitude que, em 1942, os Bispos portugueses declararam numa Carta Pastoral Colectiva: “Se alguem tivesse fechado os olhos há vinte e cinco anos e os abrisse agora, já não reconheceria Portugal, tão vasta foi a transformação feita pelo factor modesto e invisível da aparição da Santíssima Virgem em Fátima. Nossa Senhora quer realmente salvar Portugal”3.

       Houve também um milagre de reforma política e social, segundo os princípios sociais católicos. A seguir à Consagração de 1931, subiu à Presidência do Conselho em Portugal um líder católico, António de Oliveira Salazar, que pôs em acção um programa católico e contra-revolucionário. Esforçou-se por criar, tanto quanto possível, uma ordem social católica em que as leis da governação e as instituições sociais se harmonizassem com a lei de Cristo, do Seu Evangelho e da Sua Igreja4. Adversário convicto do socialismo e do liberalismo, Salazar opunha-se a “tudo quanto diminui ou dissolve a família”5.

       Salazar, o Presidente do Conselho, não se limitava a falar bem; legislou no sentido de proteger a família, incluindo leis que desaprovavam o divórcio. Citamos o Artigo 24 de uma delas: “De harmonia com as propriedades essenciais do matrimónio católico, subentende-se que, pelo próprio facto de se celebrar um matrimónio canónico, os cônjuges renunciam ao direito legal de requerer divórcio”6. O efeito desta lei foi que os casamentos católicos não diminuíram em número; antes pelo contrário. Assim, em 1960 - um ano muito crítico, como veremos - quase 91% dos casamentos realizados no país eram canónicos.

       Além destas espantosas mudanças religiosas e políticas, deu-se um duplo milagre de Paz: Portugal foi poupado ao terror comunista, especialmente durante a Guerra Civil que crucificava a Espanha. Portugal foi também poupado às devastações da 2ª Guerra Mundial.

       A respeito da Guerra Civil de Espanha, os Bispos portugueses fizeram voto, em 1936, de exprimirem a sua gratidão a Nossa Senhora, se esta protegesse Portugal, renovando a Consagração Nacional ao Imaculado Coração de Maria. Cumprindo o seu voto, renovaram a Consagração em 13 de Maio de 1938, em acção de graças pela protecção de Nossa Senhora. Como o Cardeal Cerejeira reconheceu publicamente: «Desde que Nossa Senhora de Fátima apareceu em 1917 (…) desceu sobre a terra de Portugal uma bênção especial de Deus (…) se nos recordarmos dos dois anos que passaram desde a nossa promessa, não podemos deixar de reconhecer que a mão invisível de Deus protegeu Portugal, poupando-o ao flagelo da guerra e à lepra do comunismo ateu».

       Até o Papa Pio XII exprimiu o seu espanto por Portugal ter sido poupado aos horrores da Guerra Civil Espanhola e à ameaça comunista. Numa alocução ao povo português, o Papa falou do «perigo vermelho, tão ameaçador e tão próximo de vós, e apesar disso evitado de maneira tão inesperada»7.

       Os portugueses passaram incólumes este primeiro perigo, mas logo a seguir viram-se de caras com outro: a Segunda Guerra Mundial estava a começar. Em cumprimento de mais outra profecia da Santíssima Virgem a 13 de Julho de 1917, a guerra começaria «no reinado de Pio XI», anunciada por «uma noite alumiada por uma luz desconhecida (…)»

       Em 6 de Fevereiro de 1939, sete meses antes da declaração de guerra, a Irmã Lúcia escreveu ao seu Bispo, D. José Correia da Silva, avisando-o de que a guerra estava iminente - mas acrescentando em seguida uma promessa maravilhosa. Escreveu ela que «nesta guerra horrível, Portugal seria poupado devido à consagração nacional ao Imaculado Coração de Maria feita pelos Bispos»8.

       E Portugal foi, de facto, poupado aos horrores da guerra, cujos pormenores são demasiado numerosos para aqui serem relembrados9. E - o que ainda é mais notável - a Irmã Lúcia escreveu ao Papa Pio XII em 2 de Dezembro de 1940, para lhe dizer que Portugal estava a receber uma protecção especial durante a guerra - e que outros países a teriam igualmente recebido, se os seus Bispos os tivessem consagrado ao Imaculado Coração de Maria. Escreveu ela: «Santíssimo Padre, (...) Nosso Senhor promete, em atenção à consagração que os Ex.mos Prelados portugueses fizeram da nação ao Imaculado Coração de Maria, uma protecção especial à nossa Pátria, durante esta guerra; e que esta protecção será a prova das graças que concederia às outras nações, se, como ela Lhe tivessem sido consagradas»10.

       Do mesmo modo, o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira não teve a menor dúvida em atribuir a Nossa Senhora de Fátima as grandes graças que Ela obtivera para Portugal durante esses tempos. E declarou, em 13 de Maio de 1942: «Para exprimir o que se tem passado aqui nos últimos vinte e cinco anos, o vocabulário português só tem uma palavra: milagre. Sim, estamos convencidos de que devemos a maravilhosa transformação de Portugal à protecção da Santíssima Virgem»11.

       O Cardeal Cerejeira afirmava aquilo que nós afirmamos nesta obra: que as bênçãos miraculosas que Nossa Senhora obteve para Portugal como recompensa do Céu pela Consagração do País, em 1931, eram apenas uma amostra do que Ela fará por todo o Mundo, logo que a Rússia seja também devidamente Consagrada ao Seu Imaculado Coração12. Nas palavras do Cardeal Cerejeira:

       O que se tem passado em Portugal proclama o milagre. E prefigura o que o Imaculado Coração de Maria preparou para o Mundo13.

       Não é difícil compreender a razão para Portugal ser chamado nesta altura a “Demonstração de Nossa Senhora”. E o triplo milagre de Portugal é só uma amostra de como ficarão a Rússia e o Mundo depois da Consagração Colegial daquele país. O exemplo miraculoso de Portugal também nos ajuda a compreender o presente. Se contrastarmos o tríplice milagre de Portugal com a situação actual da Rússia e do Mundo, torna-se evidente que a Consagração da Rússia ainda está por fazer. (Voltaremos a este assunto noutro capítulo).

       A actuação de homens com posições de chefia na Igreja no sentido de impedirem a Consagração da Rússia - negando assim à Igreja e ao Mundo a recompensa celestial que a intercessão da Virgem Maria obteve para Portugal - não é só uma loucura monumental; é também um crime incalculável. E é este crime que motivou a publicação deste livro.


Notas

1. Frère Michel de la Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima, Vol. II, pp. 463-464.

2. As palavras da Irmã Lúcia foram citadas por Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II: The Secret and the Church, pp. 462-465. Cf. também as Memórias e cartas da Irmã Lúcia, editadas pelo Padre António Maria Martins (Porto, 1973), pp. 463-465.

3. Carta Pastoral Colectiva para o Jubileu das Aparições em 1942, Merv. XX's, p. 338; cit. por Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 410. (Tradução nossa.)

4. A influência de Salazar no Governo português tinha aumentado desde 1928. Ascendeu a Presidente do Conselho em 1933. Mais tarde, Salazar recebeu, em homenagem à sua actuação, um louvor e a bênção do Papa Pio XII, que disse: «Abençoo-o de todo o meu coração, e acalento o desejo ardentíssimo de que possa completar com sucesso o seu trabalho de restauração nacional, tanto espiritual como material» (cit. por Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 412).

5. Ibid., p. 415 (as próprias palavras de Salazar).

6. Ibid., p. 421.

7. Ibid., p. 422.

8. Ibid., p. 428.

9. Cf. Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, pp. 369-439.

10. Ibid., p. 428. Cf. Novos Documentos de Fátima (editado pelo Padre António Maria Martins, S.J., Livraria A.I., Porto 1984) p. 248.

11. Ibid., p. 405. O Cardeal Cerejeira disse estas palavras durante a celebração do jubileu das aparições de Fátima, ocorrida em 1942.

12. Acreditamos na palavra de um crente em Fátima, como o Cardeal Cerejeira, de preferência a um céptico como o Cardeal Ratzinger (cf. mais adiante).

13. Cardeal Cerejeira, prefácio a Jacinta (1942), Obras pastorais, Vol. II, p. 333. Cf. também a sua homilia de 13 de Maio de 1942, Merv. XX's, p. 339. Citado a partir de Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 437.

Capítulo 4

 

O Terceiro Segredo

       Precisamente como a Virgem Maria predisse em 1917, a 2ª Guerra Mundial começou no pontificado de Pio XI, na altura em que Josef Stálin estava a liquidar os Católicos e a exportar o comunismo mundial a partir da Rússia Soviética. Em Junho de 1943, a Irmã Lúcia, já com 36 anos de idade, adoeceu com pleurisia. Este facto alarmou muito o Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, e o seu grande amigo e conselheiro Cónego Galamba. Ambos receavam que a Irmã Lúcia morresse sem escrever o Terceiro Segredo.

Tão terrível que nem conseguia escrevê-lo

       Assim, sugeriram-lhe em Setembro de 1943 que o escrevesse, mas ela escusou-se a fazê-lo porque não queria assumir por si própria a responsabilidade de uma tal iniciativa. Disse, porém, que obedeceria a uma ordem expressa do Bispo de Leiria. A Irmã Lúcia estava extremamente preocupada com o facto de, sem esta autorização, não ter ainda licença de Nosso Senhor para revelar o Terceiro Segredo.

       Em meados de Outubro de 1943, durante uma visita à Irmã Lúcia no Convento de Tuy, em Espanha (a cerca de 400 quilómetros de Fátima e não longe da fronteira portuguesa), D. José Alves Correia da Silva deu-lhe uma ordem formal para escrever o Segredo. A Irmã Lúcia tentou então obedecer à ordem do Bispo, mas foi incapaz de o fazer nos dois meses e meio que se seguiram.

A própria Virgem Santíssima autoriza
a Irmã Lúcia a revelar o Segredo

       Finalmente, a Santíssima Virgem Maria apareceu de novo a Lúcia em 2 de Janeiro de 1944, para lhe dar forças e lhe confirmar que era realmente da vontade de Deus que ela revelasse a parte final do Segredo. Só então conseguiu a Irmã Lúcia superar a sua perturbação e escrever o Terceiro Segredo de Fátima1. Mas, mesmo assim, só em 9 de Janeiro de 1944 escreveu a seguinte nota ao Bispo D. José Alves Correia da Silva, informando-o de que o Segredo tinha sido finalmente escrito:

       Já escrevi o que me mandou; Deus quis provar-me um pouco [,] mas afinal era essa a sua vontade: Está lacrada [a parte que me falta do segredo] dentro dum envelope e este dentro dos cadernos (…)2.

Uma só folha de papel

       Depreende-se imediatamente que o Segredo implicava dois documentos: um, fechado num envelope; e o outro, contido num caderno de apontamentos da Irmã Lúcia (não sendo assim, por que razão teria ela entregado o caderno, além do envelope?). Para já, concentremo-nos no que estava contido no envelope fechado.

       Lúcia estava ainda tão perturbada com o conteúdo do Segredo que não confiava a ninguém o envelope fechado (juntamente com o caderno de apontamentos), a não ser a um Bispo que o levasse a D. José Alves Correia da Silva. Em 17 de Junho de 1944, a Irmã Lúcia deixou Tuy, atravessou o Rio Minho e chegou ao Asilo Fonseca, onde entregou ao Arcebispo titular de Gurza, D. Manuel Maria Ferreira da Silva, o caderno em que tinha inserido o envelope com o Terceiro Segredo. No mesmo dia, o Arcebispo entregou o Segredo ao Bispo de Leiria na sua casa de campo, não longe de Braga; e este levou-o para o Paço Episcopal em Leiria. Estes pormenores são muito importantes, em vista do que se lê no comentário ao Terceiro Segredo que o Vaticano publicou em 26 de Junho de 2000.

       Desde o início que o testemunho unânime era que o Terceiro Segredo estava escrito em forma de carta, numa só folha de papel. O Padre Joaquín Alonso, arquivista oficial da documentação sobre as aparições de Fátima, relata que tanto a Irmã Lúcia como o Cardeal Ottaviani afirmaram que o Segredo estava escrito numa só folha de papel:

       A Lúcia diz-nos que o escreveu numa folha de papel. O Cardeal Ottaviani, que o leu, diz-nos a mesma coisa: “Ela escreveu-o numa folha de papel” (…)3.

       O Cardeal Ottaviani, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, declarou que lera o Terceiro Segredo e que este estava escrito numa só folha de papel. Testemunhou este facto em 11 de Fevereiro de 1967, numa conferência de imprensa por ocasião de uma reunião da Academia Pontifícia Mariana em Roma. Disse o Cardeal:

       E então, o que fez ela [a Lúcia] para obedecer à Santíssima Virgem? Escreveu numa folha de papel, em português, o que a Santa Virgem lhe pedira que dissesse (…)4.

       O Cardeal Ottaviani é testemunha deste facto. Na mesma conferência de imprensa, disse:

       Eu, que tive a graça e o dom de ler o texto do Segredo - embora também esteja obrigado a mantê-lo secreto, por tal me ser imposto pelo Segredo (...)5.

       Temos igualmente o testemunho de D. João Venâncio, na altura Bispo Auxiliar de Leiria-Fátima, que, em meados de Março de 1957, tinha ordens do Bispo D. José Alves Correia da Silva para entregar cópias de todos os escritos da Irmã Lúcia - incluindo o original do Terceiro Segredo - ao Núncio Apostólico em Lisboa, para este os transferir para Roma. Antes de entregar os escritos da Irmã Lúcia ao Núncio, D. João Venâncio pegou no envelope com o Terceiro Segredo, olhou para ele a contra-luz e reparou que o Segredo estava «escrito numa pequena folha de papel»6. Frère Michel identifica em primeiro lugar a natureza deste testemunho:

       Todavia, graças às revelações do Bispo [D. João] Venâncio, na altura Bispo Auxiliar de Leiria e intimamente envolvido nestes acontecimentos, estamos hoje na posse de muitos factos fidedignos que nós teremos cuidado em não esquecer. Eu próprio os recebi da boca do Bispo [D. João] Venâncio em 13 de Fevereiro de 1984, em Fátima. A este propósito, o antigo Bispo de Fátima repetiu-me, quase palavra por palavra, o que já dissera antes ao Padre Caillon, que disso deu um relato muito pormenorizado nas suas conferências7.

       Aqui está o testemunho de D. João Venâncio, segundo Frère Michel:

       O Bispo [D. João] Venâncio contou que, logo que se viu sòzinho, pegou no envelope grande do Segredo e tentou ver o seu conteúdo à transparência. Dentro do envelope grande do Bispo vislumbrou um envelope mais pequeno, o da Lúcia, e dentro deste envelope uma folha de papel vulgar, com margens, de cada lado, de uns 7,5 milímetros. Teve o cuidado de anotar o tamanho de tudo. Logo, o último Segredo de Fátima foi escrito numa pequena folha de papel8. [ênfase acrescentada].

       Os indícios mostram ainda que esta folha de papel tinha de 20 a 25 linhas de texto. Os testemunhos da Irmã Lúcia, do Cardeal Ottaviani, do Bispo D. João Venâncio, do Padre Alonso, de Frère Michel e de Frère François concordam todos sobre este ponto:

       (…) temos a mesma certeza de que as vinte ou trinta linhas do Terceiro Segredo (…)9.

       O último Segredo de Fátima, escrito numa pequena folha de papel, não é, portanto, muito longo. Provavelmente vinte ou vinte e cinco linhas (…)10.

       D. João Venâncio olhou “para o envelope [contendo o Terceiro Segredo] que segurava contra a luz. Pôde ver dentro dele uma pequena folha, cujo tamanho exacto mediu. Sabemos, assim, que o Terceiro Segredo não é muito longo, provavelmente 20 a 25 linhas (…)”11.

Escrito em forma de carta

       É igualmente claro que o Terceiro Segredo foi escrito em forma de uma carta ao Bispo D. José Alves Correia da Silva. A própria Irmã Lúcia diz-nos que o Terceiro Segredo foi escrito como uma carta. Temos, sobre este ponto, o depoimento escrito do Padre Jongen, que interrogou a Irmã Lúcia em 3 e 4 de Fevereiro de 1946 desta maneira:

       ‘Já revelou duas partes do Segredo. Quando chegará a altura da terceira parte?’ ‘Comuniquei a terceira parte numa carta ao Bispo de Leiria’, respondeu ela12. [ênfase acrescentada]

       Temos em seguida as palavras decisivas do Cónego Galamba:

       Quando o Bispo se recusou a abrir a carta, Lúcia fê-lo prometer que esta seria definitivamente aberta e lida ao Mundo ou por altura da sua morte, ou em 1960, conforme o que sucedesse primeiro13. [ênfase acrescentada]

Para ser revelado ao Mundo em 1960

       Porquê 1960? Em 1955, o Cardeal Ottaviani perguntou à Irmã Lúcia por que razão a carta não devia ser aberta antes de 1960. Respondeu-lhe ela: «porque então parecerá mais claro». Tinha feito com que o Bispo de Leiria prometesse que o Segredo seria lido ao Mundo aquando da sua morte, mas nunca mais tarde que 1960, «porque a Santíssima Virgem assim o quer»14. E escreveu o Cónego Barthas: «Além disso, [o Terceiro Segredo] não tardará a ser conhecido, porque a Irmã Lúcia afirma que é o desejo de Nossa Senhora que ele seja publicado a partir de 1960».

       Este depoimento introduz um terceiro facto crucial a respeito do Segredo: que devia ser revelado em 1960. De facto, o Cardeal Patriarca de Lisboa declarou em Fevereiro de 1960:

       O Bispo D. José Alves Correia da Silva meteu [o envelope fechado por Lúcia] noutro envelope, no qual escreveu que a carta devia ser aberta em 1960 por ele, D. José Alves Correia da Silva, se ainda fosse vivo, ou, em caso contrário, pelo Cardeal Patriarca de Lisboa15. [ênfase acrescentada]

       Diz-nos o Padre Alonso:

       Outros Bispos também falaram - e com autoridade - sobre o ano de 1960 como sendo a data indicada para abrir a famosa carta. Assim, quando o então Bispo titular de Tiava e Bispo Auxiliar de Lisboa perguntou a Lúcia quando deveria ser aberto o Segredo, recebeu sempre a mesma resposta: em 196016. [ênfase acrescentada]

       E em 1959, D. João Venâncio, novo Bispo de Leiria, declarou:

       Penso que a carta não será aberta antes de 1960. A Irmã Lúcia pediu que não fosse aberta antes da sua morte, ou antes de 1960. Estamos agora em 1959 e a Irmã Lúcia está de boa saúde17. [ênfase acrescentada]

       Finalmente, temos a declaração do Vaticano, de 8 de Fevereiro de 1960 (divulgada num comunicado da agência noticiosa portuguesa ANI), sobre a decisão de suprimir o Segredo - documento a que nos voltaremos a referir no Capítulo 6. Lê-se na declaração do Vaticano:

       (…) é muito possível que nunca venha a ser aberta a carta em que a Irmã Lúcia escreveu as palavras que Nossa Senhora confiou aos três pastorinhos, como segredo, na Cova da Iria18. [ênfase acrescentada]

       Assim, todos os depoimentos indicam que o Segredo foi escrito como uma carta, numa só folha de papel com 20 a 25 linhas de texto manuscrito e margens de 7,5 milímetros de cada lado - Segredo esse que devia ser revelado em 1960 e não mais tarde; e particularmente nesse ano porque, então, “seria muito mais claro”.

       Foi este documento que o Bispo D. João Venâncio transferiu para o Núncio Papal que, por sua vez, o transferiu para o Santo Ofício (hoje chamado Congregação para a Doutrina da Fé) em 1957:

       Chegado ao Vaticano em 16 de Abril de 1957, o Segredo foi certamente colocado pelo Papa Pio XII na sua secretária pessoal, numa caixinha de madeira com a inscrição Secretum Sancti Officii (Segredo do Santo Ofício)19.

       É importante notar que o Papa estava à frente do Santo Ofício antes da reorganização do Vaticano, feita pelo Papa Paulo VI em 1967. Por isso, era apropriado que o Papa ficasse com o Terceiro Segredo na sua posse e que a caixa em que o colocara fosse rotulada como “Segredo do Santo Ofício”. Estando o Papa à frente do Santo Ofício, esta caixa ficou a fazer parte do respectivo arquivo. Não esqueça estes factos, leitor, pois são cruciais para quando nos referirmos a eles mais adiante.

Uma predição de apostasia na Igreja

       E com respeito ao conteúdo do Segredo? Voltamos agora à frase reveladora «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.», que, como indicámos num capítulo anterior, aparece no fim do texto integral das duas primeiras partes do Grande Segredo na Quarta Memória de Lúcia.

       Sobre este ponto, devemos recordar o depoimento crucial do Padre Joseph Schweigl, a quem o Papa Pio XII confiou uma missão secreta: interrogar a Irmã Lúcia sobre o Terceiro Segredo. E foi o que ele fez no Carmelo de Coimbra, em 2 de Setembro de 1952. Ao regressar a Roma, o Padre Schweigl dirigiu-se à sua residência no Russicum e disse a um colega no dia seguinte:

       Não posso revelar nada do que ouvi sobre Fátima no que respeita ao Terceiro Segredo, mas posso dizer que tem duas partes: uma fala do Papa. A outra, logicamente (embora eu não deva dizer nada) teria de ser a continuação das palavras: ‘Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé’20.

       Confirma-se assim o que concluímos: que uma parte do Segredo é, de facto, a continuação da frase cuja conclusão o Vaticano tem ainda por revelar: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.»

       Esta conclusão é corroborada por muitas outras testemunhas, incluindo as seguintes:

O Padre Agustín Fuentes

       Em 26 de Dezembro de 1957, o Padre Fuentes entrevistou a Irmã Lúcia. A entrevista foi publicada em 1958 com um imprimatur do seu Prelado, o Arcebispo Sánchez, de Veracruz, México. Entre outras coisas, a Irmã Lúcia disse o seguinte ao Padre Fuentes:

       Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas - creia-me, Senhor Padre - Deus vai castigar o Mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.

       Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, não uma coisa alegre, se, antes, o Mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. (…)

       Esta é a Terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora que ficará em segredo até 1960.

       Diga-lhes, Senhor Padre, que a Santíssima Virgem repetidas vezes - tanto aos meus primos Francisco e Jacinta como a mim - nos disse que ‘muitas nações desaparecerão da face da terra, que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o Mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação’.

       Senhor Padre, o demónio está travando uma batalha decisiva contra a Virgem Maria. E como sabe que é o que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira deixa também o campo das almas desamparado e mais facilmente se apodera delas.

       O que aflige o Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus é a queda das almas dos Religiosos e dos Sacerdotes. O demónio sabe que os Religiosos e os Sacerdotes que caem na sua bela vocação, arrastam numerosas almas para o inferno. (…) O demónio quer tomar posse das almas consagradas. Tenta corrompê-las para adormecer as almas dos leigos e levá-las deste modo à impenitência final21.

O Padre Alonso

       Antes de falecer em 1981, o Padre Joaquín Alonso, que foi o arquivista oficial de Fátima durante dezasseis anos, testemunhou o seguinte:

       Seria, então, de toda a probabilidade que (…) o texto faça referências concretas à crise da Fé na Igreja e à negligência dos Seus próprios Pastores [e às] lutas intestinas no seio da própria Igreja e de graves negligências pastorais por parte das altas Hierarquias22.

       No período que precede o grande triunfo do Imaculado Coração de Maria, sucederão coisas tremendas que são objecto da terceira parte do Segredo. Que coisas serão essas? Se “em Portugal, se conservará sempre o dogma da Fé”, (…) pode claramente deduzir-se destas palavras que, em outros lugares da Igreja, estes dogmas vão tornar-se obscuros ou chegarão mesmo a perder-se23.

       Falaria o texto original (e inédito) de circunstâncias concretas? É muito possível que não só fale de uma verdadeira ‘crise de fé’ na Igreja durante este período intermédio, mas ainda, como acontece com o segredo de La Salette, por exemplo, que haja referências mais concretas às lutas internas dos Católicos ou às deficiências de Sacerdotes e Religiosos. Talvez se refira, inclusivamente, às próprias deficiências da alta Hierarquia da Igreja. Por isso, nada disto é alheio a outros comunicados que a Irmã Lúcia tenha feito sobre este assunto24.

O Cardeal Ratzinger

       Em 11 de Novembro de 1984, o Cardeal Ratzinger, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, deu uma entrevista à revista Jesus, uma publicação das Irmãs Paulinas. Intitulava-se “Aqui está o motivo de a Fé estar em crise”, e foi publicada com a autorização explícita do Cardeal. Nesta entrevista, o Cardeal Ratzinger admite que uma crise da Fé está a afectar a Igreja em todo o Mundo. Neste contexto, revela que leu o Terceiro Segredo, e que este se refere a «perigos que ameaçam a Fé e a vida do Cristão, e, consequentemente, do Mundo».

       O Cardeal confirma assim a tese do Padre Alonso, segundo a qual o Segredo se refere a uma apostasia generalizada na Igreja. Na mesma entrevista, o Cardeal Ratzinger diz que o Segredo também se refere à «importância dos Novissimi [os últimos tempos / as últimas coisas]», e que, «se não foi tornado público, pelo menos por agora, foi para impedir que a profecia religiosa viesse a descambar no sensacionalismo (…)» O Cardeal mais revela que «o conteúdo deste ‘Terceiro Segredo’ corresponde ao que é anunciado nas Sagradas Escrituras e que tem sido dito, muitas e muitas vezes, em várias outras aparições de Nossa Senhora, a começar por esta, de Fátima, no seu conteúdo já conhecido»25.

D. Alberto Cosme do Amaral

       Completamente de acordo com o Cardeal Ratzinger está D. Alberto Cosme do Amaral, terceiro Bispo de Fátima. Num discurso em Viena de Áustria, em 10 de Setembro de 1984, disse o seguinte:

       O conteúdo [do Terceiro Segredo] diz respeito, unicamente, à nossa Fé. (…) Identificar o [Terceiro] Segredo com anúncios catastróficos ou com um holocausto nuclear é deformar o sentido da mensagem. A perda de Fé de um continente é pior do que o aniquilar de uma nação; e a verdade é que a Fé está continuamente a diminuir na Europa26. [ênfase acrescentada]

O Cardeal Oddi

       Em 17 de Março de 1990, o Cardeal Oddi fez a seguinte declaração ao jornalista italiano Lucio Brunelli, publicada no jornal Il Sabato:

       Ele [o Terceiro Segredo] não tem nada a ver com Gorbachev. A Santíssima Virgem estava a avisar-nos contra a apostasia na Igreja.

O Cardeal Ciappi

       A estas testemunhas devemos acrescentar as palavras do Cardeal Mario Luigi Ciappi, que era, precisamente, o Teólogo pessoal do Papa João Paulo II. Numa comunicação particular com um certo Professor Baumgartner, em Salzburgo, o Cardeal Ciappi revelou que:

       No Terceiro Segredo prediz-se, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começará pelo cimo27.

       Todos estes testemunhos concordam com o que a própria Irmã Lúcia disse repetidas vezes - não só ao Padre Fuentes, acima citado, mas a muitas outras testemunhas fidedignas. Embora esteja limitada pelo seu compromisso de não divulgar o conteúdo preciso do Terceiro Segredo, os seus comentários, feitos a testemunhas de crédito, estão cheios de referências a homens da Igreja ... «engana[dos] por falsas doutrinas»; a uma «desorientação diabólica» que afecta «tantas pessoas que ocupam lugares de responsabilidade» na Igreja; a «Sacerdotes e (...) almas consagradas» que «andam tão iludidas e tão transviadas» porque o demónio «tem conseguido infiltrar o mal com capa de bem (...) tem consegiudo iludir e enganar almas cheias de responsabilidade, pelo lugar que ocupam! (...) São cegos a guiar outros cegos!»28.

Pio XII confirma
que o Segredo prevê a apostasia na Igreja

       Mas o testemunho talvez mais notável de todos, quanto a este assunto, embora de uma relevância indirecta, é o do Cardeal Eugenio Pacelli - antes de se tornar o Papa Pio XII - quando ainda era Secretário de Estado do Vaticano durante o reinado de Pio XI. Falando ainda antes de a Irmã Lúcia ter escrito o Terceiro Segredo, o futuro Pio XII fez uma profecia espantosa sobre uma futura convulsão na Igreja:

       As mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma. (…) Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.

       O biógrafo do Papa Pio XII, Monsenhor Roche, anotou que neste momento da conversa, Pio XII disse então (em reposta a uma objecção):

       Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: “Para onde O levaram?”29.

       É realmente espantoso notar que o futuro Papa relacionava esta intuição aparentemente sobrenatural da devastação que se aproximava da Igreja especificamente com «as mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima» e com «esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja». Uma tal predição não teria qualquer sentido se se baseasse nas primeiras duas partes do Grande Segredo, que não mencionam coisas como «o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma», ou «inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.» E também não há qualquer indicação, nas duas primeiras partes, de que «Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera».

       Como é que o futuro Papa Pio XII sabia estas coisas? É evidente que lhe foi concedido um vislumbre sobrenatural, ou que tinha conhecimento directo de que uma parte das «mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima», que até então não tinha sido revelada, previa estes acontecimentos futuros na Igreja.

       Em resumo, todos os testemunhos acerca do conteúdo do Terceiro Segredo, desde 1944 até pelo menos 1984 (a data da entrevista de Ratzinger), confirmam que este se refere a uma perda catastrófica da Fé e da disciplina na Igreja, abrindo uma brecha às forças há tanto tempo alinhadas contra Ela - os “inovadores” que o futuro Papa Pio XII ouvia “à minha volta”, clamando pelo desmantelamento da Capela-Mor e por mudanças na liturgia e na teologia católicas.

       Como demonstraremos, esta brecha começou a ter lugar em 1960, precisamente no ano em que, como a Irmã Lúcia tinha insistido, a terceira parte do Segredo devia ser revelada. Mas, antes de voltarmos àquele ano decisivo - quando começou a dar-se o grande crime de que falamos -, temos de discutir primeiro o motivo que precedeu o crime. É o que iremos agora fazer.

Capítulo 5

 

Descobre-se um motivo

     Como sublinhámos na Introdução, o crime contra a Igreja e o Mundo que nos propusemos provar neste livro envolve «a tentativa sistemática, que vem já desde o ano de 1960, de abafar, apresentar erroneamente e negar a autenticidade dessa mensagem, embora as suas alarmantes profecias se estejam a concretizar mesmo diante dos nossos olhos.»

     Mas por que razão homens que ocupam os mais altos cargos de autoridade na Igreja cometeriam um tal crime? Como observou Aristóteles, para se compreender uma acção deve-se procurar o motivo. É o que faremos neste capítulo.

     Admitimos que é sempre difícil provar um motivo, porque não podemos ler a mente de uma pessoa, e muito menos avaliar o estado da sua alma. Ao concluirmos qual seria o motivo, podemos apenas - tal como membros de um júri num processo meramente civil - basear a nossa decisão nas acções exteriores do acusado, à luz das circunstâncias circunjacentes. Quando um júri conclui que um homem assassinou a mulher para obter o dinheiro do seguro, por exemplo, baseia-se quanto ao motivo numa inferência razoável a partir das circunstâncias circunjacentes. Seria de estranhar que um assassino, em tal caso, admitisse “Matei-a para receber o seguro”. Pelo contrário, o motivo teria de ser inferido a partir de coisas como a compra recente, por parte do marido, de uma apólice de seguro de valor substancial para a mulher.

     Ninguém pensaria acusar um júri de “juízo temerário” se inferisse a partir das circunstâncias que o marido, no nosso caso hipotético, tinha intenção de assassinar a mulher por causa do dinheiro. Da mesma maneira, pode deduzir-se um motivo no caso de Fátima a partir das circunstâncias; não é um “juízo temerário” chegar a uma conclusão razoável, quanto ao motivo, com base no que os próprios acusados disseram e fizeram. Além do mais, como iremos demonstrar, temos neste caso o equivalente a uma confissão sobre o motivo. Os acusados foram bastante explícitos sobre o que aprovam e o que tencionam fazer a respeito do crime de que tratamos.

Uma nova e ruinosa orientação da Igreja

     Tal como acusámos na Introdução, neste caso o motivo deriva do reconhecimento, por parte dos acusados, de que a Mensagem de Fátima, compreendida num sentido católico tradicional, não pode conciliar-se com decisões que eles têm vindo a tomar desde o Concílio Vaticano II para mudar toda a orientação da Igreja Católica. Ou seja, a Mensagem atrapalha os seus esforços para fazerem precisamente aquilo que o futuro Papa Pio XII previu, num momento de clarividência sobrenatural: transformar a Igreja numa instituição orientada para o Mundo. O actual escândalo devastador no seio do Clero católico não é senão um sintoma da ruinosa tentativa de “modernizar” a Igreja Católica. Ou, dito de outra maneira: o estado actual da Igreja Católica é o resultado da invasão, sem precedentes, da Igreja pelo liberalismo. Recordemos, mais uma vez, as palavras proféticas de Monsenhor Pacelli (o futuro Papa Pio XII), ditas à luz da Mensagem de Fátima:

     As mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma (…) Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.

     Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: “Para onde O levaram?”

     Sublinhámos também, na Introdução, que esta grande mudança de orientação na Igreja - “na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma”, como o futuro Papa Pio XII especificou - era o objectivo, há tanto tempo acarinhado, das forças organizadas que, desde há séculos, têm vindo a conspirar contra a Igreja; as mesmas forças que estavam no poder em Portugal em 1917 e que foram repelidas pela Consagração deste País ao Imaculado Coração de Maria em 1931. E foi precisamente para rechaçar essas forças em todo o Mundo que o Céu enviou a Fátima a Mãe de Deus para pedir a Consagração da Rússia. Essas forças tornar-se-iam cedo a principal arma na longa guerra de Satanás contra a Igreja. E, na verdade, esta guerra decidir-se-á no nosso tempo conforme seja o vencedor da batalha para se cumprir a Mensagem de Fátima.

     A nossa apresentação das provas do motivo neste caso - ou seja, o desejo de impor à Igreja uma nova orientação que exclui a Mensagem de Fátima - obriga-nos a expor os respectivos antecedentes históricos, o que passaremos a fazer. Conhecer esse ‘pano de fundo’ interessa não só aos Católicos, mas também aos não-Católicos que queiram compreender o que vem a acontecer à Igreja Católica depois do Vaticano II.

O objectivo da Maçonaria organizada:
Neutralizar e “instrumentalizar” a Igreja Católica

     Como vimos quanto ao exemplo de Portugal em 1917, as forças da Maçonaria (e os seus aliados comunistas) conspiraram para impedir que a Mensagem de Fátima acabasse de se cumprir em Portugal. Insinuou-se que a Mensagem era uma fraude ou uma ilusão infantil; os próprios videntes foram perseguidos e até ameaçados de morte. Tal era o ódio destas forças contra a Igreja Católica e a Virgem Mãe de Deus.

     O mesmo sucede com estas forças que hoje estão à solta por todo o Mundo. Não é preciso descer aos devaneios das teorias de conspiração para saber que, até 1960, os Papas escreveram mais condenações e avisos sobre os manejos dos Maçons e dos Comunistas contra a Igreja do que sobre qualquer outro tema na História da Igreja.

     Sobre este ponto, não podemos deixar de considerar a infame Permanent Instruction of the Alta Vendita, um documento maçónico que delineava todo um plano para infiltrar e corromper a Igreja Católica no século XX1. Apesar de estar na moda, desde o Concílio Vaticano II, ridicularizar a existência de uma tal conspiração, deve notar-se que os papéis secretos da Alta Vendita (uma sociedade secreta italiana), entre os quais a Permanent Instruction, caíram nas mãos do Papa Gregório XVI. A Permanent Instruction foi publicada a pedido do Bem-Aventurado Papa Pio IX pelo Cardeal Crétineau-Joly no seu livro The Roman Church and Revolution2. Pelo seu Breve de aprovação, datado de 25 de Fevereiro de 1861 e endereçado ao autor, o Papa Pio IX garantiu a autenticidade da Permanent Instruction e dos outros documentos maçónicos, mas não permitiu que se divulgassem os nomes verdadeiros dos membros da Alta Vendita mencionados nos documentos. O Papa Leão XIII também pediu a sua publicação. Ambos os Papas actuaram, certamente, para evitar que se concretizasse uma tal tragédia, que estes grandes Pontífices sabiam que estava longe de ser impossível. (O Papa Pio XII também o sabia, como podemos inferir dos comentários proféticos que fez quando ainda era Secretário de Estado do Vaticano).

     O texto completo da Permanent Instruction também se encontra no livro de Monsenhor George E. Dillon Grand Orient Freemasonry Unmasked3. Quando deram um exemplar do livro de Monsenhor Dillon ao Papa Leão XIII, este ficou tão impressionado que encomendou que se fizesse uma edição italiana, paga por sua conta4.

     A Alta Vendita era a loja mais categorizada dos Carbonários, uma sociedade secreta italiana ligada à Maçonaria e que, juntamente com esta, foi condenada pela Igreja Católica5. O respeitável historiador católico Padre E. Cahill, S.J., que não pode ser considerado como um “maníaco das conspirações”, escreveu no seu livro Freemasonry and the Anti-Christian Movement, que a Alta Vendita «era geralmente considerada na altura como o centro governativo da Maçonaria europeia»6. Os Carbonários estiveram especialmente activos na Itália e na França [e em Portugal, sobretudo de 1910 a 1926]6a.

     No seu livro Athanasius and the Church of Our Time (1974), o Bispo Rudolph Graber, autoridade objectiva e irrepreensível que escreveu depois do Concílio Vaticano II, citou um Maçon ilustre que declarou que «o objectivo (da Maçonaria) já não é a destruição da Igreja, mas utilizá-la através da infiltração»7. Por outras palavras, como a Maçonaria não pode obliterar completamente a Igreja de Cristo, tenciona não só extirpar a influência do Catolicismo na sociedade, como também usar a estrutura da Igreja como instrumento de “renovação”, “progresso” e “iluminação” - isto é, como um meio de levar a cabo muitos dos princípios e objectivos maçónicos.

     Ao discutir a visão maçónica da sociedade e do Mundo, o Bispo Graber introduz o conceito de sinarquia: «O que agora enfrentamos é a súmula das forças secretas de todas as ‘ordens’ e escolas, que se uniram para formar um governo mundial invisível. Num sentido político, a sinarquia pretende integrar todas as forças da finança e da sociedade que o governo mundial, naturalmente sob chefia socialista, tem que apoiar e promover. O Catolicismo, como todas as religiões, seria consequentemente absorvido num sincretismo universal. Não só não seria suprimido como, pelo contrário, seria integrado, uma táctica que já está em andamento segundo o princípio da fraternidade entre clerigos (das várias religiões)».

     A estratégia delineada pela Permanent Instruction para atingir este objectivo é espantosa pela sua audácia e astúcia. O documento refere-se, desde o princípio, a um processo que levará décadas a cumprir. Os autores do documento sabiam que não viveriam para assistir ao seu triunfo. Estavam, sim, a inaugurar uma obra que seria retomada por gerações sucessivas de iniciados. Como diz a Permanent Instruction: «Nas nossas fileiras o soldado morre mas a luta continua».

     A Instruction propunha a disseminação das ideias e axiomas liberais pela sociedade e dentro das instituições da Igreja Católica, de tal modo que os leigos, seminaristas, clerigos e prelados seriam gradualmente, e ao longo dos anos, imbuídos de princípios progressistas. Esta nova mentalidade viria eventualmente a ser tão difusa que seriam ordenados Padres, sagrados Bispos e nomeados Cardeais indivíduos cujo pensamento estaria em harmonia com as ideias modernas baseadas nos “Princípios de 1789” (isto é, os princípios da Maçonaria, que inspirou a Revolução Francesa) - ou seja: o pluralismo, a igualdade de todas as religiões, a separação da Igreja e do Estado, a liberdade de expressão sem restrições, e assim por diante.

     Chegar-se-ia por fim a eleger um Papa vindo destes meios, que levaria a Igreja pelo caminho da “iluminação e renovação”. Note-se, desde já, que não estava nos seus planos colocar um Maçon na Cadeira de S. Pedro. O seu objectivo era criar as condições que acabariam por produzir um Papa e uma Hierarquia conquistados pelas ideias do Catolicismo liberal, ao mesmo tempo que se consideravam Católicos fiéis.

     Estes dirigentes católicos liberalizados deixariam de se opor às ideias modernas da Revolução (ao contrário dos Papas de 1789 a 1958, que condenaram de forma unânime estes princípios liberais), mas, pelo contrário, amalgamá-los-iam à Igreja ou “baptizá-los-iam” para os colocarem dentro da Igreja. O resultado final seria um Clero e um laicado católicos que marchariam sob a bandeira da “iluminação”, pensando ao mesmo tempo estarem a marchar sob a bandeira das Chaves Apostólicas.

     Certamente com a Permanent Instruction no pensamento, o Papa Leão XIII em Humanum Genus exortou os dirigentes católicos «arrancai à Maçonaria a máscara com que ela se cobre, e fazei-a ver tal qual é»8. A publicação destes documentos da Alta Vendita era um meio de “arrancar a máscara”.

     Para que não se diga que nós interpretámos mal a Permanent Instruction, vamos agora citá-la extensamente. O que se segue não é a Instruction completa, mas a secção mais relevante como prova. Lê-se no documento:

     O Papa, qualquer que ele seja, não virá às sociedades secretas; compete às sociedades secretas dar o primeiro passo em direcção à Igreja, para conquistar a ambos.

     A tarefa que vamos empreender não é trabalho de um dia, ou de um mês, ou de um ano; pode durar vários anos, talvez um século; mas nas nossas fileiras o soldado morre e a luta continua.

     Não tencionamos atrair os Papas à nossa causa, fazê-los neófitos dos nossos princípios, propagadores das nossas ideias. Isso seria um sonho ridículo; e se acontecesse que Cardeais ou prelados, por exemplo, quer por sua livre vontade ou de surpresa, entrassem em parte dos nossos segredos, isso não seria de modo nenhum um incentivo para desejar a sua elevação à Cadeira de Pedro. Essa elevação arruinar-nos-ia. Só a sua ambição levá-los-ia à apostasia, e as necessidades do poder forçá-los-iam a sacrificar-nos. O que devemos desejar, o que devemos procurar e esperar, tal como os judeus esperam pelo Messias, é um Papa conforme às nossas necessidades (...)

     Com isto marcharemos com mais segurança para o assalto à Igreja do que com os panfletos dos nossos irmãos em França e até do que com o ouro da Inglaterra. Quereis saber a razão? É que com isto, para despedaçar a grande rocha em que Deus erigiu a Sua Igreja, já não precisamos de vinagre anibaliano, ou de pólvora, ou mesmo das nossas armas. Temos o dedo mínimo do sucessor de Pedro comprometido nesta empresa, e este dedinho vale tanto, para esta cruzada, como todos os Urbanos II e todos os São Bernardos da Cristandade.

     Não temos dúvidas de que chegaremos a este fim supremo dos nossos esforços. Mas quando? Mas como? O desconhecido ainda não foi revelado. Contudo, visto que nada nos irá desviar do plano estabelecido e, pelo contrário, tudo tenderá para ele, como se já amanhã o trabalho que mal foi esboçado fosse coroado de sucesso, desejamos, nesta Instrução, que se manterá secreta para os simples iniciados, dar aos dignitários na chefia da Suprema Vendita alguns conselhos em forma de instrução ou memorando, conselhos esses que eles deverão imbuir em todos os irmãos (…)

     Ora bem, para assegurarmos um Papa com as características desejadas, é preciso, em primeiro lugar, modelá-lo (…)[e,] para este Papa, uma geração digna do reinado que sonhamos. Ponde de parte os velhos e os de idade madura; dedicai-vos aos jovens e, sendo possível, até às crianças (…) Conseguireis sem grande custo uma reputação de bons Católicos e de puros patriotas.

     Esta reputação dará acesso à nossa doutrina entre os jovens Clerigos, assim como entrará profundamente nos mosteiros. Em poucos anos, pela força das coisas, este jovem Clero terá ascendido a todas as funções; formará o conselho do Sumo Pontífice, será chamado a escolher o novo Pontífice que há-de reinar. E este Pontífice, tal como a maioria dos seus contemporâneos, estará necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios italianos e humanitários que vamos começar a pôr em circulação. É um grãozinho de mostarda preta que vamos confiar à terra; mas o sol da justiça desenvolvê-lo-á ao mais alto poder, e vereis um dia que rica colheita esta sementezinha produzirá.

     No caminho que estamos a traçar para os nossos irmãos, há muitos grandes obstáculos a conquistar, dificuldades de mais do que um género para dominar. Eles triunfarão sobre aqueles pela experiência e pela clarividência; mas o objectivo é de tal esplendor que é importante abrir todas as velas ao vento para o alcançar. Se quereis revolucionar a Itália, procurai o Papa cujo retrato acabámos de esboçar. Se quereis estabelecer o reino dos escolhidos no trono da prostituta da Babilónia, fazei com que o Clero marche sob a vossa bandeira, enquanto acredita que está a marchar sob a bandeira das chaves apostólicas. Se quereis fazer desaparecer o último vestígio dos tiranos e opressores, deitai as vossas redes como Simão Bar-Jona; deitai-as nas sacristias, nos seminários e nos mosteiros em vez de as deitardes no fundo do mar; e, se não vos apressardes, prometemo-vos uma pescaria mais miraculosa que a dele. O pescador de peixes tornou-se pescador de homens; colocareis amigos à volta da Cadeira apostólica. Tereis pregado uma revolução de tiara e de capa, marchando com a cruz e o estandarte; uma revolução que só precisará de ser um pouco instigada para incendiar os quatro cantos do Mundo9.

O aparecimento do Catolicismo liberal

     Como já notámos, o objectivo da Maçonaria não era destruir a Igreja, o que os Maçons sabiam ser impossível, mas antes neutralizar e instrumentalizar a Igreja - isto é, transformar o elemento humano da Igreja num instrumento de promoção dos objectivos maçónicos, induzindo os membros da Igreja a abraçar as ideias liberais. Uma Hierarquia liberalizada prestar-se-ia facilmente a colaborar no estabelecimento do ideal maçónico de uma nova ordem mundial (novus ordo seclorum) - uma falsa “fraternidade” pan-religiosa na qual a Igreja abandona o Seu título de ser a única arca de salvação e cessa a Sua oposição às forças do Mundo. A primeira fase deste processo manifestou-se no século XIX, altura em que a sociedade estava cada vez mais permeada com os princípios liberais da Revolução Francesa. Este programa já causava grande detrimento à Fé católica e ao Estado católico em meados daquele século. As supostamente “mais amáveis e mais suaves” noções de pluralismo, de indiferentismo religioso, de uma democracia que acredita que toda a autoridade vem do povo, de falsas noções de liberdade, de reuniões inter-religiosas, da separação entre a Igreja e o Estado, e de outras novidades estavam a apertar as mentalidades da Europa do pós-Iluminismo, infectando tanto estadistas como eclesiásticos.

A condenação do Catolicismo liberal

     Os Papas do século XIX e do início do século XX fizeram guerra aberta contra estas tendências perigosas. Com uma presença de espírito assente na certeza sem compromissos da Fé, estes Papas não se deixaram arrastar. Sabiam que os maus princípios, por mais honrosos que possam parecer, não podem dar bom fruto; e que estavam perante maus princípios na sua forma pior, porque não estavam assentes só na heresia, mas na apostasia. Como generais que reconhecem o dever de defenderem a sua praça a todo o custo, estes Papas assestaram uma poderosa artilharia contra os erros do Mundo moderno e fizeram fogo incessantemente: as encíclicas eram as suas munições, e nunca erraram o alvo.

     O ataque mais devastador veio sob a forma do monumental Syllabus de Erros do Bem-Aventurado Papa Pio IX, por ele acrescentado à sua encíclica Quanta Cura (1864). Quando o fumo se dissipou, não restavam dúvidas a nenhum dos implicados na batalha sobre quem estava de cada lado. A linha de demarcação fora traçada claramente. No Syllabus, o Bem-Aventurado Pio IX condenou os principais erros do Mundo moderno, não por serem modernos, mas porque estas novas ideias se baseavam num naturalismo panteísta e, por isso, eram incompatíveis com a Doutrina Católica, além de serem destrutivas para a sociedade.

     Os ensinamentos do Syllabus opunham-se ao liberalismo, assim como os princípios do liberalismo se opunham ao Syllabus. Isto era claramente reconhecido por ambas as partes. O Padre Denis Fahey referiu-se a esta revelação de princípios como “Pio IX contra a deificação panteísta do homem”10. Falando pelo lado oposto, o maçon francês Ferdinand Buissont declarou que «Uma escola não pode continuar neutra entre o Syllabus e a Declaração dos Direitos do Homem»11.

     E, apesar disto, apareceu no século XIX um novo género de Católicos que buscaram um compromisso utópico entre os dois. Estes homens procuraram o que eles acreditavam ser “bom” nos princípios de 1789, e tentaram introduzi-los na Igreja. Muitos Clerigos, infectados pelo espírito da época, foram apanhados numa rede que fora “lançada nas sacristias e nos seminários” pela Maçonaria. Foram todos estes que vieram a ser conhecidos pela designação de Católicos liberais. O Bem-Aventurado Papa Pio IX tinha-lhes um horror absoluto. Afirmou que estes “Católicos liberais” eram os “piores inimigos da Igreja”. Numa carta à deputação francesa chefiada pelo Bispo de Nevers, com data de 18 de Junho de 1871, o Bem-Aventurado Pio IX declarou:

     O que eu mais receio não é a Comuna de Paris - Não! - o que eu receio é o Catolicismo liberal (…) Já o disse mais de quarenta vezes, e repito-o agora para vós, pelo amor que vos tenho. O autêntico flagelo da França é o Catolicismo liberal, que se esforça por unir dois princípios tão repulsivos um em relação ao outro como o fogo e a água12.

O aparecimento do Modernismo

     Todavia, apesar disto, o número dos Católicos liberais continuou a aumentar. A crise atingiu o cúmulo pelo final do século XIX, altura em que o liberalismo de 1789 que “circulava com o vento” se converteu no tornado do modernismo. O Padre Vincent Miceli identificou esta heresia como tal, ao descrever a “trindade de antepassados” do modernismo: “O seu antepassado religioso é a Reforma protestante (…) o seu progenitor filosófico é o Iluminismo (…) a sua linhagem política vem da Revolução Francesa”13.

     A que chamamos nós “modernismo”? O modernismo não é, nem mais nem menos, do que uma síntese ou combinação de todos os erros do Catolicismo liberal num sistema filosófico e teológico completo, cujo efeito é enfraquecer insidiosamente a integridade de toda a Fé Católica. Um exame pormenorizado do vasto sistema modernista de pensamento ultrapassa de longe o âmbito deste livro; basta dizermos que, através de vários erros subtis, o modernista nega ou enfraquece a divindade e a revelação divina de Cristo, a Sua fundação da única Igreja verdadeira, e a imutabilidade absoluta da Doutrina Católica (que o modernista diz poder “evoluir” conforme mudam as circunstâncias). O modernista também adopta e promove as noções liberais de “livre expressão” e “liberdade de consciência”, e o erro do indiferentismo religioso, segundo o qual todas as religiões seriam mais ou menos boas e dignas de louvor, por virem de um chamado “sentido religioso” inato ao homem - um erro que, como é bom de ver, nega implicitamente a realidade do Pecado Original, ao sugerir que todos os homens podem ser verdadeiramente religiosos e que podem salvar-se nas diversas religiões que inventam, sem ser necessário o Baptismo, a Fé e os Sacramentos da Igreja Católica.

São Pio X sufoca a rebelião modernista

     O Papa S. Pio X, que ascendeu ao Sólio Pontifício em 1903, reconheceu no modernismo uma praga altamente mortífera que devia ser detida. S. Pio X combateu o modernismo, isolando, definindo e condenando sistematicamente as suas muitas proposições erróneas. Em particular, S. Pio X lançou uma encíclica monumental contra o modernismo (Pascendi Dominici Gregis) e um Syllabus dos erros modernistas (Lamentabili). Na Sua encíclica Pascendi, este grande Papa escreveu: «(...) continuam a derramar o vírus por tôda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar». Na mesma encíclica chamava ao modernismo “o distilado de todos os erros”, declarando que a obrigação mais importante do Papa era assegurar a pureza e a integridade da Doutrina Católica, e que, se nada fizesse, faltaria ao Seu dever essencial14.

     Mas S. Pio X não se deteve aqui. Alguns anos depois da Pascendi, reconhecendo que os Modernistas deviam ser esmagados antes que se erguessem e causassem uma devastação na Igreja, este santo Papa apresentou a sua carta Sacrorum antistitum, que ordenava que todos os sacerdotes e professores fizessem o Juramento Anti-Modernista. Supervisou o afastamento dos modernistas de Seminários e Universidades, e excomungou os obstinados e os impenitentes. S. Pio X sabia que os modernistas atacavam a própria natureza da Igreja e que, na sua audácia, estavam já a tentar destruir o Dogma e a Tradição da Igreja:

     [A] gravidade do mal cresce de dia para dia, e deve conter-se a todo o custo. Já não nos defrontamos, como no princípio, com adversários “em pele de cordeiro”, mas com inimigos aberta e desavergonhadamente assumidos na nossa própria casa, os quais, tendo feito um pacto com os maiores inimigos da Igreja [isto é, os maçons, liberais, protestantes, judeus, muçulmanos, etc.], estão decididos a arrasar a Fé (…) Querem renová-la como se estivesse consumida pela velhice, expandi-la e adaptá-la ao gosto do Mundo e aos seus progressos e confortos, como se ela se opusesse, não apenas à frivolidade de alguns, mas ao bem da sociedade. (…) Nunca haverá demasiada vigilância e firmeza da parte daqueles a quem foi confiada a guarda fiel do sagrado depósito da doutrina evangélica e da tradição eclesiástica, para se poderem opor aos ataques que lhe fazem15.

     S. Pio X conseguiu efectivamente deter o avanço do modernismo na sua época. Diz-se, todavia, que, quando o felicitaram por ter erradicado este grave erro, o Papa S. Pio X respondeu imediatamente que, apesar de todos os seus esforços, não conseguira matar a fera - mas apenas forçá-lo a esconder-se. E avisou ainda que, se os responsáveis da Igreja não se mantivessem vigilantes, a fera voltaria no futuro, mais virulento do que nunca16. Como veremos, a predição de S. Pio X realizou-se - e com violência.

O Modernismo regressa mais uma vez

     Um drama quase desconhecido que se desenvolveu no reinado do Papa Pio XI demonstra que a facção clandestina do pensamento modernista estava viva e sã no período imediatamente a seguir ao de S. Pio X.

     O Padre Raymond Dulac relata que, no consistório secreto de 23 de Maio de 1923, o Papa Pio XI consultou os trinta Cardeais da Cúria sobre se seria oportuno convocar um concílio ecuménico. Estavam presentes prelados ilustres, como Merry del Val, De Lai, Gasparri, Boggiani e Billot. Os Cardeais eram da opinião que não devia convocar-se. Como avisou o Cardeal Billot, «A existência de profundas divergências no próprio seio do episcopado não podia ser ocultada (…) [Há] o risco de se entrar em discussões que se prolongariam indefinidamente».

     Boggiani recordou as teorias modernistas, das quais, afirmou, parte do Clero e dos Bispos não estava isenta. «Esta mentalidade pode inclinar certos Padres a apresentar moções, a introduzir métodos incompatíveis com as tradições católicas».

     Billot foi ainda mais preciso: exprimiu o seu receio de ver o Concílio “manobrado” pelos «piores inimigos da Igreja, os Modernistas, que estão já a aprontar-se, como certos indícios demonstram, para realizarem na Igreja a revolução, um novo 1789»17.

As predições da Maçonaria sobre uma
ruptura modernista num Concílio Ecuménico

     Ao desencorajar a ideia de um Concílio por tais razões, estes Cardeais mostraram estar mais aptos a reconhecerem os “sinais dos tempos” do que todos os teólogos pós-Vaticano II juntos. Mas a sua apreensão poderia estar baseada em algo mais profundo. Talvez estivessem também preocupados com os escritos do iluminado notório, o excomungado Cónego Roca (1830-1893), que pregou a revolução e a “reforma” da Igreja, e que predisse, em pormenores espantosamente precisos, a subversão da Igreja que seria ocasionada por um Concílio.

     Em Athanasius and the Church of Our Time, o Bispo Graber refere-se à predição feita por Roca de uma “Igreja iluminada de novo”, que seria influenciada pelo “socialismo de Jesus”18. Em meados do século XIX, Roca predisse que «A nova igreja, que talvez não consiga reter nada da Doutrina Escolástica e da forma original da antiga Igreja, receberá, mesmo assim, a sua consagração e jurisdição canónica de Roma». Surpreendentemente, Roca também predisse a “reforma” litúrgica do pós-Vaticano II: «[O] culto divino, na forma dirigida pela liturgia, cerimonial, ritual e regulamentos da Igreja Romana, sofrerá em breve uma transformação num concílio ecuménico, que restaurará a venerável simplicidade da idade de ouro dos Apóstolos, de acordo com as exigências da consciência e da civilização moderna».

     Roca vaticinou que, através desse concílio, surgiria «um acordo perfeito entre os ideais da civilização moderna e o ideal de Cristo e do Seu Evangelho. Isto será a consagração da Nova Ordem Social e o baptismo solene da civilização moderna». Por outras palavras, este concílio abriria caminho ao triunfo do plano maçónico para a subversão da Igreja. Roca também se referiu ao futuro do Papado. Escreveu o seguinte: «Há um sacrifício iminente que representa um acto solene de expiação (…) O Papado cairá; morrerá sob a faca santificada que os Padres do último concílio fabricarão. O César papal é uma vítima coroada para o sacrifício». Roca predisse entusiasticamente nada menos que uma «nova religião, novo dogma, novo ritual, novo sacerdócio». Chamou aos novos Padres “progressistas”, e referiu-se à “supressão” da sotaina e ao “casamento dos Padres”19.

     Citando os escritos do heresiarca francês Abbé Melinge (que usou o pseudónimo de Dr. Alta), o Bispo Graber avisou que havia um programa revolucionário para «substituir a Fé romana por um pontificado “pluriconfessional”, capaz de se adaptar a um ecumenismo polivalente, tal como vemos hoje ser estabelecido na intercelebração de Sacerdotes e pastores protestantes». (Melinge referiu-se a certos Padres renegados; mas hoje é o próprio Papa que preside a cerimónias mistas, incluindo Vésperas, com “bispos” protestantes)20.

     Encontramos ecos arrepiantes de Roca, de Melinge e da Alta Vendita nas palavras do Rosacruz Dr. Rudolph Steiner, que declarou em 1910: «Precisamos de um concílio e de um Papa que o proclame»21.

A aliança entre a Maçonaria e o Comunismo

     Note-se que, ao combater por estes objectivos, os maçons eram camaradas de luta dos comunistas, que conspiravam com eles para derrubar a Igreja e o Estado. Como o Papa Leão XIII observou na Humanum Genus (1884), a sua encíclica monumental sobre a ameaça que representavam as sociedades maçónicas:

     «Sim, esta mudança, esta subversão, é planeada deliberadamente e apresentada por muitas associações de comunistas e socialistas; e a estas manobras a seita dos maçons não é hostil, mas, pelo contrário, favorece muito os seus desígnios, e partilha com elas as suas opiniões principais».

     Como viemos a saber de numerosas testemunhas independentes, a infiltração comunista da Igreja22 começou cedo, na década de 1930. O próprio Lénin (fundador do Comunismo russo) declarou nos anos 20 que infiltraria a Igreja Católica, particularmente o Vaticano. A evidência histórica quanto a isto foi recentemente sumarizada no venerável periódico Christian Order:

     Douglas Hyde, ex-comunista e célebre convertido, revelou há muito tempo que nos anos 30 as chefias comunistas enviaram uma directiva à escala mundial sobre a infiltração da Igreja Católica. E no início da década de 50, a Srª Bella Dodd também deu informações pormenorizadas sobre a subversão comunista da Igreja. Falando como antiga funcionária de destaque do Partido Comunista Americano, a Srª Dodd disse: “Nos anos 30 pusemos mil e cem homens no sacerdócio para destruir a Igreja a partir do seu interior”. A ideia era que estes homens se ordenassem e subissem até ocupar posições de influência e autoridade como Monsenhores e Bispos. Uma dúzia de anos antes do Vaticano II, ela declarou o seguinte: “Neste momento estão nos cargos mais altos da Igreja” - onde estavam a trabalhar para conseguir mudanças que enfraquecessem a eficácia da Igreja na sua luta contra o Comunismo. Acrescentou que estas mudanças seriam tão drásticas que “não reconhecerão a Igreja Católica23.

     Como sublinhou a Christian Order, a existência de uma conspiração comunista para infiltrar a Igreja foi abundantemente confirmada, não só pelos antigos comunistas Bella Dodd e Douglas Hyde, mas também por desertores soviéticos:

     O antigo oficial do KGB Anatoliy Golitsyn, que desertou em 1961 e em 1984 previu com 94% de precisão todos os espantosos acontecimentos ocorridos no Bloco Comunista desde aquela altura, confirmou há vários anos que esta «penetração da Igreja Católica, assim como de outras igrejas, faz parte da “linha geral” [isto é, da política imutável] do Partido na luta anti-religiosa». De facto, centenas de documentos passados para o Ocidente pelo antigo arquivista do KGB Vassili Mitrokhin, e publicados em 1999, dizem o mesmo sobre o facto de o KGB cultivar as relações mais cordiais com os Católicos ‘progressistas’ e financiar as suas actividades. Um dos órgãos esquerdistas identificados foi a pequena agência de imprensa católica italiana Adista que, ao longo de décadas, promoveu todas as causas ou “reformas” post-conciliares imagináveis, e cujo Director foi nomeado no Arquivo Mitrokhin como um agente assalariado do KGB.

     A Srª Dodd, que se converteu à Fé pouco antes de morrer, era assessora jurídica do Partido Comunista dos Estados Unidos. Prestou um depoimento volumoso sobre a infiltração comunista na Igreja e no Estado perante a Comissão Parlamentar de Actividades Anti-Americanas nos anos 50. Como se quisesse penitenciar-se pelo seu papel na subversão da Igreja, a Srª Dodd fez uma série de conferências na Universidade Fordham e noutros locais durante os anos que precederam o Vaticano II. A Christian Order recorda o testemunho de um frade que assistiu a uma dessas conferências no início da década de 50:

     Ouvi aquela mulher durante quatro horas e ela pôs-me os cabelos em pé. Tudo o que ela disse cumpriu-se à letra. Pensar-se-ia que ela era a maior profetisa do Mundo, mas ela não era profetisa. Estava apenas a expor, passo a passo, o plano de combate da subversão comunista da Igreja Católica. Ela explicou que, de todas as religiões do Mundo, a Igreja Católica era a única temida pelos Comunistas, porque era o seu único adversário eficaz. A ideia geral era destruir, não a Igreja como instituição, mas antes a Fé do povo, e usar mesmo a instituição da Igreja, se possível, para destruir a Fé por meio da promoção de uma pseudo-religião, qualquer coisa parecida com o Catolicismo mas que não era a autêntica doutrina. Logo que a Fé fosse destruída - explicou ela - introduzir-se-ia na Igreja um complexo de culpa. (…) para classificar a ‘Igreja do passado’ como opressiva, autoritária, cheia de preconceitos, arrogante ao afirmar-se como única possuidora da verdade, e responsável pelas divisões das comunidades religiosas através dos séculos. Isto seria necessário para que os responsáveis da Igreja, envergonhados, adoptassem uma ‘abertura ao Mundo’ e uma atitude mais flexível para com todas as religiões e filosofias. Os comunistas explorariam então esta abertura para enfraquecer insidiosamente a Igreja24.

     Ora, se os inimigos da Igreja conseguissem ser bem sucedidos nos seus planos - que acabámos de delinear -, veríamos acontecer as seguintes coisas na Igreja:

  • Em primeiro lugar, como Roca predisse, haveria num concílio ecuménico uma convulsão de tal grandeza que todo o Mundo compreenderia que a Igreja Católica tinha sofrido uma revolução que a alinharia com as ideias modernas. Seria evidente para todos que se tinha dado uma “modernização” da Igreja.

  • Em segundo lugar, seria introduzida uma nova “teologia” que teria tendência a contradizer os ensinamentos anteriores.

  • Em terceiro lugar, os próprios Maçons e Comunistas cantariam a sua vitória, acreditando que a Igreja Católica tinha finalmente “visto a luz” em assuntos como o pluralismo, o estado secular, a igualdade das religiões, e quaisquer outros compromissos que tivessem sido atingidos.

  • Em quarto lugar, como resultado desta subversão, a nova orientação da Igreja acabaria por se sobrepor aos próprios dogmas e tradições da Igreja nos Seus ensinamentos e práticas - incluindo a Mensagem de Fátima, que teria que ser “revista” ou enterrada para se acomodar à nova orientação.

     Resta-nos agora demonstrar até que ponto este plano de subversão da Igreja foi posto em prática, e como deu motivo ao grave crime que foi cometido: a tentativa de neutralizar a autêntica Mensagem de Fátima. Ao cometerem este crime, os acusados deixaram a Igreja e o Mundo expostos aos maiores perigos, incluindo o aniquilamento de várias nações e a perda de milhões de almas. E um tal crime é, com efeito, não só contra a Igreja mas contra a humanidade.


Notas

1. Para mais dados sobre a ligação entre a Alta Vendita e a nova orientação da Igreja desde o Concílio, leia-se o opúsculo de John Vennari, The Permanent Instruction of the Alta Vendita (TAN Books and Publishers, Rockford, Illinois, 1999).

2. Cardeal Crétineau-Joly, The Roman Church and Revolution, 2º vol., ed. original, 1859, reimpressa pelo Círculo da Renascença Francesa, Paris, 1976; Monsenhor Delassus apresentou de novo estes documentos no seu trabalho The Anti-Christian Conspiracy (A Conspiração Anti-Cristã), DDB, 1910, Tom. III, pp. 1035-1092.

3. Monsenhor Dillon, Grand Orient Freemasonry Unmasked, pp. 51-56, o texto completo da Alta Vendita - Christian Book Club, Palmdale, Califórnia.

4. Michael Davies, Pope John's Council (Angelus Press, Kansas City, Missouri, 1992), p. 166.

5. The Catholic Encyclopedia, Vol. 3 (New York Encyclopedia Press, 1913), pp. 330-331.

6. Rev. E. Cahill, S.J., Freemasonry and the Anti-Christian Movement (Dublin, Gill, 1959), p. 101.

6a. Anotação acrescentada pelo Tradutor.

7. Bispo Rudolph Graber, Athanasius and the Church of Our Time (Christian Book Club, Palmdale, Califórnia, 1974), p. 39.

8. Papa Leão XIII, Humanum Genus, parágr. 31.

9. Monsenhor Dillon, Grand Orient Freemasonry Unmasked, pp. 51-56, o texto completo da Alta Vendita (Christian Book Club, Palmdale, Califórnia). Este excerto da Permanent Instruction of the Alta Vendita foi traduzido para Português a partir da versão inglesa do mesmo passo.

10. Padre Denis Fahey, Mystical Body of Christ in the Modern World (Regina Publications, Dublin, Irlanda, 1939), Cap. VII.

11. Ibid., p. 116.

12. Citado em The Catholic Doctrine, Padre Michael Muller (Benzinger, 1888), p. 282.

13. Padre Vincent Miceli, The Antichrist (Roman Catholic Books, Harrison, Nova York, 1981), p. 133.

14. Papa Pio X, Pascendi Dominici Gregis (Sobre a doutrina dos Modernistas), 8 de Setembro de 1907.

15. Papa Pio X, Sacrorum antistitum (Tradução nossa.)

16. Padre Vincent Miceli, The Antichrist, conferência em cassete, Keep the Faith, Inc., Ramsey, Nova Jersey.

17. Raymond Dulac, Episcopal Collegiality at the Second Council of the Vatican (Paris, Cèdre, 1979), pp. 9-10.

18. Athanasius and the Church of Our Time, p. 34.

19. O leitor encontrará uma relação completa de todas as citações de Roca que aqui incluímos em Athanasius and the Church of Our Time, pp. 31-40.

20. “Vésperas comuns de Católicos e Luteranos no Vaticano”, CWNews.com, 13 de Novembro de 1999: “Os Arcebispos G.H. Hammar e Jukka Paarma - respectivamente, os Primazes luteranos da Suécia e da Finlândia - e os Bispos Anders Arborelius de Estocolmo e Czeslaw Kozon de Copenhague uniram-se ao Santo Padre para o serviço de Vésperas. Estavam presentes à cerimónia vários outros bispos luteranos dos países escandinavos, incluindo duas bispas”.

21. Athanasius and the Church of Our Time, p. 36.

22. Veja-se “O plano secreto dos Vermelhos para dominar a Igreja Católica”, publicado na China Comunista em 1959. Publicado em inglês in The Fatima Crusader, Nº 19, Fevereiro-Abril 1986, p. 6. Cf. também “A profecia de Bella Dodd”, uma coluna da Internet - a Fatima Perspective - [em Inglês] pelo Dr. Christopher Ferrara (www.fatima.org/perspective235.htm); esta profecia também se encontra a pp. 47-48 deste livro. Veja-se ainda o artigo do Padre Paul Kramer, “The ‘Party Line’ in Relation to Fatima” (A ‘Linha do Partido’ em relação a Fátima), in The Fatima Crusader, Nº 69, Inverno de 2002, pp. 10 et seq.

23. “The Greatest Conspiracy”, em Christian Order de Novembro de 2000.

24. Outro ex-comunista, o Sr. Manning Johnson, prestou declarações semelhantes. Em 1953, declarou o seguinte perante a Comissão Parlamentar de Actividades Anti-Americanas: “Uma vez assente a táctica de infiltração das organizações religiosas pelo Kremlin (…) Os comunistas descobriram que a destruição da religião podia ser muitíssimo acelerada recorrendo à infiltração da Igreja por Comunistas que actuariam no próprio seio da Igreja” - e acrescentou - “Esta política de infiltrar seminários teve um sucesso que até ultrapassou as próprias esperanças dos comunistas”. Referindo-se à infiltração das instituições religiosas em geral, Manning Johnson veio a explicar: “(…) a conspiração principal para tomar conta das organizações religiosas foi efectivamente concebida durante este período (1935), e o facto de os Comunistas poderem gabar-se, nos cabeçalhos do Daily Worker, de terem 2.300 ministros protestantes a apoiá-los é o resultado desta táctica, que começou nos anos 30 quando eu era membro do Partido Comunista.” - testemunho de Manning Johnson, Investigação das actividades comunistas na área urbana de Nova York - Parte 7, Audiência da Comissão das Actividades Anti-Americanas, Câmara dos Representantes, 83º Congresso, Primeira Sessão, 8 de Julho de 1953 (publicado pela Imprensa do Governo, Washington, D.C. 1953), p. 2214. Pode encontrar-se uma colecção de citações de ex-comunistas sobre a infiltração da Igreja, no artigo de John Vennari “Heaven's Request for Reparation to the Holy Face of Jesus” (O pedido do Céu para uma Reparação à Sagrada Face de Jesus), Parte III, Catholic Family News, Agosto de 2001.

 

Capítulo 6

 

O motivo consolida-se

       Por volta de 1948, o Papa Pio XII, por sugestão do Cardeal Ruffini, que era solidamente fiel à tradição, pensou em convocar um Concílio Geral, e chegou mesmo a dedicar alguns anos aos preparativos necessários. Há indícios de que os elementos progressistas em Roma acabaram por dissuadir o Papa Pio XII de concretizar o seu projecto, porque este Concílio mostrava uma tendência bem definida de seguir a orientação da Humani Generis na sua condenação dos erros modernistas. Tal como esta grande encíclica de 1950, o futuro Concílio iria combater «as falsas opiniões que ameaçam enfraquecer insidiosamente os fundamentos da doutrina católica»1.

       Ao mesmo tempo, os “erros da Rússia” a que a Virgem de Fátima se referira estavam a penetrar na própria Igreja. Várias Ordens religiosas católicas estavam a ser infiltradas. Por exemplo, o chamado movimento dos “Padres Operários Católicos” estava tão claramente infiltrado pelos comunistas que o Papa Pio XII decidiu acabar com ele na década de 1950.

       Tragicamente, Pio XII convenceu-se de que estava demasiado idoso para meter ombros à tarefa grandiosa de um Concílio que combatesse as fileiras cada vez mais numerosas dos inimigos da Igreja, e resignou-se à decisão de que «isto ficará para o meu sucessor»2. O Papa Pio XII morreu em 9 de Outubro de 1958.

       E chegamos agora ao ano crítico do nosso caso. Chegámos a 1958, dois anos antes de 1960 - o ano em que devia revelar-se o Terceiro Segredo, de acordo com o desejo de Nossa Senhora de Fátima, como declarou a Irmã Lúcia. Durante o pontificado do Papa Pio XII, o Santo Ofício, sob a competente direcção do Cardeal Ottaviani, manteve o Catolicismo em terreno seguro, mantendo sob freio os cavalos selvagens do modernismo. Muitos dos teólogos modernistas de hoje contam desdenhosamente como eles e os seus amigos estiveram “amordaçados” durante este período.

       Todavia, nem o Cardeal Ottaviani pôde prever o que ia acontecer em 1958. Iria subir à Cadeira Pontifícia um novo género de Papa «que, segundo os progressistas acreditavam, iria favorecer-lhes a causa»3, e este Papa forçaria um relutante Ottaviani a destrancar e a abrir o curral, forçando-se a si próprio a aguentar a debandada. E nem se podia dizer que esta situação não tivesse sido prevista. Ao receber a notícia da morte do Papa Pio XII, o velho D. Lambert Beauduin, amigo de Roncalli (o futuro Papa João XXIII), confessou ao Padre Bouyer: «Se elegerem Roncalli, é a salvação: ele seria capaz de convocar um concílio e de consagrar o ecumenismo»4.

       Neste ponto da nossa exposição, e especialmente para o leitor não-Católico, deve realçar-se que as mudanças na orientação básica da Igreja (que iremos discutir) não têm qualquer antecedente na História da Igreja Católica e constituem-se, talvez, como a Sua pior crise. Um estudo atento daquilo que se lhe segue evidenciará porque é que a Mensagem de Fátima, com o seu apelo à consagração e conversão da Rússia como arauto da Paz no mundo, se tornou inaceitável para aqueles homens da Igreja, liberais e politicamente correctos, dos passados 50 anos. Estas mudanças - sem paralelo - não foram um benefício, antes um grande prejuízo, para os não-Católicos: o resultado da “modernização” da Igreja incluía não apenas os escândalos que hoje vemos entre o Clero, como também a incapacidade, por parte do elemento humano da Igreja, de realizar um acto - a solene Consagração da Rússia - que traria benefícios a toda a Humanidade.

Um Concílio é convocado e a
Mensagem de Fátima começa a ser atacada

       E aconteceu tal como D. Lambert vaticinou. Roncalli foi eleito, tomou o nome de João XXIII, convocou um Concílio e consagrou o ecumenismo. A “revolução de tiara e capa”, prevista pela Alta Vendita, estava em marcha.

       Um dos primeiros actos da revolução foi pôr de lado o Terceiro Segredo de Fátima. Contrariando as expectativas do mundo inteiro, a 8 de Fevereiro de 1960 (pouco mais de um ano após a convocação do Concílio), o Vaticano divulgava a seguinte notícia anónima, através da agência noticiosa A.N.I.:

       Cidade do Vaticano, 8 de Fevereiro de 1960 (A.N.I.) -«Acaba de ser declarado em círculos altamente fidedignos do Vaticano que é muito possível que nunca venha a ser aberta a carta em que a Irmã Lúcia escreveu as palavras que Nossa Senhora confiou aos três pastorinhos, como segredo, na Cova da Iria (...) É muito provável que o “Segredo de Fátima” fique para sempre sob absoluto sigilo.»

       E encontramos, na mesma comunicação, o primeiro ataque directo de fontes do Vaticano à credibilidade da Mensagem de Fátima, no seu todo:

       Embora a Igreja reconheça as aparições de Fátima, Ela não se compromete a Si própria garantindo a veracidade das palavras que os três pastorinhos dizem ter ouvido de Nossa Senhora.

       Dizem ter ouvido? Poderia haver alguma dúvida sobre a veracidade do seu testemunho, depois do Milagre do Sol? Poderia alguém questionar terem eles recebido do Céu uma profecia autêntica, sabendo-se que, até então, se tinham cumprido todas as predições da Mensagem - desde o fim iminente da I Guerra Mundial até ao facto de se espalharem os erros da Rússia, desde a II Guerra Mundial até à eleição do Papa Pio XI?

       Este primeiro ataque declarado contra a Mensagem de Fátima vindo do interior do aparelho de Estado do Vaticano surge em 1960, à medida que o Vaticano começa a seguir uma nova orientação da Igreja, que (como veremos em seguida) desabrochará com o Concílio Vaticano II. Consideremos estes factos, relacionando-os com o comunicado de 8 de Fevereiro de 1960:

  • O comunicado põe em causa publicamente a credibilidade de Lúcia, Jacinta e Francisco.

  • A partir de 1960, a Irmã Lúcia foi silenciada por ordem do aparelho de Estado do Vaticano5, para que não pudesse defender-se da acusação implícita de que o seu testemunho não era de confiança.

  • Os documentos do arquivo oficial de Fátima, que o Padre Alonso iria compilar entre 1965 e 1976 (mais de 5.000 documentos, em 24 volumes), serão impedidos de ser publicados - embora tais documentos confirmem que as profecias de Fátima, nas duas primeiras partes do Segredo (a eleição do Papa Pio XI, o desencadear da II Guerra Mundial, a expansão do Comunismo pelo mundo, etc.), tinham sido reveladas em privado pela Irmã Lúcia muito antes de se terem cumprido, e que o seu testemunho era completamente correcto e fiável.

       O crime tinha começado. E agora o motivo para o crime - o desejo de mudar a orientação da Igreja, afastando-A das certezas católicas da Mensagem de Fátima e aproximando-A de uma “iluminada” acomodação da Igreja ao mundo - começaria resolutamente com o início do Concílio Vaticano II em 11 de Outubro de 1962. Recordamos mais uma vez as palavras da Irmã Lúcia: que Nossa Senhora desejava que o Terceiro Segredo fosse revelado em 1960, porque seria então “mais claro”. Agora tornar-se-ia, realmente, muito claro.

Os “erros da Rússia” infiltram-se na Igreja

       Primeiro, e ainda antes da abertura do Concílio, houve mais uma traição à Mensagem de Fátima - sinal de muitas coisas sem precedentes que iriam acontecer. Na primavera de 1962, em Metz, França, o Cardeal Eugène Tisserant encontrou-se, nada mais nada menos, com o Metropolita Nikodim, da Igreja Ortodoxa Russa - um agente do KGB, tal como o eram os outros prelados ortodoxos. Nesse encontro, Tisserant e Nikodim negociaram o que viria a ser conhecido como o Pacto de Metz, ou, mais popularmente, o Acordo Vaticano-Moscovo6. A existência deste Acordo Vaticano-Moscovo é um facto histórico irrefutável, atestado em todos os seus pormenores por Monsenhor Roche, secretário particular do Cardeal Tisserant.

       O acordo era substancialmente o seguinte: o Papa João XXIII, de acordo com o seu ardente desejo, seria “favorecido” com a presença de dois observadores ortodoxos russos no Concílio; em troca, a Igreja Católica concordava que o Concílio Vaticano II não condenaria o Comunismo soviético nem a Rússia soviética. Significava isto, em essência, que o Concílio iria comprometer a liberdade moral da Igreja Católica ao fingir que aquela forma mais sistemática do Mal humano na História da Humanidade (o Comunismo) não existia - apesar de, na mesma altura em que o Concílio iniciava os seus trabalhos, os Soviéticos perseguirem, prenderem e assassinarem milhões de Católicos.

       Restringida assim a liberdade da Igreja num acordo com os Comunistas, o Concílio não fez a menor menção ao Comunismo. Com tal procedimento, o Concílio afastou-se dos ensinamentos do Papa Leão XIII, do Bem-Aventurado Pio IX, de S. Pio X e ainda do Papa Pio XI, que recordaram à Igreja que não podia deixar de se condenar este Mal incomparável. Como este último escreveu na Divini Redemptoris.

       Perigo tão ameaçador, vós já o compreendestes, Veneráveis Irmãos, é o comunismo bolchevista e ateu, que visa subverter a ordem social e abalar os próprios fundamentos da civilização cristã. Diante de tal ameaça, não podia a Igreja Católica silenciar, e não silenciou. Não silenciou principalmente esta Sé Apostólica, que tem consciência de ser missão sua especialíssima a defesa da verdade e da justiça e de todos os bens eternos que o comunismo menospreza e combate7.

       E, contudo, o Concílio não diria uma única palavra sobre o Comunismo soviético; pelo contrário, começaria a época do “diálogo” com as mesmas forças às quais a Igreja anteriormente se tinha oposto.

       Porque é que isto aconteceu? Certamente não foi por “coincidência” que o silêncio do Concílio sobre o Comunismo se sincronizou perfeitamente com a infiltração comunista da Igreja Católica - que, como vimos num capítulo anterior, fora revelada pouco antes do Concílio Vaticano II por testemunhas-chave que não tinham motivo algum para mentir (Dodd, Hyde, Golitsyn, Mitrokhin e outros). Mesmo sem estes testemunhos, o nosso senso comum dir-nos-ia que era inevitável que as forças do Comunismo (actuando ao lado das da Maçonaria) tentassem destruir a Igreja Católica a partir do Seu interior. Satanás é suficientemente inteligente para saber que a Igreja Católica é, por excelência, a Cidadela que ele deve tomar de assalto no seu esforço de conquistar todo o mundo para o reino das trevas.

       Era esta, pois, a situação da Igreja no preciso momento em que o Concílio Vaticano II foi erradamente forçado a observar um silêncio vergonhoso quanto ao Mal do Comunismo. E escusado será dizer que, sob esse Acordo Vaticano-Moscovo, a Consagração da Rússia soviética ao Imaculado Coração de Maria pelos Padres conciliares, como meio de alcançar a sua conversão, estava absolutamente fora de questão. Ora este início de viragem para uma nova orientação da Igreja - que o Concílio iria acelerar de forma muito dramática - estava já em conflito com a Mensagem de Fátima.

       E assim tem continuado a ser desde o encontro de Metz, que aumentou a procura da Ostpolitik, a política implementada pelo Secretário de Estado do Vaticano, sob a qual a Igreja cessou toda e qualquer condenação e oposição aos regimes comunistas, substituindo-as por “diálogo” e “diplomacia serena” - uma política que até hoje tem silenciado o Vaticano sobre a violenta perseguição da Igreja na China comunista.

       Assim, em 12 de Outubro de 1962, dois Padres representantes da Igreja Ortodoxa desembarcaram de um avião no Aeroporto de Fiumicino para estarem presentes no Concílio Vaticano II. E o Concílio começou, tendo observadores ortodoxos a seguir as várias sessões, certificando-se de que o Acordo Vaticano-Moscovo estava a ser cumprido. A intervenção escrita de 450 Padres Conciliares contra o Comunismo “perdeu-se” misteriosamente, depois de ter sido entregue ao Secretariado do Concílio, e os Padres Conciliares que se ergueram para denunciar o Comunismo foram delicadamente aconselhados a permanecerem sentados e calados8.

       Os próprios chefes da Igreja tinham “descido a ponte levadiça” para os Comunistas entrarem e, entretanto, Comunistas e Maçons faziam tudo por tudo para destruirem a Igreja a partir do Seu interior (recordem-se as predições de Bella Dodd):

  • encorajando «a promoção de uma pseudo-religião: qualquer coisa que se parecesse com o Catolicismo mas que na verdade o não era»;

  • acusando «a ‘Igreja do passado’ de ser opressiva, autoritária, cheia de preconceitos, arrogante ao afirmar que era a única possuidora da Verdade, e responsável pelas divisões das comunidades religiosas através dos séculos»;

  • envergonhando os dirigentes da Igreja, para que adoptassem «uma ‘abertura ao mundo’ e uma atitude mais flexível para com todas as religiões e filosofias».

       E finalmente - como Dodd predisse - «Os Comunistas explorariam então esta abertura para subverterem a Igreja».

       Este esforço imenso de subversão implicaria, em primeiríssimo lugar, a implantação da “teologia” modernista num concílio ecuménico - tal como o Cónego Roca e os outros iluminados da Maçonaria já se tinham gabado de vir a suceder.

Os neo-modernistas triunfam no Vaticano II

       A 13 de Outubro de 1962, no dia seguinte à chegada dos dois observadores comunistas ao Concílio - também dia aniversário do Milagre do Sol em Fátima -, a História da Igreja e do mundo foi profundamente alterada por um acontecimento aparentemente de importância menor. Num incidente que ficou famoso, o Cardeal Liénart, de França, pegou no microfone para exigir que fossem postos de lado os candidatos propostos pela Cúria Romana para secretariarem as comissões preparatórias do Concílio, e que se fizesse uma nova escala de candidatos. A exigência foi aceite e a eleição adiada. E quando, finalmente, se fez a eleição, quem foi eleito pelas maiorias ou quase maiorias para as comissões conciliares foram os liberais - muitos dos quais se contavam entre aqueles “inovadores” contra quem protestara o Papa Pio XII. Os esquemas preparatórios tradicionalmente formulados para o Concílio foram rejeitados, pelo que o Concílio começou literalmente sem qualquer agenda escrita, deixando o caminho aberto a documentos inteiramente novos - escritos, agora, pelos liberais.

       É bem conhecido, e foi já impecavelmente documentado9, que um grupo de periti (especialistas) e Bispos liberais se encarregou então de liderar o Concílio Vaticano II com uma agenda de trabalhos que “re-fazia” a Igreja à imagem e semelhança deles, através da implementação de uma “nova teologia”. Quanto a este ponto, unanimemente concordam tanto defensores como críticos do Vaticano II. No seu livro Vatican II Revisited, o Bispo Aloysius J. Wycislo (um defensor rapsódico da revolução conciliar) declara, com um entusiasmo atordoado, que «teólogos e eruditos bíblicos que estavam ‘mal vistos’ desde há vários anos reapareceram como periti (especialistas em Teologia e conselheiros dos Bispos no Concílio), e os seus livros e comentários post-Vaticano II tornaram-se uma leitura popularizada»10.

       Notou ainda Aloysius Wycislo que «a encíclica Humani Generis do Papa Pio XII teve (…) um efeito devastador no trabalho de um número considerável de teólogos pré-conciliares»11, explicando: «Durante os trabalhos preparatórios iniciais do Concílio, aqueles teólogos (na maioria franceses, mas também alguns alemães), cujas actividades tinham sido limitadas pelo Papa Pio XII, ainda continuavam mal vistos. O Papa João levantou discretamente a proibição que afectava alguns dos mais influentes. Todavia, outros continuaram a ser suspeitos aos olhos dos responsáveis do Santo Ofício»12.

       Neste ponto, o testemunho directo de Monsenhor Rudolf Bandas, ele próprio um peritus conciliar, é de importância decisiva para o nosso caso:

       Certamente o bom Papa João pensava que estes teólogos suspeitos viriam a rectificar as suas ideias e a prestar um autêntico serviço à Igreja. Mas aconteceu exactamente o contrário. Apoiados por certos Padres Conciliares renanos e comportando-se, muitas vezes, de forma abertamente grosseira, eles viravam-se e exclamavam: «-Olhai, fomos nomeados peritos, as nossas ideias foram aprovadas» (…) Quando, no primeiro dia da quarta sessão, entrei na minha tribuna no Concílio, a primeira declaração, emanada do Secretário de Estado, era a seguinte: «Não serão nomeados mais periti». Mas já era tarde demais. Já tinha começado a grande confusão. Já se via claramente que eles não permitiriam que nem Trento, nem o Vaticano I, nem qualquer encíclica lhes impedisse o avanço13.

       De facto, o próprio Papa João XXIII sentia-se contente ao anunciar que, a partir deste Concílio, a Igreja - coisa inexplicável - deixaria de condenar o erro e de se preocupar com o estado em que se encontrava o mundo:

       Hoje em dia (…) a Esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia às armas da severidade. Ela considera que vai ao encontro das necessidades do tempo presente ao demonstrar a validade dos Seus ensinamentos, em vez de usar de condenações (…) Sentimos que devemos discordar daqueles profetas da desgraça, que estão sempre a profetizar desastres, como se o fim do mundo estivesse próximo14.

       Mas o optimismo do Papa João XXIII contrastava nitidamente com o profundo alarme que, acerca do estado do mundo, se encontrava em muitas declarações dos seus predecessores imediatos (para não falar na própria Mensagem de Fátima). Consideremos alguns exemplos:

       O Papa S. Pio X:

       Sentimos uma espécie de terror ao considerar a situação desastrosa da Humanidade no tempo presente. Poderemos ignorar um mal tão profundo e grave que nestre momento, muito mais do que no passado, está a cavar no seu íntimo e a levá-la à ruína? (…) Na verdade, quem ponderar estas coisas deve necessária e firmemente temer se uma tal perversão das mentalidades não é um sinal anunciador, e o começo dos últimos tempos (…) [E Supremi]. (Ênfase acrescentada)

       O Papa Pio XI:

       Excluídos da legislação e dos negócios públicos Deus e Jesus Cristo, e derivando, os que regem, o seu poder, não já do alto, mas dos homens, aconteceu que ruiu o próprio fundamento da autoridade, em conseqüência de estar removida a razão fundamental do direito que a uns assiste de mandar, e da obrigação conseqüente que têm outros de obedecer. Seguiu-se daí forçosamente um abalo na humana sociedade inteira, falha assim de amparo e sustentáculo firme [Quas Primas].

       O Papa Pio XII (depois do fim da 2ª Guerra Mundial):

       Estamos esmagados pela tristeza e pela angústia, ao ver que a maldade de homens perversos atingiu um grau de impiedade que é inacreditável e absolutamente desconhecido noutras épocas [Carta de 11 de Fevereiro de 1949]. (Ênfase acrescentada)

       Conheceis muito bem, Veneráveis Irmãos, que o gênero humano quase todo tende hoje ràpidamente a separar-se em dois opostos campos de batalha, por Cristo ou contra Cristo. Vê-se agora num momento decisivo, de que há de sair ou a salvação de Cristo ou tremenda ruína. [Evangelii Praecones, 1951]. (Ênfase acrescentada)

       Claro que não deixaria de haver inúmeras batalhas no Concílio Vaticano II, entre o Grupo Internacional de Padres que lutavam pela defesa dos dogmas da Fé e da Tradição Católica, e o grupo progressista do Reno. Tragicamente, foi o elemento liberal e modernista quem prevaleceu, num processo desencadeado pelo optimismo do Papa João XXIII, para quem a verdade havia de vencer pela sua própria energia, sem a ajuda de quaisquer “terapias” condenatórias por parte do Magisterium. Wycislo canta os louvores dos progressistas triunfantes, tais como Hans Küng, Karl Rahner, John Courtney Murray, Yves Congar, Henri De Lubac, Edward Schillebeeckx e Gregory Baum, que tinham sido considerados suspeitos antes do Concílio (e com boas razões) e que agora eram as luminárias que dirigiam a teologia post-Vaticano II15.

       Com efeito, aqueles mesmos que o Papa Pio XII considerava inaptos para percorrerem as vias do Catolicismo eram agora quem tudo controlava. E como para coroar o seu sucesso, tanto o Juramento Anti-Modernista como o Índice de Livros Proibidos foram discretamente suprimidos logo a seguir ao encerramento do Concílio - decisão que o Bispo Graber considerou “incompreensível”16. O Papa S. Pio X tinha-o predito correctamente: a falta de vigilância das autoridades ocasionara o regresso em força do Modernismo.

Dois exemplos flagrantes de
Neo-Modernistas “reabilitados”

       Consideremos dois exemplos de “novos” teólogos deixados na Igreja com liberdade para fazerem o seu trabalho de destruição: Dominique Chenu e Hans Küng.

       Chenu era um defensor da Nova Teologia que Henri De Lubac celebrizara, tendo sido condenado pelas suas ideias progressistas em 1942, no pontificado do Papa Pio XII17. O seu livro Une école de théologie foi colocado no Índice de Livros Proibidos, e ele foi demitido do cargo de reitor do Colégio Dominicano de Le Saulchoir18. O Padre David Greenstock, no seu artigo de 1950, no Thomist, contra a Nova Teologia de Chenu e de De Lubac, explicou os perigos do sistema que apresentavam e a razão para que fosse condenada. Greenstock sublinhou que os partidários da Nova Teologia rejeitam a filosofia aristotélico-tomista em favor das filosofias modernas, dizendo eles que tal é necessário para apelar ao “homem moderno” que considera a filosofia tomista “irrelevante”. O resultado foi abalar a Teologia Católica, que ficou “deslocada” da firmeza dos seus fundamentos filosóficos e “mudada” para os sistemas filosóficos fluidos do século XX - muitos dos quais se fundamentam no ateísmo e no agnosticismo.

       Chenu também rejeitou a imutabilidade da Doutrina Católica, afirmando que a fonte de toda a teologia não é o dogma imutável, mas sim a vida vital19 da Igreja nos seus membros, a qual não pode separar-se da História. Assim, estritamente falando - diz Greenstock -, Chenu considerava que «a teologia é a vida dos membros da Igreja, e não uma série de conclusões tiradas de dados revelados, com a ajuda da razão» - um princípio que é escorregadio, impreciso e erróneo. Conclusão: Chenu sustentava que a religião pode mudar com os tempos e deve mudar com os tempos, segundo as exigências das circunstâncias.

       Greenstock explicou ainda que os partidários desta Nova Teologia são ao mesmo tempo heterodoxos e fraudulentos: «A principal luta com que se debate o partidário deste novo movimento» - escreveu ele - «é que a teologia, para sobreviver, tem de caminhar com os tempos. Por outro lado e simultaneamente, [esses teólogos] têm muito cuidado em repetir todas as proposições fundamentais da teologia tradicional, quase como se não houvesse qualquer intenção de a atacar. Isto é completamente verdade no caso de autores como os Padres De Lubac, Daniélou, Rahner, (…) E todos eles estão, sem dúvida, no centro deste movimento»20.

       Em 1946, o eminente teólogo dominicano Padre Reginald Garrigou-Lagrange, no seu famoso ensaio “Para onde nos leva a Nova Teologia?”21, demonstrou que os difusores da Nova Teologia (Blondel, De Lubac, Chenu) pervertem inteiramente o conceito da imutabilidade da Verdade. Assim, avisava ele, a Nova Teologia só pode levar-nos numa única direcção - em linha recta para o Modernismo.

       Enquanto tudo isto se passava, os Padres Chenu e De Lubac iam recebendo, encobertamente, protecção e encorajamento do Cardeal Suhard, Arcebispo de Paris. Foi ele que disse a Chenu que não se preocupasse, porque «Daqui a vinte anos, toda a gente na Igreja há-de falar como você». Como podemos ver, o Cardeal predisse com exactidão a invasão da Igreja pelo pensamento neo-modernista: a maior parte dos Clerigos de hoje fala, como Chenu. No início da década de 60, o Padre Chenu foi um de muitos teólogos radicais convidados pelo Papa João XXIII para o Concílio Vaticano II - no fim do qual, graças à orientação progressista do Concílio, o Padre Chenu viu muitas das suas teorias, outrora formalmente condenadas, a fazer parte dos novos ensinamentos do Vaticano II, em especial integradas em Gaudium et Spes. Chenu relata alegremente que, precisamente, aqueles pontos que fizeram com que a sua obra fosse condenada em 1942 foram exactamente os mesmos a ser agora promovidos por membros da Hierarquia, em nome do Concílio22.

       Quanto a Hans Küng, a “luminária” do período post-conciliar - trabalhou no Concílio juntamente com outros radicais, como Congar, Ratzinger, Rahner e Schillebeeckx. Nos anos 70, porém, como Küng tivesse ido “longe demais”, foi censurado pelo Vaticano devido a algumas ideias heréticas, incluindo as seguintes: rejeição da infalibilidade da Igreja; a ideia de que os Bispos não recebem de Cristo a autoridade que têm para ensinar; a sugestão de que qualquer leigo baptizado tem o poder de consagrar a Sagrada Eucaristia; a negação de que Cristo é “consubstancial” ao Pai; o lançar em descrédito doutrinas (não especificadas) sobre a Virgem Maria23.

       Mas é bom sublinhar que estas são só algumas das opiniões heréticas de Küng, as únicas a serem mencionadas nas sanções do Vaticano. Assim sendo, o Vaticano deixou intactas, na prática, as outras teses heterodoxas de Küng. Por exemplo, num dos seus livros mais famosos, intitulado On Being a Christian, Hans Küng:

  • nega a Divindade de Cristo (p. 130);

  • vota ao desprezo os milagres do Evangelho (p. 233);

  • nega a Ressurreição física de Jesus (p. 350);

  • nega que Cristo tenha fundado uma Igreja como instituição (p. 109);

  • nega que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário (p. 323)24.

       Küng nunca retractou estas declarações não-ortodoxas e heréticas. Além disso, solicitou publicamente que fosse feita uma revisão dos ensinamentos da Igreja sobre temas como a infalibilidade do Papa, o controlo da natalidade, o celibato obrigatório dos Padres, e o sacerdócio das mulheres. Apesar desta rejeição descarada dos ensinamentos da Igreja, a única sanção que o Vaticano chegou a aplicar a Küng foi “não ter autorização” para ser considerado um teólogo católico e, assim sendo, não poder ensinar Teologia em nenhuma Universidade Católica. Esta “sanção” acabou por ser diluída, quando a Universidade de Tübingen (a sua alma mater) o manteve como membro do corpo docente, tendo simplesmente reestruturado uma parte da Universidade para que Küng, uma grande celebridade, aí pudesse continuar a ensinar - naquela parte da Universidade hoje oficialmente classificada como escola “secular”.

       Neste entretanto, o Vaticano nunca condenou Küng como herege, nunca o excomungou (como o Direito Canónico prevê), nunca ordenou que os seus livros fossem retirados das bibliotecas dos Seminários e Universidades católicos (onde ainda hoje se encontram em abundância), nunca o impediu de ser conferencista-convidado em instituições católicas, nunca causou impedimentos à publicação de artigos seus na Concilium ou noutras publicações “católicas” progressistas. O Padre Hans Küng nem sequer foi suspenso. Pelo contrário, ainda hoje é Sacerdote em exercício na diocese de Basileia, e não há outras sanções canónicas levantadas contra ele.

       Isto quer dizer que um Padre que continua a vomitar o seu veneno herético para cima de qualquer um ao seu alcance continua a ser autorizado a presidir a liturgias públicas, a pregar e a aconselhar nas confissões. No Vaticano, a Congregação para o Clero, dirigida pelo Cardeal Castrillón Hoyos, deixa-o “intocável”. Portanto, apesar da leve “condenação” do Vaticano, Küng conserva o acesso a uma grande variedade de “canais” influentes que disseminam a sua venenosa doutrina por toda a Igreja. Diz-se até que foram as “descobertas teológicas” de Hans Küng sobre a natureza da Igreja que forneceram a “base teológica” que tornou possível o Acordo “Luterano-Católico”, em 1999.

       E mais: em 1998, o Cardeal Sodano - Secretário de Estado do Vaticano e o prelado mais poderoso da Igreja - teceu louvores a Küng em discurso público na Basílica de S. João de Latrão, elogiando as suas «belas páginas dedicadas ao Mistério Cristão»25. O Cardeal Sodano também se referiu a Küng como “o teólogo alemão”, embora ele tivesse sido (supostamente) privado desse título. (Este é o mesmo Cardeal Angelo Sodano que, em última análise, está por detrás da actual perseguição feita ao Padre Nicholas Gruner e ao seu Apostolado de Fátima, como veremos).

       Ora a condenação de 1942, com que o Vaticano fulminava Chenu, foi muito mais severa do que a de Küng. Mas Chenu não só lhe “sobreviveu”, como até veio a ser um grande nome da Igreja Conciliar, sem nunca ter renunciado às suas ideias erróneas. O mesmo sucedeu com Rahner, Congar, De Lubac e von Balthasar, todos eles teologicamente suspeitos antes do Concílio, e gozando depois de grande prestígio - embora não tivessem sequer abandonado uma só das suas opiniões heterodoxas. Mesmo alguém como Küng tem razões para acreditar que qualquer pequena condenação que ele sofra não passará de um inconveniente temporário, um contratempo aborrecido, o destino de todos os verdadeiros “profetas”. Assim como Chenu viu as suas ideias heréticas acabarem por se impor graças a um Concílio revolucionário, da mesma maneira Küng pode respirar, a plenos pulmões, a esperança de que, num futuro não muito distante, os seus erros venham eventualmente a ser adoptados de facto pelo Catolicismo “corrente” - mesmo que não fiquem a ser ensinamentos do autêntico Magisterium, que nunca poderia impor tais erros à Igreja.

Os Neo-Modernistas aclamam a
“nova” Igreja do Vaticano II

       Foi, pois, com fortes motivos para tal, que os progressistas - como o Cardeal Suenens, Küng, Louis Bouyer e Yves Congar - celebraram o Concílio Vaticano II como uma Revolução, como a morte de uma era e o começo de outra:

  • O Cardeal Suenens, que gozava de grande influência sobre o Papa Paulo VI e que é o ídolo dos que se auto-denominam “Carismáticos” dentro da Igreja, alegrou-se pelo facto de o Vaticano II ter marcado o fim tanto da Época Tridentina como da era do Vaticano I26.

  • Hans Küng vangloriou-se porque, «Comparado com a época Post-Tridentina da Contra-Reforma, o Concílio Vaticano II representa, nas suas características fundamentais, uma reviravolta de 180 graus (…) É uma nova Igreja, a que nasceu depois do Concílio Vaticano II»27.

  • O Padre francês Bouyer, que foi peritus no Concílio, exclamou com alegria que o aspecto anti-protestante e anti-modernista da Igreja Católica «mais valia morrer»28.

  • Da mesma maneira, La Civiltà Cattolica - revista jesuíta com sede em Roma - exclamou com alegria: «Com o Concílio Vaticano II, a Era Tridentina ficou encerrada para a Igreja»29.

       Estas declarações são sobremaneira ousadas, quando consideramos que os Concílios de Trento e do Vaticano I são Concílios dogmáticos, cujos ensinamentos não podem nunca ser mudados, ignorados ou reinterpretados em nome de um “conhecimento mais profundo”. O Concílio Vaticano I declarou infalivelmente:

       Sempre se deve ter por verdadeiro sentido dos dogmas aquêle que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido, nem a título de uma inteligência mais elevada, afastar-se dêste sentido30.

       Todavia, os modernistas - tal como avisara o Papa S. Pio X - não aceitam nada como fixo ou imutável. O seu princípio mais importante é o da “evolução do dogma”. Defendem a noção de que a religião deve mudar à medida que os tempos mudam. A este respeito, bem como a respeito de muitos outros pontos, os impulsionadores do Vaticano II revelam-se como pessoas embebidas no erro do Modernismo.

Maçons e Comunistas exultam

       Juntamente com os neo-modernistas, tanto Maçons como Comunistas exultaram com o resultado do Concílio. Tal como os autores da The Permanent Instruction of the Alta Vendita tinham desejado, tal como os infiltrados comunistas a que Bella Dodd se referiu tinham desejado, as noções da cultura liberal tinham finalmente ganho apoiantes ao mais alto nível da Hierarquia Católica. Maçons e Comunistas celebraram a espantosa reviravolta trazida pelo Concílio. Alegram-se ao ver que, finalmente, os Católicos “viram a luz”, pois que muitos dos seus princípios maçónicos foram aceites pela Igreja.

       Por exemplo, Yves Marsaudon, do Rito Escocês, no seu livro Ecumenism Viewed by a Traditional Freemason, louvou o ecumenismo nascido do Concílio Vaticano II. Escrevia ele:

       Os Católicos (…) não devem esquecer que todos os caminhos levam a Deus. E vão ter de aceitar que esta corajosa ideia do livre pensamento, a que podemos realmente chamar uma revolução, difundida através das nossas lojas maçónicas, se espalhou de forma magnífica por sobre a cúpula de S. Pedro31.

       Yves Marsaudon deleitava-se ao acrescentar que «Pode-se dizer que o ecumenismo é o filho legítimo da Maçonaria»32.

       O espírito de dúvida e de revolução característico do Post-Vaticano II alegrou, obviamente, o coração do maçon francês Jacques Mitterand, que escreveu com aprovação:

       Alguma coisa mudou dentro da Igreja, e as respostas dadas pelo Papa às questões mais urgentes, como o celibato dos Padres e o controlo da natalidade, são debatidas vigorosamente no seio da própria Igreja; a palavra do Sumo Pontífice é questionada pelos Bispos, pelos Padres, pelos fieis. Para um maçon, um homem que questiona o dogma já é um maçon sem avental33.

       O francês Marcel Prelot, Senador pela Região de Doubs, é provavelmente o mais exacto ao descrever o que realmente aconteceu. Escreveu ele:

       Lutámos durante século e meio para fazer vingar as nossas opiniões dentro da Igreja e não o conseguimos. Finalmente, chegou o Vaticano II e nós triunfámos. A partir daí, as proposições e os princípios do Catolicismo liberal foram definitiva e oficialmente aceites pela Santa Igreja34.

       Os Comunistas ficaram igualmente deliciados com os resultados do Concílio. Como declarou o Partido Comunista Italiano no seu 11º Congresso, em 1964: «O extraordinário ‘despertar’ do Concílio, que pode comparar-se com exactidão aos Estados Gerais de 1789, mostrou a todo o mundo que a velha Bastilha político-religiosa foi abalada até aos alicerces»35. L'Unità, jornal oficial do Partido Comunista Italiano, teve o descaramento de, a respeito do Arcebispo Marcel Lefebvre - que chefiava a oposição tradicionalista contra os liberais conciliares e tinha proposto que o Concílio condenasse o Comunismo -, aconselhar o Papa Paulo VI: «Tende consciência do perigo que Lefebvre representa. E continuai o magnífico movimento de aproximação começado com o ecumenismo do Vaticano II»36.

Uma “orientação” completamente nova para a Igreja

       As manifestações públicas de contentamento feitas pelas luminárias neo-modernistas, pelos Comunistas e pelos Maçons a respeito do Vaticano II não são de admirar. Era óbvio, para quem tivesse olhos para ver, que o Concílio Vaticano II parecia adoptar ideias que tinham sido condenadas pelo Bem-Aventurado Papa Pio IX no Syllabus dos Erros, mas que estavam em concordância com o Pensamento modernista. (Como explicaremos mais adiante, o próprio Cardeal Ratzinger descreveu certos aspectos dos ensinamentos do Concílio como sendo um “contra-Syllabus”). Claro que isto não aconteceu por acaso, mas de propósito. No Vaticano II, os progressistas procuraram evitar declarações directas que se visse facilmente serem erros modernistas condenados; do mesmo modo, “plantaram” deliberadamente ambiguidades nos textos conciliares que tencionavam explorar depois do Concílio37.

       Utilizando ambiguidades deliberadas, os documentos conciliares promoveram um ecumenismo que fora condenado pelo Papa Pio IX, uma liberdade religiosa para falsas seitas que os Papas do Século XIX (especialmente o Bem-Aventurado Pio IX) tinham condenado, uma nova liturgia segundo as orientações do Protestantismo e do ecumenismo, a que o Arcebispo Bugnini38 chamou «uma conquista da maior importância para a Igreja Católica», uma colegialidade que ataca o cerne da primazia papal, e uma «nova atitude para com o mundo» - especialmente em Gaudium et Spes, um dos mais radicais documentos conciliares. Até o Cardeal Ratzinger admitiu que a Gaudium et Spes está permeada pelo espírito de Teilhard de Chardin39.

       O resultado de tudo isto foi, nada mais nada menos, do que uma orientação inteiramente nova para a Igreja: aquilo a que o Papa Paulo VI chamou “abertura ao mundo”. Todavia, como o próprio Papa Paulo VI foi forçado a admitir, a abertura ao mundo provou ser um erro de cálculo absolutamente desastroso.

O Papa Paulo VI admite que a Igreja
foi invadida pelo pensamento mundano

       Como até o Papa Paulo VI admitiu oito anos após o Concílio, «a abertura ao mundo tornou-se uma verdadeira invasão da Igreja pelo pensamento mundano. Fomos talvez demasiado fraco e imprudente.» Mas já três anos depois do Concílio o Papa Paulo VI tinha admitido que «A Igreja está num período agitado de autocrítica, que poderia antes chamar-se auto-demolição»40. E em 1972, talvez no mais espantoso comentário jamais feito por um Pontífice Romano, Paulo VI lamentou que «Por alguma fresta o fumo de Satanás entrou no Templo de Deus»41.

       Consideremos algumas das razões manifestas para as confissões estarrecedoras do Papa Paulo VI.

A Igreja “abre-se” ao “diálogo”
com Comunistas e Maçons, seus inimigos

       Com o Vaticano II começou a grande empresa de colaboração com as forças do mundo, a grande abertura ao mundo. Em parte alguma é isto mais visível do que na própria encíclica Gaudium et Spes, que declara: «Por meio de estudo constante, eles» - isto é, todos os Padres da Igreja Católica, todos os Bispos, todos os membros da Hierarquia - «devem estar preparados para fazerem por estabelecer diálogo com o mundo e com homens de todos os géneros de opiniões».

       Não faltará neste momento quem diga: -Mas que mal tem a colaboração pacífica e o diálogo com homens de todos os géneros de opiniões, em assuntos em que a Igreja possa encontrar uma espécie de acordo básico? Ora, também aqui os Papas pré-conciliares nos alertaram para mais um dos truques e enganos do Demónio, sob a aparência do Bem. Falando precisamente sobre este apelo à colaboração e ao diálogo com os Comunistas em causas que supostamente são comuns a toda a Humanidade - o que, na verdade, é o apelo do Demónio para que a Igreja deponha as armas e se junte ao inimigo -, o Papa Pio XI avisou-nos da seguinte maneira na Divini Redemptoris:

       O comunismo manifestou-se no comêço tal qual era em tôda a sua perversidade, mas logo percebeu que assim afastava de si os povos; mudou então de tática, e procura ardilosamente atrair as multidões, ocultando os próprios intuitos atrás de ideias, em si boas e atraentes. (...) Assim sob denominações várias, que nem sequer fazem alusão ao comunismo, fundam associações e periódicos, que, na verdade, servem só para fazer penetrar suas idéias em meios que doutra forma lhes seriam menos acessíveis; procuram até infiltrar-se insidiosamente em associações católicas e religiosas. Assim, em alguns lugares, mantendo-se firmes em seus perversos princípios, convidam os Católicos a colaborar com êles, no chamado campo humanitário e caritativo, propondo por vêzes coisas em tudo até conformes ao espírito cristão e à doutrina da Igreja. (...) Velai, Veneráveis Irmãos, por que se não deixem iludir os fiéis. Intrìnsecamente mau é o comunismo, e não se pode admitir, em campo algum, a colaboração recíproca, por parte de quem quer que pretenda salvar a civilização cristã42.

       O Papa Pio XI não podia ter sido mais claro quanto ao dever de evitar o “diálogo” e a colaboração com Comunistas. E por que razão? «Diz-me com quem andas, e dir-te-ei quem és,» ou, como dizem os italianos, Dimmi con chi vai, e ti dirò che sei. Como o Papa Pio XI reconheceu, quem se associa a um certo tipo de pessoas acaba inevitavelmente por ser influenciado, mesmo contra vontade, a tornar-se como elas. Quem colabora com as forças do mundo defrontará a tendência destas para o seduzir, e ficará como elas. Se a Igreja Se abre ao mundo no sentido de cessar a Sua oposição aos poderes a que Ela anteriormente se opôs, e se a Igreja agora disser que passará a colaborar e a dialogar com os Seus inimigos, os membros da Igreja ficarão, a seu tempo, como aqueles a que dantes se opunham. Deste modo, a abertura ao mundo resultará em a Igreja ficar como o mundo - como até o Papa Paulo VI se viu obrigado a admitir na declaração supra citada.

A Igreja “reconcilia-se” com o Liberalismo

       Os “conservadores” que negam que o Vaticano II constitui uma quebra da tradição, ou que contradiz ensinamentos anteriores, certamente não escutaram os promotores e agitadores do Concílio, que confessam desavergonhadamente a verdade. Yves Congar, um dos “peritos” do Concílio e o principal dos artesãos das reformas conciliares, confessou com uma satisfação discreta que «A Igreja teve pacificamente a sua Revolução de Outubro»43. Congar admitiu também, como se fosse algo de que devesse orgulhar-se, que a Declaração sobre a Liberdade Religiosa do Vaticano II é contrária ao Syllabus do Papa Pio IX44. E acrescentou:

       Não pode negar-se que a afirmação da liberdade religiosa pelo Vaticano II diz materialmente uma coisa muito diferente da que o Syllabus de 1864 disse, e até mesmo o oposto das proposições 16, 17 e 19 deste documento45.

       Congar sugere jubilosamente que o Vaticano II desfez uma condenação papal de erro que era infalível.

       Particularmente notáveis são as declarações do Cardeal progressista Suenens, um dos prelados mais liberais do século XX e, além disso, um Padre Conciliar, que escreveu com alegria dos antigos regimes que vieram a ser demolidos. As palavras que usou para louvar o Concílio são excepcionalmente reveladoras, talvez as mais arrepiantes e as mais condenatórias de todas. Declarou Suenens que “o Vaticano II é a Revolução Francesa da Igreja”46.

       E há poucos anos, o próprio Cardeal Ratzinger, aparentemente não perturbado por tais afirmações, acrescentou-lhes uma da sua lavra. Segundo ele, o texto do Vaticano II Gaudium et Spes não é senão um “contra-Syllabus”. Escreveu:

       Se é desejável apresentar um diagnóstico do texto (Gaudium et Spes), no seu todo, podemos dizer que (de conjunção com os textos da liberdade religiosa e com as religiões do mundo) é uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de contra-Syllabus ... Limitemo-nos a dizer aqui que o texto serve de contra-Syllabus e, como tal, representa uma tentativa da parte da Igreja de uma reconciliação oficial com a nova era inaugurada em 1789... a posição unilateral adoptada pela Igreja desde Pio IX e Pio X, em resposta à situação criada pela nova fase da história pela Revolução Francesa, foi corrigida em larga medida pelos factos, especialmente na Europa Central, mas ainda não havia uma declaração básica sobre a relação que devia existir entre a Igreja e o mundo que surgira depois de 1789. De facto, continuou a existir nos países com uma forte maioria católica uma atitude que era largamente pré-revolucionária. Quase ninguém negará hoje que as Concordatas espanholas e italianas fizeram por conservar demasiado de uma visão do mundo que já não correspondia aos factos. Quase ninguém negará hoje que, no campo da educação e com respeito ao método histórico-crítico da ciência moderna, existiam anacronismos que correspondiam de perto a esta aderência a uma relação obsoleta entre a Igreja e o Estado47.

       Repare-se na pura audácia de um Cardeal que chama “unilaterais”, nos seus esforços para proteger a Igreja dos erros do liberalismo e do modernismo, a dois dos maiores Papas da história da Igreja! Segundo o Cardeal Ratzinger, no Vaticano II a Igreja fez uma “tentativa” para “corrigir” e “contradizer” os ensinamentos do Bem-Aventurado Pio IX e de S. Pio X, e, pelo contrário, para se reconciliar com a Revolução Francesa e com o Iluminismo.

       Mas este era exactamente o objectivo da Instrução Permanente, o plano maçónico de subversão da Igreja! Foi precisamente por isso que, no Syllabus de Erros, o Bem-Aventurado Pio IX condenou a proposição de que «O pontífice romano póde e deve reconciliar-se e conformar-se com o progresso, com o liberalismo e com a moderna civilisação.» (Proposição Condenada Nº 80). E S. Pio X, na sua encíclica Notre Charge Apostolique, condenou o movimento do Sillon em França, censurando os seus membros porque «Não temem empreender reconciliações blasfemas entre o Evangelho e a Revolução».

       Mas, segundo o Cardeal Ratzinger, “não pode haver um regresso ao Syllabus, que pode ter marcado a primeira fase no confronto com o liberalismo mas não pode ser a última fase”48. E o que é esta última “fase” no “confronto com o liberalismo”? Aparentemente, sob o ponto de vista do Cardeal Ratzinger, é a aceitação por parte da Igreja daquelas ideias que Ela anteriormente condenara! Confrontar o liberalismo reconciliando-se com ele? Que espécie de linguagem é esta? A “confrontação” de Ratzinger com o liberalismo não passa de uma rendição vergonhosa.

       Além do mais, na opinião do Cardeal Ratzinger, não só as condenações do liberalismo no Syllabus do Bem-Aventurado Pio IX, mas também os ensinamentos anti-modernistas de S. Pio X na Pascendi devem agora ser considerados ultrapassados. Em 1990, a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou uma “Instrução sobre a Vocação Eclesiástica do Teólogo”. Ao explicar a Instrução à imprensa, o Cardeal Ratzinger declarou que certos ensinamentos do Magistério «não eram considerados como a palavra final sobre o assunto como tal, mas serviam antes de ancoragem no problema, e sobretudo como uma expressão de prudência pastoral, uma espécie de disposição temporária»49. Como exemplos destas “disposições temporárias”, Ratzinger citou «as declarações dos Papas durante o último século sobre a liberdade religiosa, assim como as decisões anti-modernistas do começo deste século ...»50 - ou seja, os ensinamentos anti-modernistas de S. Pio X no início da década de 1900.

       Estes comentários do Cardeal Ratzinger deveriam perturbar qualquer Católico, não só por admitirem que o Concílio abraçou um objectivo preferido dos inimigos da Igreja, mas ainda por virem do homem que, como chefe da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), está supostamente encarregado de guardar a pureza da doutrina católica. E este, como veremos mais adiante, é o mesmo homem que comandou o ataque para desfazer a compreensão tradicional católica da Mensagem de Fátima.

É abandonado o ensinamento de que
a Igreja Católica Romana é exclusivamente
a única e verdadeira Igreja de Cristo

       Assim como a tentativa de reconciliar a Igreja com os princípios da Revolução Francesa neutralizaria a oposição, outrora firme, da Igreja aos erros da idade moderna, também a “aventura ecuménica” lançada no Concílio depressa levaria ao abandono de facto de todos os esforços para converter os protestantes e cismáticos à Fé Católica - como no caso da conversão da Rússia.

       Ao mesmo tempo que o Concílio adoptava o “movimento ecuménico” - apenas 35 anos depois de o Papa Pio XI o ter condenado na sua encíclica Mortalium Animos - o documento conciliar Lumen Gentium confundiu por completo a doutrina da Igreja Católica como sendo a única Igreja verdadeira. Segundo a Lumen Gentium, «a Igreja de Cristo... subsiste na Igreja Católica». (ênfase acrescentada)

       Isto é de espantar. Por que razão o documento não proclama claramente o que a Igreja Católica sempre ensinou, como transparece das encíclicas de Pio XII - ou seja, que a única e verdadeira Igreja de Cristo é a Igreja Católica51? Para quê empregar um termo favorável ao erro progressista de que a Igreja de Cristo é, na realidade, maior do que a Igreja Católica, de modo que as seitas cismáticas e protestantes são “de certa maneira misteriosa” parte da Igreja de Cristo, ou ligadas a ela? Este erro, baseado no uso da palavra “subsiste” pelo Vaticano II, é anunciado aos quatro ventos pelo Padre Avery Dulles, recentemente feito Cardeal pelo Papa João Paulo II:

       A Igreja de Jesus Cristo não é exclusivamente idêntica à Igreja Católica Romana. Subsiste realmente no Catolicismo Romano, mas também está presente de vários modos e graus noutras comunidades cristãs, de tal modo que estas são também o que Deus iniciou em Jesus e são obedientes às inspirações do Espírito de Cristo. Em resultado da sua partilha comum da realidade da Igreja única, as diversas comunidades cristãs já têm umas com as outras uma comunhão verdadeira, embora imperfeita52. (Ênfase acrescentada)

       Da mesma maneira, o Cardeal Ratzinger adopta mais uma vez as ideias da “nova teologia”. Numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, disse o seguinte:

       Quando os Padres Conciliares substituíram a palavra “est” pela palavra “subsistit” (subsiste), fizeram-no por uma razão muito precisa. O conceito expresso por “est” (ser) é muito mais largo do que o que é expresso por “subsistir”. “Subsistir” é uma maneira de ser muito precisa, isto é, para ser sujeito, que existe em si próprio. Assim, os Padres Conciliares queriam dizer que o ser da Igreja como tal é uma entidade mais ampla do que a Igreja Católica Romana, mas dentro dela adquire, de forma incomparável, as características de um sujeito autêntico e adequado53. (Ênfase acrescentada)

       O Cardeal Ratzinger afirma, pois, que os Padres Conciliares pretendiam dizer que o “ser” da Igreja é mais amplo do que a Igreja Católica, mas esta afirmação é falsa. A generalidade dos Padres Conciliares não tinha intenção de contrariar os ensinamentos do Papa Pio XII, segundo os quais a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, e não uma vaga “entidade” que é “mais ampla” do que a Igreja Católica.

       Na verdade, foi a intenção de Ratzinger usar a ambiguidade para enfraquecer insidiosamente o ensino tradicional de que a única Igreja de Cristo é a Igreja Católica - intenção esta que partilhou com os seus co-conspiradores da “nova teologia” no Vaticano II. Sabemos isto porque foi o próprio Padre Ratzinger, servindo como peritus teológico no Concílio, que introduziu a palavra “subsistit” (subsiste) no rascunho do documento conciliar Lumen Gentium. Inseriu este termo por sugestão de um ministro protestante, o Pastor Schmidt, da Alemanha.

       Se o leitor acha que a explicação dada pelo Cardeal Ratzinger para o uso do termo “subsistit” é confusa, saiba que foi de propósito. “Subsiste” e “é” podem, contudo, significar a mesma coisa, ao contrário do que Cardeal Ratzinger sugere. Pela necessidade de precisão que deve caracterizar qualquer documento conciliar, o Concílio deveria ter afirmado claramente que «A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica.» Mas, como admitiu o Padre Edward Schillebeeckx, outro peritus do Concílio, os seus confrades liberais tinham inserido deliberadamente ambiguidades nos textos conciliares54, sabendo que poderiam mais tarde interpretá-los de forma heterodoxa depois do Concílio.

       Isto é precisamente o que o Cardeal Ratzinger faz agora com o termo ambíguo “subsistit” (subsiste). Com efeito, o texto original em alemão da entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung acima citada mostra que Ratzinger ainda é mais radical no seu afastamento dos ensinamentos do Papa Pio XII: «... die Konzilsväter das von Pius XII gebrauchte Wort ‘ist’ durch ‘subsistit’ ersetzten» - literalmente, «... os Padres Conciliares substituíram a palavra ‘é’, usada por Pio XII, por ‘subsistit’». Isto é, o Cardeal Ratzinger admite que o Vaticano II substituiu a terminologia do Pio XII - graças ao próprio Cardeal Ratzinger e ao seu amigo ministro protestante! Ainda pior, lê-se ainda no texto original da entrevista: “So wollten die Väter sagen: Das Sein der Kirche als solches reicht viel weiter als die römisch-katholische Kirche” - literalmente, “Assim, os Padres queriam dizer: a Igreja como entidade abrange muito mais do que a Igreja Católica Romana”55. Portanto, Dulles e Ratzinger contradizem terminantemente o ensinamento católico perene de que a Igreja de Cristo existe exclusivamente na Igreja Católica. Apesar disso, o seu ponto de vista é hoje a interpretação comum do Vaticano II.

       Temos aqui um bom exemplo de como os “novos teólogos” do Vaticano II passaram a bola teológica para eles próprios, fingindo ao mesmo tempo que foi o “Concílio” que fez o passe.

A Igreja já não procura a
conversão e o regresso dos herejes e cismáticos

       Com esta nova visão da “Igreja de Cristo” como qualquer coisa muito maior do que a Igreja Católica Romana, não admira que hoje, depois de 40 anos de “actividade ecuménica”, até os prelados do Vaticano repudiem abertamente o regresso dos protestantes e cismáticos a Roma.

       Um exemplo proeminente deste afastamento do ensino tradicional é a declaração recente do Cardeal Walter Kasper, antigo secretário do mais conhecido herege post-conciliar na Igreja, Hans Küng. Kasper, cujas ideias modernistas são bem conhecidas em toda a Igreja, foi elevado a Cardeal pelo Papa João Paulo II em Fevereiro de 2001, e actualmente é, no Vaticano, Prefeito do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Disse Kasper:

       … hoje já não compreendemos o ecumenismo no sentido de um regresso, pelo qual os outros se ‘converteriam’ e voltariam a ser ‘Católicos’. Isto foi expressamente abandonado no Vaticano II56.

       A verdade é que a declaração de Kasper menospreza o dogma infalível, três vezes definido, de que «fora da Igreja não há salvação» (extra ecclesia nulla salus). A própria linguagem destas três definições solenes e infalíveis (e, portanto, impossíveis de serem mudadas)57, que são impostas a todos os Católicos58 (sem excepção alguma, incluindo Cardeais e Papas) sob pena de serem automaticamente excomungados (isto é: de serem, por si próprios, expulsos da Igreja Católica) é o seguinte:

       Só há uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual ninguém poderá salvar-se (Papa Inocêncio III, IV Concílio de Latrão, 1215; D.S. 802; Dz.-Hünermann 802).

       Declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário para a salvação de toda a criatura humana estar sujeita ao Pontífice Romano (Papa Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam, 1302; D.S. 875; Dz.-Hünermann 875).

       A Santíssima Igreja Romana crê firmemente, professa e prega que nenhum dos que existem fora da Igreja Católica, não só pagãos como também judeus, heréticos e cismáticos, poderá ter parte na vida eterna; mas que irão para o fogo eterno que foi preparado para o demónio e os seus anjos, a não ser que a ela se unam antes de morrer; e que a unidade deste corpo eclesiástico é tão importante que só aqueles que se conservarem dentro desta unidade podem aproveitar-se dos sacramentos da Igreja para a sua salvação, e apenas eles podem receber uma recompensa eterna pelos seus jejuns, pelas suas esmolas, pelas suas outras obras de piedade cristã e pelos deveres de um soldado cristão. Ninguém, por mais esmolas que dê, ninguém, mesmo que derrame o seu sangue pelo Nome de Cristo, pode salvar-se, a não ser que permaneça no seio e na unidade da Igreja Católica (Papa Eugénio IV, Bula Cantate Domino, 1442; D.S. 1351; Dz.-Hünermann 1351)58a.

       Este ensinamento não deve entender-se como excluindo a possibilidade de salvação àqueles que não sejam membros formais da Igreja Católica, se, sem culpa própria, não sabem da sua obrigação objectiva em o fazer. Mesmo assim, tal como o Bem-Aventurado Papa Pio IX ensinou em Singulari Quadem, os Católicos não têm que se preocupar com especulações infundadas sobre a salvação daqueles que, formalmente, não sejam membros da Igreja, uma vez que só Deus sabe quem se irá salvar (de algum modo extraordinário), de entre o grande número de pessoas que, da Humanidade, não professou exteriormente a religião católica. Por esta razão, o Bem-Aventurado Pio IX - que o próprio Papa João Paulo II beatificou - exortou os Fiéis a sustentarem o dogma de que «fora da Igreja Católica não há salvação» e a continuarem, com um fervor cada vez maior, o trabalho divinamente indicado para a Igreja: fazer discípulos em todas as nações. Com respeito ao destino daqueles que permanecerem fora da Igreja visível, Sua Santidade advertiu que «toda a inquirição além disto é ilegal».

       Quem pode duvidar da sabedoria da advertência do Bem-Aventurado Papa Pio IX? Com efeito, a Igreja também ensinava como infalível, e constantemente, que ninguém neste Mundo (excepto se houve uma revelação privada) pode saber com certeza absoluta o estado subjectivo de qualquer alma, e muito menos se uma alma — mesmo que seja a sua própria alma — está contada entre o número dos eleitos. Uma vez que não é possível, para a Igreja, presumir que qualquer pessoa venha a ser salva ou condenada, os ministros da Igreja são obrigados pelo dever a procurarem obter a conversão de cada um dos homens, mulheres e crianças à face da terra, de acordo com os Mandamentos de Nosso Senhor: «Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt. 28:19-20); «Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado.» (Mc. 16:16).

       Ao afirmar que os Protestantes já não necessitam de se converter ao Catolicismo, o Cardeal Kasper opõe-se descaradamente tanto ao ensino infalível do Magistério como aos próprios Mandamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. O ponto de vista de Kasper também contradiz abertamente o ensino constante da Igreja de que a única via para a unidade dos cristãos é o regresso dos dissidentes à Igreja Católica através da sua conversão. Na admoestação que o Papa Pio XII fez em 1949 ao Santo Ofício sobre o “movimento ecuménico”, os Bispos eram avisados que, em quaisquer discussões “ecuménicas” que porventura autorizassem, deviam apresentar-se aos interlocutores protestantes “a verdade católica” e “os ensinamentos das Encíclicas dos Pontífices Romanos sobre o regresso dos dissidentes à Igreja59. A doutrina católica do regresso dos dissidentes foi salientada pelo Pio XII em 20 de Dezembro de 1949: «A doutrina católica deverá ser proposta e total e integralmente exposta: o que a Igreja Católica ensina sobre a verdadeira natureza e meios de justificação, sobre a constituição da Igreja, sobre a primazia da jurisdição do Romano Pontífice, sobre a única união verdadeira que se obtém pelo regresso dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo, não deve ser silenciada nem coberta por palavras ambíguas»60.

       Pelo menos, Kasper diz abertamente aquilo em que a maioria dos prelados parece hoje acreditar, mas não o confirma nem desmente. Mas o plano de acção de Kasper representa, de facto, o “espírito do Vaticano II” que prevalece. Quem o confirmou foi o Cardeal Ratzinger em pessoa, quando ainda era o Padre Ratzinger. No seu livro de 1966 Theological Highlights of Vatican II, diz Ratzinger que o Concílio deu à Igreja uma nova orientação com respeito aos não-Católicos, que dispensa qualquer apelo à sua conversão:

       A Igreja Católica não tem o direito de absorver as outras Igrejas (...) [Uma] unidade básica - das Igrejas continuando a ser Igrejas, mas constituindo uma só Igreja - deve substituir a ideia da conversão, mesmo que a conversão continue a ter significado para os que a procurarem em consciência61.

       Ora, o Cardeal Ratzinger escreveu este livro durante o Concílio. Como trabalhava com Karl Rahner, esteve muito envolvido na redacção dos documentos conciliares. É, portanto, capaz de nos contar quais eram as verdadeiras intenções dos “arquitectos” do Vaticano II, o que não se deve confundir com as intenções dos próprios Padres Conciliares. E declara que o Vaticano II, segundo os autores dos documentos, ensinou que a conversão é uma opção62. O que quer dizer que um não-Católico não precisa de se converter à verdadeira Igreja - nem para se salvar nem por causa da unidade.

       Este ponto de vista não é menos radical do que o do Padre Edward Schillebeeckx, outro peritus conciliar progressista, que foi investigado pelo Vaticano depois do Concílio (mas nunca sancionado) pela sua negação aberta de vários dogmas católicos. Schillebeeckx exultou ao constatar que «no Vaticano II, a Igreja Católica abandonou oficialmente o seu monopólio sobre a religião cristã»63.

       Da mesma maneira, um periódico “católico” do Serviço Internacional de Documentação de Judeus e Cristãos (SIDIC)64, com base em Roma, referiu-se à nova orientação do Vaticano II sobre os não-Católicos. Em 1999 apontou o que considera ser o “principal problema” com os chamados “Católicos tradicionais”, incluindo o Arcebispo Lefebvre:

       A recusa de Lefebvre em aceitar o ecumenismo tem a sua origem em documentos claros do Magistério: a encíclica Satis Cognitum de Leão XIII (1896); a encíclica Mortalium Animos de Pio XI (1928); a Instrução do Santo Ofício de 20 de Dezembro de 1949 sobre o ecumenismo. O único ecumenismo aceite por Lefebvre e os seus seguidores é o que luta pelo regresso incondicional dos membros das outras confissões à única Igreja de Cristo, a Igreja Católica Romana. Este sectarismo endurecido é precisamente o género de lógica que o Vaticano II, através de uma reflexão profunda sobre a natureza da Igreja, recusou aceitar. Embora tendo as suas raízes na Tradição [sic], o âmbito da reflexão do Concílio não teve precedentes na história do Cristianismo. Para os integralistas, o ecumenismo é uma das traições fundamentais do Vaticano II” (ênfase acrescentada).65

       A teoria moderna de que os não-Católicos não precisam de se converter porque já são “de uma maneira misteriosa” parte da Igreja de Cristo66 menospreza o ensino perene da Igreja sobre a necessidade de os não-Católicos abandonarem os seus erros e regressarem à única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo, tal como os Papas pré-conciliares ensinaram por unanimidade.

       Há relatórios de casos em que Cardeais do Vaticano desencorajam activamente os não-Católicos de quererem converter-se ao Catolicismo concordando, evidentemente, com esta mesma interpretação falsa do Concílio. O Catholic Family News publicou a história do Padre Linus Dragu Popian, que tinha crescido sob a influência da Igreja Ortodoxa romena. Em 1975 arriscou a vida para deixar a Roménia comunista e apresentou-se como seminarista ao Vaticano, exprimindo o seu desejo de se converter ao Catolicismo. O então Secretário de Estado, Cardeal Villot, e outros Cardeais do Vaticano ficaram horrorizados. Disseram ao jovem Popian que ele não devia fugir ao Comunismo, nem devia converter-se ao Catolicismo, o que prejudicaria as relações do Vaticano com a Roménia comunista e com a Igreja Ortodoxa romena67.

       Poucas coisas mudaram em Roma desde então. O Bispo Fellay, da Sociedade de S. Pio X, contou numa entrevista recente que encontrara um Bispo cismático (ortodoxo) que desejava converter-se à Igreja Católica. O Bispo Fellay aconselhou-o a tratar directamente com Roma. Quando o Bispo ortodoxo comunicou ao Vaticano que queria fazer-se católico, «entrou-se em pânico. No dia seguinte, o Cardeal Neves, Prefeito da Congregação dos Bispos, disse ao Bispo cismático: “Excelência, não é necessário converter-se. Desde o Concílio que as coisas mudaram! As conversões já não são precisas”»68.

       Esta recusa deliberada em permitir que um Bispo ortodoxo, cismático, voltasse a Roma está completamente de acordo com a Declaração de Balamand de 1993, negociada entre certos funcionários do Vaticano e várias igrejas ortodoxas. Neste documento, o representante do Vaticano (o Cardeal Cassidy, do Conselho Pontifício para a “Unidade dos Cristãos”) chegou a concordar com a situação; devido a “perspectivas radicalmente alteradas, e com elas as atitudes”, fruto das manobras do Vaticano II, a Igreja Católica treinará novos Sacerdotes «para abrir caminho às futuras relações entre as duas Igrejas, passando além da eclesiologia ultrapassada do regresso à Igreja Católica»69.

       A noção de que pode ficar “ultrapassado” o ensinamento constante do Magistério sobre o regresso dos dissidentes (hereges e cismáticos) à única Igreja verdadeira como único meio da autêntica unidade dos Cristãos é herética, uma vez que nega rotundamente não só o ensinamento da Igreja quanto ao retorno dos dissidentes, mas também o dogma infalivelmente definido de que fora da Igreja Católica não há salvação.

       O abandono do ensino tradicional da Igreja nesta área não representa “caridade” para com os irmãos separados; representa, sim, a negação do dever que a Igreja tem de os esclarecer com a verdade. Uma vez mais, o resultado não é nenhum benefício para os não-Católicos, mas antes uma Igreja enfraquecida, cheia de escândalos, que dificilmente é capaz de servir de fermento à sociedade, o que é a Sua missão. Quanto à Igreja, sendo uma instituição tanto divina como humana, será - sem qualquer dúvida - restaurada até atingir o Seu antigo vigor, tal como aconteceu no passado, depois de outras crises; mas - sem qualquer dúvida, também - a Igreja e o Mundo estarão sujeitos a grandes sofrimentos até que acabe esta crise de Fé.

O Reinado Social de Cristo foi abandonado

       Em consequência da nova orientação da Igreja, em curso desde o Vaticano II, houve um abandono de facto dos ensinamentos constantes da Igreja sobre o Reinado Social de Cristo. Segundo estes ensinamentos, não só os indivíduos como também todas as nações são obrigados a submeter-se a Cristo e conformar-se com o Seu ensino. Serão os ensinamentos de Cristo, e não o “diálogo” com os não-crentes, que trarão a paz ao mundo; é a Sua Igreja que deve servir como o instrumento principal da paz mundial. O Papa Pio XI resumiu com uma concisão admirável a doutrina constante da Igreja sobre este tema na sua encíclica Ubi Arcano Dei:

       Só a Igreja, de posse da verdade e do poder de Cristo, tem a missão de dar aos espíritos a formação que convém: ela sòmente está em condições de fortalecer hoje a verdadeira paz de Jesus Cristo, como de consolidá-la para o futuro. Conjurando as ameaças iminentes de novas guerras a que Nós Nos temos referido, ela sòmente, em virtude do mandato e da ordem divina, ensina a obrigação que têm os homens de conformar à lei eterna de Deus toda sua atividade pública ou privada, seja como particulares, seja como membros da coletividade. O que se refere ao bem de muitos é mais importante que o que diz respeito ao bem individual. No dia em que Estados e Governantes julgarem um dever sagrado regular sua vida, interna e externamente, pelos ensinamentos e preceitos de Jesus Cristo, então e só então, a paz fecunda descerá sobre eles, relações de mútua confiança se estabelecerão, e os conflitos em andamento se resolverão pacificamente70.

       Falando dos esforços para obter a paz mundial através de uma Liga de Nações, o Papa Pio XI declarou:

       Neste intuito muitos esforços foram até aqui tentados, mas nada ou quase nada lograram de êxito, principalmente com referência aos pontos em que são mais vivas as divergências internacionais. — E' que não há instituição humana capaz de impor a todas as nações uma espécie de Código Internacional adaptado à nossa época, análogo ao que regia na Idade Média esta verdadeira Liga das Nações que se chamava a cristandade. Ela também viu se cometerem muitas injustiças, mas ao menos conseguiu sempre conservar inconteste o valor sagrado do direito, regra segura segundo a qual tinham as nações de prestar suas contas71.

       Para reforçar esta doutrina, o Papa Pio XI instituiu a Festa de Cristo Rei com a sua encíclica Quas Primas:

       Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte conseqüência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a tôdas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. (...) Assim, pois, a realeza do nosso Redentor abraça a totalidade dos homens. Sôbre êste ponto, de muito bom grado fazemos Nossas as palavras seguintes de Nosso Predecessor Leão XIII, de imortal memória: “Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que jurìdicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo o rigor da verdade, o gênero humano inteiro.” E, neste particular, não cabe fazer distinção entre os indivíduos, as famílias e os estados; pois os homens não estão menos sujeitos à autoridade de Cristo em sua vida coletiva do que na vida individual72.

A “Civilização do Amor”
substitui a conversão dos pagãos

       Todavia, depois do Vaticano II o Reinado Social de Cristo foi substituído por uma coisa chamada “civilização do amor” - uma expressão inventada pelo Papa Paulo VI para descrever a noção utópica de que o “diálogo com o mundo” levaria a uma fraternidade universal de religiões que não seria, de modo algum, explicitamente cristã. Desde então, o slogan da “civilização do amor” tem sido incessantemente repetido. Foi assim que o Papa João Paulo II descreveu esta novidade no seu discurso para o Dia Mundial da Paz de 2001:

       O diálogo leva ao reconhecimento da diversidade e abre o espírito à aceitação mútua e à autêntica colaboração exigida pela vocação básica de unidade da família humana. Assim, o diálogo é um meio privilegiado para a construção da civilização do amor e da paz que o meu venerado antecessor Paulo VI indicou como o ideal para inspirar a vida cultural, social, política e económica no nosso tempo (...) As diferentes religiões também podem e devem contribuir decisivamente para este processo. Os meus muitos encontros com representantes de outras religiões - recordo-me especialmente do encontro em Assis de 1986 e na Praça de S. Pedro em 1999 - deram-me mais confiança de que uma abertura mútua entre os seguidores das várias religiões pode servir muito a causa da paz e o bem comum da família humana73. (Ênfase acrescentada)

       Até o João Paulo II foi levado a pensar que os encontros inter-religiosos de oração, tais como os de Assis em 1986 e 2002, são parte dos meios pelos quais se supõe que esta noção utópica virá a ser realizada. Todavia, uma visão de tais espectáculos chegaria para horrorizar o Papa Pio XI e qualquer dos seus antecessores. Entretanto, o Reinado Social de Cristo numa ordem social católica está excluído de facto da nova orientação.

       É evidente que a nova orientação “ecuménica” e “inter-religiosa” da Igreja não pode de maneira alguma ser reconciliada com a Mensagem de Fátima, o que explica que, desde o Vaticano II, se tenha feito um esforço para “rever” a Mensagem de acordo com a nova orientação, ou mesmo enterrá-la por completo.

Os Católicos são obrigados
a aceitar a nova orientação da Igreja?

       Os Católicos são obrigados a submeterem-se ao ensino estabelecido pela Igreja quanto à Fé e à Moral; mas não são obrigados a submeterem-se às novas atitudes e às novas orientações de homens da Igreja liberais que, agora, dizem e fazem coisas que nunca se ouviram nem viram ao longo da História da Igreja. Portanto, os Católicos têm o direito, e até o dever, de resistir a esta nova orientação, nascida das ambiguidades do Concílio e das opiniões da “nova teologia”, que divergem do Magistério perene e infalível. Há anos que os Católicos têm a falsa ideia de que devem aceitar o Concílio pastoral do Vaticano II com o mesmo assentimento de fé que devem aos Concílios dogmáticos. Mas isto não é assim. Os Padres Conciliares referiram-se várias vezes ao Vaticano II como sendo um Concílio pastoral, querendo dizer que se tratava de um Concílio que não curou de definir a Fé, mas se preocupou antes em tomar medidas no âmbito de um critério prático e prudente - como a introdução da “aventura ecuménica”. O documento definidor do Concílio, a Nota Prévia (Nota Praevia em latim) à Lumen Gentium, diz isto claramente: “Em vista da prática conciliar e da finalidade pastoral do presente Concílio, o sagrado Sínodo define assuntos da fé e da moral como de aceitação obrigatória por parte da Igreja apenas quando o próprio Sínodo o declara abertamente”74. Ora não foram definidos assuntos de fé ou de moral “de aceitação obrigatória por parte da Igreja” sobre a nova “orientação ecuménica”, nem sobre qualquer das novas formulações “pastorais”, na linguagem dos documentos conciliares.

       O facto de o Vaticano II ser inferior em autoridade a um concílio dogmático é confirmado pelo testemunho do Bispo Thomas Morris, um Padre Conciliar. A seu pedido, esta declaração só foi aberta após a sua morte:

       Fiquei aliviado quando nos disseram que este Concílio não pretendia definir ou fazer declarações finais sobre a doutrina, porque uma declaração em matéria de doutrina tem que ser formulada muito cuidadosamente, e eu considerava os documentos do Concílio como tentativas de proposta, abertas a uma revisão75.

       Temos ainda o testemunho importante do Secretário do Concílio, o Arcebispo (mais tarde Cardeal) Pericle Felici. Por altura do encerramento do Vaticano II, os Bispos pediram ao Arcebispo Felici aquilo a que os teólogos chamam a “nota teológica” do Concílio - por outras palavras, o “peso” doutrinal dos seus ensinamentos. Felici respondeu:

       Em vista da prática conciliar e da finalidade pastoral do presente Concílio, o sagrado Sínodo define assuntos da fé e da moral como de aceitação obrigatória por parte da Igreja apenas quando o próprio Sínodo o declara abertamente76.

       E disse mais:

       Devemos distinguir, segundo os schemas e os capítulos, os que já foram sujeitos a definições dogmáticas no passado; quanto às declarações que têm características de novidade, devemos fazer reservas77.

       O próprio Paulo VI observou que, “Dado o carácter pastoral do Concílio, evitou pronunciar-se de maneira extraordinária sobre dogmas dotados da nota de infalibilidade”78.

       Assim, ao contrário de um Concílio dogmático, o Vaticano II não exige um acordo de fé inqualificado. Os documentos verbosos e ambíguos do Concílio não se podem comparar aos pronunciamentos doutrinais dos Concílios passados. As novidades do Vaticano II não exigem aceitação incondicional da parte dos fiéis, nem o próprio Concílio alguma vez o disse.

       Todavia, os ensinamentos ambíguos do Concílio e a nova orientação postconciliar da Igreja deram como resultado nada menos do que aquilo a que o próprio Cardeal Ratzinger chamou a “demolição dos bastiões” da Igreja - incluindo, como veremos, a demolição da Mensagem de Fátima. Como iremos agora demonstrar, este empreendimento destrutivo concretizou, em linhas gerais, os sonhos dos inimigos da Igreja, e cumpriu os avisos proféticos da Mensagem de Fátima, como o Papa Pio XII deu a entender.


Notas

1. Pode encontrar-se uma descrição completa desta história fascinante em The Whole Truth About Fatima, Vol. III, pelo Frère Michel de la Sainte Trinité, pp. 257-304.

2. Ibid., p. 298.

3. Visconde Léon de Poncins, Freemasonry and the Vatican (Christian Book Club, Palmdale, Califórnia, 1968), p. 14.

4. L. Bouyer, Don Lambert Beauduin, a Man of the Church, Casterman, 1964, pp. 180-181; citado pelo Padre Dilder Bonneterre em The Liturgical Movement, Ed. Fideliter, 1980, p. 119.

5. O Padre Aparício, Sacerdote jesuíta, foi o confessor e director espiritual da Irmã Lúcia de 1926 a 1938, altura em que foi enviado para o Brasil como missionário, mas correspondeu-se com a Irmã Lúcia durante vários anos. Em 1950 voltou a Portugal por algum tempo e visitou a Irmã Lúcia, em 1950 e 1951, sem quaisquer dificuldades. O Padre Aparício declarou que em Agosto de 1960, durante uma visita de um mês a Portugal, não teve licença para falar com a Irmã Lúcia: “Não consegui falar com a Irmã Lúcia porque o Arcebispo não podia dar-me autorização para a visitar. As condições de isolamento em que ela se encontra foram impostas pela Santa Sé. Consequentemente, ninguém pode falar com ela sem licença de Roma. O Arcebispo tem um número muito limitado dessas licenças” (Fatima: Tragedy and Triumph, Immaculate Heart Publications, 1994, pp. 33-34).

A situação não mudou desde então. Em 16 de Janeiro de 1983, o Padre Joseph de Sainte-Marie, O.C. escreveu ao ilustre leigo católico Hamish Fraser nos seguintes termos: “Além disso, recordo-lhe - ela própria (a Irmã Lúcia) lembrou-me recentemente, num pedido que lhe enviei - que a Irmã Lúcia não pode falar com ninguém sobre o assunto das aparições sem a permissão expressa da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé ou do próprio Santo Padre” (The Fatima Crusader, Nº 13-14, p. 13). E em 19 de Março de 1983 a Irmã Lúcia disse ao Núncio Papal em Portugal, o Reverendíssimo Sante Portalupi, que ela não tinha anteriormente tido oportunidade de fazer um comentário sobre a inexactidão da cerimónia de consagração de 1982 (consagração do mundo, e não da Rússia), porque a Santa Sé não lhe dera autorização para falar: “A Consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora pediu. Não pude dizê-lo (antes) porque não tive autorização da Santa Sé” ( Ibid., p. 3, e The Fatima Crusader, Nº 16, Set.-Out. 1984, p. 22ff, reproduzindo o artigo do Padre Pierre Caillon em Fidelité Catholique, impresso pela primeira vez em 1983).

Em 19 de Fevereiro de 1990, Monsenhor A. Duarte de Almeida, capelão do Carmelo de Coimbra, declarou o seguinte: “para visitar a Irmã Lúcia, é necessário obter autorização do Cardeal Ratzinger” (cit, por David Boyce, “Fatima Inquest - August 1990”, in The Fatima Crusader, Nº 35, Inverno 1990-1991, p. 13).

À data da alegada “entrevista” da Irmã Lúcia por Mons. Bertone, a 17 de Novembro de 2001, admitia este Arcebispo (no seu comunicado sobre a entrevista) ter sido a mesma conduzida com o consentimento do Cardeal Ratzinger. Portanto, até há pouquíssimo tempo (até 2001), mesmo um alto prelado do Vaticano necessitava da autorização da Santa Sé para falar com a Irmã Lúcia.

6. Cf. Jean Madiran, “The Vatican-Moscow Agreement”, in The Fatima Crusader, Nº 16. Setembro-Outubro 1984, p. 5; e também os artigos nas pp. 4, 7 e 11 de The Fatima Crusader, Nº 17, Fevereiro-Abril 1985. Veja-se também Átila Sinke Guimarães, “The Metz Pact”, Catholic Family News, Setembro de 2001.

7. Papa Pio XI, Divini Redemptoris, Encíclica sobre o Comunismo Ateu, 19 de Março de 1937. Cf. também a citação nas pp. 63-64 referida na nota 42 deste capítulo.

8. Encontra-se uma descrição mais completa deste assunto em The Rhine flows into the Tiber do Padre Ralph Wiltgen (New York: Hawthorne, 1967; TAN, 1985), pp. 272-278.

9. Por exemplo, The Rhine flows into the Tiber do Padre Ralph Wiltgen, Pope John's Council de Michael Davies (Kansas City, Missouri: Angelus Press); e até em Vatican II Revisited (ver a nota seguinte), que canta louvores à reforma.

10. Reverendíssimo Aloysius Wycislo S.J., Vatican II Revisited. Reflections By One Who Was There (Staten Island, New York: Alba House), p. x.

11. Ibid., p. 33.

12. Ibid., p. 27.

13. The Wanderer, 31 de Agosto de 1967, p. 7.

14. Council Daybook, Vol. I (Washington, D.C.: National Catholic Welfare Conference), pp. 25, 27.

15. Vatican II Revisited. Reflections By One Who Was There, pp. 27-34.

16. Bispo Graber, Athanasius and the Church of Our Time, p. 54.

17. Átila Sinke Guimarães, Animus Delendi (The Desire to Destroy) (Los Angeles, California: Tradition in Action, 2001), p. 128. Seria mais exacto dizer Animus Delendi - I, (por ser o primeiro de dois volumes com este título).

18. Ibid.

19. “Vida vital” parece ser um termo que substitui a “iminência vital” condenada na encíclica Pascendi, do Papa Pio X, contra o modernismo. Cf. a p. 8 da tradução inglesa, publicada pela Newman Press.

20. David Greenstock, “Thomism and the New Theology”, The Thomist (Outubro de 1950). Vale a pena ler todo o artigo, se se quiser compreender bem a natureza errónea da “Nova Teologia”.

21. Publicado no Angelicum de 1946. A primeira tradução inglesa, “Where is the New Theology taking us?”, apareceu em Catholic Family News de Agosto de 1997.

22. Animus Delendi - I, p. 129.

23. Ibid., pp. 146-149.

24. Estas observações são do livro de Monsenhor Kelly The Battle for the American Church, cit. por John Vennari em “Vatican praises purveyor of heresy”, The Fatima Crusader, Primavera-Verão 1998.

25. Ibid.

26. Cit. de Guimarães, Animus Delendi - I, p. 60.

27. Ibid., p. 61.

28. Ibid., p. 59.

29. Ibid., p. 62.

30. Vaticano I, Sessão III, Cap. IV, Fé e Razão.

31. Cit. da Open Letter to Confused Catholics, pp. 88-89.

32. Yves Marsaudon, Oecuménisme vu par um Maçon de tradition, pp. 119-120.

33. Cit. da Open Letter to Confused Catholics, pp. 88-89.

34. Ibid., p. 100.

35. Bispo Graber, Athanasius and the Church of Our Time, p. 64.

36. Arcebispo Marcel Lefebvre, They Have Uncrowned Him (Kansas City, Missouri: Angelus Press, 1988), p. 229. Aqui o autor nota também que o jornal comunista Izvestiya exigiu que o Papa Paulo VI o condenasse, assim como ao seu seminário em Ecône.

37. Ficou registada a declaração dos periti progressistas no Concílio: “Exprimi-lo-emos de forma diplomática, mas depois do Concílio tiraremos as conclusões nele implícitas” (no livro do Padre Ralph Wiltgen, The Rhine flows into the Tiber, p. 242).

38. O Arcebispo progressista Annibale Bugnini foi o maior arquitecto da revolução litúrgica que culminou na Nova Missa (Novus Ordo). Acabou por ser afastado do Vaticano e colocado no Irão, porque mostraram ao Papa Paulo VI documentos que demonstravam que Bugnini era maçon. Michael Davies dedica um capítulo inteiro (o Cap. 24) ao Arcebispo Bugnini em Pope Paul's New Mass (Kansas City, Missouri: Angelus Press, 1992).

39. Cardeal Joseph Ratzinger, Principles of Catholic Theology (San Francisco, California: Ignatius Press, 1987), p. 334.

40. Discurso ao Lombard College, 7 de Dezembro de 1968.

41. Discurso de 30 de Junho de 1972.

42. Papa Pio XI, Divini Redemptoris, Encíclica sobre o Comunismo ateu, 19 de Março de 1937. (ênfase acrescentada)

43. Yves Congar, O. P., “Le Concile au jour le jour, deuxième session” (“O Concílio dia a dia, segunda sessão”) (Paris: Cerf, 1964), p. 115.

44. Bem vistas as coisas, não pode haver um “Contra-Syllabus”, porque o Syllabus que o Bem-Aventurado Papa Pio IX publicou em 1864 é claramente um ensinamento solene e definitivo, que todos os Católicos devem aceitar (Can. 750 §2). Na encíclica Quanta Cura, publicada com o Syllabus em 8 de Dezembro de 1864, o Bem-Aventurado Pio IX escreveu solenemente: «No meio de tão grande multiplicidade de opiniões perversas, lembrando-nos do nosso apostolico cargo, e cheios de solicitude pela nossa santissima religiõn, pela sua santa doutrina e pela salvação das almas, que nos foi divinamente confiada, julgamos dever levantar a nossa voz apostolica. E porque, em virtude da nossa authoridade apostolica, reprovamos, proscrevemos e condemnamos todas as opiniões e doutrinas perversas mencionadas n'esta carta encyclica, e cada uma em particular, queremos e mandamos que sejam tidas como reprovadas, proscriptas e condemnadas por todos os filhos da igreja catholica.»” (itálicos nossos) (Esta tradução portuguesa foi da versão oficial da Igreja Católica proveniente do Latim original)

45. Yves Congar, La crise de l'Église et Msgr. Lefebvre (Paris: Cerf, 1977), p. 54.

46. Citado da Open Letter to Confused Catholics, p. 100.

47. Cardeal Joseph Ratzinger, Principles of Catholic Theology, pp. 381-382. (ênfase acrescentada)

48. Ibid., p. 191.

49. L'Osservatore Romano, edição semanal em inglês, 2 de Julho de 1990, p. 5.

50. Ibid.

51. Na encíclica Mystici Corporis, de 1943, o Papa Pio XII ensinou que “esta verdadeira Igreja de Cristo... é a Santa, Católica, Apostólica Igreja Romana”. Isto significa claramente que a Igreja de Cristo não se compõe da Igreja Católica e das outras denominações “cristãs”. Pio XII reafirmou esta doutrina em 1950, na sua encíclica Humani Generis: “O Corpo Místico de Cristo e a Igreja Católica Romana são uma e a mesma coisa.” (esta segunda citação é tradução nossa)

52. Citado de Vatican II, the Work That Needs to Be Done, editado por David Tracy com Hans Küng e Johann Metz (New York: Concilium, Seabury Press, 1978), p. 91. (ênfase acrescentada)

53. L'Osservatore Romano, edição italiana, 8 de Outubro de 2000, p. 4: “Quando i Padri conciliari sostituirono la parola ‘è’ con la parola ‘subsistit’ lo fecerano con un scopo ben preciso. Il concetto espresso da ‘è’ (essere) è più ampio di quello espresso da ‘sussistere’. ‘Sussistere’è un modo ben preciso di essere, ossia essere come soggeto che esiste in sè. I Padri conciliari dunque intendevano dire che l'essere della Chiesa in quanto tale è un'entità più ampia della Chiesa cattolica romana”.

54. Cf. as declarações do Padre Schillebeeckx na revista holandesa De Bauzuin, Nº 16, 1965, citadas em tradução francesa em Itinéraires, Nº 155, 1971, p. 40.

55. Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22 de Setembro de 2000; tradução italiana em L'Osservatore Romano, 8 de Outubro de 2000.

56. Adista, 26 de Fevereiro de 2001; tradução inglesa citada de “Where Have They Hidden the Body?” pelo Dr. Christopher Ferrara, The Remnant, 30 de Junho de 2001.

57. «Com a aprovação do santo concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado: que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra - isto é, quando, na qualidade de Pastor e mestre de todos os Cristãos, define, por virtude da sua autoridade apostólica suprema, qualquer doutrina que diga respeito à Fé ou à moral e que deve ser sustentada pela Igreja universal -, possui, por meio da assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro, a infalibilidade com que o divino Redentor quis que a Sua Igreja fosse dotada ao definir doutrina respeitante à Fé ou à moral; e que, portanto, tais definições do Romano Pontífice não são passíveis de serem reformadas devido à sua própria natureza, não por causa da concordância da Igreja.» (D.S. 1839) (tradução nossa)

58. «Mas se alguém presume contradizer esta nossa definição (Deus não permita que alguém o faça): seja excomungado.» (D.S. 1840) (tradução nossa)

58a Os três pronunciamentos ex cathedra eram, no seu Latim original:
Papa Inocêncio III, IV Concílio de Latrão, 1215 “Una vero est fidelium universalis Ecclesia, extra quam nullus omnino salvatur” (D.S. 802).
Papa Bonifácio VIII, bula Unam Sanctam, 1302 “Porro subesse Romano Pontifici omni humanae creaturae declaramus, dicimus, definimus et pronuntiamus omnino de necessitate salutis.” (D.S. 875)
Bula Cantate Domino de Eugénio IV, Concílio de Florença, 4 de Fevereiro de 1442 “Firmiter credit, profitetur et praedicat, nullos intra catholicam Ecclesiam non exsistentes, non solum paganos, sed nec Iudaeos aut haereticos atque schismaticos, aeternae vitae fieri posse participes; sed in ignem aeternum ituros, «qui paratus est diabolo et angelis eius» (Mt. 25, 41), nisi ante finem vitae eidem fuerint aggregati: tantumque valere ecclesiastici corporis unitatem, ut solum in ea manentibus ad salutem ecclesiastica sacramenta proficiant, et ieiunia, eleemosynae ac cetera pietatis officia et exercitia militiae christianae praemia aeterna parturiant. Neminemque, quantascunque eleemosynas fecerit, etsi pro Christi nomine sanguinem effuderit, posse salvari, nisi in catholicae Ecclesiae gremio et unitate permanserit.” (D.S. 1351):

59. Acta Apostolicae Sedis (AAS) 42-142.

60. Pio XII, Instrução do Santo Oficio, Ecclesia Catholica, 20 de Dezembro de 1949, “Sobre o Movimento Ecuménico”.

61. (Ênfase acrescentado) Padre Joseph Ratzinger, Theological Highlights of Vatican II (New York: Paulist Press, 1966), p. 65-66. Esta secção do livro sublinha o fundamento deliberadamente ecuménico em que se baseia o documento conciliar Lumen Gentium. Para uma discussão mais completa do livro do Padre Ratzinger, veja-se “Vatican II vs. the Unity Willed by Christ,” por John Vennari, Catholic Family News, Dez. de 2000.

62. Mesmo que o Cardeal Ratzinger mudasse por completo os seus pontos de vista pessoais e adoptasse uma posição mais ortodoxa, os textos do Concílio continuariam a ser ambíguos, imprecisos, e aparentemente orientados para um ecumenismo heterodoxo que não procura converter os não-Católicos ao Catolicismo.

63. E. Schillebeeckx, O.P., Igreja ou Igrejas? , in V. A., Cinco problemas que desafiam a Igreja hoje, pp. 26f. Citado de In the Murky Waters of Vatican II de Átila Sinke Guimarães (Metairie, Louisiana: Maeta, 1997), p. 243.

64. O SIDIC é uma associação que se identifica como católica, que foi “fundada em Roma em 1965 a pedido de um grupo de peritos do Concílio Vaticano II, na sequência da promulgação da Nostra Aetate”, para promover o “diálogo” entre Católicos e judeus. O SIDIC tem a sua sede em Roma e representantes locais nos seguintes países: Austrália, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Israel, e Itália. Nostra Aetate, documento proveniente do Concílio, é a “Declaração sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs”.

65. Service International de Documentation Judéo-Chrétienne, (SIDIC) Roma [edição inglesa em Washington, D.C.], Vol. XXXII, Nº 3, 1999, p. 22.

66. A ambiguidade verbal usada pelo Vaticano II para fazer vigar esta noção falsa encontra-se em Lumen Gentium 8, onde se lê que “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, ao contrário da definição do Papa Pio XII, segundo a qual a Igreja de Cristo é a Igreja Católica (encíclica Mystici Corporis). Vejam-se a discussão anterior e as notas a este capítulo sobre a origem e efeito desta ambiguidade, admitidas pelo Cardeal Joseph Ratzinger.

67. Para uma sinopse da história do Padre Popian, cf. “Vatican says, Do Not Convert to Catholicism”, por John Vennari, Catholic Family News, Dezembro de 2001. Cf. também “Vatican says, ‘You Must Not Become Catholic!’” de John Vennari, The Fatima Crusader, Nº 69, Inverno de 2002. O testemunho do Padre Popian em cassete áudio em ambos inglês e italiano, intitulada “Vatican's Ostpolitik and Ecumenism Tried to Prevent My Conversion to Catholicism”, pode obter-se no Fatima Center, 17000 State Route 30, Constable, New York 12926, Estados Unidos.

68. “We are a Sign of Contradiction”, entrevista com o Bispo Bernard Fellay, SSPX, revista Latin Mass, Outono de 2001, p. 11.

69. Declaração de Balamand, nn. 13 e 30. A Declaração de Balamand (1993) foi citada com aprovação pelo Papa João Paulo II em Ut Unum Sint, n. 59.

70. Papa Pio XI, Ubi Arcano Dei, Carta Encíclica sobre a Paz de Cristo no Reino de Cristo, 23 de Dezembro de 1922.

71. Ibid.

72. Papa Pio XI, Quas Primas, Encíclica sôbre Cristo-Rei, 11 de Dezembro de 1925. (ênfase acrescentada)

73. Mensagem do Papa João Paulo II para o Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2001. “O diálogo entre as culturas para uma civilização de amor e paz”.

74. Adenda à Lumen Gentium, Nota Explanatória da Comissão Teológica, in Walter M. Abbott, S.J., ed., The Documents of Vatican II (New York: America Press, 1966), pp. 97-98.

75. Testemunho pessoal do Bispo Morris, citado num artigo de Kieron Wood, Catholic World News, 22 de Janeiro de 1997.

76. The Documents of Vatican II, ed. por Walter Abbott, S.J., p. 98.

77. Citado da Open Letter to Confused Catholics, p. 107.

78. Papa Paulo VI, Audiência Geral de 12 de Janeiro de 1966, in Insegnamenti di Paolo VI, Vol. 4, p. 700, citado por Átila Sinke Guimarães, In the Murky Waters of Vatican II (Metairie, Louisiana: Maeta, 1997; TAN, 1999), pp. 111-112.

Capítulo 7

 

A demolição de bastiões

       Não admira que os piores inimigos da Igreja tenham ficado assim tão contentes com o Concílio e com as mudanças radicais que ele introduziu. E também ficaram, sem dúvida, bastante satisfeitos com o súbito e catastrófico colapso eclesial, em todos os sentidos, depois do Vaticano II. Todas as estatísticas disponíveis mostram que as mudanças sem precedentes que se seguiram ao Concílio Vaticano II foram acompanhadas por declínios, igualmente sem precedentes, no número de Padres e Religiosos, no número de novas ordenações, no número de seminaristas, e no número de conversões e de baptismos. Imediatamente depois do Vaticano II, cerca de 50.000 Padres desertaram - pelo que hoje há, aproximadamente, menos 50.000 Padres católicos do que havia há trinta e um anos atrás. Em 1997 houve menos baptismos nos Estados Unidos do que em 19701.

       Até mesmo o Cardeal Ratzinger falou de «um processo continuado de decadência que tem permanecido, em boa parte, com base em inspirações do Concílio, tendo, assim, desacreditado o Concílio aos olhos de muitas pessoas»2. Apesar disto, o Cardeal Ratzinger, tal como os outros que presidiram a esta tragédia, insiste - por incrível que pareça - em que precisamos mais do mesmo “remédio”, ou seja, que precisamos mais da nova orientação do Vaticano II:

       Isto significa que o próprio Concílio deve ser revogado? Certamente que não. Significa apenas que a recepção autêntica do Concílio ainda nem sequer começou. O que devastou a Igreja depois do Concílio não foi o Concílio em si mesmo, mas sim a recusa em o aceitar. (…) Portanto, a nossa tarefa não é suprimir o Concílio mas descobrir o autêntico Concílio e aprofundar a sua verdadeira intenção à luz da experiência presente3.

       Indo ainda mais longe, e citando como autoridade sua um dos teólogos neo-modernistas que mais ajudaram a desencadear este desastre para a Igreja, o Cardeal Ratzinger declarou:

       O facto é que, como Hans Urs von Balthasar referiu, já em 1952, (…) Ela [a Igreja] tem de renunciar a muitas das coisas que Lhe têm até agora inspirado segurança e que Ela aceitou como certas. Ela tem de demolir bastiões há muito existentes e confiar somente na protecção da Fé4.

       O apelo do Cardeal à “demolição de bastiões há muito existentes” na Igreja é, talvez, a confissão mais condenatória de todas as que dizem respeito à nova orientação revolucionária da Igreja, trazida pelo Concílio Vaticano Segundo. Porque, a que poderia o Cardeal chamar «bastiões há muito existentes», a não ser às defesas tradicionais da Igreja contra os Seus inimigos - que o próprio Cardeal, condescendentemente, descreve como «muitas das coisas que Lhe têm até agora inspirado segurança [à Igreja] e que Ela aceitou como certas»? O Cardeal Ratzinger admite desejar demolir as próprias coisas que deram segurança à Igreja! Na estranha visão que o Cardeal tem das coisas, a Igreja tem de confiar «somente na protecção da Fé». Mas o que é que isso significa? Como é que os Católicos podem manter a sua Fé, a menos que esta se mantenha segura por aqueles bastiões que o Cardeal deseja demolir?

       Citando o “novo teólogo” Hans Urs von Balthasar como autoridade para esta “demolição de bastiões”, o próprio Cardeal Ratzinger está a abençoar a “nova teologia” no seu projecto de demolir a Teologia tradicional da Igreja - com as suas definições, claras e precisas, das Verdades em que os Católicos têm de acreditar. No apelo do Cardeal para demolir «bastiões há muito existentes» na Igreja, vemos claramente algo que só pode ser chamado “vontade de destruir”. Esta designação é tirada de um livro do escritor católico Átila Sinke Guimarães, intitulado Animus Delendi (Latim, que significa “vontade de destruir”). Guimarães mostra que os “reformadores” conciliares e pós-conciliares são motivados por uma mentalidade que vê a destruição da Igreja “antiga” como “trágica, mas necessária” para o “crescimento e renovação” da Igreja no “mundo moderno”.

       Como é que os “bastiões” devem ser demolidos? Nossa Senhora diz que o dogma da Fé se conservará em Portugal. Os dogmas são, por si próprios, bastiões da Igreja. Portanto, é óbvio que a demolição de bastiões implicará enfraquecer insidiosamente as definições dogmáticas - ao mesmo tempo que os “novos teólogos” neo-modernistas louvam os dogmas que estão a minar como táctica. Ora os dogmas podem ser minados de várias maneiras: 1) ignorando-os, simplesmente - que eles deixarão de existir na prática; 2) substituindo termos claros por termos ambíguos - por exemplo, “é” por “subsiste”; 3) desvalorizando um dogma como sendo “teologia antiquada”, como aconteceu na Declaração de Balamand e nos comentários de diversos Prelados que ocupam altos cargos e que citámos no capítulo anterior; 4) fingindo que as definições dogmáticas infalíveis - nas quais todo o Católico tem de acreditar tal como estão escritas - não existem; e 5) sempre que é abordado o dogma de que fora da Igreja não há salvação, referindo-se, simples e incessantemente aos não-Católicos como “crentes” ou “Cristãos”.

       O que são, precisamente, os bastiões que, na visão dos “reformadores” como o Cardeal Ratzinger, devem ser demolidos? Recordamos, mais uma vez, o que o Papa Pio XII previu, com grande precisão, nos seus comentários inspirados sobre a crise vindoura na Igreja:

       As mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma. (…) Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.

       O Papa Pio XII identificou três elementos da Igreja que os “inovadores” desejavam alterar: a Sua liturgia, a Sua teologia e a Sua alma (isto é, a Sua própria natureza). Note-se que o Papa Pio XII - baseando-se na Mensagem de Fátima, assim como naquilo que Ele testemunhara pessoalmente na Igreja daquela época - disse que haveria uma tentativa de desmantelar, destruir e rejeitar tudo isto na Igreja. Por outras palavras, era a “demolição de bastiões”.

A Demolição da Liturgia

       Antes do Concílio Vaticano II, os Papas defenderam por unanimidade a antiga liturgia latina da Igreja contra a inovação, reconhecendo que o idioma latino imutável era uma barreira contra a heresia - como o Papa Pio XII ensinou na sua monumental encíclica da liturgia, Mediator Dei. Na verdade, os “reformadores” protestantes do Século XVI a nada tiveram tanto ódio como à Missa Católica tradicional em Latim, a liturgia Damásio-Gregoriana que foi o centro da vida da Igreja desde pelo menos o Século IV (e, provavelmente, ainda mais cedo) até à “reforma” litúrgica do Papa Paulo VI em 1969.

       Em parte alguma se pode ver mais claramente o desejo de destruir - a demolição de bastiões - do que na explicação que o Papa Paulo VI deu sobre a sua decisão de suprimir a Missa tradicional em latim, com mais de 1500 anos de existência, e de a substituir por um rito recentemente inventado de Missa em vernáculo - uma acção totalmente sem precedentes e que os seus antecessores teriam considerado absolutamente inconcebível:

       É aqui que a grande novidade se vai notar, a novidade do idioma. A língua principal da Missa deixará de ser o latim, mas sim a linguagem falada. A introdução do vernáculo será, certamente, um grande sacrifício para aqueles que conhecem a beleza, o poder e a sacralidade expressiva do Latim. Estamos a separar-nos da fala de séculos cristãos; estamos a tornar-nos como intrusos profanos na reserva literária de expressão vocal sagrada. Perderemos uma grande parte daquele bem artístico e espiritual estupendo e incomparável, o Canto Gregoriano. Temos razão para lamentar, quase temos razão para a desorientação. O que podemos pôr no lugar daquele idioma dos anjos? Estamos a deixar algo de valor inestimável. Por quê? O que é mais precioso do que estes valores, dos mais altos que a nossa Igreja possui?

       E, realmente, o que é mais precioso do que «estes valores, dos mais altos que a nossa Igreja possui?» Segundo o Papa Paulo VI, o que era mais precioso era um apelo ao “homem moderno” - que o Papa, aparentemente, considerava tão obtuso que não conseguia perceber nada das orações latinas do Missal Romano, mesmo que esse Missal incluísse traduções vernáculas paralelamente ao Latim. O Papa Paulo VI continuou, respondendo à sua própria pergunta:

       A resposta parecerá banal, quase prosaica. Apesar de ser uma boa resposta, porque é humana, é apostólica. A compreensão da oração é mais importante do que as vestes de seda de que ela está regiamente adornada. A participação das pessoas vale mais - especialmente a participação de pessoas modernas, tão apreciadoras da língua simples que é mais facilmente compreendida e convertida em linguagem do dia-a-dia5.

       O discurso do Papa Paulo VI é um diagrama do que aconteceu a toda a Igreja desde o Concílio. As mudanças conciliares e pós-conciliares - todas elas sem precedentes na História da Igreja - são obra de intrusos profanos que trabalham para destruir algo de valor inestimável, para demolir bastiões que há séculos estavam de pé - não só na liturgia sagrada, mas nos ensinamentos perenes da Igreja. Não foi por acaso que o Vaticano II causou uma destruição sem precedentes: por detrás do Concílio, os seus arquitectos estavam a planear a destruição desde o início.

A demolição da Teologia

       Na edição de 19 de Dezembro de 1946 de L'Osservatore Romano, o Papa Pio XII (tendo no pensamento as teorias heterodoxas de modernistas como Chenu e De Lubac) advertiu que o que estava a ser proclamado como uma “nova teologia” acabaria por arruinar a Fé:

       Fala-se muito (mas sem a necessária clareza de conceitos) de uma “nova teologia”, que deve estar em transformação constante, seguindo o exemplo de todas as outras coisas do mundo que estão num estado constante de fluxo e movimento, sem chegarem a alcançar o seu termo. Se fôssemos a aceitar tal opinião, o que restaria dos dogmas inalteráveis da Fé Católica; e o que restaria da unidade e estabilidade dessa Fé6?

       Como vimos, o Papa João XXIII ignorou o aviso do Papa Pio XII: no Vaticano II, o Papa João reabilitou exactamente os mesmos proponentes da “nova teologia” que estavam sob suspeita de heresia durante o pontificado do Papa Pio XII. A recordar o testemunho de Monsenhor Bandas: «Sem duvida, o bom Papa João pensou que estes teólogos suspeitos rectificariam as suas ideias e prestariam um serviço genuíno à Igreja. Mas aconteceu exactamente o oposto. (…) A grande confusão estava a caminho. Era já visível que não permitiriam que nem Trento, nem o Vaticano I, nem qualquer encíclica impedisse o seu avanço».

       Quais foram, então, os efeitos da “nova teologia” na Igreja? Hoje, em nome do Vaticano II, é-nos dito:

  • que a Igreja tem de dialogar e colaborar com comunistas, muçulmanos, hereges, cismáticos, e outros inimigos objectivos da fé;

  • que o ensinamento constante da Igreja pré-conciliar contra o Liberalismo (como se vê no Syllabus do Bem-Aventurado Pio IX) e contra o Modernismo (como se vê na encíclica Pascendi de S. Pio X) é - como diz o Cardeal Ratzinger - “unilateral” e antiquado;

  • que a Igreja (e isto também segundo o Cardeal Ratzinger) deve “tentar” uma “reconciliação” com os princípios da Revolução Francesa;

  • que a “Igreja de Cristo” é maior do que a Igreja Católica;

  • que os Protestantes e os cismáticos já não precisam de se converter e voltar à Igreja Católica para obterem a salvação, ou até mesmo a unidade.

       Em resumo: os inimigos da Igreja nos campos neo-modernistas, maçónicos e comunistas viram os seus sonhos teológicos, em grande parte, tornar-se realidade.

A Demolição da Alma da Igreja

       O futuro Papa Pio XII não falava à toa quando, à luz da Mensagem de Fátima, predisse uma tentativa, que se aproximava, de alterar não só a liturgia e a teologia da Igreja, mas a Sua própria Alma - o que Ela é. Claro está que este desígnio nunca pode triunfar completamente, porque Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja. Mas esta promessa divina não exclui que o elemento humano da Igreja sofra as feridas mais graves causadas pelos Seus inimigos - exceptuando uma morte final. Foi essa perspectiva de tão graves injúrias à Igreja que tanto alarmaram o Papa Pio XII, especialmente tendo em conta as profecias de Fátima.

       E, realmente, aquilo que o Papa Pio XII mais receava concretizou-se no período pós-conciliar, quando se presenciou um esforço para transformar a Igreja, de única arca da salvação - fora da qual ninguém se pode salvar - num mero colaborador com outras “igrejas e comunidades eclesiásticas”, com religiões não-Cristãs e até mesmo com ateus, na construção de uma utópica “civilização do amor”. Nesta “civilização do amor”, a salvação das almas do inferno - o qual já não é mencionado - é substituída por uma nova forma de “salvação”: a salvação através da “fraternidade” mundial e da “paz” no mundo. Esta é exactamente a mesma noção que a Maçonaria tem promovido nos últimos três séculos.

       De acordo com esta noção maçónica de “salvação” pela “fraternidade do homem” (compreendida num sentido secular, não-Cristão), muitos Clerigos católicos vêm agora dizer-nos que nós temos que respeitar as várias seitas protestantes e cismáticas, como parceiros num “diálogo ecuménico” e na “procura de uma unidade cristã”. Seguindo esta nova noção, realizam-se “liturgias” ecuménicas entre Católicos, Protestantes e as Igrejas Ortodoxas cismáticas, para demonstrar a suposta “comunhão parcial” entre “todos os cristãos”. É claro que os executores da nova orientação da Igreja Católica ainda admitem que Ela é a mais perfeita de todas as igrejas; mas a afirmação de que a Igreja Católica é a única verdadeira Igreja, com a exclusão completa de todas as outras, foi abandonada na prática por todos - menos por um resto de Católicos fiéis, que são considerados “sectários rígidos” e “pré-conciliares”, simplesmente por acreditarem naquilo em que os Católicos sempre acreditaram antes de 1965.

       Mas a “unidade cristã” é só um passo para a unidade pan-religiosa na fraternidade mundial. Ao mesmo tempo que a “unidade cristã” está a ser promovida por actividades pan-cristãs que os grandes Papas pré-conciliares teriam considerado sacrilégios, o “diálogo interreligioso” fez a Igreja mais “aberta” ao “valor” de religiões não-cristãs - cujos seguidores deixariam de ser considerados como faltando-lhes a Fé e o Baptismo para salvarem as suas almas. A “Cristandade anónima” de Karl Rahner - que sustenta que os seguidores sinceros de qualquer religião podem ser, e provavelmente são, “Cristãos” sem mesmo o saberem -, tornou-se a teologia de facto da Igreja. De acordo com isto, organizam-se reuniões de oração pan-religiosa, nas quais os membros de todas as religiões se reúnem para rezar pela paz e para demonstrar a sua “unidade” como membros da família humana, sem que ninguém lhes diga que estão em perigo de condenação por falta do Baptismo, por falta da Fé em Cristo e por lhes faltar ainda o serem membros da Sua Igreja. Na liturgia “reformada” da Sexta-feira Santa, os Católicos (pela primeira vez na história litúrgica da Igreja) já não rezam pública e inequivocamente pela conversão dos não-Católicos e sua integração na Santa Igreja Católica, como medida necessária para a salvação das suas almas.

       Como qualquer pessoa pode ver, a substituição da Realeza Social de Cristo pela “civilização do amor” neutralizou totalmente a Igreja Católica, que já não é o centro da autoridade moral e espiritual do mundo, como era a intenção do Seu Divino Fundador.

       Os teólogos progressistas que avançaram com esta nova orientação da Igreja já formaram quase duas gerações de leigos e Clerigos católicos. Os trabalhos de Rahner, Küng, Schillebeeckx, Congar, De Lubac, von Balthasar, e seus discípulos dominam actualmente os textos didácticos dos Seminários e Universidades Católicos. Nos últimos 35 anos, as doutrinas progressistas destes homens serviram de principal formação a Padres, Religiosos, teólogos e a estudantes católicos do Ensino Superior. Assim, atingimos uma fase em que os prelados preferem a teologia de Rahner à de São Roberto Belarmino, por exemplo, que é um santo canonizado e Doutor da Igreja, ou de São Tomás de Aquino, o grande Doutor e um dos maiores santos na História da Igreja. O ensino de S. Roberto Belarmino e de S. Tomás - que foi, na realidade, o ensino de todos os Papas antes do Vaticano II - tende a ser aceite somente de acordo com a interpretação que lhe é dada por Rahner e outros “novos teólogos”. O mesmo acontece com a maioria dos professores em Faculdades e Seminários Católicos.

       Este processo de tentar mudar a própria alma e teologia da Igreja, tal como o Papa Pio XII receava, não só envolveu a “iniciativa ecuménica” e o “diálogo inter-religioso”, mas também uma série infinita de desculpas de Clerigos católicos, do alto e baixo Clero, pelo “triunfalismo” passado da Igreja, ao declarar ser Ela o repositório exclusivo da revelação divina, e ainda pelos supostos pecados dos Seus falecidos membros contra outros “cristãos” e outras culturas. Ora foi precisamente isto o que o Papa Pio XII predisse, quando falou de inovadores que viriam «fazê-lA [a Igreja] ter remorsos do Seu passado histórico».

As previsões do Inimigo cumpriram-se

       Passamos a resumir a correspondência íntima entre o que vimos acontecer na Igreja pós-conciliar e os objectivos, tanto da Maçonaria (como foi revelado por Roca e por vários Maçons, muitos deles citados pelo Bispo Graber, e pela Permanent Instruction) como do Comunismo (como foi atestado por Bella Dodd e outros ex-Comunistas):

  • A revisão radical da liturgia romana, na sequência de um concílio ecuménico. (Roca)

  • Um acordo entre «os ideais da civilização moderna e o ideal de Cristo e do Seu Evangelho. Esta será a consagração da Nova Ordem Social e o baptismo solene da civilização moderna» - isto é, a liberalização global de Clerigos católicos de acordo com os mesmos princípios falsos condenados no Syllabus do Bem-Aventurado Pio IX. (Roca, Melinge, The Permanent Instruction of the Alta Vendita)

  • O aparecimento de um «pontificado pluri-confessional, capaz de se adaptar a um ecumenismo polivalente, tal como se vê estabelecido hoje em dia nas inter-celebrações de Padres e pastores protestantes» - só agora, o próprio Papa celebra liturgias em comum com clérigos protestantes7. (Roca, Melinge)

  • A introdução de um «complexo de culpa na Igreja (…) rotulando a ‘Igreja do Passado’ de opressiva, autoritária, cheia de preconceitos, arrogante por declarar ser a possuidora exclusiva da verdade, e responsável pelas divisões das comunidades religiosas ao longo dos séculos.» (Bella Dodd)

  • A “abertura” da Igreja ao mundo e a uma atitude mais “flexível” em relação a todas as religiões e filosofias. (Bella Dodd)

  • O uso desta nova orientação para arruinar a Igreja, sem chegar a destruí-la. (Bella Dodd, Watson, os desertores soviéticos e The Permanent Instruction)

       E todos estes acontecimentos foram preditos pelo futuro Papa Pio XII em observações que ele especificamente relacionou com as «mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima» e com «esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja».

A Paixão da Igreja

       Assim, a Paixão que a nossa Santa Igreja está actualmente a sofrer não é, na verdade, nenhum grande mistério. Teimando em ignorar os Papas do passado, abandonando condenações de erro, “reabilitando” os teólogos suspeitos e fazendo-os heróis da Igreja, abolindo o Índice de Livros Proibidos e o Santo Ofício, desfazendo-se da liturgia Católica tradicional que era uma barreira contra a heresia, pronunciando “unilateral” e “antiquado” tanto o ensinamento anti-liberal do Bem-Aventurado Pio IX como o ensinamento anti-modernista de São Pio X - em resumo, tirando impiedosa e sistematicamente à Igreja quase todas as Suas defesas -, os dirigentes actuais da Igreja demoliram quase todos os bastiões que outrora protegeram a Igreja da infiltração e da corrupção, criando assim uma estrutura enfraquecida que podemos ver agora a desmoronar-se no escândalo, na corrupção, na desobediência, e na perda de Fé.

       Apesar disso, os dirigentes da Igreja continuam a insistir que o processo desastroso da mudança - responsável por esta invasão e auto-demolição admitida na Igreja - deve continuar “a todo o vapor”. Esta é, precisamente, a razão por que o Cardeal Ratzinger, muitos anos depois do Vaticano II, declarou que a Igreja «tem que demolir bastiões há muito existentes»8.

       Tal como já demonstrámos, tudo isto foi predito pelos inimigos da Igreja. O Bispo Graber, comentando a crise pós-conciliar à luz das predições dos Maçons sobre o que eles depressa conseguiriam fazer, declarou:

       Se, em face destas admissões inequívocas [por Maçons, etc.] alguém ainda é de opinião de que os acontecimentos na Igreja [desde o Vaticano II] são fenómenos marginais, ou dificuldades de transição que cessarão eventualmente por si próprios, então esse alguém está, simplesmente, sem remédio. Mas a responsabilidade dos dirigentes principais na Igreja é tanto maior quanto o é o facto de não se ocuparem com estas questões imaginando que tudo pode ser consertado, remendando aqui e acolá9.

       Mas são estes mesmos “dirigentes principais da Igreja” que são o assunto do nosso caso. Todavia - e apressamo-nos a dizê-lo uma vez mais -, não afirmamos que todo o Clerigo que promove práticas modernas, como o ecumenismo, está a agir deliberadamente como um inimigo da Igreja. O Padre Frederick Faber, ilustre Sacerdote do Século XIX, foi um verdadeiro profeta quando disse num sermão notável, pregado no Pentecostes de 1861, no Oratório de Londres:

       Temos de nos lembrar que, se todos os homens manifestamente bons estivessem de um lado e todos os homens manifestamente maus estivessem do outro, não haveria perigo para ninguém, muito menos para os eleitos, de ser enganado através de falsas maravilhas. São os homens bons - outrora bons e, esperamos, ainda bons - que irão fazer o trabalho do anti-cristo e (coisa triste de se dizer) crucificar o Senhor novamente (…) Recordai-vos desta característica dos últimos dias: que esta falsidade há-de nascer nos homens bons que estão do lado errado10.

       Como iremos agora demonstrar, os homens que nos preocupam estão do lado errado. Ao empreenderem a “demolição de bastiões” da Igreja Católica através da imposição da sua nova orientação - ou daquilo a que o Cardeal Ratzinger chamou uma tentativa, por parte do Concílio, de uma “reconciliação oficial” com a “nova era” iniciada com a Revolução Francesa -, agruparam-se, necessariamente, contra a Mensagem de Fátima. E por esta razão: nada é mais integralmente católico, nada mais oposto ao espírito da “nova era”, nada mais hostil ao ecumenismo conciliar, nada mais oposto à demolição dos bastiões católicos, do que o pedido da Virgem Maria para se consagrar da Rússia ao Seu Imaculado Coração, a conversão subsequente da Rússia à Fé Católica e o glorioso Triunfo do Coração Imaculado de Maria por todo o mundo, numa ordem social católica.

A Mensagem de Fátima: Um bastião final

       Pelo que nós dissemos até aqui, deveria ficar claro que a Mensagem de Fátima, na sua total integridade católica, não pode coexistir com a nova visão da Igreja imposta por aqueles que, levados por uma “vontade de destruir”, incitam à “demolição de bastiões”. Tal destruição aconteceu precisamente porque o vasto programa de aggiornamento do Vaticano II é contrário às verdades católicas que permeiam a Mensagem de Fátima.

       Nossa Senhora não veio a Fátima demolir bastiões da Igreja, mas antes exortar os membros da Igreja a que defendessem os Seus bastiões na crise que se aproximava. Ela não pregou o “ecumenismo” ou o “diálogo inter-religioso”, mas os ensinamentos constantes e imutáveis da Igreja - de que fora Dela não há qualquer salvação. Quando Nossa Senhora veio a Fátima, não nos deu nenhuma “nova teologia”, nem nos deu qualquer “compreensão nova” de doutrina que, de qualquer forma, estaria em conflito com o ensinamento constante do Magisterium.

       O que vemos nós na Mensagem de Fátima? Vemos reforçadas as doutrinas fundamentais da nossa Fé, as mesmas doutrinas que foram alvo do ataque mais feroz do nosso tempo11. Quando a Mãe de Deus veio a Fátima-

  • Falou da doutrina do Céu;

  • Falou da doutrina do Inferno;

  • Mostrou o Inferno aos pastorinhos;

  • Falou da doutrina do Purgatório;

  • Falou da doutrina da Divina Eucaristia;

  • Falou do Sacramento da Penitência;

  • E também falou, indirectamente, da Realeza Social de Jesus Cristo, ao transmitir a ordem do Céu para que a Rússia fosse consagrada ao Seu Imaculado Coração e convertida à religião Católica - precisamente aquilo que os negociadores do Vaticano descreveram como uma “eclesiologia antiquada” na Declaração de Balamand.

Um motivo claramente exposto

       Em conclusão: para aqueles que continuam a seguir a nova orientação da Igreja, a Mensagem de Fátima só pode representar mais outro bastião que deve ser demolido. Por isso, como o Papa Pio XII revelou nas suas observações proféticas, as mensagens da Virgem à Irmã Lúcia diziam respeito aos «perigos que ameaçam a Igreja». Embora não nos seja revelado nas porções da Mensagem de Fátima que até aqui nos foi permitido conhecer, o Papa Pio XII falou de «um aviso do Céu», dado em Fátima, sobre os «[inovadores que O]uço à minha volta», e que trariam sérios danos à Igreja pela «altera[ção] da Fé, na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma».

       Vemos agora, claramente exposto, o motivo para o crime que é o assunto deste livro. Há uma oposição fundamental entre a “nova” Igreja, lançada pelo Vaticano II, e a Igreja de sempre, representada pela Mensagem de Fátima. A Mensagem de Fátima é um obstáculo divino no caminho daqueles que estão determinados a arrasar os bastiões da antiga Igreja, para poderem erguer uma nova Igreja, mais “iluminada”, sobre os destroços.

       Estas duas visões opostas da Igreja - a visão de uma “nova” Igreja e a visão da Igreja de sempre, como Fátima vinha mostrar - não podem coexistir. Uma visão tem que ceder à outra. Os homens que são o assunto deste livro fizeram (explicita ou implicitamente) a sua opção relativamente à visão da Igreja que, no seu entender, deverá governar: escolheram a nova visão - a nova orientação da Igreja iniciada em Metz e no Vaticano II. Naquela escolha baseia-se o seu motivo, e naquele motivo se baseia a nossa compreensão das suas acções contra a Mensagem de Fátima - de outro modo inexplicáveis.

       Pondo de lado, de momento, a questão dos motivos subjectivos dos proponentes desta nova orientação - que falam por si próprios nas declarações que apresentámos -, não se pode negar que, objectivamente, as suas acções são escandalosas, suicidas para a Igreja (num sentido relativo, é claro) e prejudicial para milhões de almas. Assim sendo, as suas acções constituem um crime, independentemente daquilo que os perpetradores possam pretender subjectivamente: porque uma pessoa pode cometer um crime por descuido ou negligência culpável sem ter pretendido causar danos conscientemente. Ora, assim como um homem que acredita sinceramente que está certo assassinar alguém continua a ser culpado de assassínio, assim também aqueles que prejudicaram a Igreja - embora com a melhor das intenções - são culpados de crime contra Ela. É a diferença entre o que a lei chama uma intenção específica de causar dano a outrem, e uma intenção geral de fazer um acto que (deveria saber-se que) causaria dano, mesmo se a pessoa não deseja, subjectivamente, causar esse dano. Por outras palavras: a lei castiga actos deliberados cometidos por alguém que deveria ter pensado melhor antes de cometer tal acto.

       Para alguns dos responsáveis por este desastre, pode haver um sentido extraviado de “iluminação” - «fazer mal sob o disfarce do bem» - ou uma «desorientação diabólica» na direcção da Igreja, para citar as palavras da própria Irmã Lúcia. Em relação a estes indivíduos, trata-se de um caso de «cegos que guiam outros cegos», como afirmou a Irmã Lúcia12 referindo-se ao que Jesus disse no Evangelho (Mt. 15:14), «o cego conduzindo o cego». Também é um caso de cegos que se recusam a admitir que estão cegos: na realidade, alguns destes homens podem ter-se convencido de que aquilo que estão a fazer é o melhor para a Igreja - embora seja manifestamente ruinoso.

Seja qual for o caso, mostraremos que os acusados são objectivamente culpados de um crime terrível contra a Igreja e o mundo, pela sua participação numa verdadeira conspiração para frustrar o cumprimento da Mensagem autêntica de Fátima. Que Deus seja o Juíz das suas almas. As suas palavras objectivas e acções, porém, julgam-se por si próprias no tribunal externo da História.

       O que é mais, as acções destes homens podem ser julgadas à luz do próprio ensino infalível da Igreja, que (como já vimos) eles declararam abertamente “antiquado”, ou que “corrigiram” segundo a maneira “moderna” de pensar e a “nova teologia”. Os resultados deste desvio dos ensinamentos infalíveis são maus, como o estado actual da Igreja deveria demonstrar a qualquer um. Os Católicos têm de julgar o mal como sendo um mal, quando se deparam com ele, em vez de fingirem que é bom, só porque certas figuras de autoridade insistem em que é bom. «Ai dos que chamam bem ao mal, e mal ao bem...» (Isaías 5:20).

       Vamos agora examinar de que maneira o motivo que estabelecemos animou o recente esforço, da parte do aparelho de poder do Vaticano, para enterrar de uma vez por todas a Mensagem de Fátima.


Notas

1. Veja-se, por exemplo, a análise estatística do sacerdócio, em L'Osservatore Romano, 13-20 de Agosto de 1997, e “The Index of Leading Catholic Indicators” (O índice dos principais indicadores católicos), The Latin Mass, Inverno de 2000, que apresenta grande quantidade de dados do Statistical Yearbook of the Church, publicado pelo Vaticano, e de outras obras essenciais de referência.

2. Cardeal Ratzinger, Principles of Catholic Theology, p. 391.

3. Ibid., p. 390.

4. Ibid., p. 391.

5. Alocução da audiência de 26 de Novembro de 1969.

6. Citado e traduzido de David Greenstock, “Thomism and the New Theology”, The Thomist, Outubro de 1950.

7. [Citado por Bigotte Chorão in Camilo, 41. A carta é aí datada (erradamente) de 1866. Anotação acrescentada pelo traductor] Veja-se, por exemplo, “Joint Catholic-Lutheran Vespers at Vatican”, CWNews.com, 13 de Novembro de 1999: «Os Arcebispos G.H. Hammar e Jukka Paarma - respectivamente, Primazes luteranos da Suécia e da Finlândia - e os Bispos Anders Arborelius, de Estocolmo, e Czeslaw Koson, de Copenhague, juntaram-se ao Santo Padre para o serviço de Vésperas. Estiveram presentes à cerimónia vários outros bispos luteranos dos países escandinavos, incluindo duas bispas». Da mesma maneira, no início do Ano do Jubileu, o Papa João Paulo II abriu as Portas Santas de São Paulo Extra-Muros com o Arcebispo anglicano Carey e o Metropolita cismático Athanasios. Representantes de 20 outras confissões falsas assistiram à cerimónia ecuménica. Cf. “Non-Catholics Joining Pope in Rite” (Não-Católicos juntam-se ao Papa num ritual), Los Angeles Times, 19 de Janeiro de 2000.

8. Cardeal Ratzinger, Principles of Catholic Theology, 1987.

9. Graber, Athanasius and the Church of Our Time, pp. 170-171.

10. Citação tirada do livro do Padre Denis Fahey, The Mystical Body of Christ in the Modern World (Dublin, Regina Publications, 1ª edição de 1935), p. xi.

11. Para mais considerações sobre o facto de Nossa Senhora de Fátima ter reforçado doutrinas católicas importantes que hoje são negadas, cf. John Vennari, “A World View Based on Fatima” (Uma visão do mundo baseada em Fátima), The Fatima Crusader, Nº 64, Primavera de 2000; também o mesmo artigo traduzido para Português em www.fatima.org

12. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, pp. 754-758. Veja-se também nota 28 do capítulo 4.


Capítulo 8

A Mensagem de Fátima contra
a linha do partido

     Qual foi o efeito global para a Igreja das mudanças inesperadas, e assaz dramáticas que começaram no século XX? Como escritores católicos têm observado, aquilo que os Católicos testemunharam especialmente ao longo dos últimos 40 anos representa uma espécie de “estalinização da Igreja Católica Romana” - o que tem uma semelhança arrepiante com aquilo que, nessa altura, foi chamado “a Adaptação” da Ortodoxia Russa às exigências do Regime Estalinista.

     A subversão da Igreja Ortodoxa por Stálin é, sem dúvida, uma das evoluções que a Santíssima Virgem previu, em Fátima, para a Rússia. Foi precisamente por isso que a Senhora veio pedir a Consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração: para que esta nação abraçasse a única e verdadeira religião e a única e verdadeira Igreja, e não a Igreja Ortodoxa cismática - fundada em rebelião humana contra Roma, afastada do Corpo Místico de Cristo há mais de 500 anos - sendo, por esse facto, constitucionalmente incapaz de evitar a sua Adaptação total ao Estalinismo.

     A Adaptação Ortodoxa começou oficialmente quando o Metropolita Sergio, da Igreja Ortodoxa Russa, publicou um “Apelo” no Izvestia de 19 de Agosto de 1927. O Apelo de Sergius, como veio a ser conhecido, esboçou uma nova base para a actividade da Igreja Ortodoxa Russa - que o leigo russo Boris Talantov descreveu como «uma Adaptação à realidade ateia da U.R.S.S.». Por outras palavras e como se depreende da argumentação, a Igreja tinha que encontrar uma maneira de viver com a “realidade ateia” da Rússia estalinista. Logo, Sergius propusera o que ficou conhecido, abreviadamente, como a Adaptação.

     A Adaptação constou, antes de mais, de uma separação errónea entre as chamadas necessidades espirituais do Homem - necessidades puramente religiosas -, e as suas necessidades sócio-políticas. Isto é, uma separação entre a Igreja e o Estado: a Igreja servia para satisfazer as necessidades puramente religiosas dos cidadãos da União Soviética, mas sem tocar na estrutura sócio-política que tinha sido edificada pelo Partido Comunista.

     A Adaptação exigiu uma nova administração da Igreja na Rússia, segundo linhas de orientação esboçadas logo depois de ter sido publicado o apelo de Sergius. Na prática, isso traduzia-se num acordo de não criticar a ideologia oficial da União Soviética sob o regime de Stálin, o que se iria reflectir em todas as actividades da Igreja: toda e qualquer oposição da Igreja Ortodoxa Russa ao regime soviético seria, daí em diante, considerada um desvio da sua actividade puramente religiosa, e uma forma de contra-revolução que nunca mais seria permitida nem tolerada.

     Efectivamente, devido ao seu silêncio, a Igreja Ortodoxa tornou-se um “braço longo” do Estado Soviético. Com efeito, Sergius continuaria a defender esta traição e, inclusivamente, a apelar à condenação dos seus próprios colegas ortodoxos, sentenciados a campos de concentração por alegadas actividades contra-revolucionárias. Talantov, que condenara totalmente a Adaptação, descreveu-a deste modo: «Na realidade, toda a actividade religiosa foi reduzida a ritos externos. A pregação que faziam, nas igrejas, aqueles Clerigos que seguiam estritamente a Adaptação era totalmente afastada da vida real e, portanto, não tinha influência alguma nos ouvintes. Como resultado, tanto a vida familiar, social e intelectual dos crentes como a educação da geração mais nova permaneceram fora da influência da Igreja. Ora, não se pode louvar a Cristo e ao mesmo tempo, na vida familiar e social, mentir, fazer o que é injusto, usar de violência e sonhar com um paraíso na terra»1.

     E era isto o que a Adaptação envolvia: a Igreja calar-se-ia sobre os males do regime estalinista, tornar-se-ia uma comunidade puramente “espiritual”, “em sentido abstracto”, já não exprimiria oposição ao regime, já não condenaria os erros e mentiras do Comunismo, tornando-se deste modo uma Igreja do Silêncio - como era frequentemente chamado o Cristanismo para lá da Cortina de Ferro.

     O Apelo de Sergius provocou um cisma na Igreja Ortodoxa Russa. Os verdadeiros crentes que rejeitaram a Adaptação, que denunciaram o Apelo e que permaneceram ligados ao Metropolita Joseph - e não a Sergius - foram presos e enviados para campos de concentração. O próprio Boris Talantov teria eventualmente morrido na prisão como prisioneiro político do Regime Estalinista, e, entretanto, a Igreja do Silêncio era transformada - efectivamente - num órgão do KGB. Stálin arrasou a Igreja Ortodoxa Russa: todos os verdadeiros crentes ortodoxos foram mandados para campos de concentração, ou executados e substituídos por operativos do KGB.

     Pouco antes de morrer, em Agosto de 1967, Talantov escreveu o seguinte sobre a Adaptação:

     A Adaptação ao ateísmo implantada pelo Metropolita Sergius terminou com a (foi completada pela) traição que a Igreja Ortodoxa Russa sofreu, por parte do Metropolita Nikodim e de outros representantes oficiais do Patriarca de Moscovo sediado no estrangeiro. Esta traição, irrefutavelmente provada pelos documentos citados, tem que ser tornada conhecida de todos os crentes, na Rússia e no estrangeiro - porque tal actividade do Patriarcado, assente na cooperação com o KGB, representa um grande perigo para todos os crentes. Na verdade, os chefes ateus do povo russo e os príncipes da Igreja uniram-se contra o Senhor e contra a Sua Igreja2.

     Talantov refere-se aqui ao mesmo Metropolita Nikodim que induziu o Vaticano a entrar no Acordo Vaticano-Moscovo - mediante o qual (como mostrámos no capítulo 6) a Igreja Católica foi forçada a não falar sobre o Comunismo no Concílio Vaticano II. Logo, o mesmo prelado ortodoxo que atraiçoou a Igreja Ortodoxa veio a ser o instrumento de um acordo que atraiçoou também a Igreja Católica. Durante o Vaticano II, certos eclesiásticos católicos em cooperação com Nikodim concordaram em que a Igreja Católica se tornaria também numa Igreja do Silêncio.

     E assim, a partir do Concílio, a Igreja Católica tem-se tornado incontestavelmente silenciosa em quase toda a parte; não só quanto aos erros do Comunismo - que a Igreja deixou de condenar quase por completo, mesmo em relação à China vermelha que cruelmente persegue a Igreja -, mas também quanto aos erros do Mundo em geral. Relembramos que, na sua alocução inaugural do Concílio, o Papa João XXIII admitiu abertamente que o Concílio (e depois dele a maior parte da Igreja) já não condenaria os erros; antes se abriria ao Mundo, numa apresentação “positiva” do Seu ensino aos “homens de boa vontade”. O que se lhe seguiu - e que o próprio Papa Paulo VI teve de admitir - não foi a conversão esperançosa dos “homens de boa vontade”, mas sim aquilo a que o próprio Paulo VI chamou «uma verdadeira invasão da Igreja pelo pensamento mundano». Por outras palavras - tanto quanto isto seja possível na Igreja Católica (que nunca pode falhar completamente na Sua missão) -, tratou-se de um tipo de Adaptação sergiana do Catolicismo Romano.

     Ora, de acordo com esta Adaptação da Igreja Católica, por volta do ano 2000 a Mensagem de Fátima estaria firmemente subjugada às exigências da nova orientação: já tinha sido determinado por certos membros do aparelho de estado do Vaticano que a Rússia não seria mencionada em cerimónia alguma de Consagração que o Papa pudesse realizar, em resposta aos pedidos da Virgem. No número de Novembro de 2000 da revista Inside the Vatican, um Cardeal proeminente, identificado apenas como «um dos conselheiros mais próximos do Santo Padre», é citado deste modo: «Roma receia que os Ortodoxos Russos pudessem considerar uma ‘ofensa’ o facto de Roma fazer uma menção específica da Rússia numa tal oração - como se a Rússia precisasse especialmente de ajuda, quando o Mundo inteiro, incluindo o Ocidente pós-Cristão, enfrenta problemas profundos (…)». O mesmo Cardeal-conselheiro acrescentou: «Vamos ter cuidado para não nos tornarmos demasiado estreitos de espírito».

     Em suma: “Roma” - isto é, alguns poucos membros do aparelho de estado do Vaticano que aconselham o Papa - decidiu não honrar o pedido específico de Nossa Senhora de Fátima, com receio de ofender os Ortodoxos Russos; “Roma” não deseja dar a impressão de que a Rússia deverá converter-se à Fé Católica, por meio da sua Consagração ao Imaculado Coração de Maria, porque isto seria assaz contrário ao novo “diálogo ecuménico” lançado pelo Concílio Vaticano II. A Consagração (e conversão) da Rússia pedida pela Mãe de Deus também seria contra o acordo diplomático do Vaticano (na Declaração de Balamand de 1993), segundo o qual o regresso dos Ortodoxos a Roma é uma “eclesiologia antiquada” - afirmação que, como demonstrámos, contradiz rotundamente o dogma católico, infalivelmente definido, de que tanto hereges como cismáticos não podem salvar-se, se estiverem fora da Igreja Católica. Então, em Janeiro de 1998 e de harmonia com este notório afastamento do ensino católico, o próprio Administrador Apostólico do Vaticano para a Rússia, o Arcebispo Tadeusz Kondrusiewicz, afirmou publicamente: «O Concílio Vaticano II declarou que a Igreja Ortodoxa é a nossa Igreja gémea e tem os mesmos meios para a salvação. Portanto, não há motivo algum para uma política de proselitismo»3.

     Devido a este abandono de facto do ensino continuado da Igreja - de que os hereges, cismáticos, judeus e pagãos têm de unir-se ao rebanho católico se quiserem salvar-se -, uma Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria para obter a sua conversão estaria, evidentemente, fora de questão, pelo menos aos olhos daqueles que promovem a nova orientação da Igreja.

     E foi assim que no dia 13 de Maio de 1982, e outra vez a 25 de Março de 1984, o Papa consagrou o Mundo ao Imaculado Coração de Maria, mas sem qualquer menção à Rússia; em caso algum participaram os Bispos de todo o Mundo - não tendo, portanto, sido cumprido nenhum dos dois requisitos de que a Irmã Lúcia se fez voz ao longo de toda a sua vida. Reconhecendo-o claramente, o próprio Papa fez alguns comentários - intrigantes - durante e depois da cerimónia de 1984: durante a cerimónia, diante de 250.000 pessoas na Praça de São Pedro, o Santo Padre acrescentou espontaneamente o seguinte ao texto já preparado: «Iluminai especialmente aqueles povos cuja consagração e confiada entrega Vós esperais de nós»4; e horas depois da cerimónia, segundo noticiou o Avvenire, jornal dos Bispos italianos, o Santo Padre rezou na Basílica de São Pedro, diante de 10.000 testemunhas, pedindo a Nossa Senhora que abençoasse «aqueles povos para quem Vós Mesma estais à espera do nosso acto de consagração e de confiada entrega»5. A Rússia não foi consagrada ao Imaculado Coração de Maria, e o Papa sabe-o: persuadido, evidentemente, pelos seus conselheiros, o Papa dissera ao Sr. Bispo Cordes, dirigente do Conselho Pontifício para os Leigos, que tinha omitido qualquer menção à Rússia porque «seria interpretada como uma provocação pelos dirigentes soviéticos»6.

O aparecimento da “Linha do Partido” sobre Fátima

     Mas os Fiéis não abandonariam facilmente a Consagração da Rússia, porque era óbvio que, durante o período 1984-2000, a Rússia não experienciara a Conversão religiosa que a Virgem tinha prometido, como fruto de uma adequada Consagração ao Imaculado Coração de Maria. Muito pelo contrário: apesar de certas mudanças políticas, a condição material, moral e espiritual da Rússia apenas piorou desde a dita “consagração” de 1984.

     Repare-se nestas provas, que fornecem apenas um esboço da gravidade da situação da Rússia pelo ano 2000 (e que só tem vindo a piorar desde então, como veremos):

  • Uns 16 anos depois da Consagração, a Rússia tem a taxa mais alta de abortos no Mundo inteiro. O Padre Daniel Maurer, CJD, que passou os últimos oito anos na Rússia, diz que, estatisticamente, a mulher russa terá em média oito abortos durante os seus anos férteis - embora o Padre Maurer creia que o número real andará à volta de 12 abortos por cada mulher; ele falou mesmo com mulheres que chegaram a fazer 25 abortos. A principal razão para números tão arrepiantes é que outros métodos de contracepção (que são imorais, de qualquer modo) nem foram difundidos na Rússia, nem são de confiança. Isto deixa o aborto como «o meio mais barato para limitar o tamanho da família». Actualmente na Rússia os abortos são gratuitos; mas os nascimentos não o são7.

  • A taxa de natalidade russa está a baixar, e a população da Rússia está a diminuir ao ritmo de 700.000 pessoas por ano - acontecimento sem precedentes numa nação civilizada durante «uma época de paz»8.

  • A Rússia tem o consumo de álcool mais alto do Mundo9.

  • O satanismo, o ocultismo e a feitiçaria estão em ascensão na Rússia, como até Alexy II, o Patriarca Ortodoxo Russo, admite publicamente10.

  • A homossexualidade está à rédea solta, quer em Moscovo quer por toda a parte do país. Com efeito, em Abril de 1993, nove anos depois da “consagração” de 1984, Boris Yeltsin permitiu que a homossexualidade fosse despenalizada. A homossexualidade é agora “legal” na Rússia11.

  • A Rússia é um centro mundial de eleição para a difusão de pornografia infantil. A Associated Press apresentou um relatório sobre uma rede de pornografia infantil, com sede em Moscovo e ligada a uma outra rede de pornografia infantil no Texas. Citando AP: «A lei russa não distingue entre pornografia infantil e pornografia que envolva adultos, e trata a produção e difusão de ambos como um crime menor - disse Dmitry Chepchugov, chefe do departamento do Ministério do Interior Russo para os crimes de alta tecnologia. A polícia russa frequentemente se queixa do caos legal que fez da Rússia um centro internacional de produção de pornografia infantil. “Infelizmente, a Rússia transformou-se num contentor de lixo mundial de pornografia infantil ” - disse Chepchugov aos jornalistas em Moscovo»12.

  • Agora os Russos vêem avidamente os programas de televisão “da vida real”. Nos shows “da vida real” mais depravados, câmaras de vídeo filmam a vida pessoal íntima de ‘casais’ russos, incluindo a sua actividade sexual. Apesar dos murmúrios de desaprovação de velhos Comunistas, partidários de uma linha dura, os telespectadores russos “nunca se fartam” desta pornografia. O programa «gaba-se de uma taxa de audiências de mais de 50%, e milhares de Russos aguentam temperaturas abaixo de zero e esperam, em fila, durante mais de uma hora, só para espreitarem [essa ‘vida real’] através duma janela do apartamento. Milhões já visitaram esse site da Internet - que bloqueia frequentemente sob o peso do tráfego»13.

  • Quanto à situação da Igreja Católica: em 1997, a Rússia decretou uma lei nova sobre “liberdade de consciência” que deu um estatuto privilegiado à Ortodoxia Russa, ao Islamismo, Judaísmo e Budismo, que foram consideradas “as religiões tradicionais” da Rússia; por seu turno, era necessário às paróquias católicas obterem a aprovação dos burocratas locais, só para terem o direito de existir. Como resultado:

  • O minúsculo Sacerdócio católico na Rússia, uns 200 Sacerdotes, é formado quase inteiramente por Clerigos nascidos no estrangeiro, sendo, a muitos deles, concedidos vistos de entrada no país com um prazo apenas de três meses - enquanto os homens de negócios recebem vistos de entrada de seis meses14.

  • Há apenas dez Sacerdotes nascidos na Rússia em todo o país - cinco na Sibéria e cinco no Cazaquistão -, tendo 95% dos Sacerdotes e Freiras nascido no estrangeiro. Na opinião franca do Senhor Arcebispo Bukovsky, a Igreja Católica «é pequena (…) e será sempre pequena»15.

  • Os Católicos constituem menos de metade de 1% da população russa, enquanto os Muçulmanos russos ultrapassam 10 vezes mais o número de Católicos. Segundo notícia da Rádio Free Europe, o Catolicismo é visto, na Rússia, como «um tipo de esquisitice inexplicável - qual a razão por que um Russo haveria de ser católico?»16.

  • Segundo o Vaticano, há 500.000 Católicos na Rússia, a maioria dos quais estão na Sibéria - para onde Stálin enviara os seus avós17.

     Dado este tipo de evidências, não era possível - pura e simplesmente - que se desvanecesse facilmente a interrogação sobre se a Consagração da Rússia teria sido feita do modo pedido por Nossa Senhora de Fátima ou não. Portanto, na perspectiva dos executores da nova orientação da Igreja - a Adaptação da Igreja ao Mundo -, algo tinha que ser feito com respeito a Fátima. E, em especial, algo tinha que ser feito com respeito a um Sacerdote canadiano, de nome Padre Nicholas Gruner, cujo apostolado de Fátima se tinha tornado uma voz de peso para milhões de Católicos que estavam convictos de que a Consagração da Rússia ‘descarrilara’ devido aos planos de certas personagens do Vaticano. Era tão simples quanto isto: Fátima e “o Sacerdote de Fátima” tinham que ser enterrados de uma vez por todas.

     O processo começou já há muito, em 1988, no momento em que - conta Frère François - «uma ordem veio do Vaticano dirigida às autoridades de Fátima, à Irmã Lúcia, a diversos eclesiásticos incluindo o Padre Messias Coelho e um sacerdote francês [evidentemente, o Padre Pierre Caillon] muito devoto de Nossa Senhora, ordenando a todos que deixassem de importunar o Santo Padre com o assunto da Consagração da Rússia». O Padre Caillon, devoto de Fátima, confirmou a emissão desta ordem: «uma ordem veio de Roma, que obrigava todos a dizerem e a pensarem: “A Consagração está feita. Tendo o Papa realizado tudo o que está ao Seu alcance, dignou-se o Céu aceitar este gesto”»18. Foi por esta altura (1988-1989) que muitos Apostolados de Fátima - que tinham persistido em que a Consagração da Rússia ainda não fora feita - inverteram inesperadamente as suas posições e declararam que a Consagração de 1984 tinha cumprido os desejos do Céu. Lamentavelmente, até mesmo o Padre Caillon logo a seguir mudou o seu testemunho e começou a dizer que a Consagração de 1984 tinha cumprido os pedidos da Santíssima Virgem.

     Foi também por essa época que começaram a circular cartas, alegadamente da Irmã Lúcia, escritas à maquina e geradas por computador. Destas cartas - manifestamente incríveis - ficou típica a de 8 de Novembro de 1989, dirigida ao Senhor Noelker e que contém a afirmação da “Irmã Lúcia” de que o Papa Paulo VI consagrou o Mundo ao Imaculado Coração de Maria durante a sua breve visita a Fátima em 1967 - uma Consagração que nunca aconteceu, como a Irmã Lúcia decerto sabia, porque testemunhou pessoalmente a visita inteira19.

     Deste modo emergiu a Linha do Partido na Mensagem de Fátima. A que chamamos, exactamente, “a Linha do Partido”? Vladimir Ilyich Lénin disse certa vez: «A mentira é sagrada e o engano será a nossa principal arma.» Portanto, não era surpresa nenhuma que o Pravda, na qualidade de órgão oficial do Partido Comunista Soviético, estivesse cheio de mentiras - embora a palavra russa Pravda signifique “verdade”. Então, um jornal chamado “Verdade” estava sempre cheio de mentiras: porque, como dizia Lénin, «A mentira é sagrada e o engano será a nossa principal arma.»

     Ora um mentiroso não convencerá ninguém com as suas mentiras, se usar ao peito um grande cartaz a dizer “Mentiroso!”. Nem sequer um palerma acreditaria em tal homem. Para o mentiroso convencer as pessoas de que as suas mentiras são verdade, então a verdade tem que ser redefinida. É isto mesmo o que quer dizer a frase de Lénin «a mentira é sagrada (…)». A mentira torna-se “verdade” e é-lhe servilmente dada adesão, em vez da verdade. Como dizem as Sagradas Escrituras ao pronunciarem a maldição no livro de Isaías: «Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas.» (Is. 5:20). Às trevas da falsidade é dada a aparência da luz da verdade - e é este um dos erros fundamentais da Rússia.

     Mas este truque de transformar uma mentira em “verdade” não tem a sua origem na Rússia nem nos Comunistas; a sua origem é o demónio, que é o Pai das Mentiras. São Paulo fala do demónio sob a aparência de um anjo de luz. Para ser mais específico, ele está a referir-se ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: «Mas ainda que alguém - nós mesmos ou um anjo do Céu - vos anuncie outro Evangelho além do que aquele que vos tenho anunciado, esse seja anátema.» (Gal. 1:8). É o demónio, aparecendo sob o aspecto de um anjo de luz, que dá a aparência da verdade, de modo a enganar por meio da mentira. E foi daqui que o erro - “a mentira é sagrada” e “a falsidade é a verdade” - se originou.

     O Padre Paul Kramer relata uma conversa que teve com o General Daniel Graham, do Exército dos E.U.A. «O General Graham disse que uma vez esteve na Rússia com um oficial soviético e que esse oficial soviético lhe perguntou: “O Senhor não deseja a paz?” E o General respondeu: “Não! Porque eu conheço a vossa definição de paz. Não quero esse género de paz.” Enquanto conversavam, passaram por um cartaz gigante que mostrava soldados armados de espingardas. No cartaz havia a legenda: “Pobieda kommunista eta mir.” Que em português é: “A vitória comunista é a Paz.”»

     Segundo o ensino marxista, o Estado comunista faz a guerra para fomentar a revolução e emprega todos os meios possíveis de engano - guerra total - de modo a subjugar o Mundo inteiro ao Comunismo. Uma vez que a guerra total se tenha efectuado e que o Comunismo seja vitorioso sobre todo o planeta, haverá então a versão comunista de “paz”. Mas, na realidade, o que é a Paz? A Paz é definida com mais precisão por Santo Agostinho: «A Paz é a tranquilidade da ordem». Qual é a definição correcta? Não se trata de um assunto de avaliação subjectiva. São Tomás de Aquino explica: «ens et verum convertunter», que é uma maneira erudita de dizer que a verdade é convertível com a realidade - ou seja, aquilo que é objectivamente real é, por essa mesma razão, objectivamente verdadeiro. Por outras palavras: a verdade é aquilo que é, enquanto uma mentira é aquilo que não é. Aquilo que não é não pode ser verdade. Logo, se alguém diz, por exemplo, que o branco é preto, tal afirmação é uma mentira - por mais alta que seja a autoridade daquele que faz a afirmação.

     Segundo a doutrina marxista, todavia, a verdade é aquilo que promove a revolução comunista. E o que é que promove a revolução comunista? Tudo o que tiver sido decidido constituir a Linha do Partido: aquilo que o Partido dita para ser verdadeiro passa a ser a verdade”, mesmo se, efectivamente, for uma mentira. Deste modo, se a Linha do Partido afirma “que o preto é branco”, é nisso, portanto, que todos os membros do Partido têm de acreditar - simplesmente porque assim foi decidido pelo Partido: “que o preto é branco”.

     Ora, tal como houve uma espécie de “Estalinização” da Igreja, no sentido de uma Adaptação da Igreja ao Mundo, assim também há-de haver uma espécie de Linha do Partido estalinista sobre Fátima: uma versão da Mensagem de Fátima ditada pelas cúpulas e à qual todos os membros da Igreja da Adaptação pós-conciliar têm de aderir. Essencialmente, a Linha do Partido sobre Fátima resume-se a isto: A “Consagração da Rússia” foi levada a cabo por completo, pelo que todos devem deixar de pedir que ela se faça. Temos “a paz”, tal como foi vaticinado por Nossa Senhora de Fátima. A Rússia está a realizar a “conversão” que Nossa Senhora prometeu. Logo - segundo a Linha do Partido - nada na Mensagem de Fátima ficou por fazer: e Fátima pertence agora ao passado.

     Como veremos, todos os termos entre vírgulas altas - “consagração da Rússia”, “paz” e “conversão” - foram redefinidos, para a Linha do Partido se acomodar a Fátima. Portanto, em tudo o que diga respeito a Fátima, é-nos agora pedido que acreditemos o equivalente a “o que é preto é branco” - porque é essa a Linha do Partido.

A ditadura do Secretário de Estado do Vaticano

     Ora cada Linha do Partido requer um ditador, um chefe do Partido que a imponha. De onde, exactamente, dentro do aparelho de poder do Vaticano, proveio a Linha do Partido sobre Fátima? E as evidências são esmagadoras: proveio do Secretário de Estado do Vaticano. Neste ponto, ser-nos-ia útil uma breve história dos antecedentes.

     Em primeiro lugar, no estado próprio das coisas - aquilo a que Santo Agostinho chamava “a tranquilidade da ordem”, ou seja, a Paz -, a Igreja não é uma ditadura. A ditadura é uma instituição bárbara. Como diz Eurípides, «entre os bárbaros, todos são escravos salvo um». Disse Nosso Senhor que «os chefes das nações governam-nas como seus senhores» (Mt. 20:25); e disse também aos Seus apóstolos: «Não seja assim entre vós». Apesar disso, a tranquilidade da ordem - a Paz da Igreja - tem sido perturbada enormemente no período pós-conciliar. O que vemos na Igreja de hoje é que há membros da Cúria Romana (não o Papa, mas alguns dos seus ministros no Vaticano) que governam sobre os seus súbditos com um despotismo oriental. Mais precisamente, exercem o seu despotismo sobre certos súbditos que desafiam a Linha do Partido, enquanto a Igreja, na Sua generalidade, padece à beira de um colapso de Fé e de disciplina que estes mesmos potentados ignoram.

     Como aconteceu tudo isto? A partir da restruturação da Cúria Romana, por volta de 1967, por ordem do Papa Paulo VI - mas que, na realidade, foi planeada e efectuada pelo Cardeal Jean Villot -, era possível que os dirigentes dos vários Dicastérios Romanos se comportassem como ditadores. É que antes do Concílio Vaticano II a Cúria Romana estava estruturada como uma monarquia: O Papa era o Prefeito do Santo Oficio, enquanto o Cardeal encarregado dos assuntos do quotidiano do Santo Oficio ocupava o segundo lugar. Os outros dicastérios eram de um grau mais baixo. Assim, enquanto na sua própria autoridade e jurisdição, e de acordo com aquele princípio de subsidiariedade20, estavam subordinados ao Santo Oficio, também o Santo Oficio estava subordinado directamente ao Papa - ordenação que estava inteiramente de harmonia com a Divina Constituição da Igreja. O Papa, Vigário de Jesus Cristo na terra, era Quem estava à frente da cadeia hierarquizada de governação.

     Todavia, depois do Vaticano II, o Cardeal Villot engendrou a restruturação da Cúria Romana. Muito antes de Gorbachev ter anunciado o seu programa de perestroika na União Soviética, já a Igreja efectuava a sua própria perestroika na Cúria Romana. O Santo Oficio foi ‘rebaptizado’ - mas, muito mais significativamente do que isso, o Santo Oficio perdeu a sua posição máxima dentro da Cúria. A Cúria foi restruturada de modo a que o Cardeal Secretário de Estado ficasse acima de todos os outros dicastérios, incluindo o outrora chamado Santo Oficio - que, renomeado e restruturado, passava agora a ser chamado Congregação para a Doutrina da Fé (CDF); e o Papa deixara de ser o Prefeito: agora, a Congregação (a CDF) é governada por um Cardeal Prefeito (actualmente, o Cardeal Ratzinger), sob a autoridade do Secretário de Estado.

     Com o sistema anterior de governação - sob a autoridade do Papa e do Seu Santo Oficio -, a Fé e a Moral eram os factores primordiais que determinavam a política curial. No ‘arranjo’ pós-conciliar, porém, às ordens do Cardeal Secretário de Estado e do seu dicastério, o Secretariado de Estado, é a Linha do Partido - ou seja, a política do Secretário de Estado - o supremo factor determinante na formulação dos planos de acção da Igreja; mesmo o anterior Santo Oficio (agora CDF) está subordinado ao Secretário de Estado. Logo, como consequência desta restruturação, o Santo Padre, o Supremo Pontífice, é reduzido a uma figura decorativa que dá a sua aprovação - como quem apõe um carimbo - às decisões que lhe são apresentadas como um fait accompli pelo Secretário de Estado. É bom que se retenha na memória: O Papa foi reduzido a uma simples figura decorativa, ao serviço da ditadura do Secretário de Estado21.

     Ora, no registo maçónico requerido pela lei italiana, pode encontrar-se o nome de Jean Villot - o mesmo Villot que dirigiu a reorganização curial. Depois de o Cardeal Villot falecer, foi encontrada na sua biblioteca particular uma mensagem manuscrita do Grão-Mestre da Loja Maçónica a que Villot pertencia, a louvá-lo por ter mantido as tradições da Maçonaria22. Como comentou um Sacerdote francês que vivia em Roma: «Pelo menos havia uma área em que ele era tradicional.»

O uso da falsa “obediência” como modo de
impor a Linha do Partido

     Em 1917, no mesmo ano em que Nossa Senhora apareceu em Fátima, São Maximiliano Kolbe estava em Roma - onde viu os Maçons mostrando a sua hostilidade aberta à Igreja Católica e manifestando-se com cartazes que anunciavam a sua intenção de se infiltrarem no Vaticano, de modo que Satanás pudesse reinar a partir do Vaticano e que o Papa fosse seu escravo23. Gabavam-se também, ao mesmo tempo, de que haviam de destruir a Igreja. A intenção dos Maçons em destruirem a Igreja encaixa-se perfeitamente no bem conhecido preceito maçónico: «Destruiremos a Igreja por meio da santa obediência». Ora, tal como mostrámos em capítulo anterior, o Bispo Graber de Regensburg (Alemanha) recolheu outros testemunhos semelhantes de Maçons ilustres, e a própria Permanent Instruction of the Alta Vendita declarou descaradamente: «deixai o Clero marchar sob o vosso estandarte, mas acreditando sempre que marcha sob o estandarte das Chaves Apostólicas». Isto é: a exigência de “obediência” seria utilizada de modo ditatorial, para enfraquecer insidiosamente a verdadeira obediência e a própria Fé.

     E a reorganização da Cúria, em 1967, seria um instrumento para efectuar esse objectivo, por sujeitar toda a Igreja à Linha do Partido do Secretário de Estado - inclusive a Linha do Partido sobre Fátima -, sob o aspecto de uma falsa “obediência” a uma autoridade que, sem qualquer dúvida, excedera os limites estabelecidos pelo próprio Deus. Como demonstraremos em breve, foi o Cardeal Sodano que, literalmente, ditou a “interpretação” do aspecto visionário do Terceiro Segredo de Fátima - aquele que foi dado a público sem as palavras da Santíssima Virgem que o explicavam.

O Secretário de Estado
faz da Mensagem de Fátima um alvo a atingir

     Esse facto faz-nos bem presente o exacto papel do Secretário de Estado ao impor a Linha do Partido a respeito de Fátima. Como fizemos notar, este processo envolveria a Mensagem de Fátima em geral e, em particular, talvez o seu maior propugnador dentro da Igreja: o Apostolado de Fátima do Padre Nicholas Gruner.

     Já em 1989, o então Secretário de Estado Cardeal Casaroli (o grande propagador da Ostpolitik) comunicara a Sua Excelência Reverendíssima D. Gerardo Pierro - à época, Bispo da Diocese de Avellino (Itália) e do Padre Gruner - aquilo a que o Bispo chamara “sinais de preocupação” sobre o Apostolado de Fátima do Padre Nicholas Gruner. O Padre Nicholas Gruner foi ordenado Sacerdote em Avellino, em 1976, para uma comunidade franciscana que acabou por não se constituir como se esperava. Desde 1978, e com a devida autorização do Bispo, o Padre Gruner passou a residir no Canadá, onde se tornou o chefe de um pequeno Apostolado de Fátima que, desde então, veio a crescer até se tornar o maior do seu género no Mundo inteiro. Porém, desde que a Linha do Partido quanto à “consagração” de 1984 foi imposta pela tal ordem anónima de 1988, era inevitável que o Apostolado do Padre Gruner e o Secretário de Estado haviam de entrar em colisão - do mesmo modo que a orientação tradicional e a nova orientação da Igreja colidiram depois do Concílio Vaticano II.

     A técnica basilar para tentarem ver-se livres do Padre Gruner foi criar um cenário canónico fictício, dentro do qual, tendo sido ordenado ao Padre Gruner que encontrasse algum outro Bispo que o incardinasse fora de Avellino, qualquer tentativa sua de incardinação, em qualquer lugar que fosse, ser-lhe-ia bloqueada por meio de tortuosas maquinações, sem precedentes e ‘por baixo da mesa’: deste modo o Padre Gruner seria forçado a “voltar” a Avellino e a abandonar o seu Apostolado. Após ter bloqueado, sucessivamente, a incardinação do Padre Gruner por três Bispos - de boa vontade e amigos da causa de Fátima -, o aparelho de poder do Vaticano (num procedimento complexo que fica para além do objectivo deste livro24) declarou, finalmente, a sua decisão: ou o Padre Gruner “voltava” a Avellino, ou seria “suspenso” por “desobediência”. Em suma: o Padre Gruner ficou sob a ameaça de “suspensão” por não ter conseguido fazer aquilo que os seus próprios acusadores o tinham sistematicamente impedido de fazer - ou seja, encontrar outro Bispo que o incardinasse25.

     Enquanto serpenteavam através dos tribunais do Vaticano os vários apelos canónicos do Padre Gruner contra estas acções inauditas contra si movidas, o seu Apostolado de Fátima continuava a florescer. Pelo ano 2000 e em particular por meio da sua revista The Fatima Crusader (A Cruzada de Fátima), o Apostolado tornou-se a voz mais forte e mais persistente na Igreja, tanto em prol da Consagração da Rússia como da divulgação do Terceiro Segredo.

     Além disso, o Papa veio complicar para os conspiradores o cenário de Fátima por eles criado, com a Sua decisão de beatificar Jacinta e Francisco, numa cerimónia a realizar em Fátima a 13 de Maio de 2000. Tal intenção de beatificar os dois pastorinhos cedo se tornou pública - em Junho de 1999 - e este encaminhar dos acontecimentos provocou claramente uma luta interna no seio do aparelho de poder do Vaticano. É o que revela a concepção - de avanços e recuos, curiosa e confusa - dos planos para a cerimónia da beatificação, o que é muito invulgar para o Vaticano. Em primeiro lugar, o Secretário de Estado, Cardeal Angelo Sodano, anunciou em Outubro de 1999 que a beatificação da Jacinta e do Francisco teria lugar em 9 de Abril de 2000 na Praça de São Pedro, em cerimónia conjunta com mais outras quatro beatificações. A imprensa portuguesa refere que o Cardeal Patriarca de Lisboa fora informado pelo Vaticano de que era “totalmente impossível” para o Papa vir a Fátima para a beatificação dos pastorinhos e que o assunto estava “encerrado”. O Cardeal Patriarca disse aos jornalistas portugueses que estava convencido de que esta “impossibilidade” de o Papa vir a Fátima se devia, exclusivamente, a uma decisão do Secretário de Estado do Vaticano - e de ninguém mais.

     Mas o Papa tinha outras ideias: Em Novembro de 1999, Sua Santidade - ultrapassando obviamente o Cardeal Sodano - informou directamente D. Serafim, Bispo de Leiria, que deveria anunciar que, com efeito, o Papa viria a Fátima a 13 de Maio para efectuar as beatificações. O Bispo D. Serafim não divulgou o novo anúncio até Dezembro de 1999; depois, em Março de 2000, D. Serafim deixou escapar que «o Papa fará algo especial em relação a Fátima» - o que provocou uma especulação furiosa na imprensa sobre ir o Papa, por fim, divulgar o Terceiro Segredo. O Bispo D. Serafim foi de imediato repreendido publicamente pelo Cardeal Patriarca de Lisboa - possivelmente por ordem de alguém ao serviço do Secretário de Estado do Vaticano, que não queria que ninguém soubesse que o Papa considerava a hipótese de divulgação do Segredo. Mas foi rastilho aceso que ficou a arder26.

     E o Papa veio a Fátima a 13 de Maio de 2000 para beatificar a Jacinta e o Francisco. A vinda do Papa foi uma espécie de demonstração viva do conflito existente entre as duas visões da Igreja que temos estado a discutir. Depois das beatificações, o Papa fez uma Homilia evocando a Igreja intemporal. Nessa Homilia, muitas coisas que a Igreja parecia ter esquecido ao longo dos últimos quarenta anos foram subitamente relembradas:

     Por desígnio divino, veio do Céu a esta terra, à procura dos pequeninos privilegiados do Pai, «uma Mulher revestida com o Sol» (Ap. 12:1). Fala-lhes com voz e coração de mãe; convida-os a oferecerem-se como vítimas de reparação, oferecendo-se Ela para os conduzir, seguros, até Deus (…)

     Mais tarde, Francisco, um dos três pastorinhos privilegiados, exclamava: «Nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus? Não se pode dizer. Isto sim que a gente não pode dizer». Deus - uma luz que arde, mas não queima. A mesma sensação teve Moisés, quando viu Deus na sarça ardente. (…)

     «E apareceu no Céu outro sinal: um enorme Dragão» (Ap. 12, 3). Estas palavras da primeira leitura da Missa fazem-nos pensar na grande luta que se trava entre o bem e o mal, podendo-se constatar como o homem, pondo Deus de lado, não consegue chegar à felicidade, antes acaba por destruir-se a si próprio. (…)

     A Mensagem de Fátima é um apelo à conversão, alertando a humanidade para não fazer o jogo do “dragão” cuja «cauda arrastou um terço das estrelas do Céu e lançou-as sobre a terra» (Ap. 12:4).

     A meta última do homem é o Céu, sua verdadeira casa onde o Pai celeste, no Seu Amor misericordioso, por todos espera. Deus não quer que ninguém se perca; por isso, há dois mil anos, mandou à terra o seu Filho «procurar e salvar o que estava perdido» (Lc. 19:10 ). (…)

     Na sua solicitude materna, a Santíssima Virgem veio aqui, a Fátima, pedir aos homens para «não ofenderem mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido». É a dor de mãe que a A faz falar: está em jogo a sorte de seus filhos. Por isso, dizia aos pastorinhos: «Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.» (ênfase acrescentada)

     O Papa - ao fazer uma relação directa da Mensagem de Fátima com o Livro do Apocalipse, e ao comparar o encontro dos videntes de Fátima com Deus ao de Moisés diante da Sarça Ardente - realizou uma surpreendente autenticação papal das aparições de Fátima, como sendo profecias divinas para o nosso tempo. Inesperada e repentinamente, Fátima esteve outra vez bem diante dos olhos de toda a Igreja.

     Houve, primeiro que tudo, a referência surpreendente do Papa à Mensagem de Fátima como um momento bíblico, o próprio cumprimento do capítulo 12, versículo 1 do Livro do Apocalipse, que fala da «Mulher revestida com o Sol». Aqui o Papa João Paulo II fez-se eco do Papa Paulo VI que, na sua carta apostólica Signum magnum, divulgada em Fátima a 13 de Maio de 1967, declarou:

     O sinal grandioso que o Apóstolo S. João viu no céu, «uma Mulher revestida com o sol», não sem fundamento o interpreta a sagrada Liturgia como referindo-se à Santíssima Virgem Maria, Mãe de todos os homens pela graça de Cristo Redentor. (…) Por ocasião das cerimónias religiosas em honra da Virgem Mãe de Deus que têm lugar nestes dias em Fátima, Portugal, onde Ela é venerada por numerosas multidões de fiéis pelo seu Coração maternal e compassivo, Nós desejamos uma vez mais chamar a atenção de todos os filhos da Igreja para o inseparável nexo existente entre a maternidade espiritual de Maria (…) e os deveres dos homens remidos para com Ela, como Mãe da Igreja.

     Mais surpreendente ainda, na Sua Homilia, o Papa João Paulo II explicitamente ligou a Mensagem de Fátima ao Apocalipse, capítulo 12, versículo 4 - que vaticina que a “cauda da dragão” arrastará um terço das estrelas do Céu e lançá-las-á sobre a terra. Como o Padre Gruner salientaria depois: «Na linguagem da Bíblia, as “estrelas do Céu” são aquelas pessoas que estão colocadas nos céus para iluminar o caminho dos outros até ao Céu. Esta passagem tem sido interpretada classicamente em comentários católicos significando que uma terça parte do Clero - isto é, Cardeais, Bispos, Sacerdotes - caem do seu estado consagrado para, na verdade, estarem a trabalhar para o demónio.» Por exemplo, o comentário de Haydock à Bíblia Douay-Rheims (em inglês) nota que a imagem de uma terça parte das estrelas do Céu tem sido interpretada como referindo-se aos «Bispos e pessoas eminentes que caem sob o peso de perseguição e se tornaram apóstatas (…) O demónio está sempre pronto, na medida em que Deus lho permita, para abrir guerra contra a Igreja e contra os fiéis servos de Deus.»

     Nesta conexão, tanto o Padre Gruner como o Dr. Gerry Matatics - estudioso bíblico católico (e outrora ministro presbiteriano) - e outros citaram o comentário ao Apocalipse (12:3-4) feito pelo Padre Herman B. Kramer, em The Book of Destiny (O livro do destino). Este livro foi publicado com imprimatur, em 1956 - providencialmente, apenas seis anos antes da abertura do Concílio Vaticano II. Quanto ao símbolo da terça parte das estrelas do Céu, o Padre Herman Kramer observa: «Isto significa a terça parte do Clero» - e acrescenta - «“a terça parte” das estrelas seguirá o dragão» - o que significa um terço do Clero, sendo as “estrelas” as almas consagradas da Igreja27. Portanto, um terço do Clero católico estará ao serviço do demónio, trabalhando para destruir a Igreja a partir do Seu interior. O comentário do Padre Herman Kramer salienta que o dragão vermelho - um sinal do demónio que também poderia simbolizar o Comunismo, por ser o vermelho a cor emblemática do Comunismo - traz grande aflição à Igreja minando-a a partir do Seu interior.

     O comentário continua dizendo que, por meio deste Clero apóstata, o demónio imporá provavelmente na Igreja «a aceitação de morais não-cristãs, doutrinas falsas, comprometimento com o erro, ou obediência a governantes laicos em violação de consciência.» E sugere ainda que «A significação simbólica da cauda do dragão revela que os Clerigos que estão prontos para a apostasia serão aqueles que ocupam posições de influência na Igreja, nomeações ganhas através da hipocrisia, do engano e da lisonja.» O Clero que segue o dragão - isto é, o demónio - incluiria aqueles «que deixavam de pregar a verdade ou de admoestar o pecador através de um bom exemplo; antes procuravam a popularidade por não serem rígidos e por serem escravos do respeito humano» tal como aqueles «que, receando prejudicar os seus próprios interesses, calavam as admoestações contra as práticas más na Igreja» e ainda os Bispos «que têm ódio aos Sacerdotes íntegros que se atrevem a dizer a verdade»28. O Padre Herman Kramer também observa o seguinte quanto ao estado da Igreja Católica nos tempos vaticinados no Apoc. 12:3-4:

     «A democracia apostólica fundada por Nosso Senhor terá dado lugar a uma monarquia absoluta, na qual o episcopado governa com um despotismo oriental. Assim, os Sacerdotes serão reduzidos a um estado de servilismo e de baixa adulação. O governo da razão, da justiça e do amor terá sido suplantado pela vontade absoluta do Bispo cujos actos e palavras, cada um deles, são para serem aceites sem se questionarem, sem se recorrer ao facto, à verdade ou à justiça. A consciência terá perdido o seu direito a guiar as acções dos Sacerdotes e será ignorada ou condenada. A diplomacia, a conveniência e outras fraudes serão elogiadas, como se fossem as maiores virtudes»29.

     Ora, nada disto é mencionado naqueles excertos da Mensagem de Fátima que até agora foram divulgados. Terá o Papa, com a sua alusão surpreendente ao Apocalipse 12:3-4, apresentado ao Mundo um vislumbre do conteúdo do Terceiro Segredo? Iria Ele divulgar o Segredo agora, em toda a sua inteireza?

     Mas - que infelicidade! - a homilia acaba e não é o Papa Quem discutirá o Terceiro Segredo. Tão depressa como tinha começado, acaba o regresso momentâneo do Papa à visão da Igreja de todos os tempos - para se erguer um dos principais divulgadores da nova visão da Igreja. É o Cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano - o mesmo Cardeal Sodano que, em vão, tentou impedir o Papa de ir a Fátima para beatificar a Jacinta e o Francisco. Por alguma razão estranha é Sodano - não o Papa - que irá anunciar que o Santo Padre decidiu revelar o Terceiro Segredo de Fátima:

     Na circunstância solene da sua vinda a Fátima, o Sumo Pontífice incumbiu-me de vos comunicar uma notícia. Como é sabido, a finalidade da vinda do Santo Padre a Fátima é a beatificação dos dois Pastorinhos. Contudo, Ele quer dar a esta Sua peregrinação também o valor de um renovado preito de gratidão a Nossa Senhora pela protecção que Ela Lhe tem concedido durante estes anos de pontificado. É uma protecção que parece ter a ver também com a chamada “terceira parte” do Segredo de Fátima.

     E então, o que até ali parecera tão estranho tornou-se, logo a seguir, perfeitamente explicável: a tarefa do Cardeal Sodano era preparar os fiéis para aceitarem a noção de que a Mensagem de Fátima - incluindo o Terceiro Segredo - devia agora ser considerada como coisa do passado. Este processo começaria com a “interpretação” do Terceiro Segredo feita pelo Cardeal:

     Tal texto constitui uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura, que não descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo factos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas. Em consequência, a chave de leitura do texto só pode ser de carácter simbólico. (…)

     Segundo a interpretação dos Pastorinhos, interpretação confirmada ainda recentemente pela Irmã Lúcia, o «Bispo vestido de Branco» que reza por todos os fiéis é o Papa. Também Ele, caminhando penosamente para a Cruz por entre os cadáveres dos martirizados (Bispos, Sacerdotes, Religiosos, Religiosas e várias pessoas seculares), cai por terra como morto sob os tiros de uma arma de fogo. (ênfase acrescentada)

     Como os fiéis em breve virão a saber, isto é, pura e simplesmente, uma mentira. O «Bispo vestido de Branco» não aparece na visão «como morto»; ele é morto - como o texto da visão diz sem qualquer dúvida - ao modo de uma execução militar, em conjunto com muitos Bispos, Sacerdotes e Religiosos, no exterior de uma cidade meio em ruínas.

     Ora, porquê inserir as palavras “como morto” na “interpretação”? O Cardeal Sodano lança a mão de imediato:

     Depois do atentado de 13 de Maio de 1981, pareceu claramente a Sua Santidade que foi «uma mão materna a guiar a trajectória da bala», permitindo que o «Papa agonizante» se detivesse «no limiar da morte». (…)

     Depois, os acontecimentos de 1989 levaram, quer na União Soviética quer em numerosos Países do Leste, à queda do regime comunista que propugnava o ateísmo. (…)

     Embora os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do Segredo de Fátima pareçam pertencer já ao passado, o apelo à conversão e à penitência, manifestado por Nossa Senhora no início do Século XX, conserva ainda hoje uma estimulante actualidade. (ênfase acrescentada)

     Muito simplesmente, Sodano preparava o terreno para uma “interpretação” da Mensagem de Fátima que a enterraria de uma vez por todas: a Mensagem culminou com a tentativa de assassínio de 1981 e com a “queda do Comunismo” em 1989 - acontecimentos esses que «pare[ce]m pertencer já ao passado». Para se assegurar este resultado, o “comentário” seria preparado antes de o texto efectivo do Terceiro Segredo ser divulgado:

     Para consentir que os fiéis recebam melhor a mensagem da Virgem de Fátima, o Papa confiou à Congregação para a Doutrina da Fé o encargo de tornar publica a terceira parte do segredo, depois de lhe ter preparado um adequado comentário.

     Mas por que motivo não estava pronto este comentário na devida altura, para a cerimónia de 13 de Maio? Afinal de contas, as notícias da divulgação iminente do Terceiro Segredo estavam a circular pelo menos desde Março de 2000: nesse mês, o Sr. Bispo D. Serafim anunciou que o Papa lhe tinha dito, durante uma sua visita a Roma, que o Santo Padre «far[ia] algo especial em relação a Fátima»30 quando lá fosse para a cerimónia de beatificação, em Maio de 2000.

     Curiosamente, o Papa insistiu com o Bispo D. Serafim para que não dissesse nada sobre este assunto enquanto estivesse em Roma, mas que esperasse até voltar a Fátima. Todavia, o assunto estava já no espírito do Papa desde Novembro anterior; então, porque é que não foi preparado nenhum “comentário” durante esse período (entre Novembro de 1999 e Maio de 2000)? Certamente um tal comentário poderia facilmente ter sido composto durante esse tempo.

     Há duas conclusões que se impõem: ou o Papa não tinha dito ao Cardeal Sodano da sua intenção de divulgar o Terceiro Segredo - e neste caso o Papa não confia em Sodano; ou o Papa disse-o a Sodano - após o que o Cardeal considerou que, de um ou de outro modo, poderia impedir a sua divulgação, na cerimónia de 13 de Maio de 2000. Isto explicaria o facto de o Cardeal Sodano não ter arranjado de antemão um comentário: porque pensou que não seria necessário, pois ele poderia impedir qualquer divulgação do Terceiro Segredo. Mas o Papa seguiu adiante - pelo que agora o Segredo teve de ser “manejado”, e de tal modo que a questão de Fátima pudesse ficar enterrada.

Uma conferência de imprensa
para anunciar a Linha do Partido de Sodano

     E é assim que chegamos à data fatídica de 26 de Junho de 2000 - data em que o Terceiro Segredo é “divulgado” numa conferência de imprensa do Vaticano, juntamente com um comentário preparado pelo Cardeal Ratzinger e por Monsenhor Tarcisio Bertone, Secretário da CDF, intitulado A Mensagem de Fátima (daqui em diante referido como AMF). Em AMF, a Linha do Partido sobre Fátima seria oficialmente promulgada - sob o comando directo do Cardeal Angelo Sodano.

     Antes de mais nada, foi dito aos fiéis que o texto que se seguia - de uma visão que tivera a Irmã Lúcia - era todo o conteúdo do Terceiro Segredo de Fátima:

     Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o Mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, Religiosos e Religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'eles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.

     A reacção imediata de milhões de Católicos poderia resumir-se em duas palavras: - É tudo? Sem qualquer dúvida havia algo errado: nada neste texto correspondia ao que o próprio Cardeal Ratzinger dissera sobre o Terceiro Segredo, em 1984 - um ponto a que voltaremos em breve, nem continha coisa alguma que pudesse explicar a sua supressão misteriosa a partir de 1960.

     De suma importância é que esta visão obscura, escrita em quatro folhas de papel (de um caderno), não continha quaisquer palavras de Nossa Senhora. E, em especial, não continha nada que completasse a famosa frase dita por Nossa Senhora, ao terminar a porção da Mensagem de Fátima fielmente transcrita pela Irmã Lúcia nas suas memórias: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.» A Irmã Lúcia acrescentou esta frase, incluindo o “etc.”, à sua quarta memória, como parte do texto integral da Mensagem. Este acrescento levou todos os estudiosos fidedignos de Fátima a concluir que essa frase assinalava o início da parte do Terceiro Segredo ainda por revelar, e que o Terceiro Segredo apontava para uma crise do dogma largamente espalhada na Igreja, fora de Portugal. Sem qualquer dúvida, a Santíssima Virgem tinha mais coisas para dizer que não foram postas por escrito, porque a Irmã Lúcia foi instruída no sentido de o manter em sigilo - até 1960, como sabemos.

     Todavia, com uma curiosa manobra, a AMF evitou qualquer discussão sobre a frase reveladora, ao recolher o texto da Mensagem de Fátima da Terceira Memória da Irmã Lúcia onde tal frase não aparece. AMF justifica-o deste modo: «Para a exposição das primeiras duas partes do “segredo”, aliás já publicadas e conhecidas, foi escolhido o texto escrito pela Irmã Lúcia na terceira memória, de 31 de Agosto de 1941; na quarta memória, de 8 de Dezembro de 1941, ela acrescentará qualquer observação». Qualquer observação? A frase-chave respeitante à conservação do dogma da Fé em Portugal não foi “qualquer observação” mas antes um elemento integrante das palavras ditas por Nossa Senhora, depois das quais Ela disse: «Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.»

     Depois de ter viciosamente caracterizado um elemento integrante da Mensagem de Fátima como uma “qualquer observação”, a AMF trata de o ‘sepultar’ numa nota de rodapé que nunca mais é mencionada: «Na citada “Quarta Memória”, a Irmã Lúcia acrescenta: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.”».

     Porque é que Sodano/Ratzinger/Bertone usaram de tanta esperteza para ocultarem esta frase-chave - a ponto de eles (tão obviamente!) se terem desviado do seu caminho só para a evitarem usando uma Memória anterior e menos completa do texto da Mensagem? Se não há nada a ocultar nesta frase, porque não se usou, simplesmente, a Quarta Memória e se tentou dar uma explicação do que essa frase quer dizer? Porque é que os autores da AMF fingiram tão obviamente que a frase é uma mera “observação”, quando bem sabem que ela aparece no texto integral como parte das palavras proferidas pela Mãe de Deus? Regressaremos a este comportamento suspeito num capítulo seguinte.

     Outro motivo de suspeição era que a visão do «Bispo vestido de Branco» não podia ser a carta, de uma só página, «em que a Irmã Lúcia escreveu as palavras que Nossa Senhora confiou aos três pastorinhos, como segredo, na Cova da Iria» - como o próprio Vaticano a descreveu, no já mencionado comunicado à imprensa de 1960. O texto da visão estende-se por quatro páginas que parecem ser folhas pautadas de um caderno.

     Outra circunstância suspeita é o facto de, a 26 de Junho, a mentira do Cardeal Sodano de 13 de Maio ter sido claramente exposta: o Papa é assassinado por um pelotão de soldados que o abatem a tiro, estando ele ajoelhado aos pés de uma grande Cruz de madeira, fora de uma cidade meio arruinada. O Papa não está “como morto”, como o Cardeal Sodano falsamente tinha afirmado em Maio; o Papa é morto. A visão, o que quer que ela significasse, não tem absolutamente nada a ver com o atentado de 1981. Os Fiéis - que já tinham sido enganados em Maio - continuavam agora claramente no processo de serem enganados.

     As muitas e muitas discrepâncias levantadas por este texto - que, por todo o Mundo, impeliam os Católicos a duvidar de ter-nos sido revelado o Segredo na íntegra - serão discutidas em capítulo mais adiante. Por ora, consideramos o “comentário” de Ratzinger/Bertone em AMF sobre a Mensagem de Fátima como um todo.

O Cardeal Sodano dita
a “Interpretação” do Terceiro Segredo

     Em primeiro lugar, AMF é, na verdade, uma concordância virtual de que a “interpretação” da Mensagem de Fátima - da qual o Cardeal Ratzinger e Mons. Bertone “encetar[ão] uma tentativa” (para citar as palavras do Cardeal Ratzinger) - foi ditada pelo próprio Cardeal Sodano. Não menos de quatro vezes, a AMF afirma que está a seguir a “interpretação” de Sodano do Terceiro Segredo - ou seja, que Fátima pertence ao passado:

     Antes de encetar uma tentativa de interpretação, cujas linhas essenciais podem encontrar-se na comunicação que o Cardeal Sodano pronunciou, no dia 13 de Maio deste ano (…)

     Por tal motivo, a linguagem feita de imagens destas visões é uma linguagem simbólica. Sobre isto, diz o Cardeal Sodano (…)   

     Como resulta da documentação anterior, a interpretação dada pelo Cardeal Sodano, no seu texto do dia 13 de Maio, tinha antes sido apresentada pessoalmente à Irmã Lúcia. (…)      

     Em primeiro lugar, devemos supor, como afirma o Cardeal Sodano, que «os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do “segredo” de Fátima parecem pertencer já ao passado».

     E para o caso de o leitor ainda não ter conseguido entendê-lo, o objectivo fundamental da AMF é reforçado mais uma vez:

     Os diversos acontecimentos, na medida em que lá são representados, pertencem já ao passado.

     Ora vejamos: Não é curioso o facto de a interpretação da Mensagem vital dada ao Mundo pela Santíssima Virgem de Fátima não ter sido entregue nem ao Papa, nem mesmo à Congregação para a Doutrina da Fé (que se limitou meramente a macaquear a opinião do Cardeal Sodano), mas sim ao Secretário de Estado do Vaticano? Que autoridade tem o Cardeal Sodano para impor o seu ponto de vista à Igreja? Nenhuma, evidentemente. Mas o Cardeal Sodano tinha-se arrogado aquela autoridade, ao manter o ascendente pós-conciliar global de Secretário de Estado do Vaticano ao nível de um Papa de facto, quanto à governação diária dos assuntos da Igreja.

     Aqui seria oportuno fornecer outro exemplo revelador desta usurpação de autoridade pelo Secretário de Estado. Num artigo intitulado “O Papa, a Missa e a política dos burocratas do Vaticano” (da revista The Latin Mass, suplemento de Inverno, Janeiro de 2002), o jornalista italiano Alessandro Zangrando conta o episódio em que o Secretário de Estado do Vaticano impedira a publicação, em L'Osservatore Romano, dos elogios do Papa à Missa tradicional em Latim. Esse louvor fora expresso numa mensagem papal dirigida a uma assembleia da Congregação para a Adoração Divina e a Disciplina dos Sacramentos: «No Missal Romano de São Pio V, como em muitas liturgias orientais, há várias orações muito belas com que os Sacerdotes expressam o mais profundo sentido de humildade e reverência perante os Sagrados Mistérios - revelando essas orações a Própria Substância de cada Liturgia.»

     Alessandro Zangrando observou que, enquanto as mensagens pontifícias dirigidas às Congregações do Vaticano são normalmente publicadas logo a seguir à sua comunicação, esta não o foi: Só depois de o louvor do Papa à Missa Tridentina ter sido publicado no jornal secular italiano Il Giornale, é que o Secretário de Estado do Vaticano, inesperadamente (e em apenas 24 horas) divulgou o texto da mensagem do Santo Padre através do gabinete de imprensa do Vaticano - isto mais de um mês após a sua comunicação pelo Sumo Pontífice. E até hoje, ao contrário da prática normal, a mensagem do Papa à Congregação não foi publicada em L'Osservatore Romano, que é o jornal pontifício. Zangrando citou a conclusão do famoso “Vaticanista” (especialista nos assuntos do Vaticano) Andrea Tornielli: «O facto de, 24 horas depois da publicação do artigo [em Il Giornale], o Secretário de Estado do Vaticano ter tornado público o texto da carta do Santo Padre prova que houve uma verdadeira tentativa de “censura” às palavras do Papa… Mas “virou-se o feitiço contra o feiticeiro” e o resultado, inesperadamente, foi o oposto do que se desejava» - isto é: o elogio do Papa à Missa tradicional acabou por alcançar uma publicidade muito maior, mesmo na imprensa secular.

     E por aqui deduzimos que um outro elemento-chave da nova orientação da Igreja - o abandono da Sua liturgia tradicional em Latim - entrou em vigor forçado pelo Secretário de Estado que tentou censurar o elogio da Missa tradicional feito pelo Papa. Quem sabe quantas outras alocuções pontificias terão sido censuradas - e com êxito - pelo Secretariado de Estado do Vaticano? Este incidente é apenas uma amostra-tipo do modo como a governação da Igreja hoje opera, especialmente devido ao declínio da saúde fisica do Papa.

O Cardeal Ratzinger executa
a Linha do Partido de Sodano

     Voltando ao “comentário” com estes factos em mente, qualquer um pode ver que a tal conferência de imprensa de 26 de Junho de 2000 teve um só propósito primordial: levar por diante a ordem do Cardeal Sodano com respeito à interpretação “correcta” da Mensagem de Fátima. Na própria altura em que os jornalistas saíram daquela sala, a Mensagem de Fátima - toda ela - destinava-se a ser enterrada. E, uma vez enterrada, a Mensagem já não impediria o Cardeal Sodano e os seus colaboradores de seguirem, de modo implacável, a nova orientação pós-Fátima da Igreja que inclui (como veremos) o importante assunto eclesial de louvar, jantar e conviver com tipos como Mikhail Gorbachev - depois de o Papa ter pedido desculpa ao Regime da China Vermelha, de se fazer pressão sobre os Católicos romenos para entregarem à Igreja Ortodoxa os direitos (que cabiam à Igreja Católica local) sobre as propriedades roubadas por Josef Stálin, de se apoiar e mesmo de se contribuir com dinheiro para um Tribunal Criminal Internacional, ateu e irresponsável, que, sob os auspícios das Nações Unidas, poderia pôr na justiça Católicos de qualquer nação por “crimes (não-especificados) contra a humanidade” - e outros que tais “triunfos” da diplomacia do Vaticano.

     Por outras palavras: cada último reduto na Igreja tem de se conformar com o novo modo de pensar e de falar ao Mundo - o que não quadra bem nem com a profecia de Nossa Senhora de Fátima sobre o Triunfo do Seu Imaculado Coração, nem com a difusão da devoção ao Seu Imaculado Coração, nem com a consequente conversão da Rússia por meio da intervenção do Imaculado Coração de Maria. Este tipo de conversa, pura e simplesmente, já não dá, mesmo supondo que vem da própria Mãe de Deus. Logo, a missão precisa que, a 26 de Junho de 2000, o Cardeal Ratzinger e Mons. Bertone deviam realizar era: encontrar uma maneira de desligar os Fiéis, de uma vez por todas, dos aspectos explicitamente católicos da Mensagem de Fátima, que tão claramente nos lembram a Igreja “triunfal” da “idade das trevas pré-conciliar”. Como o Los Angeles Times observaria, no dia seguinte, no seu título de caixa alta: «Igreja Católica revela o Terceiro Segredo: O maior teólogo do Vaticano demoliu “com luva branca” a história de uma Freira sobre a sua visão de 1917 que tem vindo a alimentar a especulação ao longo de décadas». Todo este “contorcionismo” foi tão flagrante que até mesmo um jornal secular e laico não podia deixar de reparar nisso. Vejamos as evidências deste crime contra a Virgem de Fátima e contra os santos videntes que Deus escolheu para receber a Sua Mensagem.

     Primeiro, foi a tentativa do Cardeal Ratzinger, em AMF, de eliminar o Triunfo do Imaculado Coração:

     Queria, no fim, tomar uma vez mais outra palavra-chave do «segredo» que justamente se tornou famosa: «O Meu Imaculado Coração triunfará». Que significa isto? Significa que este Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie. O fiat de Maria, a palavra do Seu Coração, mudou a história do Mundo, porque introduziu neste Mundo o Salvador: graças àquele «Sim», Deus pôde fazer-Se homem no nosso meio e tal permanece para sempre.

     O leitor atento pode reparar de imediato que o Cardeal Ratzinger suprimiu (muito convenientemente) as duas primeiras palavras da profecia da Santíssima Virgem: Por fim. Esta censura clara e intencional feita à própria Mãe de Deus era necessária para a “interpretação” revisionista do Cardeal Ratzinger seguindo o tom das palavras ditadas por Sodano: isto é, que Fátima pertence ao passado.

     Portanto, «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará» - depois do afastamento vantajoso das duas primeiras palavras - é agora entendido do seguinte modo: «Há 2000 anos, o Meu Imaculado Coração triunfou». A profecia de Nossa Senhora do que acontererá por fim é falsificada flagrantemente, para ser um mero reconhecimento do que já aconteceu há 20 séculos, no início da História do Cristianismo. Quatro acontecimentos futuros - o Triunfo do Imaculado Coração de Maria, a Consagração da Rússia, a conversão da Rússia e o período de Paz no Mundo que daí resultará - são astuciosamente convertidos em um só acontecimento, de há 2000 anos!

     Esta manipulação de uma mensagem que o próprio Deus enviou à terra por meio da Sua Mãe Santíssima haveria de fazer com que alguém, de entre os Fiéis, se levantasse e exigisse justiça em nome do Céu. Mas o Cardeal Ratzinger não acaba aqui a sua carnificina da Mensagem de Fátima; faz ainda muito pior do que isso. Referindo-se ao apelo de Nossa Senhora para que se estabeleça pelo Mundo inteiro a devoção ao Seu Imaculado Coração - do modo como “Deus quer” - o Cardeal Ratzinger apresentou esta zombaria:

     O «imaculado coração» é, segundo o evangelho de Mateus (5,8), um coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, «vê a Deus». Portanto, «devoção» ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat - «seja feita a vossa vontade» - se torna o centro conformador de toda a existência.

     Repare-se, primeiro, nas aspas que o Cardeal Ratzinger coloca em redor de devoção e de Imaculado Coração, que desnuda das suas maiúsculas - sinal seguro de que estas palavras estão prestes a adquirir um novo significado.

     Logo, «Deus quer estabelecer no Mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração» deve ser entendido agora como «Deus quer que todos façam a Sua vontade»; desse modo, todos aqueles cujos corações estão abertos à vontade de Deus adquirirão o seu próprio “imaculado coração”. Assim, a devoção ao Imaculado Coração de Maria significaria a abertura do coração de cada um para com Deus, e não a difusão da Devoção ao Coração da Mãe Santíssima com o propósito de tornar o Mundo (especialmente a Rússia) católico. Imaculado com I maiúsculo torna-se imaculado com i minúsculo; e o Coração da Santíssima Virgem torna-se o coração de todos - pelo menos potencialmente. Como se um mágico dissesse: «-Abracadabra! Já está trocado!»

     Claro que há uma só palavra para descrever a diminuição do verdadeiro e único Imaculado Coração - concebido sem Pecado Original e irrepreensível de qualquer mancha de pecado pessoal -, descendo até ao nível do coração de qualquer pessoa que se arrepende dos seus pecados e que encontra a unidade interior com Deus. Só há uma palavra - e essa palavra é blasfémia. Mais será dito sobre este ultraje em particular no capítulo seguinte.

     Já a conversão da Rússia, foi um pouco mais difícil fazê-la desaparecer. Não há muito que se possa dizer para obscurecer a afirmação bem clara da Mãe de Deus de que «O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá». Mas, como abundantemente demonstrámos, a conversão da Rússia deixou de ser aceitável para o aparelho de poder do Vaticano. A solução para este problema foi, simplesmente, evitar qualquer discussão deste assunto em AMF - embora as palavras de Nossa Senhora sejam citadas sem comentário. A conversão da Rússia? Qual conversão?

     Mas o insulto supremo foi o Cardeal Ratzinger ter citado, em AMF, uma única “autoridade” sobre Fátima: o teólogo flamengo Edouard Dhanis, S.J., que o Cardeal identifica como um «eminente conhecedor» de Fátima. Evidentemente que o Cardeal Ratzinger sabe bem que Dhanis, Jesuíta modernista, deve a sua celebridade a ter posto em dúvida as aparições de Fátima. Dhanis propusera que, no Segredo de Fátima, tudo o que fosse além de um apelo à oração e penitência tinha sido fabricado no espírito dos três pastorinhos, com base em coisas que tinham visto ou ouvido ao longo da sua vida. Logo, Dhanis categorizou com o nome de “Fátima II” tudo aquilo que ele, «eminente conhecedor», arbitrariamente rejeitou como invenções - sem sequer ter entrevistado uma única vez a Irmã Lúcia, nem ter estudado os arquivos oficiais de Fátima.

     Como Dhanis afirmou: «Considerando bem tudo isto, não é fácil declarar precisamente qual o grau de credibilidade que deve ser dado aos relatos da Irmã Lúcia. Sem questionar a sua sinceridade nem a solidez de julgamento que ela evidencia na sua vida do dia-a-dia, julgar-se-á prudente usar dos seus escritos apenas sob reserva. (…) Observemos também que uma pessoa boa pode ser sincera e mostrar sensatez nos seus juízos quotidianos, mas ter uma propensão para invenções inconscientes num determinado domínio ou, em qualquer um dos casos, uma tendência para contar velhas recordações de há vinte anos com embelezamentos e modificações consideráveis”31.

     Dhanis - que recusou examinar os arquivos oficiais de Fátima - levantou dúvidas sobre cada um daqueles aspectos da Mensagem de Fátima que não concordava com as suas inclinações neo-modernistas: à oração ensinada pelo Anjo, ele chamou-lhe “inexacta”; à visão do Inferno, disse ser uma “exagerada representação medieval”; à profecia de “uma noite iluminada por uma luz desconhecida” anunciando o advento da II Guerra Mundial, descreveu-a como “uma base para suspeição”. E quanto à consagração da Rússia, Dhanis declarou redondamente que “A Rússia não poderia ser consagrada pelo Papa sem que tal acto se revestisse de um certo ar de provocação, quer em relação à Igreja separada, quer em relação à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Isto tornaria a consagração praticamente irrealizável…». Portanto, Dhanis declarou que a Consagração da Rússia era «moralmente impossível devido às reacções que viria, previsivelmente, a provocar»32.

     A desconstrução que Dhanis fez da Mensagem de Fátima é um exemplo típico de como os modernistas minam as verdades católicas, baseados em premissas inventadas por eles próprios. Assim (premissa inventada), se a Consagração da Rússia é moralmente impossível, como teria Nossa Senhora de Fátima pedido que se fizesse? Tendo assim feito a sua jogada contra a Irmã Lúcia, Dhanis extrai a conclusão “inevitável”: «Mas seria de crer que a Santíssima Virgem tivesse pedido uma consagração que, tomada rigorosamente à letra, era praticamente irrealizável? (…) Com efeito, tal pergunta parece requerer uma resposta negativa. (…) Logo, dificilmente parece provável que Nossa Senhora pedisse a consagração da Rússia (…)» Com base inteiramente na premissa inventada por Dhanis, o testemunho da Irmã Lúcia é classificado como ‘uma fraude’.

     É exactamente esta a linha adoptada pelo Cardeal Sodano e pelo seu aparelho de Estado do Vaticano: a Mãe de Deus nunca poderia ter pedido uma coisa tão diplomaticamente embaraçosa como uma consagração pública da Rússia; assim, devemos eliminar esta noção embaraçosa de uma vez por todas. É esta linha - a Linha do Partido - que o Cardeal Ratzinger aprovou no seu “comentário”, ao elogiar Dhanis como um “eminente conhecedor” de Fátima; e, continuando a Linha do Partido, o Cardeal Ratzinger afirma que o Terceiro Segredo em particular consta de «imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé». Por outras palavras, como se poderá saber, na verdade, quais as partes do Terceiro Segredo que são autênticas e quais as que são meramente memórias pessoais ou “intuições”? É claro que se isto for verdade quanto ao Terceiro Segredo, também pode ser verdade em relação a toda a Mensagem de Fátima.

     A astuta tentativa do Cardeal Ratzinger de enfraquecer insidiosamente a credibilidade da Irmã Lúcia, no seu grande respeito para com a Mensagem de Fátima, será novamente discutida no capítulo seguinte. Aqui basta dizer que a concordância evidente entre o Cardeal Ratzinger e Dhanis - de que todos os elementos especificamente proféticos da Mensagem de Fátima não são fiáveis - serve para o desqualificar quanto a fazer alguma “interpretação” do Terceiro Segredo ou de alguma outra parte da Mensagem de Fátima. Muito simplesmente, o Cardeal Ratzinger não acredita que a Mãe de Deus pediu a Consagração da Rússia, a conversão da Rússia à Fé Católica, o Triunfo do Imaculado Coração de Maria e o estabelecimento, pelo Mundo inteiro, da devoção (especificamente católica) ao único Imaculado Coração. Sendo este o caso, o Cardeal tinha o dever de dar a conhecer essa sua descrença e de se abster do assunto - em vez de fingir ser uma “interpretação” o que mais não é do que uma tentativa de desacreditar aquilo mesmo que aparenta estar a “interpretar”.

     O que ficou da Mensagem de Fátima depois de o Cardeal Ratzinger e de Mons. Bertone terem acabado com ela, a 26 de Junho de 2000? Neste ponto, o Cardeal Ratzinger, Mons. Bertone e o Padre Dhanis todos concordam: «O que permanece - dissemo-lo logo ao início das nossas reflexões sobre o texto do “segredo” - é a exortação à oração como caminho para a “salvação das almas ” [sic] e, no mesmo sentido, o apelo à penitência e à conversão.» A partir de 26 de Junho de 2000, a Mensagem de Fátima tornou-se uma “Fátima light”: uma receita diluída para a piedade pessoal, sem qualquer pertinência específica para o futuro.

     Então foi para isto que a Mãe de Deus veio à terra e se operou o Milagre do Sol? É interessante reparar que, mesmo na apresentação desta versão minimalista da Mensagem, o Cardeal Ratzinger não pôde escrever sobre a salvação das almas sem colocar certas palavras entre aquelas aspas enjoadas - que ele usou para, no seu comentário, se poder distanciar das palavras devoção, triunfo e imaculado. Parece até que essa ‘Fátima light’ não é suficientemente light, no seu conteúdo católico, para o paladar ecuménico dos eclesiásticos modernos.

     Quanto à advertência profética de Nossa Senhora de que «várias nações serão aniquiladas» se a Consagração da Rússia não for feita - é claro, como tudo leva a crer, que esperam que esqueçamos isto: não haverá nenhuma aniquilação de nações, «Fátima pertence ao passado». O Cardeal Sodano diz assim. O Cardeal Ratzinger concorda.

A Linha do Partido:
o que diz acerca da Consagração da Rússia

     Mencionámos já qual foi o papel do Arcebispo Bertone em AMF. Os seus principais contributos nesta farsa foram dois:

     Primeiro, Bertone promulgou a “ordem” (que, evidentemente, não obriga ninguém) de que os Fiéis devem cessar de pedir a Consagração da Rússia: «Por isso, qualquer discussão e ulterior petição [para que se faça a Consagração] não tem fundamento.»

     Para apoiar tal afirmação, Bertone referiu exactamente uma só peça como evidência: a “carta de 8 de Novembro de 1989”, manifestamente falsa e que já mencionámos, da “Irmã Lúcia” ao Senhor Noelker - a tal carta em que a “Irmã Lúcia” se refere a uma consagração do Mundo feita pelo Papa Paulo VI em Fátima, coisa que ela nunca testemunhou porque nunca aconteceu. Muito revelador é o facto de Bertone não identificar o destinatário da carta. Nem apresenta uma cópia para que o Mundo a examine - não fosse alguém reparar no erro fatal quanto à inexistente «consagração do Mundo» do Papa Paulo VI. Mais revelador ainda: a AMF não contém absolutamente nenhum testemunho directo da pessoa da Irmã Lúcia com respeito à Consagração, embora o próprio Bertone a tenha entrevistado sobre o Terceiro Segredo apenas dois meses antes, e ela estivesse perfeitamente disponível, tanto para o Cardeal Ratzinger como para todo o aparelho de poder do Vaticano, durante a cerimónia de Beatificação em Maio.

     E não é para admirar. A versão de AMF da “consagração da Rússia” - isto é, a versão do Cardeal Sodano - contradiz rotundamente uma vida inteira de testemunho contrário prestado pela Irmã Lúcia. Vejamos alguns exemplos.

     Há mais de 55 anos, em 15 de Julho de 1946, o eminente autor e historiador William Thomas Walsh entrevistou a Irmã Lúcia - o que é contado na sua importante obra, Our Lady of Fatima, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Nessa entrevista, que aparece no final do livro, o Senhor Walsh perguntou-lhe pormenores específicos sobre o procedimento correcto para a Consagração Colegial.

     Por fim chegámos ao assunto importante do segundo segredo de Julho, do qual tantas versões diferentes e incompatíveis têm sido publicadas. Tornou-se claro para Lúcia que Nossa Senhora não pediu a consagração do Mundo ao Seu Imaculado Coração. O que exigiu especificamente foi a consagração da Rússia. Ela não fez qualquer comentário sobre o facto de o Papa Pio XII ter consagrado o Mundo, e não a Rússia, ao Imaculado Coração [de Maria] em 1942. Mas disse mais de uma vez, e com ênfase deliberada: «O que Nossa Senhora quer é que o Papa e todos os Bispos no Mundo consagrem a Rússia ao Seu Imaculado Coração em um dia específico. Se isto for feito, a Senhora converterá a Rússia e haverá Paz. Se não for feito, os erros da Rússia espalhar-se-ão a todos os países do Mundo»33.

     A Irmã Lúcia é clara e directa. A consagração colegial pedida pelo Céu é a Consagração da Rússia, não do Mundo, e tem que ser feita pelo Papa em conjunto com os Bispos do Mundo no mesmo dia.

     Aliás, há ainda a revelação pouco conhecida de Nossa Senhora à Irmã Lúcia nos inícios dos anos 50, e que é contada em Il Pellegrinaggio delle Meraviglie, publicado sob os auspícios do episcopado italiano. A Santíssima Virgem Maria apareceu à Irmã Lúcia em Maio de 1952 e disse: «Dê-se conhecimento ao Santo Padre que continuo a esperar a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração. Sem a Consagração, a Rússia não se poderá converter, nem o Mundo terá a Paz»34.

     É assim que, 10 anos depois da consagração do Mundo do Papa Pio XII em 1942, temos Nossa Senhora a recordar à Irmã Lúcia que a Rússia não se converterá, nem haverá Paz, a menos que a Rússia seja consagrada pelo seu próprio nome.

     Trinta anos depois, em 1982, o testemunho da Irmã Lúcia continua inalterável. Em 12 de Maio de 1982, um dia antes da suposta consagração de 1982, o jornal oficial do Vaticano L'Osservatore Romano publicou uma entrevista da Irmã Lúcia, feita pelo Padre Umberto Maria Pasquale, Sacerdote salesiano, durante a qual ela diz ao Padre Umberto que Nossa Senhora nunca pediu a consagração do Mundo, mas a consagração da Rússia:

     A certa altura, disse-lhe: « - Irmã, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Se não puder responder-me, paciência! Mas se puder, ficaria muito agradecido se me esclarecesse um pormenor que também não parece claro a muita gente... Alguma vez Nossa Senhora lhe falou da consagração do Mundo ao Seu Imaculado Coração?»

     « -Não, Padre Umberto! Nunca! Na Cova da Iria, em 1917, Nossa Senhora prometeu: “Eu virei pedir a consagração da Rússia (…)” Em 1929, em Tui, tal como tinha prometido, Nossa Senhora voltou para me dizer que chegara o momento de pedir ao Santo Padre que fizesse a consagração daquela nação [a Rússia] (…)»

     Este testemunho foi confirmado pela Irmã Lúcia em uma carta escrita a mão ao Padre Umberto, que o Sacerdote também publicou. [Encontra-se, em baixo, uma cópia reproduzida fotograficamente].

     Aqui vai a transcrição da nota:

Rev.do Senhor P. Humberto, “Respondendo à sua pergunta esclareço: Nossa Senhora, em Fátima, no Seu pedido, só Se referiu à consagração da Rússia.” … Coimbra 13 IV-1980 (assinado) Irmã Lúcia

     Mais uma vez a 19 de Março de 1983, a pedido do Santo Padre, a Irmã Lúcia encontra-se de novo com o Núncio Pontifício, o Arcebispo Portalupi, o Sr. Dr. Lacerda e o Padre Messias Coelho. Durante este encontro, a Irmã Lúcia confirma que a Consagração de 1982 do Papa João Paulo II não cumpriu os pedidos de Nossa Senhora. Irmã Lúcia disse:

     No acto do oferecimento de 13 de Maio de 1982, a Rússia não apareceu como sendo o objecto da consagração. E cada Bispo não organizou na sua própria diocese uma cerimónia pública e solene de reparação e Consagração da Rússia. O Papa João Paulo II simplesmente renovou a consagração do Mundo efectuada pelo Pio XII a 31 de Octubro de 1942. Desta consagração podemos esperar alguns benefícios, mas não a conversão da Rússia35.

     Ela concluiu, «A Consagração da Rússia não foi feita como Nossa Senhora tinha exigido. Não o pude dizer publicamente mais cedo, por não ter tido autorização do Vaticano»36.

     Um ano depois, a 25 de Março de 1984, o Papa João Paulo II fez um acto de oferecimento, após o que consagrou outra vez “o Mundo”, não a Rússia. Tal como sucedeu com a consagração de 1982, «cada Bispo não organizou na sua própria diocese uma cerimónia pública e solene de reparação e Consagração da Rússia.» Com respeito a esta cerimónia, Frère François escreve: «Nos meses que se seguiram ao acto de oferecimento de 25 de Março de 1984, que foi apenas uma renovação do acto de 1982, os principais estudiosos de Fátima concordaram em dizer que a consagração da Rússia ainda não fora feita como o Céu desejava»37.

     Tal foi também a convicção do Padre António Maria Martins38 e do Padre Messias Coelho que, na véspera de 25 de Março de 1984, escreveu na Mensagem de Fátima, da qual ele é o redactor: «Consagração da Rússia: Não será feita ainda nesta altura». Para além disto explicou: «Está certo que o maior contém o menor. Aparentemente, portanto, a “Consagração do Mundo” dará talvez a impressão de ter o poder de substituir a consagração específica da Rússia. O problema, todavia, não pode ser resolvido em termos lógicos, nem mesmo à luz de teologia sistemática»39.

     Estes teólogos basearam as suas afirmações não só no mero facto de que uma consagração da Rússia precisa de mencionar a palavra “Rússia”, mas também no testemunho da própria Irmã Lúcia.

     Na quinta-feira, 22 de Março de 1984, dois dias antes do acto de oferecimento, o Carmelo de Coimbra celebrou o 77º aniversário da Irmã Lúcia. Naquele dia recebeu, como era seu costume, a sua velha amiga Sr.a D. Eugénia Pestana. Depois de saudar a sua amiga carmelita, a Sr.a D. Pestana perguntou-lhe: «Então, Lúcia, no Domingo é a Consagração?» A Irmã Lúcia, que já tinha recebido e lido o texto da fórmula de consagração do Papa, fez um sinal negativo e declarou: «Aquela consagração não pode ter um carácter decisivo»40.

     O “carácter decisivo”, que é o selo da consagração própria, é a conversão milagrosa da Rússia. Se bem que a nova “orientação ecuménica” da Igreja confunda o ponto em questão, a conversão da Rússia quer dizer conversão ao Catolicismo. Isto não é senão um caso de senso comum, mas encontra-se no testemunho do Padre Joaquín Alonso, talvez o maior conhecedor de Fátima do século XX. O Padre Alonso, que teve muitas entrevistas com a Irmã Lúcia, escreveu em 1976:

     ... podíamos dizer que Lúcia tem pensado sempre que a «conversão» da Rússia não se entende só como um retorno dos povos da Rússia à religião cristã-ortodoxa, rejeitando o ateísmo marxista dos sovietes, mas antes que se refere pura e simplesmente à conversão total e integral, um retorno à única e verdadeira Igreja, a Católico-romana41.

     Numa entrevista de 1985 no Sol de Fátima, a Irmã Lúcia foi perguntada se o Papa tinha cumprido o pedido de Nossa Senhora quando consagrou o Mundo em 1984. A Irmã Lúcia respondeu: «Não houve a participação de todos os Bispos, e não houve nenhuma menção da Rússia.» Nessa altura perguntaram-lhe: «Assim, a consagração não foi feita como foi pedida por Nossa Senhora?», a que respondeu: «Não. Muitos Bispos não ligaram nenhuma importância a este acto»42.

     Até mesmo o Padre René Laurentin, camarada dos progressistas, admitiu em 1986 que «Irmã Lúcia não ficou satisfeita43 ... Lúcia parece pensar que a Consagração “não foi feita” como Nossa Senhora a queria»44.

     Mais tarde, em 20 de Julho de 1987, a Irmã Lúcia foi entrevistada à pressa fora do seu convento, quando foi votar. Nessa altura disse ao jornalista Enrique Romero que a Consagração da Rússia não se fizera como estava pedida45.

     Poderiam citar-se mais afirmações da Irmã Lúcia de que a consagração de 1984 não cumpriu as condições do Céu,46 mas o ponto está estabelecido; Mons. Bertone e o Cardeal Ratzinger, no seguimento da Linha do Partido de Sodano, confiaram inteiramente numa só carta, manifestamente falsa, para derrubar mais de cinquenta anos de testemunho firme da Irmã Lúcia sobre os pedidos do Céu quanto a uma consagração válida da Rússia. Eles não ousaram perguntar à Irmã Lúcia pessoalmente sobre o assunto - ou, se o fizeram, ela não lhes forneceu respostas que concordassem com a Linha do Partido47.

A Linha do Partido sobre Fátima e a Paz mundial

     Isto leva-nos à segunda parte da farsa de Mons. Bertone. Veio na forma desta afirmação:

     A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do «segredo» de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja.

     É difícil encontrar palavras para expressar o carácter ofensivo desta afirmação absurda. Aqui a Linha do Partido do Sodano propõe seriamente que uma era inteira de veleidades humanas de poder e de iniquidade terminou com a “divulgação” da visão obscura do «Bispo vestido de Branco». Se assim foi, porque esperou o Vaticano quarenta anos para trazer a Paz mundial, quando tudo o que tinha a fazer, segundo Mons. Bertone, era organizar uma conferência de imprensa em 1960 para publicar esta visão obscura?

     O Cardeal Sodano evidentemente reconheceu que tinha que fornecer aos fiéis algum tipo de contrafacção para tomar o lugar do triunfo do Imaculado Coração, que nunca se realizou depois da “consagração da Rússia” em 1984. A conferência de imprensa de 26 de Junho de 2000 foi deste modo apresentada como a grande culminação da Mensagem de Fátima!

     Mas, de alguma maneira, tanto Mons. Bertone como o Cardeal Ratzinger não fizeram caso das implicações óbvias da carta da Irmã Lúcia ao Papa de 12 de Maio de 1982, a qual eles próprios (parcialmente) reproduziram fotograficamente em AMF:

     E se não vemos ainda, como facto consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos48. Se não recuarmos no caminho do pecado, do ódio, da vingança, da injustiça atropelando os direitos da pessoa humana, da imoralidade e da violência, etc. E não digamos que é Deus que assim nos castiga; mas, sim, que são os homens que para si mesmos preparam o castigo.

     Esta carta de 1982 não faz, terminantemente, nenhuma menção da tentativa de assassínio de 1981; muito menos caracteriza a tentativa como qualquer tipo de cumprimento do Terceiro Segredo. Sem qualquer dúvida, um ano depois da tentativa a Irmã Lúcia ficou preocupada com um castigo global, em consequência da falta da Igreja não obedecendo aos imperativos da Mensagem de Fátima. Decerto ela não escrevia ao Papa sobre o triunfo do Imaculado Coração, mas antes sobre a aniquilação das nações.

     É muito curioso também que esta mesma carta da Irmã Lúcia (que Ratzinger e Bertone dizem que foi dirigida ao Papa João Paulo II) contém a frase: «A terceira parte do Segredo que tanto ansiais por conhecer». Porque é que o Papa ‘ansiaria tanto conhecer’ a terceira parte do Segredo, se já tinha o texto em sua posse no Vaticano, onde ele estava guardado desde 1957? Porque é que Sua Santidade ‘ansiaria tanto conhecer’ aquilo que, afinal, já tinha lido em 1981 (segundo afirmação de Bertone/Ratzinger) ou ainda mais cedo, em 1978, como o porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, declarou à imprensa portuguesa?

     É muito revelador que a expressão “que tanto ansiais por conhecer” tenha sido retirada pelo Vaticano da citação do original português da mesma carta, em todas as versões do Comentário de Ratzinger/Bertone em diversas línguas. A própria versão do AMF em língua portuguesa omite esta frase (“que tanto ansiais por conhecer”) da reprodução tipográfica portuguesa da carta original. Sem dúvida o aparelho de estado do Vaticano quis evitar um turbilhão de perguntas sobre de que modo estaria o Papa ansioso por conhecer uma coisa que já conhecia. Mas na altura em que os repórteres pudessem comparar as suas transcrições com a carta original em português, já a conferência de imprensa teria terminado - o que inviabilizava que fizessem quaisquer outras perguntas.

     Duas conclusões são possíveis: ou a carta não era realmente dirigida ao Papa ou, então, havia algo mais que fazia parte do Segredo e que o Santo Padre realmente desconhecia à data dessa carta, 12 de Maio de 1982. Como diz o célebre aforisma de Sir Walter Scott «-Oh, que emaranhada é a teia que começa por uma mentira»49! A primeira mentira - que Fátima pertence ao passado - conduz a uma teia emaranhada de outras mentiras para ocultar a primeira.

O Padre Gruner serve de alvo

     Mas havia mais a fazer nesta campanha de enterrar Fátima no passado. Que se podia fazer com o “Sacerdote de Fátima”, que tinha um apostolado cujas publicações e programas televisivos e radiofónicos sublinhavam com grande persistência e notável efeito que o aparelho de Estado do Vaticano, segundo a sua nova visão da Igreja, tinha virado as costas aos pedidos da Santíssima Virgem? Na conclusão desta conferência de imprensa de 26 de Junho de 2000, o Cardeal Ratzinger desviou-se do conteúdo para mencionar o Padre Nicholas Gruner pelo seu nome, insistindo que ele tem que «se-submeter ao Magistério da Igreja» na questão da Consagração da Rússia, que (conforme a Linha do Partido) teria sido nessa altura levada a cabo. Mas o Magistério da Igreja - o ofício docente categorizado da Igreja - não ensinou absolutamente nada sobre isto. Houve apenas a interpretação de Fátima de Sodano e a “tentativa” não vinculatória de AMF para diminuir a seriedade de todo o conteúdo profético específico da Mensagem de Fátima50 (deixando apenas a oração e a penitência).

     A aumentar esta perseguição, apenas uns poucos dias antes desta conferência de 26 de Junho, a Congregação do Clero do Vaticano tinha enviado ao Padre Gruner uma carta contendo a ameaça estarrecedora de que seria excomungado da Igreja Católica. Carta esta que foi seguida de um comunicado aos Bispos das Ilhas Filipinas (onde o apostolado do Padre Gruner é fortemente apoiado), a avisá-los de que o Padre Gruner seria excomungado a menos que (entre outras exigências) «se reconciliasse com as autoridades da Igreja» - isto é, voltasse à diocese de Avellino, fechasse as portas do seu apostolado para sempre e se submetesse à Linha do Partido sobre Fátima. Por seu lado, o Bispo de Avellino nunca precisou dos serviços do Padre Gruner, nunca o apoiou economicamente a partir de 1978, e nunca tomou quaisquer medidas para assegurar um visto de imigração adequado para o “regresso” a Avellino. O Bispo de Avellino não foi mais do que um peão no jogo de xadrez do Secretário de Estado. (Teremos mais para dizer sobre esta farsa nos capítulos que se seguem.)

     Nas suas afirmações sobre o Padre Gruner, no fim da conferência de imprensa de 26 de Junho, o Cardeal Ratzinger também assentou que o Padre Gruner certamente sofria de angoscia - a palavra italiana que significa extrema angústia do espírito. O Cardeal Ratzinger evidentemente sabia da ameaça de excomunhão, que, com efeito, provocaria angoscia em qualquer Sacerdote fiel que ama a Igreja. Mas a situação difícil do Padre Gruner é só emblemática do estado lamentável de toda a Igreja na época pós-conciliar: um Sacerdote que não cometeu nenhum delito contra a fé e a moral é pessoalmente ameaçado com excomunhão pelo próprio dirigente da Congregação do Clero, enquanto, por toda a Igreja, malfeitores em pele de Clerigos molestam acólitos ou difundem heresias, e os seus Bispos os deslocam de um lugar para outro ou ocultam as suas actividades e os protegem do castigo; e a Congregação do Clero não faz nada.

     Como se explica esta ultrajante disparidade de justiça? Parece-nos uma só explicação lógica, baseada no que já temos evidenciado: Na Igreja Católica da Adaptação pós-conciliar, tal como na Rússia estalinista, o único delito imperdoável é opor-se à Linha do Partido. E o Padre Gruner opôs-se à Linha do Partido sobre Fátima.

Nossa Senhora sai, Gorbachev entra

     Afirmamos que este escárnio e obscurecimento da Mensagem de Fátima - a Linha do Partido sobre Fátima - tinha por intenção enterrá-la de uma vez por todas, de tal modo que o Cardeal Sodano pudesse continuar a impor à Igreja a nova orientação. Aqui está um exemplo especialmente convincente do que queremos dizer:

     Tendo Fátima sido “demolida com luva branca” (para citar o Los Angeles Times) pelo Cardeal Ratzinger e Mons. Bertone em 26 de Junho, o aparelho de Estado do Vaticano, dirigido pelo Cardeal Sodano, pôs-se de imediato a tratar do que eles consideram assuntos sérios da Igreja. No dia seguinte, Mikhail Gorbachev sentou-se como convidado de honra entre os Cardeais Sodano e Silvestrini numa “conferência de imprensa” no Vaticano. Qual foi o propósito desta conferência de imprensa? Foi convocada para celebrar um dos elementos-chave da orientação nova da Igreja: a Ostpolitik, a política de “diálogo” e transigência com os regimes comunistas (incluindo a China vermelha) que perseguem a Igreja. A justificação imediata da conferência de imprensa foi a publicação póstuma das memórias do Cardeal Casaroli, o grande propagador da Ospolitik e antecessor do Cardeal Sodano em fazer cumprir a Linha do Partido do Secretário de Estado51.

     Numa autêntica tradição estalinista, não foram permitidas quaisquer perguntas da imprensa nesta curiosa “conferência de imprensa” - uma conferência de imprensa sem perguntas da imprensa! É evidente que o Vaticano queria assegurar-se de que ninguém se oporia à Linha do Partido com alguma pergunta sobre Fátima, ou por que razão o Vaticano honrava um indivíduo como Mikhail Gorbachev, um homem que admite que ainda é leninista e cujas fundações não lucrativas advogam o uso do aborto e da contracepção para eliminar quatro mil milhões de pessoas da população do Mundo52. Para já não falar da defesa pública que este indivíduo sanguinário fez da invasão soviética do Afeganistão, quando ainda estava à frente do Partido Comunista Soviético - uma campanha de genocídio que incluía a colocação de explosivos disfarçados como brinquedos, sucedendo assim que crianças afegãs perderam membros e cabeças53.

     Poderia haver uma demonstração mais dramática da oposição fundamental entre a Igreja de todos os tempos e a Igreja da Adaptação? Em 26 de Junho de 2000 Nossa Senhora de Fátima foi afastada, a Sua Mensagem do Céu audaciosamente censurada e revista por homens cuja vontade era consigná-la ao esquecimento. Nessa altura, um dia depois, Mikhail Gorbachev entrou no Vaticano para celebrar a nova orientação da Igreja, implementada pelo falecido Cardeal Casaroli e pelo seu sucessor, Cardeal Sodano.

     Gorbachev, figura preeminente da cultura da morte, foi honrado pelo Vaticano outra vez em 4 de Novembro de 2000, quando dirigiu uma alocução ao Papa e a outros prelados no “Jubileu dos Políticos” - um jantar de gala para cerca de 5.000 governantes das repúblicas seculares e ateias do Mundo. Os fotógrafos registaram para a posteridade o Papa escutando muito atentamente o discurso deste grande promotor do holocausto do aborto54. Esta mistura grotesca de um Jubileu - tradição espiritual da Igreja, derivada de um costume do Antigo Testamento - com discursos sobre assuntos laicos de políticos a favor do aborto, é absolutamente típica da nova orientação, que constantamente procura amalgamar a Igreja com o Mundo na grande Adaptação de Catolicismo Romano à “civilização moderna”.


Notas

1. “The Moscow Patriarchate and Sergianism” por Boris Talantov, in Russia's Catacomb Saints, (St. Herman of Alaska Press, Platina, California, 1982) pp. 463-486.

2. “The Moscow Patriarchate and Sergianism: An Essay by Boris Talantov,” encontrado em
www.orthodoxinfo.com/resistance/cat_tal.html

3. Comentários de 17 de Janeiro de 1998 na Conferência da Aid to Church in Russia, www.catholic.net/rcc/ Periodicals/Faith/1998-03-04/Russia.html. Reimpresso em The Catholic Dossier, Março/Abril de 1998, p. 4.

4. L'Osservatore Romano, 26-27 de Março de 1984, pp. 1, 6.

5. Avvenire, 27 de Março de 1984, p. 11.

6. Padre Fabrice Delestre, “Porquê não obedecer à Mãe de Deus como seria necessário?”, Semper, Revista da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Nº 49, Outono de 2000, p. 18 (em português). Veja-se também Frère François de Marie des Anges, Fatima: Joie Intime Événement Mondial (Edição francesa, Contre-Réforme Catholique, França, 1991), pp. 363-364. Frère François de Marie des Anges, Fatima: Tragedy and Triumph, pp. 168-172.

7. As observações do Padre Maurer apareceram numa entrevista em Catholic World Report, Fevereiro de 2001. Uma sinopse e comentário sobre esta entrevista foram publicados em “The Myth of a Converted Russia Exposed”, por Marian Horvat, Ph.D., Catholic Family News, Março de 2001.

8. Veja-se Mark Fellows, “This Present Darkness”, Part III, Catholic Family News, Outubro de 2000.

9. Com respeito ao álcool na Rússia, concluíram os investigadores: «o ritmo do consumo de álcool na Rússia, tradicionalmente entre os maiores no Mundo, e subindo significativamente nos anos 90, é um contributo principal para a crise de saúde do país ... o alcoolismo tem atingido proporções epidémicas, particularmente entre os homens ... Um estudo russo feito em 1995 concluiu que entre 25 e 60% dos operários embriagavam-se regularmente ... Em 1994 uns 53.000 pessoas morreram de envenenamento por álcool, um aumento de cerca de 36.000 desde 1991.» Nos dez anos que se seguiram à alegada conversão da Rússia, houve também um grande aumento no uso de drogas ilegais: «Em 1995 calcula-se que uns 2 milhões de russos usaram narcóticos, mais de vinte vezes o total encontrado dez anos antes em toda a União Soviética, e o número de viciados aumentou 50% cada ano em meados dos anos 90.» In Mark Fellows, “This Present Darkness”, Part II, Catholic Family News, Setembro de 2000.

10. “Satanism on the Rise in Russia” compilado por John Vennari. Veja-se www.fatima.org/satanism.html

11. “Russia Legalizes Homosexuality”, United Press International, 28 de Maio de 1993. Citamos o início do artigo: «Os activistas homossexuais da Rússia celebraram na sexta-feira uma grande vitória para os direitos homossexuais na Rússia pós-Soviética, com a revogação do artigo 121º do código criminal soviético, que proibia o sexo consensual entre homens. “Isto é uma grande notícia para os homossexuais e as lésbicas na Rússia,” disse Vladislav Ortanov, editor da revista homossexual Moscovita Risk

12. “Activist Says Child Porn Prosecutions Will be Difficult in Indonesia, Russia”, Christine Brummitt, Associated Press, 9 de Agosto de 2001 (ênfase acrescentada).

13. “Big Brotherski goes too far for staid Russians”, Mark Franchetti, Sunday Times (Londres), 25 de Novembro de 2001.

14. “New Visa System Seen Choking Russia's Catholic Parishes”, Russia Reform Monitor, Nº. 485, 28 de Julho de 1998. E ainda “Catholic Clergy in Siberia Face Growing Visa Difficulties”, Catholic World News, 19 de Novembro de 1997.

15. Sarah Karush, “Foreign Priests Spark Controversy”, Associated Press, 12 de Fevereiro de 2002.

16. Radio Free Europe Report, 20 de Junho de 2001.

17. Ibid. Veja-se também Catholic News Service, 17 de Fevereiro de 2002.

18. Fatima: Tragedy and Triumph, pp. 189-190.

19. Para um bom estudo sobre a falsidade desta carta ao Sr. Noelker, veja-se Mark Fellows, “This Present Darkness”, Part II, Catholic Family News, Setembro de 2000.

20. O princípio que requer que a autoridade seja exercida ao nível mais baixo possível para evitar a tirania provocada pela centralização excessiva do governo. Por exemplo, o orçamento de uma cidade deve ser determinado pela respectiva câmara municipal, e não pelo governo central.

21. Sob a estrutura antiga, antes de 1967, o Papa presidia à Cúria Romana. Sob a estrutura nova, a partir de 1967, é a Secretaria de Estado que preside à Cúria Romana. O leitor é convidado a examinar o Annuario Pontificio de antes e depois de 1967 para ver a mudança na estrutura da Cúria Romana.

22. Um sacerdote francês mostrou o documento maçónico ao Padre Paul Kramer, um sacerdote americano, entre outros.

23. Paul Fisher, Their God is the Devil, (American Research Foundation, Washington, D.C., 1990) p. 40.

24. Veja-se Francis Alban e Dr. Christopher A. Ferrara, Fatima Priest, Quarta Edição (Good Counsel Publications, Pound Ridge, New York, 2000). Capítulos 12, 14, 17-22, e Apêndices I e II.

25. Para os pormenores dos “procedimentos” tortuosos e extensos para silenciar o Padre Gruner, o leitor pode consultar: Fatima Priest (Quarta Edição), A Law for One Man (ambos disponíveis em inglês de The Fatima Center, 17000 State Route 30, Constable, New York 12926) ou visite o site de Fátima na Internet: www.fatima.org

26. Sobre aos pormenores curiosos e confusos dos planos para a cerimónia da beatificação e assuntos relacionados com ela, veja-se o artigo na página 12 do Correio da Manhã de 14 de Outubro de 1999; o semanário Jornal de Leiria de 14 de Outubro de 1999, p. 24; o semanário A Ordem, 21 de Outubro de 1999, p. 1; o semanário oficial da Patriarcado de Lisboa Voz da Verdade de 31 de Outubro de 1999, na página 6, o artigo intitulado «Beatificação dos pastorinhos definitivamente em Roma»; o semanário oficial da Patriarcado de Lisboa Voz da Verdade 5 de Dezembro de 1999 intitulado «Papa volta a Portugal, Fátima, cenário da beatificação»; artigo em Euronotícias de 24 de Março de 2000, p. 8, intitulado «Bispo de Leiria-Fátima», 21 de Março, conferência de imprensa; o semanário Euronotícias de 24 de Março de 2000, na página 8 «Crise: O Bispo de Leiria-Fátima cria um mistério em redor da visita do Papa, sem dizer ao Patriarca o que concerne. Divulgará o Papa o Terceiro Segredo?» (tradução nossa); Euronotícias de 24 de Março, artigo na página 9 intitulado: «Análise: Pessoas que têm estudado as Aparições dizem que o Terceiro Segredo pode dizer respeito à destruição da Fé. A crise a partir do interior da Igreja seria o Terceiro Segredo» (tradução nossa).

27. Padre Herman Bernard Kramer, The Book of Destiny, (publicado pela primeira vez em 1955, publicado de novo por TAN Books and Publishers, Inc., Rockford, Illinois, 1975) pp. 279-284.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. Neste ponto referimos o leitor outra vez aos artigos seguintes: em Euronoticias 24 de Março de 2000, p. 8, intitulado «Bispo de Leiria-Fátima» 21 de Março conferência de imprensa; semanário Euronoticias de 24 de Março de 2000, na página 8, «Crise: O Bispo de Leiria-Fátima cria um mistério em redor da visita do Papa sem dizer ao Patriarca o que concerne. Divulgará o Papa o Terceiro Segredo? (tradução nossa); Euronoticias de 24 de Março, um artigo na página 9 intitulado: «Análise: Pessoas que tem estudado as Aparições dizem que o Terceiro Segredo pode concernir a destrução da Fé. A crise no interior da Igreja seria o Terceiro Segredo» (tradução nossa).

31. A tese completa de Dhanis contra Fátima é explicada em The Whole Truth About Fatima - Volume I, Parte II, Capítulo 1 de Frère Michel. Todas as citações sobre a sua teoria falsa são provenientes deste fonte.

32. Ibid.

33. William Thomas Walsh, Our Lady of Fatima, (Image-Doubleday, New York, Imprimatur 1947) p. 221. Ênfase no original.

34. Il Pellegrinaggio delle Meraviglie, p. 440. Roma, 1960. Esta mesma obra, publicada sob os auspícios do episcopado italiano, afirma que esta mensagem foi comunicada ao Papa Pio XII em Junho. Aliás, o Canon Barthas mencionou aquela aparição na sua comunicação ao Congresso Mariológico de Lisboa-Fátima, em 1967; veja-se De Primordiis cultus marianae, Acta congressus mariologici-mariana in Lusitania anno 1967 celebrati, p. 517. Roma, 1970. Veja-se Fatima: Tragedy and Triumph, pp. 21 e 37.

35. Fatima: Tragedy and Triumph, p. 165.

36. Incluído num artigo da autoria do Padre Pierre Caillon, do Centre Saint-Jean, 61500 Sées (Orne), França. Este artigo foi publicado pelo jornal mensal Fidelité Catholique, B.P. 217, 56402 Auray Cedex, França. Tradução inglesa em The Fatima Crusader, número 13-14, (Outubro-Dezembro de 1983), p. 3.

37. Fatima: Tragedy and Triumph, p. 172.

38. Veja-se Fátima e o Coração de Maria, pp. 101-102. (tradução nossa)

39. Fatima: Tragedy and Triumph, pp. 172-173. Padre Messias Coelho, Mensagem de Fatima, Nº 157, Março, 1984, Mensagem de Fátima, N° 158, Maio, 1984.

40. Ibid., pp. 167-168.

41. La Verdad sobre el Secreto de Fatima, Fatima sin mitos, do Padre Joaquín Alonso, (2ª edição, Ejército Azul, Madrid, 1988), p. 78. Lê-se no espanhol original: « ... podríamos decir que Lucía ha pensado siempre que la “conversión” de Rusia no se entiende solo de un retorno de los pueblos de Rusia a la religión cristiano-ortodoxa, rechazando el ateismo marxista y ateo de los soviets, sino que se refiere pura y llanamente a la conversión total e integral de un retorno a la única y verdadera Iglesia, la católica-romana.»

42. Sol de Fátima, Setembro de 1985.

43. Chrétiens-Magazine, Março de 1987, Nº 8. Citado em Fatima: Tragedy and Triumph, p. 189.

44. Padre Laurentin, Multiplication des apparitions de la Vierge aujourd'hui, p. 45, Fayard, Setembro de 1988. Citado em Fatima: Tragedy and Triumph, p. 189.

45. Este testemunho da Irmã Lúcia foi incluído na edição do início de Agosto de 1987 de Para Tí, publicado na Argentina. Veja-se Escravidão mundial ou paz... A Decisão é do Papa, do Padre Nicholas Gruner (Immaculate Heart Publications, 1993), p. 203.

46. Para mais testemunhos, veja-se Capítulo VI de Fatima: Tragedy and Triumph.

47. A alegada entrevista de 17 de Novembro de 2001 entre o Arcebispo Bertone e a Irmã Lúcia é tratada amplamente no capítulo 14, “-Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus!”

48. É interessante notar que a tradução inglesa de «vemos que para aí caminhamos a passos largos», «we are going towards it little by little with great strides» é claramente defeituosa. As palavras: “little by little” (pouco a pouco) não aparecem no português original, publicado na página 9 de AMF fornecido pelo próprio Vaticano.

49. “Marmion, A Tale of Flodden Field”, Canto 6, estrofe 17. Poema de Sir Walter Scott.

50. Note-se que o próprio Cardeal Ratzinger disse, com respeito à interpretação do Vaticano do Terceiro Segredo: «A Igreja não quer impor uma interpretação». Esta citação aparece em: “Final Secret of Vatican Published by Vatican”, Boston Herald, 27 de Junho de 2000; “Vatican's Secret is Out”, The Express, 27 de Junho de 2000; “Vatican Unease as it Reveals the Full Third Secret of Fatima”, Financial Times (Londres), 27 de Junho de 2000; “Fatima ‘Snapshot of Martyr's Past Century’”, The Irish Times, 27 de Junho de 2000.

51. Noticias da conferência de imprensa de 27 de Junho de 2000. “Gorbachev Helps Introduce Casaroli Memoirs”, Catholic World News, 27 de Junho de 2000.

52. Em Setembro de 1995, Gorbachev efectuou o seu “Fórum sobre o Estado do Mundo” em São Francisco. Mais de 4.000 pessoas da “elite” do Mundo pagaram $5.000 cada para assistir ao acontecimento, que durou 5 dias. Na sessão plenária de encerramento do fórum, um autor/filósofo pelo nome de Sam Keen forneceu um resumo e comentários finais sobre a conferência, o que revelou o ethos anti-vida e anti-cristão do Fórum. Aos participantes da conferência, disse Keen: «Houve uma concordância muito forte em que as instituições religiosas têm que assumir a responsabilidade primária pela explosão de população. Devemos falar muito mais claramente sobre a sexualidade, sobre a contracepção, sobre o aborto, sobre os valores que controlam a população, porque a crise ecológica, em resumo, é a crise de população. Corte-se a população em 90% e não haverá gente suficiente para fazer um grande estrago ecológico.» Veja-se “World's elite gather to talk depopulation,” John Henry Western, The Interim, Abril de 1996.

53. Veja-se a entrevista com o funcionário afegão Abdul Shams em Review of the News, Julho de 1985.

54. Fotografia publicada em Catholic Family News, Janeiro de 2001, p. 13.

Capítulo 9

 

Fazer valer a nova orientação
numa Igreja do “Pós-Fátima”

       Nos meses seguintes à conferência de imprensa de 26 de Junho, assistiu-se a uma aceleração na campanha para impor a nova orientação à Mensagem de Fátima e à Igreja em geral.

       Por exemplo, a 29 de Junho de 2000, apenas dois dias após a farsa de Gorbachev, teve lugar um evento aparentemente sem qualquer relação com isto, mas que, na verdade, foi extremamente relevante. O Cardeal Castrillón Hoyos, na sua qualidade de chefe da Comissão Ecclesia Dei, emitiu uma carta criada para assegurar o acesso à Missa tradicional em Latim àqueles que a desejam - carta que anuncia algo completamente extraordinário, num tempo de generalizada falta de disciplina na Igreja: o Capítulo Geral (encontro) da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro (aprovado pelo Papa João Paulo II para servir as necessidades de Católicos tradicionais que não aceitaram bem as mudanças da Igreja) será suprimido. A sua eleição não se realizará. Aos Sacerdotes membros da Fraternidade Sacerdotal, não lhes será permitido reeleger para seu superior o Padre Josef Bisig, o qual se esperava fosse nomeado e reeleito por esmagadora maioria no Capítulo. E o Cardeal Castrillón Hoyos, pura e simplesmente, haveria de impor à Fraternidade um candidato mais ao seu gosto. Além disso, os reitores dos dois Seminários da Fraternidade seriam demitidos e substituídos por Padres com uma mente mais liberal.

       A fundamentação para as acções do Cardeal está expressa na sua carta:

       Sabe muito bem que o seu Seminário é observado por muitas pessoas da Igreja e que tem de ser exemplar em todos os aspectos. Em particular, pede-se que evite e que combata um certo espírito de rebeldia contra a Igreja da actualidade, espírito esse que facilmente encontra seguidores entre os jovens estudantes que, como todos os jovens, são já inclinados a posições extremas e rigorosas1.

       Numa entrevista posterior à revista 30 Days, o Cardeal acrescentou, explicando, que ele estava apenas a ajudar a Fraternidade «a alcançar um compromisso entre o seu carisma original e o resultado da sua inserção no interior da realidade eclesial de hoje»2.

       Considerem-se ambas estas frases: «um certo espírito de rebeldia contra a Igreja da actualidade» e «a sua inserção no interior da realidade eclesiástica de hoje». Ora, os seminaristas da Fraternidade Sacerdotal são Católicos baptizados; nasceram e foram criados no ambiente geral da Igreja Católica; não eram membros da supostamente “cismática” Sociedade de S. Pio X, fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre, conhecido pela sua resistência às mudanças pós-conciliares. Não. Eles eram jovens vindos da assembleia global da Igreja, que entraram nos Seminários da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro para aí se formarem de uma forma tradicional e para celebrarem a Missa tradicional em Latim.

       E vêm agora dizer a estes jovens - que nunca aderiram a um (suposto) cisma - que têm de se inserir, seja como for, na “Igreja da actualidade” e na “realidade eclesial de hoje”. Mas, se eles já são Católicos, então em que é que devem ser “inseridos”? Na Santa Igreja Católica? Certamente que não. Aquilo de que o Cardeal está a falar - quer ele o saiba explicitamente ou não - é da Igreja da Adaptação; a Igreja da nova orientação. Sabemo-lo, porque os Padres e Seminaristas da Fraternidade de S. Pedro, que foi aprovada pelo Papa, são indubitavelmente Católicos; ora, se estão a ser inseridos em qualquer coisa, não é na Santa Igreja Católica, mas sim numa outra coisa.

       É por isso que falamos da Estalinização da Igreja. Não é como se a Igreja tivesse sido completamente destruída e tenha cessado inteiramente de ser o que era - porque isto é impossível, dada a promessa de Nosso Senhor de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja. É antes como se uma espécie de Cavalo de Tróia se tivesse instalado dentro da Igreja - uma igreja dentro da Igreja; uma colecção de novas práticas e atitudes - coisa nunca antes vista na História da Igreja -, e que agora teima em insistir que isso é que é a Igreja. E quem quiser situar-se na Igreja actual, na Santa Igreja Católica, tem de consentir em ser inserido nessa “realidade eclesial de hoje” dentro da perene realidade eclesial da Igreja. Ora “a realidade eclesial de hoje” é apenas um fenómeno temporário que Deus não deixará de rectificar, devido aos incontáveis prejuízos que causou à Igreja; mas o Cardeal Castrillón e os seus colaboradores, depositários de toda a Linha do Partido da nova orientação da Igreja, querem aparentar que se trata de algo permanente.

       Não se poderia pedir uma prova melhor da existência da nova orientação da Igreja - a sua Adaptação Estalinista, digamos - do que o manejo brutal, feito pelo Cardeal, da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro. Uma tal acção nunca teria sido tomada contra os Jesuítas, ou contra outras ordens sacerdotais que têm estado a corroer a Igreja desde o Concílio Vaticano II. E porquê? Porque estas ordens, moral e doutrinalmente corruptas, aderem à Adaptação, à Linha do Partido, à nova orientação. Na crise actual, a única coisa que o Vaticano está disposto a fazer cumprir com acções imediatas e vigorosas é a Adaptação da Igreja ao mundo - não uma sólida doutrina nem uma prática sólida, que são desprezadas por toda a parte na Igreja, quase com impunidade; mas, apenas, a Adaptação.

       Em Setembro de 2000 defrontámo-nos com outro exemplo dramático da Adaptação da Igreja. De 12 a 19 de Setembro de 2000, o Cardeal Roger Etchegaray estava na China Vermelha para assistir a um “Simpósio sobre as Religiões e a Paz”. Ali ele celebrou Missa na presença dos Bispos cismáticos da Associação Católica Patriótica (Catholic Patriotic Association - CPA). A Missa foi celebrada no Santuário de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos, que o regime comunista chinês roubou à verdadeira Igreja Católica na China3.

       A CPA foi formada nos anos 50 do século XX para substituir a Igreja Católica, depois de o “Presidente Mao” ter declarado a Igreja Católica “ilegal” na China Vermelha. Portanto, a CPA é uma organização humana criada por um governo comunista e apresentada como uma “igreja” à qual os Católicos Chineses têm de aderir, abandonando a Igreja Católica Romana cuja existência, em si mesma, fora declarada “ilegal” pelo regime da China Vermelha. A constituição da CPA rejeita explicitamente a submissão ao Papa e declara a CPA autónoma de Roma. Todos os Bispos e Padres da CPA são, portanto, cismáticos por definição.

       Foram sagrados ilicitamente mais de 100 Bispos pela CPA, sem um mandato papal, em violação directa do Código de Direito Canónico; pior ainda, aqueles Bispos ilicitamente consagrados declararam publicamente a sua fidelidade - primeiro que tudo - ao Regime Comunista, enquanto negavam (na Constituição da CPA) qualquer fidelidade ou submissão ao Papa. Como resultado destes actos, tanto estes Bispos ilícitos como aqueles que os consagraram são excomungados. Em 1994, os Bispos da CPA emitiram uma chamada carta pastoral na qual aprovavam a política de controlo da população na China, que inclui abortos forçados a todas as mulheres que já tenham um filho, e exortando os Católicos Chineses a apoiarem esta abominação.

       Em resumo: a CPA é uma organização criada pelo Comunismo, controlada pelo Comunismo, abertamente cismática, abertamente herética e a favor do aborto, criada pelo próprio Demónio agindo através de Mao Tse-tung e do seu sucessor, o “Presidente” Jiang. E, apesar disso, o Vaticano não declarou cismáticos, nem excomungou estes Clerigos controlados pelo Comunismo e favoráveis ao aborto. Em vez disso, o Cardeal Etchegaray foi à China e celebrou Missa na presença dos Bispos da CPA num Santuário Mariano - que a CPA roubara à Igreja Católica e aos Fiéis Católicos, com a ajuda dos carrascos Comunistas. O Cardeal Etchegaray chegou mesmo a afirmar que “reconhecia a fidelidade ao Papa dos Católicos da igreja oficial [i.é, a CPA]” - fidelidade ao Papa da parte dos Bispos que apoiam abortos forçados e cuja associação, controlada pelos Comunistas, rejeita a primazia papal na sua própria constituição? Que disparate é este?

       Enquanto o Cardeal Etchegaray estava na China, um Padre católico de 82 anos de idade, da Igreja Católica “do silêncio” que continua em união com Roma, foi agredido até ficar em coma e ser levado para a prisão pela polícia de “segurança”4. De acordo com a Ostpolitik, o Vaticano não fez qualquer protesto pelo ataque, quase fatal, a este Padre, nem qualquer protesto pela detenção, condenação e tortura de Padres, Bispos e leigos católicos leais, pelo regime da China Vermelha. O aparelho de Estado do Vaticano ainda está acorrentado à nova orientação da Igreja - “diálogo” com os inimigos da Igreja e silêncio, mesmo perante a tortura e perseguição abertas aos crentes católicos. Este é o fruto do abandono que a nova orientação da Igreja vota à justa oposição ao Mal. E esta política de Adaptação da Igreja terá, a longo prazo, o efeito pretendido em mais alguns milhões de pessoas - que cairão na apostasia e perderão a sua Fé, porque o aparelho de Estado do Vaticano não mais se oporá com firmeza ao Mal usando a justa cólera do passado.

       Aqui, também, podemos verificar que existe uma diferença de tratamento entre os Católicos tradicionais - que, de uma maneira ou de outra, se apresentam como um obstáculo à nova orientação - e aqueles que abraçam a nova orientação, completa e inteiramente. Em contraste com estas cedências do Vaticano à CPA, o Arcebispo Marcel Lefebvre foi publicamente declarado excomungado e cismático, num motu proprio preparado para receber a assinatura do Papa, num espaço apenas de 48 horas a seguir à sagração feita pelo Arcebispo Lefebvre daqueles quatro Bispos sem um mandato papal5 - acto esse que o Arcebispo realizou numa tentativa (que alguns poderão pensar ter sido imprudente) de manter a tradição católica numa Igreja que parece ter perdido a razão.

       Ora os Chineses Vermelhos obtêm (através de Bispos anteriormente católicos) a sagração de 100 Bispos sem um mandato papal - para a sua “igreja” a favor do aborto -, e o Vaticano não toma qualquer acção punitiva. Pelo contrário, envia nada menos do que um Cardeal como seu representante, para confraternizar com alguns dos Bispos ilícitos! Todavia, quando o Arcebispo Lefebvre consagra quatro Bispos para servir a Tradição Católica, é imediatamente lançado nas trevas exteriores pelo mesmo aparelho de Estado do Vaticano - apesar de o Arcebispo Lefebvre e de os quatro Bispos recém-consagrados terem professado, de forma consistente, a sua lealdade ao Papa, a Quem eles estavam a tentar servir ao conservarem a prática e a crença da Tradição Católica. Porquê esta disparidade notável de tratamento? E, uma vez mais, a resposta é: que o Arcebispo Lefebvre resistiu à Adaptação, enquanto os Bispos da China Vermelha, por outro lado, a põem em prática.

       Mas ainda é pior do que isto. Segundo uma Carta Aberta de protesto, dirigida ao Cardeal Sodano e a outros membros do aparelho de Estado do Vaticano, e publicada pela Fundação do Cardeal Kung, deram a Padres do CPA - uma “igreja” cismática, de controlo comunista e a favor do aborto - missões canónicas e faculdades sacerdotais em dioceses americanas. Assim, estes Padres comunistas celebram Missa e ouvem confissões de Fiéis, Católicos Romanos; nas suas paróquias locais - onde estes agentes de um governo comunista ficam a saber os pecados secretos de inúmeros americanos, o que pode fornecer aos senhores do Comunismo Chinês material para chantagem. Isto foi confirmado pelo Arcebispo Levada, de São Francisco, que declarou que o Vaticano - e o Cardeal Sodano esteve certamente envolvido nesta decisão - deu o seu consentimento para “uma missão apostólica” a estes Padres da CPA que favorecem o aborto, são controlados pelos Comunistas e são cismáticos6.

       Há aqui uma penetração literal e visível do poder comunista no corpo da Igreja. Não pode haver uma demonstração mais dramática do que esta da Adaptação. Mas a presença destes Padres, controlados pelos Comunistas, em paróquias americanas não é mais do que uma imagem de todo um processo que foi propagado em Metz, França, já em 1962, quando a ponte levadiça da Igreja foi baixada e as forças do mundo, inimigos jurados da Igreja, começaram a marchar para o seu interior - o que, inclusivamente, levou o Papa Paulo VI a falar da invasão da Igreja pelo pensamento mundano.

A Adaptação da Mensagem de Fátima

       Em nenhuma parte se poderá encontrar um exemplo mais triste da Adaptação da Igreja do que o que aconteceu no dia 8 de Outubro de 2000: realizou-se então no Vaticano uma cerimónia «confiando» várias coisas a Maria Santíssima - uma “entrega” para as massas, para tirarem do pensamento a Consagração da Rússia. Durante esta cerimonia, «todos os povos», o mundo, os desempregados, até mesmo «a juventude à procura de um rumo» - tudo e todos menos a Rússia - foram “confiados” a Nossa Senhora. No dia anterior a esta cerimónia, a recitação do Terço na Praça de S. Pedro foi difundida por todo o mundo via satélite. Mas faltou uma coisa: as orações de Fátima. No Vaticano ninguém rezaria: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.» Todavia, uma dezena do terço foi recitada pela Irmã Lúcia, diante das câmaras, no seu convento em Coimbra. Com um ar completamente infeliz, a Irmã Lúcia recitou as orações, sim - mas em Português. Ela tinha sido reduzida a uma figurante num truque publicitário.

       Vemos aqui a Sergianização da Mensagem de Fátima, a Adaptação de Fátima ao mundo. Nossa Senhora de Fátima torna-se Nossa Senhora dos Desempregados, Nossa Senhora da Juventude à procura de um rumo; e suprimem-se do Rosário as orações de Fátima.

       Isto remete-nos para o início de 2001. O ano de 2000 fora um ano atarefado para a Adaptação, mas havia alguns ‘arranjos’ a fazer. Como o Padre Gruner estava ainda a dirigir o seu Apostolado de Fátima com bastante dinamismo, o Cardeal Castrillón Hoyos escreveu-lhe no dia 16 de Fevereiro de 2001, renovando a ameaça de excomunhão que tinha feito ao Padre Gruner em Junho do ano anterior: se o Padre Gruner não parasse com as suas actividades, então tomar-se-iam “medidas definitivas que seriam penosas para todos os envolvidos”.

       Na mesma carta, o Cardeal Castrillón deu outra demonstração da nova orientação que estava a ser aplicada à Mensagem de Fátima. De acordo com o Cardeal Castrillón, «A Bem-aventurada Mãe apareceu aos três pequenos videntes na Cova da Iria no começo do século, e marcou um programa para a Nova Evangelização com o qual toda a Igreja se encontra comprometida, e que ainda é mais urgente no limiar do terceiro milénio»7. Nossa Senhora de Fátima era agora Nossa Senhora da Nova Evangelização - coisa sobre a qual Ela não tinha dito, em Fátima, uma única palavra sequer!

       Nossa Senhora não veio a Fátima para anunciar a “Nova Evangelização”, slogan que descreve uma campanha nova e ineficaz para estimular a fé moribunda dos que já são Católicos8. Nem veio Nossa Senhora anunciar quaisquer dos outros slogans obscuros que têm infestado a Igreja nos últimos quarenta anos: “diálogo ecuménico”, “diálogo inter-religioso”, “solidariedade”, “a civilização do amor”, “inculturação”, e assim por diante. Ela veio anunciar a Velha Evangelização, o Evangelho perene de Jesus Cristo - Que é o mesmo ontem, hoje e sempre -, o mesmo Cristo que advertiu o mundo que «Aquele que acredita e é baptizado será salvo; aquele que não acredita será condenado». Um grupo de apoiantes do Padre Gruner protestou deste modo na sua resposta ao Cardeal:

       Eminência, onde é que alguém pode encontrar qualquer um destes elementos na Vossa interpretação da Mensagem de Fátima? Onde está o Céu e onde está o inferno, visto que só falais vagamente de “Realidades Fundamentais” - designação que qualquer maçon acharia aceitável? Onde está o Triunfo do Coração Imaculado de Maria? Onde estão a Consagração e a Conversão da Rússia? Onde estão os avisos de Nossa Senhora? Onde está, na realidade, a Mensagem de Fátima?

       A Mensagem de Nossa Senhora de Fátima ao Mundo não tinha slogans como “a Nova Evangelização”. A Senhora não proferiu qualquer slogan, mas apenas a simples verdade católica: que muitas almas estão a arder no Inferno, por falta de Fé Católica; que para salvar as almas Deus ordena, como uma necessidade, que se estabeleça no Mundo - e não apenas entre aqueles que já são Católicos - a devoção ao Seu Imaculado Coração; que o Seu Imaculado Coração tem de triunfar pela Consagração da Rússia àquele Coração; que só desta forma poderá haver a verdadeira Paz no nosso tempo. E Nossa Senhora de Fátima também nos deu um aviso sobre as consequências de não atendermos aos Seus pedidos: guerras e perseguição da Igreja, o martírio dos bons, o sofrimento do Santo Padre, o sofrimento de todo o mundo - tudo o que está a acontecer neste momento na História - e, finalmente, que se continuarmos a ignorar os Seus pedidos, várias nações serão aniquiladas.

       A Mensagem de Fátima foi, muito simplesmente, apagada da existência e transformada em slogans da Adaptação. E de acordo com esta Adaptação Estalinista da Igreja, haveria censura de qualquer um que atendesse à interpretação anterior dos velhos termos. Na mesma carta de 16 de Fevereiro, o Cardeal Castrillón Hoyos exigiu que o Padre Gruner “retractasse publicamente”, na revista do seu Apostolado, certas opiniões que o Cardeal entendeu serem censuráveis. Numa Igreja em que abunda a literatura herética, que arruinou a Fé de milhões de pessoas e pôs as suas almas em perigo, o Cardeal Castrillón Hoyos quis censurar a revista The Fatima Crusader! E porquê? Porque a revista tinha ousado criticar, não os ensinamentos católicos sobre a Fé e a Moral, mas as decisões consultivas do Cardeal Sodano e dos seus colaboradores - incluindo as suas conferências de imprensa e os jantares com gente da laia da Mikhail Gorbachev, as suas relações confortáveis com a CPA cismática, e a sua tentativa de enterrar a Mensagem de Fátima sob uma montanha de falsas interpretações.

       O tratamento dado ao Padre Gruner, à Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro, ao Arcebispo Lefebvre, à Sociedade de S. Pio X, e a outros obstáculos (compreendidos como tais) à Nova Orientação do Concílio Vaticano II demonstra que a época pós-conciliar apresenta uma situação muito parecida com a que S. Basílio lamentava, no ponto mais alto da heresia ariana: «Hoje só um delito é vigorosamente castigado: uma observância precisa das tradições dos nossos pais. Por esta causa, os piedosos são arrebatados dos seus países e transportados para desertos.»

       E, de facto, hoje em dia só um delito é castigado vigorosamente: uma observância precisa das tradições pré-conciliares constantes da Igreja - resumidas na Mensagem de Fátima. É estranho constatar que o próprio Cardeal Ratzinger fez a seguinte observação sobre o chamado “cisma de Lefebvre” na sua alocução de 1988 aos Bispos do Chile:

       O que era antes considerado Muito Santo (a forma na qual a Liturgia nos foi passada) de repente parece ser a mais proibida de todas as coisas, a única que pode ser proibida com segurança. É intolerável criticar as decisões que foram tomadas desde o Concílio. Por outro lado, se os homens questionam antigas regras ou mesmo as grandes verdades da Fé, como, por exemplo, a Virgindade corporal de Maria, a Ressurreição corporal de Jesus, a imortalidade da alma, etc., ninguém reclama, ou só o faz com a maior das moderações. Tudo isso leva um grande número de pessoas a perguntar a si próprias se a Igreja de hoje é, realmente, a mesma de ontem, ou se foi transformada noutra coisa qualquer, sem que nada tivesse sido dito aos Fiéis.

       Mais estranho ainda, é que o Cardeal Castrillón Hoyos admitiu o mesmo. Na entrevista acima mencionada à revista 30 Days, ele afirmava: «A grande urgência do nosso tempo é demonstrar às pessoas que a Igreja de hoje é a mesma Igreja que sempre foi». Mas, antes de mais: por que razão há uma tal “urgência”? Quando é que em toda a História da Igreja Católica teve de ser alguma vez demonstrado que a Igreja ainda era a mesma de antes? Por que razão é que tal demonstração seria necessária, se não houvesse um motivo muito forte para acreditar que a Igreja foi realmente mudada?

       E há, de facto, um motivo muito forte para o suspeitar, como nós demonstrámos. Desde o Vaticano II que a Igreja Católica sofreu uma Adaptação, precisamente segundo as linhas preditas, traçadas e levadas a cabo pelos seus piores inimigos. E os que estão hoje a dirigir a Igreja recusam-se a reconhecer o que aconteceu, mesmo que eles próprios não sejam agentes conscientes dessa destruição. Eles são, como Nosso Senhor disse sobre os Fariseus, «cegos a guiar outros cegos. E se um cego guia outro cego, ambos caem no precipício» (Mt. 15:14).

       Como disse a própria Irmã Lúcia: «Por isso o Demónio lhe tem feito tanta guerra! (contra o Terço) E o pior é que tem conseguido iludir e enganar almas cheias de responsabilidade, pelo lugar que ocupam! (…) São cegos a guiar outros cegos! (…) »9.

       E, como São Paulo declarou em relação ao mesmo tipo de pessoas de dura cerviz, «Não há ninguém mais cego do que aquele que não quer ver.» Também está escrito nas Sagradas Escrituras: «Porque o coração deste povo tornou-se insensível; são duros dos ouvidos e fecharam os olhos, para que não vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, e se convertam, e Eu os sare» (Actos 28:27). Eles defendem cega e obstinadamente uma Adaptação da Igreja Católica como se fosse um dogma da Fé, enquanto os autênticos dogmas da Fé estão a ser enfraquecidos insidiosamente por toda a Igreja perante os seus próprios olhos, sem que eles façam coisa alguma.


Notas

1. Carta ao Capítulo Geral da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, 29 de Junho de 2000.

2. Revista 30 Days, Nº 11, 2000, p. 17.

3. Zenit, 19 de Setembro de 2000.

4. CWN News Brief, 18 de Setembro de 2000.

5. Embora seja certo que, em circunstâncias normais, um Bispo não deve consagrar um novo Bispo sem permissão ou autorização explícita do Papa, prevê-se, contudo, tanto na lei como na prática de séculos da História da Igreja, que um Bispo pode, e por vezes deve, sagrar - isto é, ‘fazer’ - outro Bispo sem permissão explícita, infringindo até uma ordem específica directa do Papa. O Direito Canónico reconhece a um súbdito o direito de contrariar uma ordem explícita de uma autoridade superior - mesmo que essa autoridade seja o Papa - numa situação específica, se a sua consciência, informada pela doutrina católica e pela reflexão e oração que o caso pede, o persuade de que deve proceder assim (cf. Cânone 1323, especialmente a Secção 4; e o Cânone 1324, especialmente a Secção 1, Subsecção 8, e a Secção 3). Além disso, segundo a lei, a desobediência numa situação específica de quem está sujeito à autoridade em geral do Papa não é ipso facto um acto de cisma - mas, no máximo, um acto de desobediência.

Ora, mesmo neste caso, não é um acto de desobediência, pelo menos subjectivamente, se quem o pratica não se sente obrigado a obedecer à autoridade superior, porque assim o exige a conservação da Fé e o Bem da Igreja. O facto de o Arcebispo Lefebvre ter sagrado Bispos quatro Sacerdotes em 29 de Junho de 1988 ultrapassa o tema da presente obra, mas há artigos de canonistas e teólogos de grande sabedoria que apresentam fortes provas a favor da defesa subjectiva e objectiva deste acto (cf. os artigos de Patrick Valdrini, Decano de Direito Canónico do Institut Catholique de Paris, e do Conde Neri Caponi, Professor Jubilado da Faculdade de Direito Canónico da Universidade de Florença, Itália). Também vários Cardeais do Vaticano defenderam publicamente, em maior ou menor grau, o Arcebispo Lefebvre quanto a este acto.

6. Fundação Cardeal Kung, Open Letter to the Vatican (Carta aberta ao Vaticano), Sec. III, 28 de Março de 2000 (www.cardinalkungfoundation. org/cpa/openletter.html). Em resposta à Fundação (citada na Open Letter), o Arcebispo Levada revela que o “ministério apostólico” dos Sacerdotes da CPA “é executado de acordo com as directivas recebidas da Santa Sé”.

7. Carta ao Padre Nicholas Gruner, 16 de Fevereiro de 2001.

8. A Nova Evangelização é descrita como sendo uma Evangelização que é “nova no seu ardor, nova no seu método, e nova na sua expressão”. É a ideia da “Nova Evangelização” que tem “justificado” o ruidoso “Movimento Carismático” e os Congressos Eucarísticos de Rock and Roll, os Dias Mundiais da Juventude, alcunhados de “Woodstock católicos”, e outras aberrações da Igreja na actualidade. Para um tratamento completo deste tema, cf. John Vennari, “Catholicism Dissolved. The New Evangelization” (O Catolicismo dissolvido. A Nova Evangelização), uma série de quatro artigos na Catholic Family News de Outubro de 1998 a Janeiro de 1999.

9. Veja-se a citação da Irmã Lúcia em The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 758.

Capítulo 10

 

Revelando nomes

     Convém agora fazermos um sumário do que apurámos até agora, e de quem está implicado no crime de que tratamos.

     As provas que obtivemos mostram o seguinte:

  • A Mensagem de Fátima é uma profecia dada por Deus para o nosso tempo, autenticada por um milagre público sem precedentes e garantida por uma série de Papas, incluindo o Pontífice actualmente reinante.

  • Muitos dos avisos proféticos da Mensagem já se cumpriram, com a principal excepção do aniquilamento das nações que seria a consequência de não se efectuar a Consagração da Rússia no devido tempo.

  • Deus já demonstrou os benefícios de uma consagração nacional ao Imaculado Coração no caso de Portugal, em 1931, em que a rápida e milagrosa transformação de uma república ateia e maçónica num país católico foi vista pela Hierarquia portuguesa como uma amostra do que Deus concederia ao Mundo depois da Consagração da Rússia.

  • Em vez de seguirem o caminho indicado em Fátima, os responsáveis da Igreja Católica escolheram um caminho diferente - a nova orientação da Igreja - iniciado no Vaticano II, incluindo uma “abertura ao Mundo” e “reformas” da Igreja que cumpriram os sonhos dos Seus piores inimigos que admitiram (eles próprios) terem por objectivo levar exactamente a tais mudanças na Igreja.

  • Ao tomar o caminho de uma nova orientação, os responsáveis da Igreja desprezaram os avisos repetidos dos Papas pré-conciliares (incluindo o Bem-Aventurado Pio IX, Leão XIII, S. Pio X, Pio XI e Pio XII) de que os inimigos da Igreja estavam a conspirar para A remodelarem - exactamente da maneira como foi remodelada no período pós-conciliar.

  • As mudanças começaram em 1960 - exactamente no ano em que a Irmã Lúcia insistiu que o Terceiro Segredo devia ser revelado, por ser então mais claro.

  • O resultado dessas mudanças foi uma perda catastrófica de fé e de disciplina na Igreja, o que parece ter sido profetizado na parte do Grande Segredo de Fátima que começa com as palavras: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.» - frase esta que continua a estar misteriosamente incompleta, apesar da suposta revelação pelo Vaticano de todo o Terceiro Segredo.

  • Em vez de admitir estes erros incalculáveis e as suas ruinosas consequências para a Igreja, o actual aparelho de poder do Vaticano tem continuado obstinadamente a seguir a nova orientação - que é, obviamente, incompatível com os imperativos expressamente católicos da Mensagem de Fátima, a saber: o estabelecimento no Mundo da devoção ao Imaculado Coração de Maria, a consagração da Rússia a Esse Imaculado Coração, a conversão da Rússia à Fé católica, e o Triunfo do Imaculado Coração de Maria, acompanhado de um período de paz mundial, dentro de uma ordem social católica.

  • Pelo contrário, membros poderosos do aparelho de Estado do Vaticano têm-se recusado, propositada e deliberadamente, a consagrar a Rússia pelo seu nome ao Imaculado Coração de Maria, promovendo, antes, uma campanha sistemática para neutralizar a Mensagem de Fátima, de modo a subjugá-La à nova orientação que eles têm vindo a impor a grande parte da Igreja – a orientação deles, a adaptação deles da Igreja aos ideais maçónicos e comunistas –, enquanto os Católicos fiéis, que não seguem a Linha do Partido, são perseguidos.

  • O aparelho de Estado do Vaticano, dirigido pelo Secretário de Estado, despreza deliberadamente as profecias, imperativos e avisos da Mensagem de Fátima, em favor de novas políticas eclesiais “iluminadas”, que incluem evitar à Rússia qualquer melindre resultante da Consagração pública daquela nação.

  • Em consequência destes erros monumentais de julgamento, a Rússia não se converteu, a Igreja está a sofrer uma crise de Fé e de disciplina sem precedentes, e o Mundo continua a deslizar para um ciclo de violência e de rebelião contra Deus e a Sua Santa Igreja - e, em resposta a tudo isto, o aparelho de Estado do Vaticano redobra os seus esforços no prosseguimento de uma nova orientação da Igreja que é totalmente inútil.

     Especialmente em vista dos acontecimentos de 26 e 27 de Junho de 2000 e dos meses que se lhes seguiram, temos agora provas suficientes para identificar os quatro homens que, em consciência, devemos acusar neste livro. São eles:

O Cardeal Angelo Sodano
O Cardeal Joseph Ratzinger
O Arcebispo Tarcisio Bertone
O Cardeal Dario Castrillón Hoyos

     Porquê estes quatro homens, e não outros? Como já demonstrámos, são eles que estão à frente da iniciativa de nada mais, nada menos que o assassínio da Mensagem de Fátima e, com ela, da esperança enviada pelo Céu para o Mundo de hoje. Conspiraram combinados entre si e, em seguida, actuaram publicamente para impor à Igreja uma versão da Mensagem de Fátima que não se parece com a profecia católica que a Mãe de Deus enviou ao Mundo para auxílio de toda a Humanidade. É evidente que estes quatro homens têm muitos colaboradores naquilo a que o Papa Paulo VI chamou, arrependido, a «autodestruição» da Igreja; mas foram eles que, digamos, se especializaram na demolição de Fátima. Merecem, portanto, ser identificados como os principais arguidos do crime que aqui denunciamos.

     Mas há muito mais provas deste crime, e o nosso caso está longe de estar completo. Examinemos agora em mais pormenor os elementos básicos comprovativos do que esboçámos até aqui. Começaremos, no capítulo seguinte, com um exame mais detalhado da “interpretação” que o Cardeal Ratzinger fez do Terceiro Segredo de Fátima, elemento-chave da iniciativa para enterrar de uma vez por todas a Mensagem de Fátima.

Capítulo 11

 

A “Mensagem de Fátima” do
Cardeal Ratzinger

       No Capítulo 8 demonstrámos como, seguindo a nova orientação pós-conciliar da Igreja, o Vaticano publicou um “comentário” - na Linha do Partido - sobre a Mensagem de Fátima, procurando apagar dela qualquer conteúdo profético que, especificamente, fizesse com que a Mensagem de Fátima se dirigisse ao nosso tempo. Foi por isso que fizemos notar como até um jornal não vinculado à Igreja, o Los Angeles Times, pôde ver claramente que o propósito de AMF era uma tentativa de demolir com luva branca o chamado “culto de Fátima”.

       O leitor teve de sofrer connosco o confronto com esse comentário polémico ocasional, numa exegese teológica mais pormenorizada de AMF; só não lhe pedimos desculpa por sermos polémicos, leitor, porque é bom haver polémicas quando elas se tornam necessárias. A sociedade de hoje substitui cada vez mais a Fé Católica por uma “fé” nas chamadas “ciências exactas”, postas em seu lugar. Por isso é que as pessoas, hoje em dia, não dão valor a quanto de ciência e de arte existe em polémicas cujo propósito é defender a Fé e a Igreja contra os inimigos de Cristo - e Cristo é a Verdade. No Grego antigo, “Ho Polemos” era a expressão para ‘guerra’. No entanto, não há mal nenhum em “combater o bom combate” em defesa de Cristo e da Fé Católica. Só quem não tem Fé, ou a tem enfraquecida, é que não consegue compreender isto - os que depositam toda a sua fé nas chamadas “ciências exactas”.

A “Introdução”

       A “Introdução” do comentário Bertone/Ratzinger (AMF) sobre o Terceiro Segredo contém, logo no segundo parágrafo, uma peça da política do Vaticano que parece estar esquecida, tanto da História recente como da Teologia Moral:

       Depois dos acontecimentos dramáticos e cruéis do século XX, um dos mais tormentosos da história do homem, com o ponto culminante no cruento atentado ao «doce Cristo na terra», (…).

       Que uma tentativa (que o seja apenas) de assassinar o Supremo Pontífice é um crime hediondo, ninguém no seu perfeito juízo pode duvidar. Tanto assim é, que é sujeito à pena da excomunhão, mesmo no Código de Direito Canónico de 1983, de características bastante liberais. Apesar disso, tal asserção evidencia uma falta de proporções verdadeiramente trágica. Dizer que esses “acontecimentos dramáticos e cruéis” teriam atingido “o ponto culminante” com o atentado à vida do Papa é uma afirmação que ultrapassa em absoluto as devidas proporções e menospreza gravemente as vítimas do último século, sessenta milhões, vítimas de Estaline; mais as de todas as guerras do séc. XX; mais os cinquenta e cinco milhões de inocentes que o aborto aniquila em cada ano que passa! A desproporção avoluma-se e torna-se infinitamente pior no seu desrespeito para com o aspecto sobrenatural, como no facto de o verdadeiro “doce Cristo na terra” ser Aquele que está no Tabernáculo; mas cuja real Presença é distribuída na mão - e se deixa cair na Praça de São Pedro1, de modo tão igual ao que acontece em milhares de outros lugares. Há, nesta asserção, um propósito específico que assenta no facto de rebaixar a importância do Terceiro Segredo nos comentários feitos pelo Cardeal Ratzinger.

       A mesma Introdução de AMF afirma, na página seguinte, que «Existe apenas um manuscrito, que é reproduzido aqui fotostaticamente». Embora consideravelmente enganadora, esta passagem poderia ser de uma verdade literal, se com ela se pretendesse significar que “só um dos manuscritos era aqui reproduzido fotograficamente”; mas, à luz da afirmação do Cardeal Ratzinger, pretender significar que o Segredo foi publicado em toda a sua “inteireza” (AMF, pp. 31, 38), não pode ser considerado senão uma mentira. Uma autêntica ‘montanha’ de provas documenta que há, na realidade, duas partes do Terceiro Segredo, sendo a primeira a visão do “Bispo vestido de Branco” - retirada dos arquivos do antigo Santo Ofício e publicada a 26 de Junho de 2000 - e estando a segunda guardada nos aposentos do Santo Padre. Essas evidências são apresentadas de modo organizado e incisivo pelo Senhor Andrew Cesanek2 (veja-se a seguir o Capítulo 12). E, tal como o Senhor Cesanek salienta, o texto que foi publicado não contém quaisquer palavras de Nossa Senhora; consequentemente, aquilo que Ratzinger/Bertone dizem sobre o Terceiro Segredo é, no seu todo, falho de credibilidade.

       Sem qualquer acusação ilícita de pecado voluntário contra o 8º Mandamento, o certo é que nos vemos perante o facto de haver uma mentira a circular impressa. Como até hoje não houve nenhuma declaração pública em contrário, torna-se virtualmente impossível falar de erro, quanto ao número de manuscritos. Quem e quantas pessoas estejam envolvidas nesta mentira, não é o que importa; importa, sim, que a publicação de uma mentira como esta se reveste de importância teológica: mesmo se se tratasse apenas de um erro, isso afectaria toda a interpretação teológica apresentada no documento. Se é uma mentira - o que nós firmemente acreditamos -, isso significa que as interpretações, quer teológicas quer históricas, da Mensagem de Fátima irão deliberadamente conduzir a uma conclusão ou a uma mensagem erradas. A isto chama-se comummente fraude. E, como podemos verificar, uma fraude afecta muito mais do que a teologia visível nos comentários publicados.

       As páginas seguintes da Introdução a AMF reiteram a mentira de que a Consagração [da Rússia] já foi feita, sobretudo a página 8, onde é citada uma carta não assinada da “Irmã Lúcia” que é uma manifesta falsificação - tal como o demonstrámos num capítulo anterior e, do mesmo modo, o Padre Paul Kramer3. Já há anos a revista The Fatima Crusader teve a oportunidade de debater suficientemente esta mentira, pelo que não há necessidade alguma de o repetir aqui. No entanto, essas mesmas citações antigas da tal carta falsificada servem, no presente capítulo, para apresentar um contexto explanatório onde se encaixam mentiras novas.

       Finalmente, não podemos deixar de nos fixarmos de novo na afirmação - inacreditável - do Arcebispo Bertone, na página 10 [edição em Português] da Introdução a AMF:

       A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do «segredo» de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja.

       Já em diversos artigos publicados se explicou o absurdo desta asserção, no seu sentido histórico4. Efectivamente, e vista à luz da História, trata-se de uma afirmação estúpida que atinge as raias da idiotice.

       Ora o Arcebispo Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, nem é estúpido nem idiota. Esta afirmação deve, consequentemente, ater-se a uma natureza teológica. Quem, com extrema precisão, sugeriu que, para Mons. Bertone, era desejável que acreditássemos que “a chamada ‘queda do comunismo’ significava que a Mensagem de Fátima deixara de ser importante para a política mundial, e que a Conversão da Rússia era assunto que deveria deixar de ser mencionado” - foi o Padre Gruner5. Mais do que uma interpretação política a propósito da continuação da Ostpolitik do Cardeal Casaroli e do relacionamento - estranhamente próximo - do Papa com Gorbachev (o propagador de um genocídio), o que o Padre Gruner fez foi uma clara análise de uma teologia que tinha mudado e que se tornara o centro da nova orientação da Igreja: uma teologia chamada Ecumenismo.

       De momento, vamos deixar de parte as perguntas resultantes destas observações, pois poderão ser mais bem compreendidas à luz da teologia do Cardeal Ratzinger.

O “Segredo”

       Pelo que respeita a autenticidade do texto publicado, enquanto o Padre Gruner parece estar convencido de tal6, começam a levantar-se, por si mesmas, certas perguntas: Porque é que a Irmã Lúcia - que, por volta de 1944, tinha certamente lido as Sagradas Escrituras e muitos “livros de piedade”, como o Cardeal Ratzinger lhes chama - diz que o Santo Padre «ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho»? Através da história da Salvação, fala-se das “almas dos mortos” ou “dos defuntos”, tal como o encontramos no Credo: «Creio (…) na Ressurreição dos mortos (…)». Só no Antigo Testamento se pode encontrar o termo “cadáver”, e em contextos de “apóstatas” ou de “almas condenadas”.

       É igualmente estranho, no contexto da Primeira e da Segunda partes do Segredo, que a vidente tivesse falado de um “Bispo vestido de Branco”, quando os acontecimentos de 1939 tinham sido profetizados com clareza: com as designações “papa” e inclusivamente o seu nome - Pio XI. Ora, um “Bispo vestido de Branco” poderia ser o Abade de Brixen, no Tirol do Sul, ou um qualquer Bispo dos trópicos, ou ainda - como afirmam os Sedevacantistas - um impostor que, em Roma, se faz passar por Papa. É certo que nós não podemos nem devemos aventurar-nos a uma resposta; mas a expressão “Bispo vestido de Branco” é estranhamente vaga no contexto histórico de todos os acontecimentos ocorridos desde 1917.

       Haverá mais a dizer a tal respeito na conclusão deste capítulo. De momento, prosseguiremos como se o texto publicado fosse autêntico.

A Interpretação do “Segredo”

A. A carta do Papa à Irmã Lúcia

       Nessa carta, com data de 19 de Abril do ano 2000 e que vem citada em AMF (pp. 25 e 26), o Papa diz:

       Tendo em vista, porém, que naquele dia [da Beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta, a 13 de Maio de 2000] não haverá tempo para um colóquio, mas somente para uma breve saudação, encarreguei expressamente (…) Monsenhor Tarcisio Bertone (…).
Monsenhor Bertone (…) vem em Meu nome fazer-lhe algumas perguntas sobre a interpretação da “terceira parte do segredo”.

       Pode concluir-se, pois, que Sua Santidade não tem tempo para uma conversa com a Irmã Lúcia. Claro que o sempre vigilante defensor do Papa João Paulo II pode objectar a esta conclusão, recordando-nos que não está ao nosso alcance advertir o Papa acerca do seu calendário de actividades, e muito menos opor-nos às Suas decisões em termos de disciplina e de governo da Igreja, in rebus (…) quae ad disciplinam et regimen Ecclesiae (…) pertinent (D.S. 3060).

       Tudo isto é absolutamente correcto. Mas é-nos permitido fazer uma pergunta óbvia: Por que motivo os conselheiros e assessores do Papa, tão atentos à Sua calendarização de actividades - de modo a permitirem que Sua Santidade receba os Maçons da Comissão Trilateral7, Mikhail Gorbachev (que já mencionámos) e os Chefes da Maçonaria Judaica de B'nai B'rith8; pregue do púlpito da Igreja Luterana de Roma9; visite a Sinagoga, em Roma10; tenha reuniões com o “Patriarca” Budista Vasana Tara11, com o Dalai Lama12 e com Yasser Arafat13; e, inclusivamente, chame para junto de si o Patriarca cismático e herético Dimitrios I de Constantinopla14, tendo ambos aparecido lado a lado na Varanda Pontifícia da Basílica de São Pedro, em Roma (!) -, não conseguem encontrar, na calendarização do Papa, nenhum espaço de tempo para ele poder falar com a vidente e mensageira pessoal de Nossa Senhora, talvez a figura mais importante dos mensageiros deste século?

       Não conhecemos a resposta, e não podemos aventurar-nos a dá-la; mas é evidente que há uma conexão teológica com o modo como o Vaticano tem esbatido o Terceiro Segredo de Fátima.

B. O “Colóquio com a Irmã Lúcia (…)”

       Este relato, não assinado, de uma alegada conversação (havida em Abril de 2000) entre o Arcebispo Bertone e a Irmã Lúcia - inserida a páginas 27-28 de AMF - é uma peça notável de discurso propositadamente enganador, escrito provavelmente pelo próprio Arcebispo. Como o Padre Paul Kramer muito justamente fez notar, Mons. Bertone não só não perguntou à Irmã Lúcia se a Consagração da Rússia já tinha sido feita, como justapôs duas afirmações logicamente separadas, a saber: a afirmação da Irmã Lúcia de que a figura vestida de branco era um Papa, embora ela não lhe saiba o nome (!), e o facto de ela ter concordado com a afirmação do Santo Padre de que «Foi uma mão materna que guiou a trajectória da bala», no dia 13 de Maio de 198115.

       Houve tantas coincidências estranhas - ou seria a Divina Providência? - na tentativa de assassinato de Ali Agca, que nos levam a considerá-la uma “digressão” não-teológica:

  • Porque é que a arma se teria encravado depois do terceiro tiro? Não é de estranhar que uma pistola semi-automática encrave; mas é quase impossível que a melhor força policial italiana, os Carabinieri, não tenha conseguido descobrir porquê, depois de várias semanas de exame microscópico nos seus laboratórios. Seria por interferência do Anjo da Guarda? Mas isso deveria aparecer como altamente provável à luz da teologia.

  • Porque é que Ali Agca não usou balas de ponta oca ou então as munições Federal Hydra-Shok, de fácil aquisição, que teriam - quer umas quer outras - realizado o seu propósito de assassinar o Papa? Muitas fontes afirmam que haveria alguma organização ou serviço secreto por detrás do ataque. Será que eram todos uns amadores?

  • Porque teria ele escolhido uma pistola pequena, e a Praça de São Pedro, sem qualquer hipótese de fuga, em vez de uma espingarda (que então era de fácil aquisição) e uma das muitas posições elevadas em torno da Praça de São Pedro - o que lhe daria, pelo menos, a possibilidade de se escapar? Ou tratar-se-ia apenas de um estúpido fanático?

       Provavelmente nunca chegaremos a saber, nos dias da nossa vida, a verdade sobre o que se passou naquele dia; mas uma verdade já nós sabemos: é que o atentado à vida do Papa não tinha nada a ver com o conteúdo do Terceiro Segredo, porque o Papa não foi assassinado. Foi um acontecimento trágico, é certo; mas que, tendo em conta a plena realização das suas actividades, não ‘roubou’ ao Papa mais do que um ano - fora, evidentemente, os mais de vinte que se lhe seguiram. É um insulto à Divina Providência e a Nossa Senhora afiançar que este acontecimento, cuja importância deve ser relativizada, estaria no centro de uma profecia sobre o Inferno, duas Guerras Mundiais, o Comunismo e um grande castigo que ainda está por vir.

       E, por fim, é-nos forçoso perguntar: Porque é que este atentado (só ocorrido em 1981) haveria de ser mais bem compreendido depois de 1960 - como aconteceria com o Terceiro Segredo, conforme disse a Irmã Lúcia? Qualquer pessoa no século XX o teria compreendido como nós agora. Será que aquela geração que combateu na Segunda Guerra Mundial e na Coreia só depois de 1960 teria uma melhor compreensão de qual era o papel dos soldados nesta visão? A insistência da Irmã Lúcia para que o Terceiro Segredo fosse revelado no ano de 1960, porque «Nossa Senhora assim o quer», só pode querer significar que a Lúcia sabia alguma coisa que estaria para acontecer por volta do ano de 1960, ou ligeiramente mais tarde, e que tornaria o Terceiro Segredo claramente compreensível como uma profecia de eventos futuros. Claramente também, o Segredo não tinha qualquer conexão com o assassinato do Presidente Kennedy - mas o que dizer da Encíclica de João XXIII Pacem in Terris, publicada em 1963, ou do Concílio Vaticano II, aberto em 1962 mas anunciado a 25 de Janeiro de 1959?

C. A “Comunicação de Sua Eminência o Card. Ângelo Sodano (…)”

       A fraude continua com a afirmação do Secretário de Estado de Sua Santidade de que «a chave de leitura do texto [do Terceiro Segredo] só pode ser de carácter simbólico.» (AMF, p. 29) O propósito de tal sugestão torna-se evidente quando o Cardeal Sodano distorce a verdadeira visão, ao dizer «Também Ele [o Papa] (…) cai por terra como morto (…)». Como já analisámos num capítulo anterior, as palavras «cai por terra como morto» são exactamente o contrário da expressão usada pela Irmã Lúcia: «foi morto».

       Isto é imediatamente seguido do arrastamento da Mensagem para o passado, quer com a referência ao atentado de 1981 quer com a ridícula declaração de que, em 1989, o Comunismo e a expansão do ateísmo teriam terminado. Ora, tanto o “glasnost” como a “perestroika” de Gorbachev foram já suficientemente discutidos em diversos números da The Fatima Crusader, não sendo portanto necessário repetir aqui essas análises. Contudo, não deixa de ser triste ver que o Secretário de Estado do Vaticano não hesita em utilizar uma mentira - velha de dez anos - para desacreditar a Mensagem de Nossa Senhora.

D. O “Comentário Teológico” do Cardeal Ratzinger

i) Uma Introdução “implosiva”

       Logo nas três primeiras linhas deste Comentário (AMF, p. 31), aparece a afirmação de que «o texto do chamado terceiro “segredo” de Fátima (…) é aqui publicado integralmente (…)» - mentira que é repetida mais adiante (AMF, p. 38). Que é uma mentira, já o referido artigo de Andrew Cesanek apresenta provas sobejas (cf. o Capítulo seguinte). Também no final deste capítulo analisaremos esta fraude.

       A afirmação seguinte é cínica - que é o mínimo que dela se pode dizer:

       Não é revelado nenhum grande mistério; o véu do futuro não é rasgado. Vemos a Igreja dos mártires deste século que está para findar, representada através duma cena descrita numa linguagem simbólica de difícil decifração»16.

       Em primeiro lugar, se «não é revelado nenhum grande mistério», então porque é que Nossa Senhora se daria ao trabalho de fazer disso um segredo? Possivelmente - como veremos mais tarde - é porque “o véu do futuro” se encontra dissipado na outra parte do Terceiro Segredo, aquela que, evidentemente, nos tem sido ocultada: a parte que contém as palavras de Nossa Senhora que se seguem a «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.» Seja como for, afirmar que uma visão de soldados que fuzilam o Papa não é mais do que um símbolo do passado - se tivermos em conta especialmente a sua conexão com as mensagens, invulgarmente claras, de todo o resto da Mensagem de Fátima - é totalmente contrário à razão.

       Em comparação com a maior parte das profecias - e logo pensamos nas dificuldades de interpretação do Apocalipse -, os segredos de Fátima são invulgarmente claros e objectivos. Então, porque é que o Terceiro Segredo seria “simbólico e difícil de decifrar”? Porque é que o Século XX haveria de terminar em 1999?

       Isto faz lembrar quando o Kaiser Guilherme II da Alemanha decretou que em 1900 começava o século XX - o que é matematicamente impossível. Ao que parece, a matemática do Cardeal Ratzinger - tal como a sua teologia - está mais dependente do poder do que da Verdade. E dizer isto não é alinhar em “polémicas demagógicas” à luz de uma assaz notável mudança do modo de pensar, ocorrida entre 1984 e 2000. Em 1984, ao discutir o conteúdo do Terceiro Segredo, o Cardeal Ratzinger falou acerca dos “últimos tempos” e da “profecia religiosa”, e disse:

       Mas o conteúdo deste ‘Terceiro Segredo’ corresponde ao que é anunciado nas Sagradas Escrituras e que tem sido dito, muitas e muitas vezes, em várias outras aparições de Nossa Senhora, a começar por esta, de Fátima, no seu conteúdo já conhecido17.

       Tal afirmação, feita em 1984 pelo Cardeal Ratzinger, está em contradição absoluta com o rebaixamento que ele próprio faz do Terceiro Segredo em AMF. A este propósito o Padre Paul Kramer18 recolheu, de outras Aparições Marianas, as mensagens mais importantes de Nossa Senhora, observando-as precisamente sob este ponto: todas elas são bastante aterradoras, e não há dúvida de que - pelo menos na sua parte profética - anunciam acontecimentos ainda por vir.

       E de novo nos vemos confrontados com o teor de toda a AMF - que é profundamente desonesta ao fazer do Terceiro Segredo algo trivial, transformando-O na predição, insignificante, de um atentado falhado à vida do Santo Padre. Ser-nos-á lícito dizer que o atentado falhado à vida do Papa é uma predição “insignificante”? É, sim! Já o dissemos, e é esta a verdade: o atentado fracassou e, mesmo que daí resultasse a morte do Papa, isso nada teria a ver com o Terceiro Segredo. É costume dizer-se, em italiano: “Morto un Papa, se ne fa un'altro” - com a morte de um Papa vem a eleição de outro.

       Há ainda um outro ponto que emerge: Porque é que, no Vaticano, ninguém se deu ao trabalho de levantar a suspeita de que o Terceiro Segredo de Fátima poderia ter a ver com a morte prematura do Papa João Paulo I? Será ele uma figura tão completamente insignificante? Nenhum Papa o é. Mas o que, acima de tudo, deve compreender-se é que não era Deus que então sabia o que ia acontecer - porque Deus tudo sabe! Logo, o atentado falhado à vida de um Papa não é “nenhum grande mistério”, como o Cardeal Ratzinger habilmente o formulou. No entanto, houve uma verdadeira - e bastante misteriosa - morte de um Papa que foi (muito convenientemente) esquecida.

       Tanto a profecia como as palavras dos três videntes deixam extremamente claro “que o Santo Padre terá muito que sofrer” - isto no contexto de duas Guerras Mundiais e (como veremos) muito pior ainda, no de uma exaltação da importância de um Papa até às raias da idolatria, a ponto de fazer da sua estada de alguns meses no hospital o Terceiro Segredo de Fátima. Aquilo que o Papa teve de sofrer no Hospital Gemelli, em Roma, é algo que ninguém quereria, sequer, contemplar. Mas não esqueçamos todavia que, graças à Medicina de hoje, o sofrimento do Papa durante esse tempo não tem comparação, nem de longe, com o destino que coube, em média, a tantos Sacerdotes nos campos de concentração nazis - já para não falar no destino de muitos mais Sacerdotes e Bispos, para lá da Cortina de Ferro.

       E - mais revelador que tudo - se o Terceiro Segredo prediz unicamente que um Papa haveria de sobreviver a um atentado, então porque é que, em 1984, o Cardeal Ratzinger disse que o Segredo não iria ser revelado para evitar “que se confundisse a profecia religiosa com sensacionalismo”? Que haveria de sensacional numa profecia que dizia respeito a um atentado falhado ocorrido três anos antes? Nada, evidentemente. Só por este testemunho, a contradição gritante do Cardeal Ratzinger em relação ao an- terior depoimento é suficiente para dar um golpe fatal na sua credibilidade. A versão do Terceiro Segredo agora apresentada é aquilo a que os advogados chamam uma recriação posterior dos factos. O conteúdo “sensacional” a que ele se referia em 1984 não podia ser, evidentemente, a tentativa de assassínio de 1981.

ii) Revelações públicas e privadas

       De um modo significativo, o Cardeal Ratzinger fez assentar todo o fenómeno de Fátima no contexto das “revelações privadas” - que tanto podem ser consideradas “falsas” como “extraordinárias”, tudo dependendo da sua autenticidade. O Cardeal Ratzinger afirma que a Mensagem de Fátima, como todas as “revelações privadas” cuja autenticidade foi aprovada pelas autoridades da Igreja «pode ser um válido auxílio para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso, não se deve transcurar. É uma ajuda que é oferecida, mas não é obrigatório fazer uso dela». Por outras palavras: segundo o Cardeal Ratzinger, ninguém na Igreja é obrigado a seguir a Mensagem de Fátima: nem o Papa, nem os Bispos, nem os Sacerdotes, nem os leigos. Acreditar em Fátima - incluindo a Consagração da Rússia e a devoção dos Cinco Primeiros Sábados - fica ao critério de cada um. Se quisermos, poderemos simplesmente ignorá-la por completo - como se o Milagre do Sol nunca tivesse acontecido; como se aqueles pedidos de Nossa Senhora tivessem sido feitos por um fantasma! Fátima não passa de uma “ajuda”: nós poderemos aproveitá-la ou não, a nosso bel-prazer.

       Bento XIV, um dos Papas mais eruditos da História da Igreja, afirma com toda a razão que estas revelações não podem ser sustentadas com apoio na Fé; elas «requerem, antes, uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência, que no-las apresentam como prováveis e religiosamente credíveis.» Todavia, ao fazer esta citação do Papa Bento XIV, o Cardeal Ratzinger ardilosamente aparenta ignorar um aspecto que é tão extraordinário acerca das aparições de Fátima, e que as retira da categoria de outras “revelações privadas”: o espantoso Milagre do Sol, que prova que Fátima é algo mais do que apenas “religiosamente credível”.

       Segundo parece, o Cardeal Ratzinger faz semelhante abordagem em relação a todas as revelações extraordinárias dos últimos dois séculos. Assim, por exemplo, ele reduz as revelações extraordinárias, recebidas por Santa Margarida Maria Alacoque, sobre a Festa de Corpus Christi e o Sagrado Coração de Jesus a um acontecimento que, pura e simplesmente, teve “influência também na própria liturgia”. Ora esta sua atitude toca os limites da blasfémia - considerando nós qual foi o destino da França, após a impertinente e desastrosa recusa do Rei Luís XIV e dos seus dois sucessores em obedecer ao pedido de Cristo para que fosse feita a consagração de França ao Sagrado Coração de Jesus, pedido confiado a Santa Margarida Maria nessas revelações “privadas”19.

       A errónea concepção de profecia do Cardeal Ratzinger fica escandalosamente clara na seguinte afirmação:

       (…) é preciso ter presente que a profecia, no sentido da Bíblia, não significa predizer o futuro, mas aplicar a vontade de Deus ao tempo presente e consequentemente mostrar o recto caminho do futuro. Aquele que prediz o futuro pretende satisfazer a curiosidade da razão, que deseja rasgar o véu que esconde o futuro (…).

       Ora isto equivale à negação de toda e qualquer profecia, comummente reconhecida como uma das mais elevadas graças gratuitamente concedidas, ou seja, gratiae gratis datae. Muitas vezes uma profecia envolve uma interpretação correcta do passado e do presente; mas, como tal, é compreendida como uma previsão para o futuro. Ou Isaías, David, Jesus Cristo e São Paulo “satisfizeram a curiosidade da razão”, e tanto os Padres da Igreja como os Doutores da Igreja não quiseram mais do que “rasgar o véu que esconde o futuro” - ou o Cardeal Ratzinger uma vez mais labora no erro. Podemos deixar-lhe a resposta a si, leitor?

       O Cardeal Ratzinger reduz a profecia àquilo a que chama os “sinais dos tempos”, talvez por ser incapaz de ver os verdadeiros sinais dos tempos: as Igrejas vazias, heresia, apostasia, blasfémia, impureza e perversão sexual, neo-paganismo e, na realidade, um total desacordo entre muitos Bispos e Sacerdotes sobre todo e qualquer assunto dentro da Igreja Católica. O único consenso que existe entre todos os poderes de chefia no Vaticano está no ódio que votam à Teologia Católica tradicional, de que desdenham e que recusam, o mesmo acontecendo em relação a qualquer ideia de conversão da Rússia à Fé Católica - cá está de novo aquele conflito entre visões eclesiais que foi o que gerou o crime que estamos a discutir aqui.

       O Cardeal Ratzinger faz por aparentar que estes (acima mencionados) verdadeiros sinais dos tempos nada têm a ver com o evento que ficou conhecido por Concílio Vaticano II, a respeito do qual se afirmou que o Espírito Santo desceu uma segunda vez. Que isso é totalmente falso, bem o podemos ver através dos amargos frutos do Concílio.

       Se podemos ser acusados de “polémicos” à luz destes ensinamentos da Igreja sobre a profecia e sobre a importância que, tanto São Paulo (a exemplo de Cristo!) como os Padres da Igreja atribuiram a este dom de Deus, as afirmações do Cardeal Ratzinger, por seu turno, ombreiam com a heresia e com a blasfémia - que é o mínimo que delas se pode dizer. Reduzir tudo quanto está entre os Salmos e São João Bosco, ou Fátima, a uma “satisfação da curiosidade da razão” equivale a declarar que as Sagradas Escrituras, os Padres da Igreja, a Sua Tradição e quase todas as revelações extraordinárias respeitantes ao futuro - são uma espécie de ‘literatura de cordel’ do Clero, ao nível das revistas mais ordinárias à venda na caixa registadora do supermercado local. Considerar que as previsões do futuro contidas em profecias divinas implica que se trata, meramente, de objecto de uma curiosidade humana entediada é um insulto a Deus e aos Santos; logo, é coisa que não pode ser tomada levianamente.

       Na p. 37 de AMF, o Cardeal Ratzinger cita de novo as palavras do Cardeal Sodano trivializando o significado de uma visão:

       [Estas visões] Não descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo factos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas.

       Portanto: que todos estes acontecimentos pertencem ao passado e que não há mistério nenhum é a evidente mensagem destes eminentes Cardeais.

iii) “Uma tentativa de interpretação…” do Cardeal Ratzinger

       A primeira pergunta que se nos põe diz respeito à surpresa do Cardeal Ratzinger. Afirma ele em AMF (p. 38) que a mensagem da Virgem Santíssima de que a devoção ao Seu Imaculado Coração é o caminho para a Salvação «é (…) surpreendente para pessoas originárias do ambiente cultural anglo-saxónico e germânico». Porque é que o Cardeal Ratzinger diria tal coisa? Será que os Ingleses e os Alemães são tão ignorantes que nunca ouviram falar do Sagrado Coração de Jesus,20 de Santa Margarida Maria Alacoque ou de S. Filipe Benício, para já não mencionar o Papa Leão XIII? Ou serão tão inteligentes que não se convencerão com semelhantes romantismos italianos ou espanhóis? Será que um Senhor alemão, frio e sóbrio, diz à sua amada “Eu amo-te com todo o meu cérebro!”, ou que algum Cavalheiro inglês comunicaria a sua paixão com uma seca referência à sua força de vontade? Qual a finalidade de afirmações tão ridículas? A resposta encontra-se nas linhas que se seguem a esta incompreensível “surpresa” do Cardeal.

       A “tentativa de interpretação do ‘segredo’ de Fátima” do Cardeal Ratzinger evita completamente interpretar algo que não é o ‘segredo’ - não o pode ser de modo algum, uma vez que este ainda não foi revelado -, para conseguir desacreditar nem mais nem menos do que a Pessoa Santíssima da Imaculada Conceição. Este eminente príncipe da Igreja parece ter-se esquecido de que, quando Nossa Senhora apareceu em Lourdes, não Se apresentou como a “Imaculadamente Concebida”, mas, antes, dizendo: «Eu sou a Imaculada Conceição.» Só Ela, entre todas as simples criaturas, foi concebida sem Pecado Original e nunca teve a mancha do pecado. Só o Seu Coração - isto é, a terceira faculdade da alma; não o órgão interno, mas o coração a que São Tomás de Aquino chama o sensus communis - é, portanto, o Imaculado Coração. Ora o Cardeal Ratzinger não se coíbe de ‘hipertrofiar' esta designação, reservada à Mãe de Deus, de modo a incluir nela qualquer «coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, “vê a Deus”.» Nem sequer ele se envergonha de desrespeitar o Evangelho, quando cita São Mateus 5:8 que apenas diz: «Bem-Aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.» Cristo fala dos puros de coração e não de “uma perfeita unidade interior” - e muito menos do Imaculado Coração de Sua Mãe Santíssima. Se seguirmos esta negação implícita da exclusividade do Imaculado Coração (unicamente de Nossa Senhora) para o atribuirmos a todos os que são “puros de coração”, poderemos então chegar à conclusão lógica de que todos os Sacerdotes têm sagrados corações, por terem sido consagrados como alter Christus (um outro Cristo), o que até condiz com o seu título, vindo do Latim: Reverendus (que deve ser reverenciado). Mas dizer que todos os Sacerdotes têm um sagrado coração seria blasfemo - que é exactamente o que se pode pensar do Cardeal Ratzinger, ao trivializar o Imaculado Coração da Virgem Maria.

       Até mesmo à objecção ‘tipicamente protestante' de «que não se deve interpor um ser humano entre nós e Cristo» o Cardeal Ratzinger responde numa aparente ignorância de Nossa Senhora: cita a exortação de São Paulo a que o “imitem”, em vez de explicar que foi Nosso Senhor em Pessoa Quem colocou um simples ser humano entre Ele e nós, ao fazer de Sua Mãe Santíssima a Mediatrix (Medianeira) de todas as graças!

       Quanto ao exame que faz de simples imagens na visão do “Bispo vestido de Branco”, o Cardeal Ratzinger diz:

       Deste modo, é sublinhada a importância da liberdade do homem: o futuro não está de forma alguma determinado imutavelmente, e a imagem vista pelos pastorinhos não é, absolutamente, um filme antecipado do futuro, do qual já nada se poderia mudar. (…) O sentido da visão não é, portanto, o de mostrar um filme sobre o futuro, já fixo irremediavelmente (…)21

       Assumir que os pastorinhos tiveram uma visão inteiramente incondicional é, de novo, a negação da profecia. Nossa Senhora distinguiu bem entre o futuro imutável e as consequências que adviriam se os Seus desejos não fossem satisfeitos. Mas declarar a realidade do futuro, em si mesmo - e aconteça, de facto, o que acontecer - como mutável é contrário ao Ensinamento da Igreja sobre a Divina Providência e a Predestinação. O plano eterno da Divina Providência é imutável, porque Deus é imutável; e nada pode acontecer independentemente da Providência22. Na Sua divina Sabedoria, Deus conhece o futuro na sua totalidade - futuro esse que por isso mesmo é imutável, tal como o ensinou, com a sua autoridade, o Concílio Vaticano I. (D.S. 3003).

       Se a afirmação do Cardeal Ratzinger pretende significar aquilo que as suas palavras dizem, ele seria, no mínimo, um herege quanto ao materialmente afirmado; se ela significa que, por obedecer aos pedidos de Nossa Senhora, nós podemos mudar o futuro, então o conceito de ‘futuro’ do Cardeal está distorcido. Vejamos: se um homem decide tornar-se Sacerdote em vez de ser um pai de família, ele não está a “mudar” o seu futuro - estabelecido ainda antes de ele ter nascido -, mas apenas a alterar a sua decisão. A afirmação do Cardeal Ratzinger é a expressão ou de um pensamento subjectivista ou herético. E parece tratar-se deste último caso, quando consideramos a asserção: «o futuro não está de forma alguma determinado imutavelmente»23.

       Toda a certeza subjectiva do Cardeal em negar qualquer tipo de “imagem de um filme” (visto pelos três pastorinhos de Fátima) mostra, segundo parece, quem ele acredita ser o verdadeiro profeta de Fátima - ele próprio. Não o é, com toda a certeza, Nossa Senhora de Fátima.

       Finalmente a Irmã Lúcia é desacreditada como vidente, quando o Cardeal Ratzinger diz que a visão incorpora imagens que ela «pode ter visto em livros de piedade»24. Ora isto equivale a declarar que toda a visão é produto de uma fantasia - o que assenta como uma luva no plano de dissolver Fátima «em nada mais do que numa piedade católica em geral e numa série de lugares-comuns, envolvendo acontecimentos que já se deram, pelo que tudo já acabou», como o Padre Gruner descreve neste seu artigo, com tanta precisão, o comentário de Bertone/Ratzinger (AMF)25.

       Como o debatemos em capítulo anterior, a penúltima página de AMF volta a declarar que tudo no Segredo pertence ao passado, inclusive as palavras de Nossa Senhora: «O Meu Imaculado Coração triunfará» - das quais propositadamente o Cardeal arrancou as palavras Por fim. O Cardeal reduz tudo o que respeita a Fátima ao «fiat de Maria, a palavra do Seu Coração [que] mudou a história do Mundo»26. É claramente um esforço ridículo e desajeitado para eliminar por completo Fátima, fazendo-a sair de cena.

iv) O fermento de Ratzinger

       A tentativa, feita pelo Cardeal Ratzinger, de desmantelar a Mensagem de Fátima sob a aparência de uma “interpretação” erudita faz lembrar uma das admoestações de Nosso Senhor aos Seus discípulos: «Tende cuidado! Guardai-vos do fermento dos Fariseus e dos Saduceus.» (S. Mateus, 16:6) A princípio os discípulos, que estavam a comer pão naquele momento, não compreenderam: - O que teria essa referência ao fermento do pão a ver com os Fariseus? Mas, logo de seguida, eles atingiram o que Nosso Senhor queria dizer: «Então compreenderam que não havia dito que se guardassem do fermento dos pães, mas da doutrina dos Fariseus e dos Saduceus.» (S. Mateus, 16:12).

       Como o Arcebispo Senhor D. Alban Goodier, S.J., explicou no seu comentário, já clássico, a esta passagem das Sagradas Escrituras, Nosso Senhor estava a ensinar os discípulos a prevenirem-se contra as subtis astúcias dos Fariseus que eram, de longe, muito mais perigosas do que qualquer oposição aberta contra Cristo:

       Não era tanto a oposição deles que o Senhor receava; era a sua [dos Fariseus] subtil astúcia. Antes, os Fariseus tinham-n'O censurado por causa dos Seus milagres e de outras acções de caridade; e Ele bem sabia que não era essa atitude que afastaria de Si os Seus amigos. Agora, nesta manhã, eles [os Fariseus] tinham vindo com uma simplicidade fingida, um aparente desejo de conhecer a verdade, um apelo aos profetas, um zelo pela tradição, um respeito pela lei e a ordem, e uma obediência aos poderes estatuídos; e tudo isto, o Senhor sabia-o, poderia facilmente afectá-los mais do que qualquer inimizade declarada. Tal como o fermento, e a menos que [os discípulos] estivessem prevenidos, isto espalhar-se-ia inconscientemente entre eles27.

       Ora, do mesmo modo que Nosso Senhor, a Virgem de Fátima foi bastante franca na Sua Mensagem. Mas o Cardeal Ratzinger, tal como os Fariseus daquele tempo, vem cheio de subtis astúcias e de citações das Sagradas Escrituras que, artificiosamente compostas, obscurecem a simplicidade da verdade divina. E, tal como os Fariseus, o Cardeal apresenta um obscurecimento envolvido numa grande demonstração de respeito pela Mensageira do Céu e pela Sua Mensagem; mas por detrás dessa aparência de respeito há o desdém, mal oculto por um “véu diáfano”. E quando o Cardeal terminou o seu “tributo” farisaico à Mensagem de Fátima, nada mais restava dela. Para ele, trata-se de um assunto muito subtil - tão subtil e diáfano que todo ele se desvanece.

       Só que as aparições de Fátima não são assim tão subtis. Elas foram concedidas a três pastorinhos que nem ler sabiam, para edificação e guia dos sábios e estudiosos deste Mundo - incluindo os teólogos do Vaticano. Ou Nossa Senhora apareceu em Fátima ou não apareceu. Ou confiou aos três pastorinhos uma Mensagem bem determinada que eles podiam recordar claramente e repetir tal como a tinham ouvido, ou não confiou. Ou a Senhora queria que a Sua Mensagem se divulgasse por todo o Mundo, ou não queria. Ou Ela velava por que a Sua Mensagem fosse cuidadosamente transmitida, ou não. Ou garantia, sem qualquer sombra de dúvida razoável, por meio do Milagre do Sol, que fora realmente Ela, a Rainha do Céu e da Terra, Quem desceu a Fátima, Quem falou e Quem fez os Seus pedidos, ou então nada fez a esse respeito. A resposta, em cada um destes casos, é “que sim” - porque Ela é a Mãe de Deus.

       Tal como os discípulos no seu encontro com os Fariseus, nós devemos precaver-nos contra as subtis astúcias farisaicas que se espalharam como fermento envenenado por toda a Igreja, durante os últimos quarenta anos. E agora, recentemente, o fermento dos Fariseus procura penetrar na Mensagem de Fátima, quando o Cardeal Ratzinger nos diz que qualquer coração pode ser como o Imaculado Coração de Maria, e que «por fim o Meu Imaculado Coração triunfará» se refere à Anunciação, há dois mil anos atrás. Os antigos Fariseus eram perigosos porque, precisamente, fingiam respeitar a verdade de modo genuíno. Hoje, é um respeito fingido pela Mensagem de Fátima que caracteriza os seus mais ferrenhos oponentes.

Conclusão

       Num dos mais estranhos eventos de uma (já de si tão estranha) Igreja pós-conciliar, vêmo-nos confrontados com uma série de interrogações que partem dos comentários - nada ortodoxos - sobre a visão do Terceiro Segredo fornecidos pelo Cardeal Ratzinger e por Mons. Bertone:

  • Porque é que as autênticas palavras de Nossa Senhora, que são o verdadeiro Terceiro Segredo, escritas numa só folha de papel - e, muito provavelmente, guardadas ainda no cofre do Papa -, continuam escondidas do público e é mesmo negada a sua existência?

  • Porque é que a visão dada a público que, obviamente, se refere ao futuro assassinato de um Papa, é associada ao atentado de 1981 à vida do actual Pontífice - atentado esse que falhou?

  • Porque é que se repete a mentira de que a Consagração da Rússia já foi feita?

  • Porquê a absurda declaração de que «A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do “segredo” de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade»?

  • Porque é que os assistentes e conselheiros do Papa, que calendarizaram para Sua Santidade centenas de reuniões com políticos, não encontraram - segundo parece - tempo algum para a Irmã Lúcia?

  • Porque é que se repete a mentira da “queda do Comunismo” em 198928?

  • Porque é que o Segredo, longamente guardado, é apoucado na sua natureza - «Não é (…) nenhum grande mistério» - e reduzido a um carácter simbólico?

  • Por que razão é negada a profecia que prediz o futuro?

  • Porque é que o Imaculado Coração de Maria é rebaixado, sendo igualado ao daqueles que são “puros de coração”?

  • Porque é que a imutabilidade do futuro - e com ela a Divina Providência - é negada, pelo menos implicitamente?

  • Porque é que a visão da Irmã Lúcia é ‘apoucada’ indicando-se-lhe, como possível fonte de inspiração, os “livros de piedade”?

  • Por que razão evitaram os Prelados explicar a frase «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.»?

  • Qual o propósito de publicar primeiro a visão do Terceiro Segredo, ficando retidas as palavras de Nossa Senhora - e a visão, no seu conteúdo, reduzida a nada?

       As evidências apontam para uma única resposta a todas estas perguntas. Sempre que somos confrontados com qualquer tipo de pecado semelhante a uma mentira, é forçoso perguntarmo-nos: Cui bono? - “A quem beneficia?”

       É impossível que as imposturas e as incoerências do Vaticano sobre o Terceiro Segredo e sobre Fátima, em si mesma, não passem de uma brincadeira tonta de alguns Prelados, aborrecidos por não terem nada que fazer. Teria que haver um forte imperativo para se congeminarem mentiras - que podem vir a ser desmascaradas sem grande dificuldade. Porquê, então, exporem-se a tão grande risco, a não ser por uma causa importante?

       Como é evidente que o Terceiro Segredo não é manipulado com o fim de anunciar certas visões convenientes ou politicamente correctas em relação ao futuro, mas - pelo contrário - é remetido para o passado e privado de possuir uma real importância, o único propósito que subjaz a todo o acto da sua publicação só pode ser uma estratégia de diversão em relação às próprias palavras de Nossa Senhora. Assim, uma visão e uma profecia são transformadas em fraude ou - como os organismos secretos estatais gostam de lhe chamar - em percepções sob gestão.

       Ora uma tal resposta está longe de ser uma simples especulação. Cada “peça” das evidências que até aqui discutimos - incluindo esta visão do Terceiro Segredo e outras aparições aprovadas pela Igreja, e a que o próprio Cardeal Ratzinger se referiu em 1984 - aponta no sentido de que o verdadeiro Terceiro Segredo reside, necessariamente, nas palavras de Nossa Senhora que eles têm ocultado do público e, possivelmente, no texto autêntico da visão - supostamente publicada.

       Concluimos este capítulo com mais algumas perguntas levantadas pelas evidências:

       -Porque é que a imprensa internacional - no geral, sem qualquer comentário ou objecção - publicou a “visão”? No geral, os jornalistas são eficientíssimos em ridicularizar, duvidar, negar e des-sacralizar o que é sagrado. Basta pensar na reacção internacional ao anúncio do Vaticano de beatificar o Papa Pio IX. Somos os primeiros a admitir que não se trata de um argumento estrictamente teológico. Contudo, a consideração da probabilidade foi aceite por São Tomás de Aquino cujo senso comum é - como G.K. Chesterton fez notar - “o sentido daquilo que é provável.”

       -Porque haveríamos de ter uma tão grande certeza da autenticidade do texto publicado, ou das afirmações “pessoais da Irmã Lúcia” quanto à correcta interpretação que dele foi feita? Dois dos mais altos Prelados do Vaticano não hesitaram, no “comentário” que conjuntamente apresentaram, em declarar que o Terceiro Segredo não contém “nenhum grande mistério”. O que eles fazem é apresentar-nos uma ‘colecção’ de asserções absurdas e auto-contraditórias, num continuum que vai desde o insulto à nossa inteligência até se aproximar da heresia (no mínimo) e mesmo da blasfémia.

       Visto isso, poderemos nós ter absoluta certeza de que as palavras “da Irmã Lúcia” não possam ser o produto de um software capaz de reproduzir a caligrafia de qualquer pessoa e à venda por menos de cem dólares? E nesse caso, a quem seria lícito interrogar a Irmã Lúcia acerca da publicação? Certamente a nenhum de nós.

       Não se trata de paranóia, mas sim de dúvidas prudentes sobre a normal credibilidade de pessoas que já nos habituaram a mentiras perfeitamente demonstráveis. E ninguém é paranóico se tem dúvidas sobre inconsistências e auto-contradições.

       Não pode haver muitas razões para esconder uma Mensagem de Nossa Senhora; a não ser que: fosse concebível ser a Mensagem tão aterradora que causasse pânico, como, por exemplo, a profecia de uma catástrofe local, de uma inundação ou de um ataque nuclear; ou que a Mensagem pudesse ser simbólica demais para ser compreendida, como poderá ser o caso de algumas passagens do Apocalipse; ou, então, que a Mensagem seja bem explícita e clara, mas altamente embaraçosa para aqueles que, têm poder, sobre a sua pública divulgação.

       Parece evidente que as duas primeiras hipóteses não se adequam ao tipo de Aparições de Fátima e da maioria das Aparições Marianas - o que nos leva à terceira possibilidade, como sendo a nossa conclusão: o Vaticano tem qualquer coisa a esconder cujo conhecimento seria extremamente embaraçoso. Evocamos a este foro o testemunho do Padre Joaquín Alonso que, durante dezasseis anos, foi o arquivista oficial de Fátima:

       Seria, então, de toda a probabilidade que o texto faça referências concretas à crise da Fé na Igreja e à negligência dos Seus próprios Pastores [e às] lutas intestinas no seio da própria Igreja e a graves negligências pastorais por parte das altas Hierarquias29.

       Ora isto é inteiramente congruente com a aparição e a mensagem de Nossa Senhora em La Salette, em 1846, com a aparição de 1634 de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Quito, e com várias outras. E - possivelmente - talvez até saibamos qual o verdadeiro conteúdo do Terceiro Segredo. É que há a história, já de alguns anos atrás, de um Sacerdote francês supostamente credível que ouviu uma mensagem sobrenatural, enquanto ouvia uma gravação numa espécie de Oratório. Afirma ele ter ouvido o seguinte:

       Será planeado e preparado um concílio de depravidade que mudará a face da Igreja. Muitos perderão a Fé e a confusão reinará por toda a parte. Em vão as ovelhas procurarão os seus pastores. Um cisma rasgará a túnica de Meu Filho. - Este será o fim dos tempos anunciado nas Sagradas Escrituras e trazido à memória por Mim própria em muitos lugares. A abominação das abominações atingirá o seu máximo, o que atrairá o castigo anunciado em La Salette. O braço de Meu Filho, que Eu já não poderei continuar a suster, castigará este pobre Mundo que tem de expiar pelos seus crimes. - Só se falará em guerras e revoluções. Desencadear-se-ão os elementos da natureza, a todos causando angústia, mesmo entre os melhores (os mais corajosos). A Igreja sangrará de todas as Suas chagas. Bem-Aventurados aqueles que perseverarem e procurarem refúgio no Meu Coração, porque, por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará.

       É certo que não há absolutamente provas nenhumas da autenticidade deste texto. Não nos é lícito afirmar que este é o verdadeiro Terceiro Segredo. Mas apesar de tudo este texto faz muitíssimo mais sentido do que seja o que for que se encontre na “interpretação” do Vaticano sobre a parte do Terceiro Segredo referente à visão.

       As heresias e a apostasia que se seguiram ao Concílio Vaticano II são de uma importância tão trágica e tão alargada que o senso comum nos pede que acreditemos ser este o Terceiro Segredo de Fátima, ou parte dele. Seria de crer que Nossa Senhora soubesse do fim da Primeira Guerra Mundial, do começo da Segunda Guerra Mundial no pontificado de Pio XI, da Rússia a espalhar os seus erros, da Rússia a ser o instrumento de castigo para a humanidade, de um futuro Papa a ser alvejado por soldados, e não soubesse nada acerca dos desenvolvimentos catastróficos na Igreja, a começar com o Concílio Vaticano II - acontecimento que, espiritualmente, faz esbater o impacto de todas as guerras até à insignificância? Já mencionámos que foi o próprio Papa Paulo VI que disse:

       A Igreja encontra-Se numa hora de inquietude, de auto-crítica e, pode mesmo dizer-se, de auto-destruição! É como que uma revolução interna, aguda e complicada, para a qual ninguém estava preparado depois do Concílio. (7 de Dezembro, 1968)

       Foi o mesmo Papa quem referiu que “o fumo de Satanás” tinha entrado na Igreja. Até o Papa Paulo VI, que se encontrava no centro da crise, se apercebeu do desastre até certo ponto. Seria concebível que Nossa Senhora de Fátima não tivesse nada a dizer a este propósito, quando em outras aparições aprovadas pela Igreja - mesmo o Cardeal Ratzinger o admite - a Santíssima Virgem fala dos perigos da Fé? É claro que é impossível!

       Consequentemente, embora não haja provas - de novo o afirmamos - da autenticidade da mensagem supra-citada que o referido Sacerdote francês declara ter recebido, não há outra alternativa lógica para que o Terceiro Segredo não seja qualquer coisa que possamos ler ao longo destas linhas. Ora isto só pode querer dizer que existe um texto que pertence ao Terceiro Segredo e que o Vaticano ainda não nos revelou - um texto que se segue às palavras sobre o facto de o dogma da Fé ser preservado em Portugal. Discutiremos isto no capítulo seguinte.


Notas

1. Entre 1986 e 1991, vários Sanpietrini - os guardas suíços de uniforme da Basílica de São Pedro, em Roma - disseram directamente ao Padre Gregor Hesse (que a essa altura havia dez anos que trabalhava no Vaticano) que, a seguir a cada Missa pontifícia na Praça de São Pedro, se encontravam pelo chão várias Hóstias consagradas.

2. The Fatima Crusader, N° 64, p. 3.

3. The Fatima Crusader, Nº 64, p. 115.

4. Ibid., pp. 54ff.

5. Ibid., p. 55.

6. Ibid., p. 18.

7. Daniel Le Roux, Petrus liebst du mich? (Stuttgard 1990). Peter, Lovest Thou Me?, p. 110. Os cépticos poderão verificar que só me refiro a imagens que podem facilmente ser encontradas na tradução inglesa publicada pela Instauratio Press, Yarra Junction, Australia, 1988.

8. Ibid., p. 112.

9. Ibid., p. 127.

10. Ibid., p. 155.

11. Ibid., p. 172.

12. Ibid., p. 177.

13. Ibid., p. 236.

14. Ibid., p. 144.

15. The Fatima Crusader, nº 64, p. 31.

16. Cardeal Joseph Ratzinger, “Comentário Teológico”, A Mensagem de Fátima (AMF), edição em Português, 26 de Junho de 2000, p. 31.

17. The Fatima Crusader, nº 64, pp. 34f.

18. Ibid., pp. 115ff.

19. Cf. Bispo Emile Bougaud, The Life of Saint Margaret Mary Alacoque (1ª edição por Benzinger, 1890; reeditado por TAN Books and Publishers, 1990), Capítulo XIV, “The Last Grand Revelation - The King of France, 1689”.

20. No século XIII, Santa Gertrudes, uma alemã, foi um “arauto do Sagrado Coração”. Cf. St. Gertrude the Great, publicado pelo Convento Beneditino de Clyde, Missouri, e reeditado por TAN Books and Publishers, 1979, pp. 26ff. Por isso não podemos compreender porque é que o “ambiente cultural (…) germânico” acharia “surpreendente” a Devoção ao Sagrado Coração de Jesus ou ao Imaculado Coração de Maria.

21. Cardeal Joseph Ratzinger, “Comentário Teológico”, A Mensagem de Fátima, edição em Português, 26 de Junho de 2000, p. 39.

22. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, 1.q.22, a.2.

23. Cardeal Joseph Ratzinger, “Comentário Teológico”, A Mensagem de Fátima, edição em Português, 26 de Junho de 2000, p. 39.

24. Ibid., p. 41.

25. The Fatima Crusader, nº 64, p. 51.

26. Cardeal Joseph Ratzinger, “Comentário Teológico”, A Mensagem de Fátima, edição em Português, 26 de Junho de 2000, p. 42.

27. Arcebispo Goodier, S.J., The Public Life of Our Lord Jesus Christ, Vol. I, (Burns Oates & Washbourne Ltd., London, England, 1932) p. 462.

28. O Cardeal Sodano disse em Fátima, a 13 de Maio de 2000, na sua “Comunicação”: «(…) os acontecimentos de 1989 levaram, quer na União Soviética quer em numerosos Países do Leste, à queda do regime comunista que propugnava o ateísmo.» (In A Mensagem de Fátima, edição em Português, 26 de Junho de 2000, p. 30).

29. Padre Joaquín Alonso, La Verdad sobre el Secreto de Fátima, (Centro Mariano, Madrid, Espanha, 1976), p. 73. In The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 704. Veja-se também The Fatima Crusader, nº 64, p. 121.


Capítulo 12

 

-Será o Terceiro Segredo
constituído por
dois textos distintos?

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